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Jo 12,1-11: A unção de Betânia como modelo de vida comunitária



  • Estudo
  • 12394
  • 11/03/2005
Bernardo Correa d’Almeida

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Jo 12,1-11 - A unção de Betânia:



Jesus, seis dias antes da Páscoa, veio a Betânia, onde estava Lázaro, o qual Jesus tinha ressuscitado dos mortos. Ali fizeram-lhe uma ceia, Marta servia e Lázaro era um dos que estavam à mesa com ele. Maria, tendo tomado uma libra de mirra dum nardo fiável, de muito honra, ungiu os pés de Jesus e secou-lhe os pés com seus cabelos. E a casa ficou cheia do perfume da mirra.

Judas o Iscariotes, um dos discípulos dele, que estava para entregá-lo, disse: “Porque motivo esta mirra não foi vendida por trezentos denários e não foi dada aos pobres?”. Ora, ele disse isto não porque se preocupava dos pobres, mas porque era ladrão, e tendo a bolsa, levava as coisas que deitavam nela.

Jesus disse então: “Deixa-a, para que o guarde para o dia da minha sepultura, aos pobres sempre tereis convosco, mas a mim não me tereis sempre”.
A grande multidão dos judeus sobe que ele estava ali, e vieram não só por causa de Jesus mas também para verem a Lázaro, o qual tinha ressuscitado dos mortos. Então os chefes dos sacerdotes decidiram matar também a Lázaro, porque muitos, por causa dele, iam-se dos judeus e acreditavam em Jesus.



A experiência em Betânia como modelo de vida comunitária:


Ainda que não possamos extrair do texto um quadro exacto da vida da comunidade joanina, conseguimos delinear um modelo e ambiente comunitário próprios. Esta possibilidade não exclui a veracidade histórica do acontecimento. Antes expressa a sua importância e o modo progressivo e dinâmico como o relato foi construído.


O ambiente em torno da unção de Betânia aponta, por um lado, para os últimos momentos da vida de Jesus, mormente, para a Última Ceia, a consumação da traição e a morte e sepultura de Jesus. Mas, por outro lado, indicia já uma vivência pascal expressa pela ressurreição de Lázaro, pela referência à própria Páscoa e pelo protagonismo assumido por algumas personagens naquela casa e no decorrer duma refeição.


Deste modo podemos supor que Jo, a partir do acontecimento realizado em Betânia, tenha construído o seu relato em base ao próprio ambiente de vida da sua comunidade, ou seja, no contexto duma refeição comunitária celebrada em casa com vários membros da comunidade de Jo reunidos em torno de Jesus.



A comunidade aparece reunida em redor de Jesus. Seja na iniciativa de ali estar, seja na centralidade que assume no decorrer da refeição, seja nos movimentos dos próprios personagens em direcção a Jesus, tudo parece orientado para Jesus e para o modelo de vida por ele proposto. Aquela comunidade desafia as comunidades cristãs de todos os textos a orientar o seu olhar e coração para Jesus Cristo.


Uma centralidade de Jesus que naquela comunidade é afectiva e efectiva. O evangelista não apresenta Jesus como uma ideia, ou uma força, mas na concreteza da sua pessoa humana e divina que no seio da comunidade e, por meio dum real e existencial encontro com cada um dos membros e com toda a comunidade, torna-se o seu motivo de encontro, a sua força de movimentos e a razão do seu testemunho.


O protagonismo de Jesus é apresentado, por um lado, a partir da iniciativa da sua presença, da importância da sua pessoa e da força da sua palavra. E, por outro lado, é em torno dele que se congrega aquela comunidade e para ele que se orientam as suas forças e decisões. Ou seja Jesus e a comunidade assumem, contemporaneamente, e cada um a seu modo, um papel dador e recebedor num elo de comunhão.


No horizonte deste dinamismo comunitário centrado em Jesus compreende-se o papel e a função de cada um dos personagens presentes naquela refeição, bem como as relações complementares e apositivas que assumem nesse encontro. O evangelista apresenta não só um modelo de vida em relação a Jesus, mas também aquele que partindo de Jesus se concretiza na vivência comunitária.


