Uma janela sobre o mundo bíblico

Páscoa



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  • 31/03/2005
Ildo Perondi

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A Páscoa era uma antiga festa dos pastores de ovelhas. Era uma festa pré-israelítica. Era celebrada na primavera, e era marcada pelo sacrifício de um animal novo, com um ritual de sangue, para obter a fecundidade dos rebanhos e ter a proteção dos animais, espantando os espíritos maus para longe dos rebanhos. É provável que era esta a festa que os hebreus queriam celebrar no deserto (Ex 5,1). Não havia necessidade de sacerdote e nem de local para a festa.

A Festa dos Ázimos era celebrada mais pelos agricultores e era celebrada por ocasião da primeira colheita (1). Assim se comiam os primeiros frutos da terra e se fazia o pão sem fermento para lembrar que tudo era novo e que não havia nada de velho, nem o fermento. O pão ázimo era também considerado símbolo de pureza.

Em Ex 12,1ss temos a celebração da Páscoa, mas é feita junto com a Festa dos Ázimos. Esta festa foi celebrada pelo povo de Deus antes da sua partida do Egito, rumo à Terra Prometida. Foi celebrada às pressas; cozinhando-se o suficiente para comer na noite da festa, sem deixar sobras. Devia-se comer de pé, com o cajado na mão, pois era a noite da partida da casa da escravidão.

Com o sangue do cordeiro a ser sacrificado devia-se manchar as portas das casas, pois este era um sinal que ali morava uma família dos hebreus. Naquela noite o Senhor estava para passar nas casas e estava para acontecer a décima praga contra o faraó do Egito e seu povo (a morte dos primogênitos). Onde Deus encontrasse o sinal do sangue, Ele não entrava.

O verbo hebraico usado é mesmo Pesah, que pode significar pular e também passar. Então Deus “pulava” a casa onde a família estivesse celebrando a Páscoa. Mas o significado que foi adquirindo com o tempo e ganhando mais força foi o de “passagem”. Deus passou pelas casas dos hebreus. Assim, a Páscoa foi sendo celebrada como a “Passagem” da terra da opressão (Egito) para a Terra Prometida (Palestina-Canaã-Israel). Passagem da escravidão para a libertação. Passagem de uma vida velha para uma nova vida. Outra tradição considerava também a Páscoa como a “passagem do mar” na marcha rumo à Terra Prometida (Ex 14).

Depois que o povo já estava na terra, tornou-se uma festa obrigatória. Era comum a família celebrar a Páscoa e durava 7 dias (8 dias na Diáspora (2)). Além de Ex 12 a 15, temos também outros textos bíblicos que lembram a festa: Ex 23,14-15; Ex 34,18; Lv 23,5-8; Nm 28,16; Ez 45,21. E no texto de Ex 12,43-49 se acrescenta que nenhum incircunciso podia celebrar a Páscoa. Em Nm 9,2-14 são mencionados os requisitos de pureza para a celebração da festa.

Porém em Dt 16,1-8, a Páscoa passa a ser uma festa nacional a ser celebrada no Santuário. Israel celebrava assim a sua constituição como povo de Deus. Esta mudança deve ter ocorrido depois da reforma do rei Josias, quando o Templo passou a se tornar cada vez mais o centro de toda a religião de Israel. Assim, parece que a festa era celebrada no Templo, mas continuava a ser festejada também no ambiente familiar.

No início da celebração, o menino pergunta ao pai: “Por que esta noite é diferente das demais? Por que em todas as outras se come o pão fermentado e nesta noite o pão sem fermento? Por que nesta noite comemos as ervas amargas? Por que em todas as outras noite comemos sentados e nesta noite comemos de pé? ” . A própria celebração responde às quatro perguntas. “Foi porque um dia nós, os hebreus, éramos um povo escravo no Egito e Deus se lembrou de nós, Ele interveio a favor do seu povo e os levou para uma terra nova. Deus libertou o seu povo das mãos do opressor” (cf. Ex 12,26-27; Dt 6,20-23). Assim, para sempre, cada hebreu deveria lembrar a saída do povo do Egito como se fosse a sua própria saída. “Éramos escravos no Egito, hoje somos servos do Senhor” (3).

