Uma janela sobre o mundo bíblico

Qual é a origem e o significado de cânon. Quem e em que data definiu o cânon do Novo Testamento?



  • Pergunta de luiz carlos, formosa goias
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  • 26/11/2018
Luiz da Rosa

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O vocábulo “cânon” vem de uma palavra semita que significa “cana” (kaneh em hebraico) . Por ser longa, fina e reta, a cana pode ser usada para medir, como hoje usamos o metro; por isso, a palavra para cana veio a denotar uma vara de medida, depois, por extensão metafórica, uma regra, um padrão, uma norma. Com o tempo ela serviu tanto para ser uma medida quanto para representar padrão de alguma coisa, de uma norma de vida, por exemplo.

A relação dessa palavra com o contexto bíblico nasce no Sínodo de Laodiceia (360). A partir desse encontro, os livros da Bíblia são chamados canônicos por que a Igreja os reconhece como normativos para a fé e para a vida dos fiéis, sobre a base do seu conteúdo objetivo.

Em poucas palavras, quando se fala de "Cânon bíblico" se entende a lista dos livros que formam a Bíblia. Traduzindo, o cânon bíblico católico é formado por 73 livros, enquanto que o protestante consta de 66.

A escolha final dessa "lista de livros", para os católicos, aconteceu no Concílio de Trento, há pouco mais de 500 anos. Foi também nesse período que Lutero escolheu deixar fora os 6 livros ditos "deutero-canônicos", fundamentalmente por que não faziam parte do cânon da Bíblia Hebraica. De fato, os seis livros não constam na Bíblia usada pelos hebreus, cuja lista de livros foi definida por volta do ano 90 depois de Cristo, quando foram excluídos todos os livros escritos em grego e aceitados somente livros escritos em hebraico como livros inspirados. A igreja nascente, invés, usava também os livros escritos em grego.

 

Como surgiu o Novo Testamento

No início as palavras do Senhor e o relato de seus feitos eram repetidos e relatados oralmente, mas logo eles começaram a ser redigidos. Em sua obra missionária, os apóstolos tiveram a necessidade de escrever a certas comunidades. Pelo menos alguns desses escritos eram trocados entre as igrejas e logo ganharam a mesma autoridade dos escritos do AT. Contudo é compreensível que tenha decorrido algum tempo antes que a coleção desses escritos do tempo dos apóstolos tivesse tomado o seu lugar, com inquestionável autoridade, ao lado dos livros do AT, especialmente quando se considera que muitos eram escrito às igrejas individuais.

Os Evangelhos, mesmo não sendo os escritos mais antigos do NT, foram os primeiros a serem colocados em pé de igualdade com o AT e reconhecidos como canônicos. Por volta do ano 140, Pápias, bispo de Hierápolis, na Frígia, conhece Marcos e Mateus. Justino (c. de 150) cita os Evangelhos como autoridade. Hegésipo (c. de 180) fala da “Lei e Profetas e do Senhor”. Os mártires de Scilla, na Numídia (180) têm como escritos sagrados, “os livros e as epístolas de Paulo, homem justo”; somente o AT e os Evangelhos eram chamados de “Livros”, isto é, escrituras. Os escritos dos Padres Apostólicos fornecem certa prova de que desde as primeiras décadas do século II, as grandes igrejas possuíam um livro ou grupo de livros que eram comumente conhecidos como “Evangelho” e a que se fazia referência como a um documento que tinha autoridade e era universalmente conhecido.

É provável que já pelo fim do século I ou começo do século II, treze epístolas paulinas (excluindo Hebreus) fossem conhecidas na Grécia, Ásia Menor e Itália. Todos os manuscritos e textos das epístolas paulinas resultaram de uma coleção que se harmoniza com nosso Corpus paulinum. É verdade que as primitivas coleções mostraram variações na ordem das epístolas, mas o número de escritos permanecia o mesmo. Não há citação de Paulo que não seja tirada de uma das epístolas canônicas, embora seja certo que o Apóstolo escreveu outras cartas. Assim por volta do ano 125, havia dois grupos de escritos que possuíam a garantia apostólica e cuja autoridade era reconhecida por todas as comunidades que os possuíam.

Sobre os outros escritos temos poucos relatos na primeira metade do século II. Clemente conhecia Hebreus; Policarpo conhecia 1 Pedro e 1 João; Pápias conhecia 1 Pedro, 1 João e Apocalipse. Na segunda metade do século, Atos, Apocalipse e, pelo menos, 1 João e 1 Pedro eram considerados canônicos; eles tomaram o seu lugar ao lado dos evangelhos e das epístolas paulinas.

Podemos notar quatro fatores que influenciaram a formação do cânon do NT: 1) os muitos apócrifos que a Igreja rejeitou; 2) a heresia de Marcião, que tinha estabelecido o seu próprio cânon, o qual consistia de um Lucas corrigido e das epístolas de Paulo (excluindo as pastorais e Hebreus); 3) os heréticos montanistas, que reivindicavam revelações adicionais do Espírito Santo; 4) a grande abundância de escritos gnósticos;

As dificuldades sobre alguns escritos podem ser justificados por alguns motivos: o fato que alguns escritos do Novo Testamento eram em origem destinados às comunidades locais envolvidas em problemas particulares; as dificuldades de comunicação entre as comunidades; abusos da parte de correntes heterodoxas (o uso do Apocalipse pelos milenaristas); as incertezas sobre a conformidade com o pensamento apostólico de alguns escritos (por exemplo, a carta de Judas que cita o livro apócrifo de Enoch).

Admite-se geralmente que no começo do século III o cânon do NT incluía a maioria, se não todos, dos livros canônicos. A lista mais antiga que possuímos é aquela do fragmento muratoriano, documento descoberto na Biblioteca Ambrosiana, em Milão, em 1740; ela registra os livros que foram aceitos em Roma por volta do ano 200. Não se faz nenhuma menção a Hebreus, 1 e 2 Pedro, 3 João e Tiago. Os papiros de Chestes Beatty, primeira metade do século III, contêm todos os escritos do NT, exceto as Epístolas Católicas. Pode ser notado que Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João e Judas não foram aceitos imediatamente no Ocidente, enquanto Hebreus e Apocalipse encontraram a mesma oposição no Oriente.

Na segunda metade do século IV Cirilo de Jerusalém, o Concílio de Laodicéia e Gregório nazianzeno comprovaram a existência de todo o cânon, menos o Apocalipse; enquanto Basílio, Gregório de Nissa e Epifânio incluíam o último também. Atanásio, em 367, enumera todos os 27 livros e pode ser dito que, desde aquele tempo, o cânon estava fixado. A canonicidade do Apocalipse, embora discutida por alguns teólogos nos séculos V e VI, foi finalmente aceita sem ulteriores questionamentos, em parte sob a influência do Ocidente, onde nunca houve qualquer dúvida com respeito a ela.

A origem apostólica de Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João e Apostólica foi questionada até Erasmo (1536). Hoje, quase todos os exegetas concordam que Hebreus e 2 Pedro não foram escritas pelos apóstolos e que o autor de Tiago não é o apóstolo do mesmo nome, ao passo que a autenticidade de João, Apocalipse e algumas das epístolas paulinas é amplamente questionada.

O Magistério tomará uma posição sobre o cânon, tanto do NT quanto do AT, no concílio de Florença (1441), fornecendo o elenco dos livros bíblicos segundo o cânon longo. A lista dos livros ficará definitivamente fechada no concílio de Trento (1546) que confirmará as decisões tomandas em Florença, um século antes.

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