Uma janela sobre o mundo bíblico

O desafiante exercício do poder em nossos dias e nas primeiras comunidades cristãs



  • Estudo
  • 2598
  • 11/03/2005
Jacir de Freitas

Artigo já publicado na página web de Fr. Jacir

Falar de poder não parece ser novidade para ninguém. Todos nós exercemos um tipo de poder. Tendo em vista a importância desse tema, propomos fazer uma reflexão bíblico-teológica sobre o poder. Vamos primeiramente definir os conceitos de poder e a autoridade. Algumas perguntas nortearam as nossas reflexões, tais como: Que tipo de poder eu tenho idealizado na minha cabeça? Como fazer uso do poder a partir de uma ética cristã? O que fazer para que o povo exerça o seu poder? Pode o religioso (a) e o padre assumir o poder político institucional?


1- Para início de conversa

Vivemos em nossos dias uma crise de poder nos campos político e religioso. O poder que parece nunca entrar em crise é o econômico. Ele se arranja. Sai o capitalismo e entra o neoliberalismo. Por outro lado, assistimos na virada do milênio, o que parece normal na história da humanidade, uma volta ao religioso. Uns se apegam ao mais variados “discursos” de lideranças religiosas. Esses pensam ter encontrado o caminho da “salvação”. Merece atenção especial, no entanto, o fato que de muitos religiosos (as) e padres assumirem nas eleições municipais, estudais e federal a disputa pelos poderes executivo e legislativo. Fala-se em duas centenas deles no Brasil. E alguns obtiveram êxitos. Só em Minas Gerais sete deles foram eleitos. Ex-padres e religiosos já estavam nesse campo. A novidade reside no fato que muitos religiosos em exercício do ministério resolveram entrar na disputa, muitos deles com licença do superior eclesiástico e outros, a revelia desses. E os eleitos querem continuar exercendo o ministério sacerdotal. Os pentecostais já tinham entrado nesse campo há mais tempo. Na Igreja católica a disputa pelo poder político foi sempre foi mais complexo. O poder religioso quis sempre estar separado do profano. Será que, de fato, a Igreja católica conseguiu realizar esse propósito?

Diante desse quadro urge-nos refletir sobre o poder, sobretudo sobre aquele legado a nós por Jesus. Antes, porém, vejamos a definição de poder:
a) Poder coisa: é o poder exercido pelas pessoas que estão nos cargos políticos dos estados. Pessoas e aparelhos de estados são vistos como coisas. Corre-se o risco de conferir um poder demasiado às pessoas e ao estado, os quais se tornam absolutos, ditadores.
b) Poder relação social: é o poder exercido pelos grupos e comunidades da sociedade civil e religiosa. Comunhão, participação, democracia é o que caracteriza esse tipo de poder.
c) Autoridade: em grego, exousia e em Latim, auctoritas, autoridade originariamente quer dizer “capacidade de cultivar um terreno e faze-lo render. Metaforicamente, autoridade passou a significar “capacidade de fazer o outro crescer a partir de dentro, assim como faz o lavrador com a terra”. Assim, autoridade é sempre um serviço. Uma ação voltada para o outro. Quando o outro cresce, é sinal que estou exercendo bem a autoridade a mm concedida.

2 – O poder como relação social no Segundo Testamento

O Segundo Testamento nos fornece muitos elementos para entender o poder como relação social. As epístolas e os Atos dos Apóstolos procuram colocar em prática o poder-serviço vivido e ensinado por Jesus. Basta ver os seguintes exemplos: Fil 2,3-4: “Nada façais com espírito de vanglória, mas, com humildade, considerai os outros superiores a vós mesmos, sem olhar cada um seus próprios interesses, mas os dos outros”; Gal 5,13: “Servi-vos uns aos outros pela caridade”; 1Tes 5,12: “Tendes para com os superiores um amor especial, por causa do seu trabalho”. A experiência das comunidades nas Epístolas é decorrente dos ensinamentos de Jesus sobre o poder-serviço, narrado pelos Evangelhos.