Mas o evangelista na clarividência das suas palavras apresenta também o caminho comunitário a não percorrer e do qual a comunidade se deve afastar radicalmente. Uma comunidade que se opõe a mentira, ao roubo e à subserviência. A comunidade assume os riscos de contrariar aqueles, mesmo que pertencendo à comunidade, vivem em oposição a Jesus. Aqueles que o traem, negam a gratuidade e o serviço autentico, promovem revolta e cisão.


A esses a comunidade opõe-se e propõe-lhes a verdade de Deus. Aquela que não se vive de entusiasmos, duplicidades, nem sequer de aparências de caridade. A comunidade radica-se na vitalidade do Espirito e na soberania de Deus opondo-se conscientemente às forças do mal representadas por Judas.
A comunidade animada pelo dinamismo da fé em Jesus torna-se o espaço onde se vive e se celebra a fé. Um modo de viver comunitário que se configura continuamente com esse amor oblativo vivido por Jesus e que transforma o crente e a comunidade num dinamismo de vida onde o amor autentico é a lei. Um amor que torna-se a maior preciosidade da comunidade e pelo qual ela torna-se no mundo sinal e instrumento do pleno amor.


Uma experiência comunitária vivida num ambiente de amor que em consequência assume o serviço como modelo de vida. A comunidade assume como forma de vida o testemunho assumido e deixado por Jesus na Última Ceia. Um serviço que é participação no mistério de comunhão entre Jesus e o Pai. Um modo ser que une a enormidade da fé em Jesus e a grandeza do serviço divino. E esta é a experiência de Marta que assumindo a perfeição da fé a vive unida a um contínuo serviço a Jesus, à comunidade e ao mundo.


A comunidade não obstante as barreiras da morte, as dificuldades em assumir a fé, a dureza das perseguições, professa e confessa a sua fé em Jesus. Ainda que esta opção de fé pudesse significar a morte. Uma experiência de fé que o próprio Lázaro assume e representa modelarmente.


Apesar do desempenho de Maria no seu colóquio amoroso com Jesus, apesar da unidade de fé e serviço de Marta e da expressão e apesar da força de fé de Lázaro nas verdades reveladas por Jesus, a comunidade realiza-se também a partir do amor, do serviço e da fé daqueles que no interior dela vivem no silêncio as suas profissões de fé.


A comunidade não se compreende pela soma dos seus membros ou das suas qualidades, mas a partir daquele elo de comunhão, onde cada um é chamado a fazer a experiência de ser encontrado, amado e levado pelo mesmo Jesus. O leitor e a comunidade são chamados à vivência daquele encontro fundante com Jesus que se torna expressão de fé vivida em cada instante da sua história. Uma radicalidade de vida na fé que não precisa de ser nomeada ou destacada, mas vivida e testemunhada.


A comunidade vive a sua fé a partir de laços de verdadeira familiaridade. A comunidade assenta a sua vida e a qualidade das suas relações em Jesus. Ou seja ela é congregada pelo amor e filiação do mesmo Pai. Não como uma realidade externa ou a suportar, mas como condição fundamental de ser comunitário. O ser irmão e irmã é o ser cristão. E isso mesmo é expresso nos laços de família daqueles três irmãos de Betânia.


Deste modo a comunidade torna-se sinal de Jesus e motivo para que outros se aproximem e façam esse mesmo percurso de fé. A comunidade não vive virada para si, mas para aquele que por ela olha, e com ela aponta à humanidade o caminho da salvação chamando outros à fé, não tanto pelas muitas palavras ou obras projectadas, mas essencialmente pela fragância de amor que dela resulta.

Assim a comunidade torna-se operativamente uma história real e um autêntico caminho de vida pensado e assumido a partir da lógica de Deus. Um modo de ser comunidade professado existencialmente como um acto encarnado de fé centrado em Jesus Cristo, o Filho de Deus. A comunidade que por meio desse encontro de fé fundante e existencial tornava-se imagem e instrumento de comunhão.

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