Uma janela sobre o mundo bíblico

Martírio na Bíblia



  • Estudo
  • 8539
  • 21/03/2005
Ildo Perondi

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A palavra grega “martys” e seus termos afins “martyria, martyrion”, em geral são traduzidos em nossas Bíblias por testemunho. De fato, era este o sentido que a palavra tinha no tempo em que a Bíblia foi escrita. No entanto, desde o início do cristianismo percebemos que três elementos estão quase sempre unidos: testemunho, profecia e doação da própria vida.

Ainda que no AT o povo tenha sofrido muitas vezes por sua fidelidade à Aliança e ao Projeto de Deus, e que tantas pessoas tenham passado por inúmeros sofrimentos, o termo praticamente não existe no hebraico. Sabemos, através de uma tradição judaica, que o Profeta Isaías foi morto devido à sua coragem profética, cujo corpo foi serrado ao meio, por ordem do iníquo rei Manassés. No tempo da dominação grega sobre Israel, temos um exemplo de grande fé de Eleazar (2Mac 6,18-31), com idade avançada, que preferiu morrer a renegar a fé dos antepassados, deixando aos jovens o nobre testemunho de “como se deve morrer, entusiasta e generosamente, pelas veneráveis e santas leis” (2Mac 6,28). Logo em seguida temos o belo exemplo da mãe e seus sete filhos que preferiram dar a vida a sujeitar-se aos dominadores estrangeiros! (2Mac 7).

O NT se abre com o anúncio profético. João Batista anuncia a vinda do Messias, prepara os caminhos e denuncia os opressores. Tudo isso vai lhe custar a vida (Mc 6,17-29). João Batista foi o primeiro mártir do NT. Jesus Cristo, anunciou o Reino de Deus e por isso morreu pregado na cruz (a mais violenta, vergonhosa e cruel sentença que era aplicada pelo império opressor). Jesus dizia a seus seguidores que a cruz e a perseguição faziam parte do seguimento (Mt 10,38; 16,24; Mc 8,34; Lc 9,23; 14,27).

Os Atos dos Apóstolos narram também o primeiro martírio entre os seguidores de Jesus. Estêvão morreu sendo fiel à sua fé e aos ensinamentos do Mestre (At 7,55-60). Seguiu-se uma grande lista, onde se inscreveram os nomes dos principais líderes que seguiram as pegadas de Jesus. O rei Herodes mandou matar à espada o Apóstolo Tiago (At 12,2). Pedro e Paulo, as duas colunas da Igreja, também sofreram o martírio, por ordem do imperador Nero.

As comunidades cristãs foram perseguidas duramente pelo império romano. Primeiro por Nero, mais tarde por Domiciano e outros imperadores que vieram em seguida. Muitos dos primeiros cristãos foram crucificados, queimados vivos, jogados às feras, torturados, presos e perseguidos de tantas formas... A Igreja que nasceu, germinou marcada pelo derramamento do sangue inocente, daqueles que não tiveram medo de dar a vida pela causa da sua fé e do testemunho de Jesus Cristo.

O livro do Apocalipse relata a entrada triunfal, junto ao altar e ao trono de Deus, da multidão que tinha sido imolada por causa da Palavra de Deus e do testemunho que dela tinham prestado (cf. Ap 6,9). Porém, este número ainda não estava completo, significando que no decorrer da história seguinte mais pessoas dariam o testemunho. A multidão dos mártires recebeu a veste branca (Ap 3,4-5; 6,11), pois foram considerados dignos e testemunhas fiéis durante a sua vida. Serão vestidas agora com dignidade.

Os impérios opressores que existiram na história continuaram deixando seus mártires. Seus projetos elitistas e imperialistas fizeram com que seus chefes continuassem a embriagar-se com o sangue dos mártires (cf. Ap 17,6).

A vida é sempre um dom de Deus e não deveria nunca ser tirada antes do tempo. Elias, que foi o maior dos Profetas, escapou de Jezabel que queria matá-lo: “Elias levantou-se e partiu para salvar a vida” (1Rs 19,3). Jesus também, quando soube que queriam matá-lo, fugiu diante deles (Lc 4,29-30; Jo 8,59). Portanto, o martírio não deve ser buscado por ninguém. Em última palavra, o martírio é uma graça de Deus. Mas, dele não se deve fugir, se é necessário dar o testemunho e para defender a vida do povo. Jesus também nos ensina que não devemos ter medo daqueles que matam o corpo (Mt 10,28; Lc 12,4). Por isso, dar a vida é a melhor forma de amor, a exemplo de Jesus que nos amou até o extremo (Jo 13,1). O máximo do amor é dar a vida pelos seus. Deste modo, a vida não é tirada, mas é dada livremente (Jo 10,18).

Foi isso que fez D. Oscar Romero, em meio à opressão e crueldade que massacrava seu povo, foi testemunha fiel até o fim, pagando com a própria vida, como já haviam feito tantas lideranças das suas comunidades cristãs. Dizia: “Se me matarem, ressuscitarei nas lutas do meu povo”. Ele deu o exemplo do que é amar a ponto de dar a própria vida e seguir Jesus Cristo dando a vida pelo seu Reino e pelo seu povo.

Neste ano em que celebramos 25 anos do assassinato de D. Oscar Romero, tivemos outro exemplo trágico. A morte violenta da Ir. Dorothy, no Pará. Ela deu o testemunho defendendo a floresta e a vida dos pequenos agricultores. Incomodou os donos do poder. Os criminosos preferiram pagar para matar; para ver-se livres da sua profecia. Quando Ir. Dorothy percebeu que estava cercada pelos pistoleiros, tirou sua Bíblia da sacola e leu um trecho das Bem-Aventuranças. Mas, os pistoleiros preferiram “cumprir as ordens” dos patrões, e ceifaram mais uma vida. Nas fazendas da região o anúncio da sua morte foi festejado com fogos de artifício. O banquete dos criminosos continua sendo regado a sangue, como foi o de Herodes (Mc 6,14-29).

Por isso, lembrar os mártires é não deixar morrer sua história, é recordar o seu testemunho, sua profecia e sua coragem; é lembrar que, se preciso for, todos devemos estar dispostos a lavar as nossas vestes no sangue do Cordeiro (Ap 7,14), como fizeram tantos dos primeiros cristãos e um sem número deles em toda a história da Igreja e de nossa querida América Latina.


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