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A vida cristã em Damasco, na Síria, onde Paulo se converteu



Luiz da Rosa

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Ainda que o cristianismo em Damasco tenha suas raízes nos tempos anteriores a São Paulo, a pequena comunidade atual luta por sobreviver. Precisamente porque a Igreja é uma minoria em terra muçulmana, cada cristão sai da pauta cultural, explica o arcebispo católico Samir Nassar, de Damasco. O bispo, que cumpriu 60 anos em 5 de julho, serve a Igreja local desde 2006. Nesta entrevista, ele fala das dificuldades enfrentadas pela Igreja, mas também das razões para a esperança.

Damasco, onde o senhor é arcebispo, é uma cidade que está no coração do cristianismo, onde São Paulo perdeu a vista e a recuperou novamente. Poderia nos falar da situação atual dos cristãos em Damasco?
Dom Nassar: A Síria é um país cristão muito antigo. Nela, há 33 mil igrejas. A Síria era predominantemente cristã e ainda temos muitos lugares cristãos famosos. Temos muitas igrejas cristãs que ainda estão vivas. Os cristãos no país não são convidados; têm suas raízes e viveram ao lado dos muçulmanos desde o século VII.
O cristianismo, no entanto, estava profundamente enraizado na Síria antes do Islã. Sim, antes de São Paulo, porque São Paulo foi batizado e foi capaz recobrar a vista em Damasco, o que significa que o cristianismo existia aqui antes de São Paulo.

Como são os cristãos na Síria hoje?
Dom Nassar: Temos três tipos de igrejas. Em primeiro lugar, temos as igrejas monofisitas, que são as ortodoxas sírias e as ortodoxas armênias; têm seu patriarca, que mora em Damasco. Depois, temos a ortodoxa grega, a maior igreja da Síria; e finalmente, temos muitas igrejas católicas. Além disso, certamente, há algumas igrejas protestantes. Todas essas igrejas são muito antigas, exceto as protestantes, que chegaram durante o último século; as demais igrejas se remontam aos apóstolos. Eu pertenço à Igreja Maronita, que foi fundada no século V por São Maron, um monge que costumava morar em algum lugar entre Alepo e Antioquia. Nos primeiros mil anos, estivemos na Síria e, depois, mudamos para as montanhas libanesas; agora estamos em todos os lugares, na Austrália, na América. Mais da metade da população está fora do Oriente Médio.

Voltemos à Síria. Que porcentagem da população da Síria é cristã?
Dom Nassar: Oficialmente, somos cerca de 8%. Alguns dizem que não passamos de 5%. Somos uma minoria. Isso seria mais ou menos um milhão de pessoas, em uma população de 21 milhões.

Que outras tradições religiosas existem na Síria, além do cristianismo?
Dom Nassar: Temos o islã sunita – ou islã ortodoxo –, que representa quase 80%. Também existe o islã chamado alauíta, cerca de 10% [os alauítas são o grupo religioso minoritário mais importante da Síria e se consideram como uma seita do islã xiita. Os alauítas se distinguem da seita religiosa dos alevitas turcos, ainda que compartilhem uma origem comum, N. da R.]. Os demais são cristãos.

Como o senhor descreveria a relação atual entre cristãos e muçulmanos na Síria?
Dom Nassar: Vivemos juntos durante 1.400 anos. Algumas vezes, tivemos problemas, mas vivemos juntos. Compartilhamos e vivemos juntos e, no meu bispado em Damasco, tenho uma mesquita precisamente do lado do meu quarto, e por isso escuto suas orações e eles podem escutar a nossa oração também. Coexistimos no dia-a-dia.

O senhor tem um contato pessoal com os imames e os demais representantes?
Dom Nassar: Sim, claro, muitas vezes. Eles vêm até nós no Natal e na Páscoa, e nós os visitamos durante o Ashura, o Ramadã ou o Eid-ul-Fitr. Somos realmente uma família.

Como se preservou a tolerância com relação aos cristãos na Síria? Em todos os lugares ao redor, como no Iraque e em outros países, a relação entre muçulmanos e cristãos foi intensamente afetada...
Dom Nassar: A tolerância foi preservada devido ao governo, que cuida das minorias. Não deixam que surjam problemas entre muçulmanos e cristãos. O governo tem um papel muito importante nisso e teve êxito.