2. 1 - O poder-serviço de Jesus exercido com autoridade
Jesus é um mestre que ensina, que tem poder. Preparando-se para a vida pública, ele passou longos anos, como bom judeu, estudando para ser um rabino. Daí o motivo pelo qual o Segundo Testamento não se preocupa em contar a história de Jesus entre 12 e 30 anos. No judaísmo, o mestre espiritual tinha mais poder que o carnal, pois esse educava para a vida em Deus e o outro somente conferia a vida genética. E o discípulo devia superar o mestre. Não é bom mestre quem não aceitava essa condição natural.
Para Jesus o poder do império romano, bem o poder religioso do judaísmo estava perdido. Esse devia passar por uma conversão, isto é, de poder-dominação para um poder-serviço. As comunidades de Lucas, Marcos e Mateus entenderam isso quando narram o episódio da discussão entre Jesus e os discípulos sobre quem seria o maior. A resposta dada por Jesus tece crítica aos que detém o poder e convidado os discípulos a agirem de modo diferente. “Os reis das nações as dominam, e os que as tiranizam são chamados de Benfeitores. Quanto a vós, não deverá ser assim; pelo contrário, o maior dentre vós torne-se como o mais jovem, e o que governa como aquele que serve” (Lc 22, 25-26). Nessa mesma linha de reflexão, Jesus antes teria dado o exemplo de uma criança como símbolo de poder-serviço. Assim, servo, escravo e criança formam o modelo do poder-serviço. Todas essas categorias eram socialmente discriminadas. O poder-serviço só é possível se houver uma interação nas relações. Uns devem obedecer aos outros. Somos convocados a ser constantemente uns para os outros. É dessa relação que nasce a concepção de poder como serviço.

2.2 – O poder nas comunidades de Jerusalém segundo Atos dos Apóstolos
A história das comunidades de Jerusalém narrada no livro dos Atos dos Apóstolos é um bom exemplo para entender o modo como os primeiros viveram a experiência do poder como relação social. A busca constante da vida comunitária conferiu `as primeiras comunidades dos cristãos os fundamentos de uma relação de poder do tipo serviço ensinado por Jesus. Na verdade, chegar a isso não foi fácil. Uns, ou melhor, umas foram excluídas desse processo. Para compreender o que estamos querendo elucidar, necessitamos analisar o que At 1, 12—5,42 fala das personagens e o modo como vivia a comunidade de Jerusalém.

2.2.1 – As personagens
a) Pedro e João são considerados lideranças apostólicas que têm a primazia sobre os demais. Percebemos aí como toda comunidade sempre busca alguém que exerça nela o poder de direção. No exemplo citado, a escolha das lideranças parece ser natural.

b) A sucessão apostólica de Judas (At 1,15-26) deixa em aberto uma questão: o que motivou Pedro a propor a substituição de Judas? Jesus não teria pedido para fazer isso? Foi numa assembléia de homens e mulheres (120 pessoas) que Pedro propôs que o substituto teria que ser varão e um dos discípulos que estiveram com Jesus desde o batismo de João até os dias da ascensão. Essa atitude de Pedro excluiu as mulheres e os irmãos de Jesus. O que teria levado Pedro a tomar essa posição? Sabemos que as mulheres também foram discípulas da primeira hora. Foi Maria Madalena quem recebeu por primeiro o anúncio da ressurreição. Pedro restringe o apostolado ao grupo seleto dos doze, o que aponta para a tentativa de institucionalizar o cristianismo emergente nas mãos de homens. O modo como o sucessor de Judas foi escolhido expressa o pensamento de um grupo da comunidade, segundo o qual, mulher ou recém-chagado na comunidade não podia exercer um cargo de direção nas comunidades.

