Uma janela sobre o mundo bíblico

A Sagrada Família teria conhecido a casa descoberta em Nazaré



Luiz da Rosa

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A Agência de Notícias ZENIT.org publicou no último domingo uma entrevista com o diretor da Associação Maria de Nazaré, Olivier Bonnassies. A Associação está construindo um centro internacional multimídia no local onde foi encontrada uma casa do tempo de Jesus, em Nazaré. A entrevista ajuda a entender o contexto deste descobrimento e por isso a publicamos no nosso site.

– O anúncio, feito por arqueólogos israelenses da Israel Antiquities Authority, sobre a descoberta de uma casa do tempo de Jesus em Nazaré difundiu-se por todo o mundo. Em que contexto isso ocorreu?
– Olivier Bonnassies:
A associação Maria de Nazaré que criamos na França em maio de 2001 está construindo nesse momento o Centro Internacional Maria de Nazaré, que irá em breve propor aos peregrinos, aos turistas e aos moradores da Terra Santa descobrir o mistério da Mãe de Deus e o conjunto da fé cristã a partir de recursos multimídia modernos.
Para isso adquirimos três prédios em frente à Basílica da Anunciação, no centro de Nazaré, e dois outros prédios da antiga escola São José, das Irmãs de São José da Aparição.
O pátio desta antiga escola foi escavado cerca de três metros para os trabalhos que estão sendo realizados, foi quando os trabalhadores encontraram paredes antigas. Então foi interrompido o trabalho e houve intervenção dos arqueólogos israelenses.

– Como são desenvolvidas as escavações?
– Oliver Bonnasseis:
São realizadas ao nosso cargo, sob a direção de Dror Barshod, diretor do Distrito Norte da Israel Antiquities Authority.
A responsável pelas escavações, Yardenna Alexandre, e sua equipe, começaram a escavar primeiramente um quadrado de cerca de 10 metros laterais em setembro de 2009.
Como os resultados foram muito interessantes, foi feito um segundo quadrado, entre novembro e dezembro de 2009.
Yardenna é uma grande especialista que trabalhou na maior parte das últimas obras da Galileia, suas conclusões foram aprovadas pelo Pe. Eugenio Aliata, que é o maior especialista franciscano, assim como o Pe. Frédéric Manns, do Studim Biblicum Franciscanum, que também supervisiona as coisas bem de perto.
Nesse momento, depois de pedir sua opinião, temos a intenção de prosseguir as investigações em outras partes do pátio de entrada da escola, para descobrir mais uma das paredes da casa, porém vamos esperar a estação de estiagem, para fazer as escavações em melhores condições. Assim será mais fácil encontrar moedas ou outras cerâmicas.

– O que foi descoberto nesse lugar?
– Oliver Bonnassies:
O mais interessante é ter encontrado um grande número de vasilhas de cerâmica que datam do período helenístico (entre os anos de 300 a.C. e 67 a.C.) e do período romano tardio (do ano 67 a.C. até o século primeiro depois de Cristo), assim como os restos das paredes de uma casa composta por vários cômodos e um pátio, que data também o período helenístico e o primeiro período romano tardio.
Também são muito interessantes os utensílios de cozinha de pedra encontrados, característicos das famílias judias piedosas, devido as regras dos rituais de purificação. (cf. Tratado Mishna Kelim).
Já havia grande número de elementos em Nazaré para provar a existência desse pequeno povoado judaico nos tempos de Cristo, mas até agora nunca foram descobertos os restos de uma casa. E está situada a apenas 100 metros do lugar da Anunciação!

– Esses descobrimentos se situam realmente em um lugar especial bem situado!
– Olivier Bonnassies:
Isso é algo que não importa de imediato, mas o futuro Centro Internacional Maria de Nazaré estará situado no centro de um pequeno quadrilátero de apenas 300 metros laterais que define, segundo a tradição, o coração do entorno da vida histórica da vida de Jesus e da Sagrada Família durante trinta anos em Nazaré, entre a casa de Maria, a oficina de José, a Sinagoga, e a tumba do Justo, também atribuída a José.

