Uma janela sobre o mundo bíblico

O que dizer sobre o livro de Henoc, o etíope? Por que não está na Bíblia?



  • Pergunta de Eliseu Gomez de Andrade, Feira de Santana
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  • 26/01/2019
Luiz da Rosa

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Como disse em outra oportunidade, o livro de Enoch nunca fez parte das listas reconhecidas por judeus ou cristãos e a razão dessa não inclusão no elenco dos livros bíblicos é devida ao fato que não foi considerado inspirado por Deus. Apesar disso, é uma literatura muito importante, tanto que é inclusive citada no Novo Testamento, pela Carta de Judas, e temas centrais da Bíblia se fazem presentes no seu texto, principalmente o tema do Filho do Homem e do Juízo. É provável que foi escrito, em relação aos livros do Antigo Testamento, em época muito tardia, de maneira que não conquistou o status de "canônico".

 

Quem é Enoch

Enoch (também Enoque ou Henoc) é um nome ligado a história dos patriarcas antes do dilúvio: foi pai de Matusalém e bisavô de Noé. É um personagem bastante misterioso, pois Gênesis 5,24 diz: “Henoc andou com Deus, depois desapareceu, pois Deus o arrebatou”. A ele é dada a mesma característica que a Noé (“andar com Deus” – Gênesis 6,9) e o seu arrebatamento o equipara a Elias (2Reis 2,11s). Essas suas peculiaridades fizeram dele uma figura muito importante da tradição judaica, que sublinhou principalmente a sua piedade: Henoc agradou ao Senhor e foi arrebatado, exemplo de conversão para as gerações (Eclesiástico 44,16).

 

Livros apócrifos

Essa sua fama fez com que a ele fossem atribuídas obras literárias escritas pouco antes de Cristo, que se caracterizam por aspectos típicos da literatura apocalíptica. Estamos falando dos três livros apócrifos de Enoch que se tornaram muito populares e estão presentes inclusive em Qumrãn e um texto desses livros é citado na Carta de Judas, versículos 14-15.

Os textos são atribuídos ao patriarca, mas obviamente não são de sua autoria, pois datam do primeiro século antes de Cristo, enquanto Enoch, com se pode também ler na Carta de Judas, é “o sétimo dos patriarcas a contar de Adão”, tenho vivido muitos séculos antes que os livros fossem escritos.

Atribuídos a ele são três obras distintas: 1 Enoch (Enoch Etíope), 2 Enoch (Enoch Eslavo ou Apocalipse de Enoch ou ainda Segredos de Enoch) e 3 Enoch (Apocalipse hebraica de Enoch).

Provavelmente o livro mais famoso é aquele que você menciona, dito Enoch Etíope.

 

Enoch Etíope

Esse apócrifo recebe tal nome (o livro e não o personagem) porque hoje conhecemos o texto graças a um manuscrito em língua etíope, que chegou até nós. Também em Qumrãn foi encontrado, mas é uma versão menor. Coloco aqui abaixo uma síntese desse livro e dessa maneira é possível julgar a importância e o rumor que tal escrito pode fazer entre as pessoas com os mais diversos interesses. Ele tem 108 capítulos e normalmente é dividido em 5 seções e a conclusão.

 

A. Livro dos Vigilantes (1 – 36)

Enoch descreve a harmonia do cosmos atual: estrelas, estações, árvores, rios. Maldição de Deus para os ímpios que perturbam tal harmonia.

Quem perturba essa harmonia são anjos, ditos “vigilantes”: 200 anjos, filhos do céu, decidem unir-se com as filhas dos homens (ver Gênesis 6,1-4). Eles descem ao Monte Hermom. Os Anjos se unem a mulheres que geram gigantes, que perturbam a harmonia do homem e da criação. Azazel e outros anjos ensinam aos homens a metalurgia e outros conhecimentos (feitiços, astrologia). Corrupção masculina causada por gigantes.

Miguel, Gabriel, Rafael e Uriel, vendo a situação na terra, falam com Deus. Uriel é encarregado por Deus de anunciar o dilúvio e Rafael é de amarrar Azazel até o dia do Juízo e a Miguel de amarrar Semeyaza, por 70 gerações, até o Juízo.

Enoch vai à Terra onde anuncia a Azazel a condenação divina. Ele vê, graças a Uriel, onde estão os anjos caídos, que perturbaram a harmonia, embaixo da terra, condenados a estar ali até o juízo final. Em uma segunda viagem, Enoch vê uma terra dominada pelo fogo, também prisão dos anjos vigilantes. Seguem um total de 12 viagens de Enoch, explorando diferentes locais, acompanhado por anjos.

 

B. Livro das Parábolas de Enoch (capítulos 37 -71)

Aqui também prevalece o juízo final, mas a serem condenados não serão mais os anjos que perturbaram a harmonia, mas sim os ímpios da terra. São três parábolas.

Na primeira se fala sobre o juízo futuro, que será de punição para os ímpios e prêmio para os justos, que se unirão aos anjos.

A segunda parábola é o juízo final, o dia do juízo, que se conclui com uma nova terra somente para os justos eleitos.

A terceira parábola mostra a paz e a bênção reservadas para os justos

 

C. Livro da astronomia (72 -82)

Narra sobre noções astronômicas e também sobre um calendário, que coincidem com aqueles usados pela comunidade dos essênios de Qumrãn.

Alguns temas tratados: o sol, a lua, o ano lunar, o céu, os 12 ventos, 7 montanhas – 7 rios – 7 ilhas.

A Enoch é mostrado as perturbações da harmonia cósmica causadas pelas ações dos pecadores.

 

D. Livro dos sonhos (83 -90)

São descritos dois sonhos. No primeiro Enoch conta a Matusalém a visão da terra coberta pela água e a grande destruição que é consequência. No segundo sonho se percorre, de maneira alegorica, a história da humanidade, em que os atores são representados como animais simbólicos.

 

E. Carta de Enoque e Revelação das semanas (91 -105)

Os capítulos 91 a 104 dividem a história em dez "semanas", interpretando o passado e projectando-se escatologicamente no futuro. Por exemplo: oitava semana, justiça sobre os pecadores; nona semana, justiça sobre toda a terra; décima semana, juízo sobre os anjos vigilantes. Novo céu sem mais pecado.

No final se exalta a justiça, com imprecações aos pecadores e ricos, chegando à autodestruição dos ímpios, a ressurreição dos justos e a submissão das criaturas a Deus, com a união do Senhor e seu filho, o Messias, com os justos.

 

Conclusão (106 – 108)

Enoch conta o nascimento de Noé, o anúncio do dilúvio universal para eliminar o pecado. Conclui-se com o louvor à justiça e ao juízo divino.

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