A Igreja na Síria enfrenta muitos desafios. O senhor poderia nos falar um pouco deles, já que se trata de uma minoria dentro de um ambiente de predomínio muçulmano?
Dom Nassar: Somos uma minoria muito pequena, entre 5% e 8%, e esse é o principal desafio; somos poucos em uma sociedade predominantemente muçulmana. Os muçulmanos não nos obrigam à conversão, mas se a família cristã vive, por exemplo, em um prédio com 12 famílias muçulmanas, os filhos brincam com seus filhos, vão à escola com seus filhos e, pouco a pouco, aprendem mais da fé muçulmana que da cristã. Estamos perdendo presença porque somos poucos em número e não temos bastante apoio local para permanecer juntos, reforçar nossa fé, ensinar nossos filhos e conservá-los em nossas igrejas locais.

Uma criança cristã frequenta uma escola local, que é de maioria muçulmana; lá, as crianças cristãs aprendem o Alcorão e o Islã. Elas se tornam muçulmanas?
Dom Nassar: Pouco a pouco, vão se familiarizando mais com o Alcorão e com Maomé que com Jesus Cristo. Nós lhe damos uma hora de catequese e, para isso, temos de enviar um ônibus ou um carro para trazer as crianças e depois levá-las de volta. Algumas vezes elas vêm, outras vezes não, e uma hora de catequese não é suficiente. Então, tentamos encontrar a forma de conservar a nossa Igreja viva nesta terra da Bíblia.

Se uma moça deseja se casar com um muçulmano, ela tem de se converter?
Dom Nassar: Sim, é um problema. E se um cristão quiser se casar com uma muçulmana, também tem de se converter. Esta é uma lei muito antiga e não pode ser mudada. Ninguém obriga esse homem a se casar com uma moça muçulmana, mas 95% das moças são muçulmanas, apenas 5% são cristãs; há mais opções do lado dos 95%, então, quando se casam, também perdemos nossa gente.

E quanto à questão da conversão? Há muçulmanos que vão às igrejas católicas maronitas, interessados em converter-se? Como o senhor responderia a este tema da conversão, sendo que no Islã a conversão é castigada com a morte?
Dom Nassar: Isso é fanatismo, mas muitos muçulmanos vêm à nossa igreja; aprendem o catecismo, acompanham nossos encontros, mas não podem ser batizados. Se quiserem, podem ser cristãos no seu coração, mas não podem mostrar isso.

Então são... cristãos escondidos?
Dom Nassar: Não podem mostrar, mas nós os recebemos de coração aberto e alguns vêm à Missa diariamente, aos estudos da Bíblia e à catequese, Vêm, mas para os de fora, eles têm de permanecer sendo muçulmanos.

Então, o senhor tem de ter muito cuidado; quando um jovem vem até o senhor e deseja se converter, como o senhor lida com a situação?
Dom Nassar: Posso recebê-lo, mas não posso batizá-lo, para não ter problemas com o governo... Mas é uma Igreja feliz. Não somos muitos, mas somos uma pequena Igreja muito ativa e dinâmica; temos uma vida ecumênica belíssima. Trabalhamos juntos. Em Damasco, somos 9 bispos: 5 ortodoxos e 4 católicos, e nos reunimos uma vez ao mês para compartilhar nosso trabalho pastoral, rezar juntos e organizar nosso trabalho. E tudo vai bem. Na Igreja, quando as pessoas vêm à Missa, não são somente católicos; alguns são ortodoxos e outros, cristãos. Minha gente também vai à Missa na igreja ortodoxa, e isso nos torna quase uma família.

O que seria do Oriente Médio sem a Síria? No sentido de que a Igreja Católica no Iraque está desaparecendo rapidamente e assim está ocorrendo em todo o Oriente Médio, exceto no Líbano, mas inclusive lá os jovens estão indo embora...
Dom Nassar: Se você olha para o Oriente Médio, tem a guerra entre a Turquia e o Curdistão, tem a guerra no Iraque, a guerra entre os palestinos e Israel, a guerra do Líbano; e a Síria é o único país pacífico na região. É por isso que todo mundo vem para a Síria, porque é o único lugar pacífico para viver, para trabalhar, para rezar e aprender; é uma cidade universitária. Sem a Síria, a maioria das pessoas abandonaria o Oriente Médio. Iriam embora, emigrariam.

O senhor tem esperança na Igreja?
Dom Nassar: Tenho que ter. Somos a Igreja da esperança. Não podemos ser pessimistas; esta é a nossa fé para nos convertermos em mártires. Vi alguns iraquianos cristãos que são felizes, apesar da perseguição. Jesus Cristo, depois de tudo, foi um refugiado, um mártir, e me dá a força na minha fé neste mundo; e é belíssimo demonstrar quão importante é para nós permanecer aqui.

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Esta entrevista foi realizada por Marie-Pauline Meyer para "Onde Deus Chora", um programa rádio-televisivo semanal produzido por Catholic Radio and Television Network (CRTN), em colaboração com a organização católica Ajuda à Igreja que Sofre. A Entrevista foi publicada pela Agência de Notícias ZENIT

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