Uma janela sobre o mundo bíblico

A outra "Bíblia" que a Tradição cunhou de Apócrifa



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  • 18/03/2005
Jacir de Freitas

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Introdução
Como o próprio título sugere, gostaríamos tecer alguns comentários sobre a vastíssima literatura de escritos antigos que, a seu modo, narram a fé do povo de Deus. Esses escritos foram motivos de muita discussão no ambientes judaicos e cristãos da antiguidade. Eles se referem tanto ao Primeiro, como ao Segundo Testamentos. E estão em forma de Evangelhos, Epístolas, Apocalipses, Testamentos, etc. O termo apócrifo não era usado entre os primeiros cristãos. Eles chamavam os livros que não faziam parte da Bíblia de “não canônicos”, “contestados”, “livros que não podem ser lidos na Igreja”. Na tradição cristã, os protestantes/evangélicos passaram a chamar os apócrifos de pseudepígrafos, isto é, “o que tem título falso”. Vejamos, portanto, a múltipla definição do termo apócrifo, bem como os livros apócrifos, o conteúdo de alguns deles e a sua importância para nós, hoje.


1 – O significado de Apócrifo

Apócrifo é um substantivo grego (apókpryphon) que, ao longo da história, recebeu muitas definições, a saber:

- algo precioso e, por isso, mantido em segredo;
- texto não usado oficialmente na liturgia das primeiras comunidades cristãs;
- texto conservado escondido por ter conteúdo não aceito;
- texto de origem desconhecida;
- texto falso ou falsificado no conteúdo ou título.
- livros de uso restrito por leitores de uma determinada corrente de pensamento;
- textos não inspirados e, por isso, não canônicos;
- livros parecidos com os considerados canônicos, mas de estilos literários diversos;
- textos que complementam o conteúdo, o sentido dos escritos canônicos, isto é, os escritos considerados inspirados e que, por isso, fazem parte da Bíblia. Esses textos podem, até mesmo, oferecer dados esquecidos ou pontos de vistas diferenciados dos que permaneceram como oficiais.
A múltipla definição do que seja o substantivo apócrifo já nos mostra que estamos em um campo merece a nossa atenção especial. Os estudiosos se dividem em relação aos escritos apócrifos do Segundo Testamento. Uns afirmam que eles são simplesmente a expressão da piedade popular sobre Jesus, produzidas no segundo século do cristianismo. Para eles, essas informações não acrescentam nada às conservadas nos textos canônicos. Ao contrário, elas deturpam o sentido exato dos dados. Outros defendem que os textos apócrifos, alguns deles, como parte do Evangelho de Tomé, datado no ano 50 da Era Comum, poderiam nos aproximar mais da mensagem de Jesus, isto é, sem interpretação da comunidade. E mesmo que não fossem datados do primeiro século, esses textos conservam dados importantes da memória popular sobre Jesus e de seus seguidores (as). Nós preferimos considerar os apócrifos como preciosidades mantidas em segredo que nos revelam dados importantes, os quais complementam a história dos cristianismos de origem. Estudar os apócrifos, sobretudo os do Segundo Testamento, nos propicia compreender o esforço dos primeiros cristãos em seguirem Jesus, o que, certamente, não deixou de ocasionar dificuldades no relacionamento entre as lideranças.


2 - Os livros apócrifos

O número dos livros apócrifos é maior que o da Bíblia canônica. Podemos contabilizar 112 deles, 52 em relação ao Primeiro Testamento e 60 em relação ao Segundo. A tradição conservou outras listas dos livros apócrifos, nas quais constam um número maior ou menor de livros. Destacamos, a seguir, alguns desses escritos segundo suas categorias:

1) Evangelhos: de Maria Madalena, de Tomé, Filipe, Árabe da Infância de Jesus, do Pseudo-Tomé, de Tiago, Morte e Assunção de Maria;
2) Atos: de Pedro, Tecla e Paulo, Dos doze apóstolos, de Pilatos;
3) Epístolas: de Pilatos a Herodes, de Pilatos a Tibério, dos apóstolos, de Pedro a Filipe, Paulo aos Laodicenses, Terceira epístola aos Coríntios, de Aristeu;
4) Apocalipses: de Tiago; de João, de Estevão, de Pedro, de Elias, de Esdras, de Baruc; de Sofonias;
5) Testamentos: de Abraão, de Isaac, de Jacó, dos 12 Patriarcas, de Moisés, de Salomão, de Jó;
6) Outros: A filha de Pedro, Descida de Cristo aos Infernos, Declaração de José de Arimatéia, Vida de Adão e Eva, Jubileus, 1,2 e 3 Henoque, Salmos de Salomão; Oráculos Sibilinos.


3 - O conteúdo dos livros apócrifos e sua atualidade

Encontramos nos livros apócrifos valores que a piedade popular conservou como “dogma de fé”. Se não fossem os apócrifos do Segundo Testamento não saberíamos os nomes dos avós de Jesus, dos três reis magos, dos dois ladrões crucificados com Jesus, do soldado que abriu o lado direito de Jesus com a lança, bem como as histórias de Verônica, da infância de Maria, consagração e assunção ao céu, das travessuras de Jesus menino, da descida de Cristo aos infernos, etc. E poderíamos enumerar muitos outros dados.

Também vale ressaltar a presença das mulheres como lideranças marcantes entre os primeiros cristãos. Dos apócrifos não nos resultam a afirmação que Maria Madalena era prostituta. Aliás, muitos menos dos escritos canônicos. Assim como Maria Madalena, Maria, a mãe de Jesus, aparece nos apócrifos como discípula e apóstola.

Pedro é o líder dos apóstolos que recebe o encargo de conduzir a Igreja, mas também uma personagem controvertida. Ele tinha uma filha que se chamava Petronília. Ele rezou para que ele ficasse doente e, assim, ninguém poderia se casar com ela. E desse modo sucedeu. Com Maria Madalena, Pedro terá tido muitas controvérsias. É o que nos relatam o Evangelho de Maria Madalena e o tratado gnóstico chamado de Pistis Sofia.

O estudo dos apocalipses apócrifos do Primeiro Testamento nos ajuda a compreender o Apocalipse canônico.

O Jesus que emerge dos apócrifos seria um outro Jesus? Essa é uma boa questão.


4 - Conclusão

Essas poucas informações sobre os apócrifos nos levam a compreender a importância de retomar o estudo o estudo dos apócrifos. Neles encontramos ensinamentos que permanecem atuais. Os tempos mudaram. Não podemos mais considerar os apócrifos como mera fantasia das primeiras comunidades de fé. Se eles foram escritos e, apesar das proibições, chegaram até nós, é porque eles têm muito a nos ensinar, a nos fortalecer na fé em Deus que se revelou a nós através de seu filho Jesus, que nos deixou o Espírito Santo para animar, com ternura e vigor, a nossa caminhada. Portanto, vale a pena estudar os apócrifos. “Tudo vale a pena”, já dizia o poeta, “quando a alma não é pequena!”

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