– Poderia descrever brevemente os lugares e os descobrimentos arqueológicos que foram realizados?
– Olivier Bonnassies:
O lugar mais importante de Nazaré é obviamente a gruta da Anunciação, escavada numa rocha, que é, segundo a grande tradição da Igreja, o lugar do anúncio do Anjo Gabriel à Virgem Maria.
Sobre esse lugar santo foi construída a Basílica da Anunciação, o coração de Nazaré e de seu mistério.
“O Anjo se aproximou dela”, diz o Evangelho. A casa de Maria se apoiava com três paredes sobre essa gruta, como muitas casas da Galileia, e como a casa que acaba de ser descoberta: as partes esculpidas na rocha, “construídas sobre a rocha”, diz o Evangelho, são sólidas, frescas no verão e quentes no inverno.
Também foi encontrada uma dezena de cisternas escavadas na rocha dentro desse perímetro, o que mostra a preocupação cotidiana para economizar e utilizar bem a água.
O nível do século I é visível desde o exterior da Basílica. O Pe. Bagatti, que dirigiu as escavações para os franciscanos nos anos 60, publicou duas obras sobre os descobrimentos de Nazaré.
Lá, foram encontrados algumas poucas cerâmicas do século I e muitas outras do século III. A edição deMonde de la Bible dedicado a Nazaré resume bem tudo isso.

– Quais são os outros elementos arqueológicos encontrados a cem metros de lá, abaixo da igreja de São José?
– Olivier Bonnassies:
Abaixo da igreja de São José foram encontrados espaços de banhos rituais difíceis de datar, mas certamente muito antigos.
Uma tradição oral atribui este lugar a São José, porque ali estaria a oficina de José. Isso pode parecer superficial, mas deve-se ter cuidado para não negligenciar as tradições.
Monsenhor Marcuzzo, bispo latino em Narazé que acompanha o projeto “Maria de Nazaré”, lembra que essas tradições são muito sérias e que nunca foram consideradas erradas pela arqueologia. Pelo contrário, os descobrimentos arqueológicos sempre as reforçam.

– Existem exemplos?
– Oliver Bonnassies:
Existe um muito bom, na mesma Nazaré, quando as Irmãs de Nazaré se instalaram aqui no século XIX, adquiriram um terreno conhecido localmente como a “Tumba do Justo”, mas nada poderia sugerir a verdade dessa tradição.
As Irmãs ainda acreditavam que haviam dito isso simplesmente para fazê-las pagar mais caro pelo terreno!
Enfim, uma década mais tarde, uma irmã que trabalhava a terra, viu que abaixo dela havia caído uma planta, descobrindo um buraco. Os pesquisadores, avisados, começaram a buscar e escavar.
Os descobrimentos locais que podem ser visitados atualmente (solicitando às Irmãs de Nazaré) são verdadeiramente impressionantes e são identificados por quatro níveis, com as casas, as cisternas, os mikvés (banhos rituais) e uma via romana em desuso, abaixo dela se encontra uma magnífica tumba principesca do século I, escavada na rocha e fechada com uma pedra que rola.
Estava certamente alí a “Tumba do Justo” e esta tumba poderia perfeitamente ser a tumba de José, o Justo (Mt 1,19), digna de um príncipe da casa real de Davi. Também foram encontradas cerâmicas do século I.

– Como pode ter certeza?
– Olivier Bonnassies:
Não há provas formais, mas o princípio do projeto “Maria de Nazaré” começou com uma oração para São José na Tumba do Justo, e foi imediatamente escutada! Essa Tumba é o terceiro lado do quadrilátero.

– E qual é o quarto?
– Oliver Bonassies:
A Sinagoga de Jesus, ao lado da Igreja Melquita. A construção que vemos hoje é do final do século XVIII, e hoje não há nenhuma escavação neste lugar, mas existe uma tradição.
Aqui Jesus rezava com frequência na Sinagoga; representava também um lugar muito importante para Ele, como sua casa, seu lugar de trabalho.
O Centro mariano que estamos construindo terá a graça de estar situado no meio desses quatro lugares de veneração da memória de Cristo e de sua Mãe, no coração do mistério de Nazaré.

