Uma janela sobre o mundo bíblico

A teoria dos "pré-adamitas" é compatível com a nossa fé? Por favor me mostrem também documentos da Igreja sobre os "pré-adamitas".



  • Pergunta de Gilberto Cassia Lima, São Paulo
  • 4063
  • 05/03/2007
Luiz da Rosa

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Os pré-adamitas não existiram, visto que a história da criação como contada na Bíblia não é um fato histórico, mas uma narração contruída com o objetivo de transmitir uma mensagem: Deus é o autor da criação. Portanto não podemos dizer que existiu um antes-Adão e um depois-Adão e por isso também não podemos dizer “eu creio em pre-adamitas”, assim como também não é correto dizer que “creio na existência de Adão”.
Apesar desta resposta seca, a sua pergunta é sempre uma oportunidade para refletir sobre um tema bíblico e teológico muito interessante e sempre atual.

Até 1800, ninguém colocou, de forma eficiente, em dúvida a historicidade da narração bíblica sobre a criação do mundo, contada no livro do Gênesis. Podemos simplificar e dizer que Charles Darwin, inglês, foi o protagonista de uma revolução que, invés, pôs bases para duvidar da historicidade da Bíblia.
Viajando pelo mundo num navio, entre os anos 1831 e 1835, Darwin elaborou a teoria da evolução. Nas ilhas Galapagos ele observou que o mesmo passarinho tinha um bico diferente, dependendo do lugar onde vivia. Em uma ilha esse pássaro tinha o bico curto e forte, pois o seu principal alimento era a nós, que ele tinha que quebrar com o bico para comê-la. Em outra ilha o mesmo passarinho tinha o bico fino e comprido, pois precisa alimentar-se de alimentos que encontrava nas rachaduras das pedras. A teoria de Darwin foi publicada em um livro de 230 no ano 1858.

As idéias de Darwin inauguraram o caminho para os estudos específicos sobre a origem do homem. Hoje os cientistas estão estudando os geomas do Homo Sapiens e do Homem de Neandertharl e pretendem confrontá-los entre si para estabelecer quais as novidades genéticas que fizeram com que o Homo Sapiens se tornasse o Homem Moderno. Os estudos dizem que a evolução humana começou há 6 milhões de anos e Homem Moderno apareceu por volta de 150 mil anos atrás.

A teoria da evolução é bem fundamentada e aceita com facilidade no mundo científico. E podemos dizer que também o Magistério da Igreja Católica aceita essa teoria. O papa anterior, João Paulo II, por exemplo dizia, em 1985, em um simpósio sobre “Fé cristã e teoria da evolução” que a teoria da evolução e a criação não se excluem e uma não cria obstáculo a outra. Ele puntualiza: “A evolução supõe a criação, ou melhor, a criação, à luz da evolução, é um fato que se prolunga no tempo, como uma creatio contínua.” E também o Catequismo da Igbreja Católica diz que “a criação não saiu pronta das mãos do criador” (n. 302). Deus não criou um mundo não perfeito, mas “em caminho para a sua perfeição última. Esse futuro do plano de Deus leva ao surgimento de alguns seres e ao desaparecimento de outros” (n. 310).

Portanto o processo evolutivo é aceitado. Invés os fatores que levam à evolução e também as modalidades evolutivas ainda não foram definidos de forma unânime e as pesquisas científicas estão abertas. Exatamente aqui cabem duas perguntas: existe a possibilidade de um projeto divino para a criação? O homem representa necessariamente um desenvolvimento natural da natureza? Teologicamente falando é importante afirmar a relação de dependência radical do mundo de Deus, que criou as coisas do nada, mas não nos disse como. Por isso nasce o debate a respeito do projeto divino sobre a criação. Uma das tentativas de explicar a criação aceitando a evolução é o Inteligent Design, que podemos traduzir como “projeto inteligente”. Essa teoria aceita a evolução, porém defende que o processo evolutivo não é casual, invés pilotado por um intervento “inteligente” que tem como objetivo conduzir a evolução dentro de um plano que tem o seu vértice no homem. Essa leitura pode ser apoiada na bíblia, visto que no Gênesis se diz que Deus põe no homem a imagem divina, mas não no animal. O problema do “projeto inteligente” é que pensa de ser uma teoria científica e nisso erra. Está, na verdade, em um plano diverso, teológico. Além do mais essa pseudo ciência não consegue explicar por que em certos casos, tais como os desastres naturais e os “erros da natureza”, esse “projeto inteligente” não é eficaz.

Teologicamente poderíamos pensar que Deus colocou na criação o princípio evolutivo, ou seja, a possibilidade de cada matéria orgânica de evoluir para formas sempre mais complexas e organizadas de vida. Teilhard de Chardin a propósito diz que Deus não faz as coisas, mas faz com que elas sejam feitas. Deus é a causa primeira de cada coisa que opera por meio de outras causas. Obviamente o homem é um aspecto importante do intervento de Deus. Com o homem a evolução faz um salto ontológico. Quando e onde Deus quis surgiu a inteligência no homem. Ele acolheu o espírito conforme a vontade de Deus. De fato a natureza não pode produzir o espírito por conta própria, mas pode receber.

É uma teoria que não entra na esfera da ciência empírica e por isso não pode ser nunca provada por ela, mas também não pode ser negada.

Concluindo podemos afirmar que a evolução entendida como teoria científica deve ser aceita. Às vezes porém acontece que tal teoria se torna uma ideologia, negando aspectos igualmente importante da criação. De fato quando os cientistas dizem que a criação de tudo depende do caso e da necessidade não estão sendo cientistas, mas acegados por uma ideologia. Do mesmo modo erram os cristãos quando lêem o texto do Gênesis como a verdade absoluta sobre a criação. O texto bíblico sobre a criação não pretende ser um texto de ciência natural ou de física, que pretende transmitir ao leitor dados informativos de ordem científica. De fato a Bíblia tem por objetivo transmitir um outro tipo de informação, ou seja, que a vida, nas suas diferentes formas e expressões, não é um produto do acaso, mas de uma vontade trascendente que vê, prevê, ordena e endereça através da natureza o seu projeto.

Para ler mais sobre o assunto, leia também a resposta dada por Ombretta a uma outra pergunta

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