c) Barnabé é o exemplo positivo de discípulo. Sendo levita originário de Chipre, ele vendeu o campo que possuía e entregou o dinheiro para os apóstolos (At 1,36-37). Barnabé acredita no projeto da comunidade de Jerusalém. Ele confia na liderança dos apóstolos. Por outro lado, a sua atitude não faz dele nenhum herói. Esse relato é sinal que muitos outros barnabés também agiam assim.

d) Ananias e Safira são os exemplos negativos. Eles não têm total confiança na comunidade, vendem um campo e retém uma parte do dinheiro (At 5, 1—11). Esse episódio parece ser uma releitura de Josué 7, no qual é relatado o caso de Acã que se apoderou de um despojo de guerra, isto é, dos bens dos vencidos, causando desgraça para Israel. Acã confessou o seu ato a Josué, foi apedrejado e morto junto com os seus familiares no vale de Açor. Também Ananias e Safira morrem depois da descoberta da fraude tramada. Interessante é que o texto insiste em falar dos pés à porta dos que tinham acabado de sepultar Ananias (5,9). Safira caiu aos pés de Pedro e morreu. Simbolicamente o texto quer falar dos pés que não caminham no projeto da comunidade e que são punidos. Pedro representa uma comunidade cristã de Jerusalém. Josué, no texto acima citado, representava Israel do Primeiro Testamento. Israel do Primeiro Testamento matava aqueles que não aceitavam o seu projeto. Nas comunidades cristãs do Segundo Testamento, aqueles que não aceitavam o projeto de Jesus também morrem, porque abraçam um projeto de morte. Ter os pés firmes em Jesus, significa acreditar na comunidade. Colocar o seu poder econômico em função do poder-serviço que a comunidade religiosa exerce sobre a sociedade civil.

e) A cura do aleijado (At 3,1-10) mostra que a comunidade precisa levantar-se e pôr-se a caminho. Ela tem os pés curados e com isso tem o poder de “curar” como Jesus. Ela deve ser tomada pela mão direita. A comunidade precisa firmar os pés e calcanhares no projeto de Jesus, agora impulsionado pelo Espírito Santo.

f) Gamaliel, um fariseu e respeitado doutor da Lei, entra em cena para amenizar a relação conflituosa dos apóstolos com as autoridades locais (At 5,34-39). A ação de Gamaliel possibilita a evangelização em Jerusalém. A sua fala legitima a obra dos apóstolos vem de Deus. O poder dado a ela vem de Deus. Caso contrário morreria por si mesma.
2.2.2 - O modo de relacionar-se
Vários pontos traçam o rosto da comunidade de Jerusalém, os quais demonstram como ela vivia a relação de poder.
a) É judaica de origem e, por isso, fiel observante da Torá (lei, conduta, caminho, modo de vida baseada nos dez Palavras). O poder que judaísmo exerce sobre as pessoas é visível na comunidade de Jerusalém. Ser judeu-cristã é uma marca registrada da comunidade de Jerusalém. E ela parece não querer, num primeiro momento, eliminar esse traço do seu perfil.

b) Celebra a Eucaristia como memória do martírio redentor e profético de Jesus (At 2,42.46). Na fração do pão (eucaristia) celebrada nas casas, a comunidade mantém-se unida. O poder-serviço de Jesus é passado para a comunidade toda vez que ela celebra a sua memória.

c) Partilha os bens (At 2,44-45). Partilhar é uma atitude econômica. É expressão de uma espiritualidade comprometida com a justiça. O objetivo dessa ação é que não haja necessitados entre eles (4,34). Cumprir a Torá é fazer justiça. Toda pobreza é sinal de injustiça e não cumprimento da Torá (Dt 15,11). Amar a Deus com todo a sua força significa colocar os bens a serviço da comunidade (Dt 6, 4-9). O poder-serviço da comunidade de Jerusalém dever ser colocado a serviço da justiça social. Enquanto houver pobres é sinal de que o poder não está sendo bem exercido.

