Uma janela sobre o mundo bíblico

E a Bíblia e as mulheres. Misoginia?



  • Estudo
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  • 04/11/2018
Luiz da Rosa

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Existem muitas pessoas que não conseguem entender direito a Bíblia e a veem como um livro que promove a discriminação em relação às mulheres, acusando-a de machista. Essa leitura é marcada sobretudo a partir de alguns passos das cartas de Paulo, onde ele é acusado de misogenia.

Essa visão é presente também entre nossos leitores, que não sempre têm a capacidade de se deixarem levar pelo Espírito que transmite, através da Palavra de Deus, a mensagem divina que é profética em relação ao papel das mulheres.

A ocasião que me leva a escrever essas linhas é a recente publicação em francês de uma obra escrita por 21 teólogas que reinterpretam as passagens bíblicas mais contestadas, negando as alegações de submissão das mulheres. O título do livro é “Une bible des femmes” (uma Bíblia de mulheres), publicado por Labor et Fides. A publicação é coordenada por Pierrette Daviau, Elisabeth Parmentier e Lauriane Savoy.

Essas teólogas poderiam ter aproveitado a oportunidade para relançar a tese sobre misoginia bíblica. Mas não. Elas, relendo também o Antigo Testamento, concluem o oposto. É verdade, usa-se normalmente palavras masculinas para se referir a Deus (Pai, ​​Filho, Senhor, Criador, Todo-Poderoso, etc.), mas sublinha-se que o Espírito Criador em hebraico é feminino, Sabedoria Divina é sempre encarnada por mulheres e Deus é muitas vezes é comparado com uma mãe que dá à luz. As teólogas também observam "um relacionamento equilibrado" na criação divina entre Adão e Eva. Elas também não aceitam a versão daqueles que veem as mulheres bíblicas "submissas". Se algumas passagens bíblicas pedem que as mulheres fiquem em silêncio, no Antigo Testamento, encontramos muitos profetas e mensageiras de Deus. Por exemplo Debora (que também é uma juíza), também Olda, a quem o rei Josias consulta.

Ainda mais o Novo Testamento está cheio de mulheres que têm papéis fundamentais. Um acima de tudo, Maria de Nazaré, a mãe de Cristo através do qual, graças ao seu sim, a salvação começou. Ela é a rainha da Igreja, uma vez que se destaca em santidade sobre todas as criaturas. Precisa considerar também Maria Madalena, cuja fama de prostituta é completamente falsa e lendária. Os Evangelhos a apresentam como uma mulher rica e independente, provavelmente uma viúva, e, enquanto os homens fogem ou se escondem, ela testemunha a crucificação. É para ela que o Cristo ressuscitado aparece em primeiro lugar e ela é enviada para anunciar as boas novas aos discípulos. Uma figura central.

 

E Paulo?

E o que dizer das cartas de Paulo? Um misógino indomável, segundo alguns leitores da Primeira Carta a Timóteo, na qual o apóstolo escreve que "a mulher aprende em silêncio, em plena submissão"? E na Cartas aos Efésios, onde ele convida as mulheres a serem submissas aos seus maridos? vAs autoras explicam que Paulo está dizendo aos cristãos que eles devem lidar com a hostilidade popular na cidade grega de Éfeso, onde a lei do Império Romano sujeita as mulheres aos homens. Primeiro de tudo, elas escrevem, "a tradução mais precisa é ‘subordinada’ e não ‘submissas", além disso, lembram, o versículo anterior convida os casais a dar graças a Deus "submetendo-se uns aos outros em respeito a Cristo". Trata-se, portanto, de reciprocidade. Em segundo lugar, também lemos que "como a igreja está subordinada a Cristo, também as esposas devem ser subordinadas aos seus maridos em tudo". As esposas são, portanto, comparadas à Igreja e isso mostra que, nas intenções de Paulo, não havia de modo algum uma ideia pejorativa de "subordinação". "Esse versículo certamente não justifica a submissão", observam as autoras. A reciprocidade também é revelada na tarefa dada aos maridos: "Maridos, amem suas esposas, assim como Cristo amou a igreja e se entregou por ela. Da mesma forma, os maridos devem amar suas esposas e sua própria pessoa. Aquele que ama sua esposa ama a si mesmo ".

A tudo isso, obviamente, elas pedem para contextualizar historicamente e culturalmente os escritos bíblicos do Antigo e Novo Testamentos, em um ambiente em que a consideração da mulher era muito pobre.

Foi graças ao advento do cristianismo que se começou a reconsiderar o valor das mulheres. Embora pudéssemos desejar uma ação mais veemente, a tradição bíblica e cristã, sem sombra de dúvida, plantou as sementes da emancipação das mulheres. "Precisamos ver os textos bíblicos como um recurso na luta pela libertação da opressão patriarcal", disse Elisabeth Schussler Fiorenza.

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