Uma janela sobre o mundo bíblico

Hoje com o avanço da ciência, mesmo leigos conseguimos entender a evolução das espécies, mas ainda continua o mistério da criação... Os textos bíblicos esclarecem a nossa missão após o nascimento. Por isso, gostaria de conhecer melhor a explicação da igreja com relação ao livro Gen 2, 18,19,20 (principalmente, 21 e 22),23 e 24... Não se trata de questionamento, mas sim para um melhor entendimento teológico sobre a matéria



  • Pergunta de Luiz Carlos, Niteroi
  • 4253
  • 23/10/2006
Ombretta Pisano

Leia mais sobre Criação | Gênesis


A questão complexa que nos põe o nosso leitor não nos permite de ser tanto breves como o espaço na WEB requer. Peço desculpas, mas mi comprometo a ser mais sintética possível.
O nosso leitor acena a um problema de suma importância, com o qual deve confrontar-se todo aquele que se aproxima seriamente ao texto bíblico: como conciliar os nossos conhecimentos científicos atuais, por exemplo quanto à origem do universo (o ‘big bang’) ou da vida e dos seres viventes (a evolução) com as narrações da criação que – contados no livro do Gênesis – o fiel considera como Palavra de Deus que não ingana? Temos que inevitavelmente escolher entre ciência e fé, declarando-as inconciliáveis? Ou é possível crer nas respostas que a ciência dá e continuar a crer em Deus Criador e a sua Palavra? Trata-se de uma pergunta que, embora hoje apareça óbvia (mas verdadeiramente o é para todos?), é relativamente recente.

O confronto entre ciência e a questão da verdade da Bíblia vem à tona quando o italiano Galileu Galilei, no início de 1600, retomando algumas teorias que já elaboradas por Copêrnico entre 1400 e 1500, afirmou que a terra roda em volta do sol e não o contrário. Ele, processado pelo tribunal da inquisição, foi acusado de desacreditar a Bíblia, na qual se afirma que é o sol que se move (em Josué 10,12-14 Josué comanda ao sol de parar). Galileu, chamado a pedir desculpas, antecipou aquilo que o Papa Leão XIII afirmou depois, em 1893, na encíclica Provvidentissimus Deus, ou seja, que o Espírito Santo nos textos bíblicos não quis ensinar se o céu se movimenta ou está parado, ou que forma tem, mas tudo aquilo que é importante para a nossas salvação, “como se vai ao céu, não como vai o céu”. Galileu, portanto, afirmava que a ciência e a Bíblia olham a mesma realidade de perspectivas diferentes que, invés de lutarem entre si, completam-se para dar a todos nós as respostas que preenchem nossas exigências de conhecimento da ordem físico-material, de uma parte, e da ordem espiritual, da outra.

Uma outra coisa a ter presente quando se lê a Bíblia é o contexto temporal no qual nasceu o texto. O homem da Bíblia olhava a realidade que o circundava, observava os seus fenômenos; viam o sol aparecer no levante, percorrer todo o céu, e pôr-se no ponente, e isso o levava a pensar que fosse o sol a se movimentar. Assim, no momento em que a Palavra divina foi dada ao homem, também ela tinha que dizer que é o sol que se move para nos fazer entender. É o mistério da palavra escrita, isto é, da Palavra de Deus que se faz “carne”, que se faz pequena para ser compreendida pelos homens e mulheres e que dessa forma se veste com as imagens, a linguagem e os sons que as criaturas possam entender. É claro, isto faz com que ela seja limitada, pois assume as categorias limitadas das diversas épocas históricas e assume o risco de ser mal compreendida ou, não sendo mais atualizada, de não ser mais entendida (aqui se coloca a tarefa fundamental da exêgese, das ciências que têm a ver com a leitura e compreensão dos textos antigos e da leitura atualizada da comunidade que crê). Tendo compreendido isso, que é um critério de leitura para toda a Bíblia, podemos compreender melhor também aquela narração tão distante que nos conta a criação.

Estamos nos capítulos 1 – 11 do Gênesis, capítulos nos quias os autores sagrados buscam explicar por que a realidade é assim como é: por que existe o mundo, por que as criaturas, por que a atração entre os sexos, por que a morte, a dor, o mal... Este modo de contar uma história para explicar a realidade atual se chama etiologia, isto é, discurso das causas. Dessa forma se cria uma estória (um mito) que tira fora da realidade tudo aquilo que pode ser arquétipo, que está no fundo e na origem de tudo, que é comum a todas as experiências dos seres humanos de todo lugar e época. Assim esses capítulos contam simplesmente e com imagens muito bem conhecidas e familiares, as origens do céu e da terra, dos elementos, das criaturas e dos aspectos exemplares das suas vidas (nascimento, morte, atração física, amor...), imagens freqüentes nos mitos e contos já existentes nas culturas egipcianas e, sobretudo babilonês, como o poema de Enuma Elish e a epopéia de Gilgamesh. Mas sobretudo querem relevar que à origem de tudo – não importando como é feito – está Deus com a sua vontade de criar: ‘no princípio Deus...’.