d) Está em conflito com as autoridades locais. Um exemplo disso ocorre quando Pedro fala ao povo de Jerusalém depois da cura de um aleijado (At 3,11—4,22). Os sacerdotes, o oficial do Templo e os saduceus prenderam Pedro e João. Esses foram interrogados no dia seguinte e depois libertados. O conflito ocorreu porque as autoridades não aceitavam que alguém falasse sobre outras doutrinas para o povo e tampouco que a esperança do povo se reacendesse em Jesus. As autoridades locais sentiam que o tipo de poder que elas exerciam estava ameaçado. O conflito com as autoridades locais, presente na comunidade de Jerusalém, ainda permanece no meio de nós. As autoridades religiosas de Jerusalém procuraram impedir o livre exercício do pensar teológico. Pedro soube captar o que estava dentro do coração. O conflito com as autoridades era inevitável.

e) Centrada e unida em torno aos doze apóstolos (At 4,23-31), a comunidade de Jerusalém permanece firme no ensinamento dos apóstolos (At 2,42) e não mais no sacrifício do Templo, nos ensinamentos do Templo e do Imperador Romano, mas no ensinamento dos apóstolos. A tradição apostólica dá o fundamento para a comunidade, confere-lhe poder. Os apóstolos sentem a necessidade de contar os fatos ocorridos para a comunidade, o que gera uma constante partilha de idéias e fatos. Todos rezam juntos, interpretam a Palavra de Deus, vivem a mesma experiência do Espírito e comprometem-se em continuar com coragem a pregação da Palavra de Deus. Pena que essa centralidade no cristianismo apostólico institucionalizou o pensamento de Jesus e acabou, décadas mais tarde, eliminando os outros modos de interpretar e viver Jesus.

f) Vive a ambigüidade. Nem tudo são flores nas comunidades de Jerusalém. Ananias e Safira são exemplos de pessoas que não acreditam por inteiro na comunidade. Os vários grupos presentes na comunidade são sinais da diversidade de pensamento no interior da comunidade.

g) Opera prodígios e milagres. A cura de um aleijado (At 3,1-10) mostra como a comunidade de Jerusalém repetia o gesto libertador de Jesus. Pedro cura porque é discípulo fiel de Jesus. A libertação miraculosa dos apóstolos (At 5,17-21) é sinal de que Deus estava com eles.
Nessas características encontramos o rosto, às vezes, idealizado da comunidade de Jerusalém. Esse modo de viver a fé na comunidade de Jerusalém foi o jeito que os primeiros cristãos encontraram para exprimir a utopia do Reino de Deus anunciado e vivido por Jesus na sua integralidade. Foi a experiência do poder-serviço.

2.3 – O poder de Maria Madalena nas primeiras comunidades cristãs

O próprio nome de Maria Madalena já nos revela o seu papel de liderança nas primeiras comunidades. O povo antigo era assim, quando escolhia um nome para uma pessoa ou passava a chamá-la por um determinado nome, queria expressar a missão ou papel exercido por ela. O nome Maria quer dizer amargura e graça, tristeza e alegria, e também amada de Deus. Já o nome Madalena quer dizer: da torre, aquele que guarda. Assim, Maria Madalena é a guardiã dos ensinamentos de Cristo.

Maria Madalena discutia com os apóstolos sobre os ensinamentos do Mestre. Pedro reconhece que ela tinha conhecimento de palavras proferidas por Jesus especialmente para ela, das quais eles, os apóstolos, não tinham conhecimento (Evangelho de Maria Madalena (MM) 10, 4-6). A Pedro e aos discípulos, Maria Madalena respondeu: “Aquilo que não vos foi dado escutar, eu vos anunciarei: eu tive uma visão do Mestre”... (MM 10, 8-10). Maria Madalena, ao dizer que teve uma visão do Mestre, quer dizer que ela tinha autoridade tanto quanto ou superior à dos 12 apóstolos e seus sucessores. O argumento que Maria não poderia ser considerada apóstola por “não ser um dos que tinham acompanhado os discípulos desde o tempo em que o Senhor viveu no meio deles” (At 1, 21) cai por terra. E como se não bastasse, Jesus, nesse mesmo diálogo, enaltece a personalidade de Maria Madalena, chamando-a de Bem-aventurada. Chamar alguém de bem-aventurado é o mesmo que dizer: você está no caminho certo, está em marcha sempre e, por isso, és feliz. Um bem-aventurado carrega dentro de si a harmonia, capaz lhe conferir tranqüilidade diante dos problemas e, por isso, pode exercer sua liderança em função do bem de todos.