– Então Jesus conheceu a casa que foi descoberta?
– Olivier Bonnassies:
Jesus passou aqui a maior parte de seus trinta primeiros anos de vida, como demonstra o Evangelho.
Não se pode imaginar nem por um instante que Ele não conhecesse perfeitamente esta casa. Jesus, Maria e José conheceram esta casa.

– Quais outras descobertas realizaram com estas escavações?
– Olivier Bonnassies:
Quando começamos os trabalhos do Centro mariano, avistamos uma cisterna escavada na rocha a cerca de 50 metros do pátio da escola. Encontramos outras duas, uma bem grande, inclusive, de sete metros de altura e quatro de largura.
Os arqueólogos israelenses encontraram outra, que ainda não veio totalmente à luz.
Também há um esconderijo escavado na rocha encontrado abaixo da pedra talhada e totalmente vazio. Nele cabem 5 ou seis pessoas.
Finalmente, além dos restos encontrados do período helenístico e romano, existe um muro do século XV, de menor interesse arqueológico, que poderia ser eliminado.

– Há outros lugares destacados em Nazaré no âmbito arqueológico?
– Olivier Bonnassies:
Além dos cinco lugares que comentamos, que estão próximos ao lugar santo da Anunciação, há outro lugar muito antigo: a Fonte de Nazaré, situada a 500 metros ao norte da casa de Maria.
Acredita-se que o antigo povoado se instalou entre estes dois lugares: da Fonte à Tumba do Justo, tendo em vista que as tumbas estavam no exterior dos povoados, por razões de pureza ritual.
A Fonte data, sem dúvidas, do tempo de Cristo: as escavações realizadas em 2000 neste lugar permitiram encontrar vestígios de uma via romana próxima.
Uma Igreja ortodoxa muito bonita se eleva sobre este lugar onde uma tradição evoca o primeiro encontro da Virgem com o anjo Gabriel, antes da Anunciação.

– Há mais alguma coisa?
– Olivier Bonnassies:
Sim, muitas coisas em Nazaré. As cerâmicas e moedas encontradas são árabes e muçulmanas, como o balneário de Jericó da época oméia, que imita as termas romanas de Bet Shéan, com os hipocaustos diferentes.
Podem-se datar entre o século VII e VIII, mas o tamanho das estufas de madeira confirma que estavam ali desde as origens e justo na época dos bosques grandes ao redor de Nazaré, para permitir o aquecimento constante de grandes quantidades de água. Estes bosques desapareceram na modernidade.
O clima no entorno mudou e a área se converteu em desértica e rochosa, mas é preciso mostrar Nazaré vista de outra maneira.

– Esta não é a ideia feita de Nazaré e da Terra Santa atualmente.
– Olivier Bonnassies:
Nós possuímos muitas ideias falsas. Por exemplo, no Evangelho, Nazaré sempre é chamada de cidade, do grego “Polis”, e não povoado, do grego “Komé”, o que já implica certo tamanho, entre 50 e 100 casas, segundo estimativas.
Outro exemplo, referente à topografia: se as colinas não tivessem muitas mudanças em sua forma geral, o caminho que margeia a Basílica da Anunciação foi até o século XVII um canal por onde corria um pequeno riacho.
Outra ideia que deve ser corrigida: todos os restos do século I encontrados tanto aqui como em Jerusalém demonstram a qualidade das construções, as pedras talhadas, os objetos, que marcam uma civilização estruturada, distante das caricaturas feitas por imagens e filmes, que mostram um povo de Jesus e de Maria vivendo como os primitivos na sujeira.

– Para quando é o projeto de Maria de Nazaré?
– Olivier Bonnassies:
O Centro Internacional Maria de Nazaré deveria abrir as portas no final de 2010. Mas a capela que está situada na parte superior, nos terraços, com uma espetacular vista da Basílica, será consagrada no dia 25 de março de 2010, pelo Patriarca Latino de Jerusalém, Dom Fouad Twal acompanhado de vários bispos da Terra Santa.
É um modo de continuar confiando tudo à Província de Deus, porque será necessário muito esforço e muito trabalho para concluir tudo.

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Site da Assossiação Maria de Nazaré
Leia a notícia do descobrimento em Nazaré

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