Nos aproximamos ainda mais ao ponto específico da pergunta. Os capítulos 1 – 3 do Gênesis apresentam uma particularidade ulterior. Parece que contam em modo diferente a mesma coisa, sobretudo as origens do ser humano. Temos, de fato, duas narrações da criação do homem, histórias que foram compostas por mãos diferentes e em épocas diferentes. Em Gn 1,27 uma única frase, concisa, evoca a criação do homem e da mulher, a qual segue o mandado que Deus confia a eles. Em 2,18-24 uma outra história, mais articulada, torna mais concreto o acontecimento: é uma história circuntanciada, rica de particulares na qual junto com o homem e a mulher também Deus parece vestir-se de ‘carne’, ou seja se torna concreto, torna-se ele também quase ‘ser humano’: fala e conversa em primeira pessoa, dá forma à argila, é cirurgião, cortando e carne e custurando-a, cria a mulher e faz com que encontre o homem...

Chegando no centro da questão nos perguntamos: como tudo o que dizemos até agora nos ajuda a compreender o texto da criação da mulher (é essencialmente esta a pergunta que é latente), um texto cujo as mais diversas interpretações no curso da história originaram teorias e práticas variadas e muitas vezes aberrantes em referência à mulher?

No uso da faculdade de observar a realidade em que vive, o autor sagrado percebe na mulher uma creatura que tem a mesma origem, Deus. Porém, diferente das outras criaturas, é também simile ao homem, visto que pode comprende-lo, é sua interlecutora. Ao mesmo tempo é diferente, pois ele a vê como ‘qualquer coisa que lhe falta’ e sobretudo é um mistério.

Na primeira referência à criação da humanidade, em Gn 1,27 se diz: ‘Deus criou adam’ (do versículo 7 sabemos que tal nome vem de adamah, terra, argila, solo do qual foi tirado). Adam é um ser plural, por que ‘homem e mulher os criou’. Poderíamos substituir o nome ‘adam’ com ‘humanidade’. Na segunda narração da criação, aquele de Gn 2,18ss, Deus cria outras criaturas da adamah (os animais), mas entre estes não se encontra nenhum que seja verdadeiramente símile a adam, em modo de servir-lhe de ajuda. Que estranho. Isto nos revela diversas coisas importantes. A criatura que será reconhecida como ‘mulher’ (em hebraico ishah) não é tirada do solo e criada do início, da terra, mas na realidade já existe dentro de adam, e, portanto, é como ele, a imagem e semelhança de Deus que a extrai do homem e a conduz a ele. No momento em que adam a vê e a reconhece como um outro si mesmo, pronuncia as primeiras palavras. Trata-se de palavras importantes, com as quais manifesta que quando encontra a mulher (e a chama ‘mulher’ – ishah) descobre o que ele mesmo é (‘homem’ – ish). A humanidade agora se revela a si mesmo como distinta e caracterizada sexualmente por vontade de Deus.

Diante de tudo isso o autor sagrado percebe um grande mistério. O homem é totalmente incapaz de conhecer como tudo possa acontecer. Para exprimir esse ‘salto’ da inconsciência à consciência de si no encontro com a mulher, descrive o intervento criativo de Deus como realizado em um momento de ‘sono profundo’ que fez cair sobre adam, isto é, de profunda inconsciência (em hebraico o termo é tardemah). A imagem do costado não deve conduzir a pensar a uma inferioridade da mulher, mas, ao contrário, a sua igualdade e complementariedade com o homem, uma igualdade já afirmada na primeira narração da criação, em Gn 1,28-30, onde Deus confia a ambos, homem e mulher, a mesma missão, a mesma tarefa, que em segunda cada um realizará com seu modo específico.

A situação de ‘submissão’ da mulher, assim como a atração verso o homem que a domina, aparece apenas depois do pecado. O autor sagrado vê tal condição de submissão como uma das funestas conseqüências do pecado. A narraçaõ da queda, que segue, serve para explicar a origem de tal situação que acontece todo dia na vida dos homens e mulheres. Uma situação que, porém, à luz desses textos, não deve ser considerada como existente desde sempre, desejada por Deus. Ao contrário. Na era messiânica serão restabelecidas as condições ideais da origem. Vejamos, nos evangelhos, como Jesus trata as mulheres restituendo a elas a dignidade obscurada pelo decado; e, falando do matrimônio e do repúdio em Mateus 19,8-9, prospecta, à nova humanidade dos que crêem nele, a condição da harmonia indissolúvel das origens (‘no princípio não foi assim...’). E São Paulo, em Gálatas 3,28, chega a afirmar que em Cristo ‘não tem mais homem nem mulher, pois todos são uma única coisa em Cristo’. Um ‘matrimônio’ com Cristo que une homens e mulheres na mesma tarefa e no mesmo destino: regressar no jardim de Deus.

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