A liderança de Maria Madalena, com certeza, incomodava os discípulos. Pedro não podia admitir que uma mulher pudesse ser liderança entre eles. “Devemos dar ouvidos a esta mulher?”, perguntava Pedro enfurecido (MM 17,19). E noutra oportunidade, ele pediu ao Mestre que calasse as mulheres, pois eles, os apóstolos, não mais podiam suportar a presença das mulheres no grupo dos seguidores. A memória desse fato ficou conservada tratado de doutrina gnóstica chamado de Pistis Sophia. O protagonismo de Maria Madalena era tanto que incomodava os homens. O apóstolo André também afirmara com veemência: ...“de minha parte eu não acredito que o Mestre tenha falado assim com ela” (MM 17, 11-12). Já Levi aceita a liderança de Maria Madalena. Ele chama a atenção de Pedro: “se o Mestre tornou-a digna, quem és tu para rejeitá-la?” (MM 18, 11-12).

Maria Madalena exerceu forte liderança entre os primeiros cristãos. Uma comunidade terá sido criada em torno a ela. E dessa nasceu o evangelho que leva o seu nome. Como veremos a seguir, Maria Madalena era considerada a “discípula amada” de Cristo. Não obstante a questão discutida em torno à autoria de João do quarto evangelho, bem como do discípulo ser ou não identificado com João, postulamos a possibilidade do evangelho de João ter nascido do grupo de Maria Madalena. João seria Maria Madalena, a discípula amada. E como não seria possível aceitar uma mulher e além do mais, amada de Jesus, ser a autora de um evangelho, o meio encontrado foi chamar Maria Madalena de João e, por conseguinte, de discípulo amado. E a ele atribuir o um evangelho. De modo, que o texto pudesse tornar-se canônico. E não podemos deixar de considerar que o evangelho de João quase não foi aceito como canônico. Por pouco, ele não “entrou no cânon”, isto é na lista dos livros inspirados.

A disputa teologal entre os discípulos e discípulas de Jesus resultou na primazia do grupo masculino. Esse seria o caminho quase que inevitável, considerando a consciência possível daquela época. O que desembocou numa luta contra a liderança das mulheres nas comunidades. No culto, as mulheres passaram a se sentar separadas dos homens. A partir do século segundo, quem concedesse igualdade às mulheres era tachado de herético.

3– Dez conseqüências éticas do poder-serviço
Todo aquele ou aquela que assume um poder na sociedade e quer fazer dessa função um serviço poderá levar em consideração o diremos a seguir. Penso aqui nos padres e religiosos (as) eleitos recentemente para os cargos de prefeito e vereador. Não são dogmáticas as afirmativas. Existem outras. No entanto, queremos elencar algumas conseqüências éticas do poder-serviço legado a nós por Jesus.

1) O poder-serviço, como diz o enunciado, é um serviço, isto é, um sacrifício. Quando alguém diz: “vou para o serviço”, não está dizendo vou passear, mas trabalhar para ganhar a vida. Assim, todo poder exercido dignamente é também um sacrifício.

2) O poder-serviço exige a exclusão de todo e qualquer tipo de mordomia e comodismo. Os filhos de Zebedeu pediram a Jesus mordomias no seu Reino, ao que Jesus respondeu que isso não competia a ele, mas ao Pai. Só quem estivesse preparado, isto é, que tivesse feito o caminho de serviço é que poderia receber tão grande glória. A mordomia consiste no serviço feito e não na apropriação indevida de bens outrem.

3) “Somos servos inúteis.” Essa deve ser a bandeira de quem exerce o poder. Ao exercer um cargo de poder, faço mais do que a obrigação, pois esse foi a mim confiado. Por isso, não é licito a propaganda enganosa, feita com recursos financeiros do povo, para legitimar a ação falsa ou até mesmo verdadeira.

4) O poder-serviço pede que a população (comunidade) seja incentivada a participar nas decisões. Os “abacaxis” precisam ser apresentados ao povo e juntos descascados. Assim, administração e comunidade crescem juntas. O administrador (a) deve trabalhar com a comunidade e não para e contra.

5) O poder-serviço deve admitir a organização do contra-poder, o qual não dever ser confundido com o antipoder, mas visto como uma oposição saudável. O pluralismo político é importante e vital para que o poder-serviço não se transforme em poder-dominação.

6) As consultas populares, como no caso dos orçamentos participativos, são importantes para o exercício comunitário do poder-serviço.

7) Quem está no poder deve colocar-se na disposição de partilha do poder. A rotatividade é salutar. Ninguém é dono da verdade. Outros (as) devem ser preparados para assumir o poder.

8) Quem está na direção precisa ter poder de coordenação. Coordenar não é o mesmo que mandar de forma arbitrária, mas respeitando as contingências.

9) O poder-serviço exige que seja praticado o ato de dar “esmola”. Estamos diante de um chavão do cristianismo. Muitos já entenderam esse conselho de Jesus como sendo o ato de tirar algo de mim e doar para o outro. Os ricos aliviam suas consciências dando esmola. Conhecendo o sentido original da palavra hebraica esmola, o nosso conceito de esmola muda. Em hebraico, esmola se diz tsedakáh. Desse substantivo temos também tsadik quer dizer justo, justiça. Para os judeus dar esmola era o mesmo que fazer justiça. Quando alguém ouvia na rua alguém gritando Tsedakáh era o mesmo que ouvir: Faça justiça! Cumpra Torá! Dar esmola no exercício do poder-serviço significa fazer a justiça social e não dar “esmola” em vista de um voto futuro. A pobreza é sinal de injustiça e de governo desonesto.

10) O poder-serviço é essencialmente voltado para os problemas sociais. Jesus mostrou isso claramente quando contou a parábola do semeador para o povo. O semeador é aquele que desce da Galiléia, lugar da terra boa que foi tirada dos trabalhadores e repassada ao apadrinhados políticos do império romano, para a cidade de Jerusalém, onde está o poder-dominação. O semeador é aquele que denuncia: tem gente sem terra! Tem gente vivendo na beirada das estradas da Palestina! Outra passagem interessante é a da semente de mostarda. O centro dessa perícope não e a semente que cresce, mas o reino é como um arbusto picante que possui a capacidade de tomar conta de todo solo plantado. Um governo marcado pelo poder-serviço vai sempre incomodar e tornar-se indesejável para os do poder-dominação.

4 - Conclusão
O poder-serviço só será possível se três elementos essenciais estiverem presentes: carisma, confiança e exemplo de vida. O carisma consiste na liderança natural do candidato (a). Liderança essa centrada na vivência evangélica e guiada pelo Espírito Santo. A confiança é a expressão de adesão aos propósitos de quem se candidata pelos eleitores. O exemplo de vida e condição indispensável para ser eleito e se manter no poder-serviço. Faltando um desses três elementos, a autoridade perde sua força e poder-serviço passa a ser poder-dominação. E nada de novo teremos debaixo do sol!

A liderança de Maria Madalena nos convoca a repensar o papel das mulheres no exercício do poder.

O exercício do poder-serviço possibilitará o nascimento do homem e da mulher novos. Novo no seu modo de agir profeticamente, integrado na sabedoria de vida e cheio de esperança que o Reino pode acontecer já.

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