Celebra-se a festa comendo o cordeiro pascal, os pães ázimos, ervas amargas e os quatro copos de vinho. O cordeiro lembra que Deus poupou a casa dos hebreus, que estava marcada com o sangue, e passou adiante, quando feriu os primogênitos dos egípcios e livrou os filhos de Israel. Os pães ázimos lembram a pressa da saída do Egito. Na noite da libertação eles não tiveram nem tempo de deixar levedar o pão. As ervas amargas lembram como os egípcios haviam tornado amarga a vida dos hebreus, com os duros trabalhos (Ex 1,14).

Assim, todo ano, a festa da Pesah reúne a família em volta da mesa na qual se coloca a bandeja, com os elementos necessários ao ritual, e as taças de vinho. O pai de família é o oficiante, e o filho mais novo faz as perguntas, todos, por seu turno, lêem o texto da narração; canta-se, ora-se, trocam-se idéias, come-se as ervas amargas, experimenta-se a insipidez dos ázimos, degusta-se o vinho... A seriedade da celebração apresenta uma feição de bom humor e de alegria. Do mais pequeno ao maior, revive-se a saída do Egito, porque foi uma libertação para todos e por isso que ela se cumpre ainda hoje.

Jesus era hebreu e também celebrou a Páscoa. O cristianismo deu a ela outro sentido. A Páscoa judaica preparou assim a Páscoa cristã: Cristo, Cordeiro de Deus, é imolado (a Cruz) e o pão e o vinho (a nova Ceia, se transformam em seu Corpo e Sangue), e como no quadro da Páscoa judaica, temos a Semana Santa. Na festa da Páscoa temos a instituição da Eucaristia. Jesus traz assim a salvação ao mundo, e para nós cristãos é a renovação de toda a mística que se celebrava na Páscoa judaica. Assim a Eucaristia é o centro da liturgia cristã, que se organiza ao redor da Missa, sacrifício e redenção. Por seu sacrifício, Cristo é o verdadeiro cordeiro pascal (Jo 19,36); “Cristo, nossa Páscoa, foi imolado” (cf. 1Cor 5,7). Ele destruiu o antigo fermento do pecado e tornou possível uma nova vida – santa e pura – simbolizada na Eucaristia (pão sem fermento). Cristo é a Páscoa definitiva que nos convida à nova vida (cf. 1Cor 5,9-10).

Assim também Cristo faz sua passagem deste mundo. Vencendo o pecado, Jesus passa para o Pai, à sua Terra Prometida. O Evangelho de João procura mostrar esta ligação entre a última semana de Jesus e a celebração da Páscoa (Jo 11,55; 1212; 13,1; 18,28; 19,14.31.42).

Páscoa é, portanto, a passagem da morte para a Vida. É isso que a Ressurreição ensina: Jesus vence a morte. A morte não é o fim. Não tem a última palavra. Mas é Deus que ressuscita Jesus e vai nos ressuscitar também. Assim, a Páscoa se torna a “passagem” para a vida nova! É Jesus que nos fez passar da morte para a vida! Das trevas para a Luz! O sinal desta nova Páscoa passa a ser também o Batismo: passagem para uma vida nova.

Poderíamos especular sobre as diversas “Páscoas” em toda a História da Salvação, já que se pode chegar a sete modos diversos de compreendê-la:
1. Páscoa na Criação: passagem do caos à ordem; do vazio à beleza da obra criada por Deus;
2. Páscoa como festa dos pastores: a proteção e a fecundidade dos rebanhos;
3. Páscoa da partida do Egito: naquela noite o Senhor passou e poupou a vida dos hebreus;
4. Páscoa na História de Israel: memória do que o Senhor fez com o povo; da saída do Egito;
5. Páscoa de Jesus: verdadeiro cordeiro e redentor da Humanidade decaída pelo pecado;
6. Páscoa no Batismo: o nascimento para a vida nova;
7. Páscoa e Ressurreição: passagem da morte para a vida; das trevas à luz; da guerra à paz; de todas as situações de opressão para a liberdade...



1. Segundo a Bíblia de Jerusalém, cf. nota a Ex 12,1, esta festa é posterior ao Êxodo, nascida na época de Josias, e foi juntada com a festa da Páscoa, ligando-a também com a saída do Egito.
2. Os judeus da Diáspora eram considerados aqueles que viviam fora da terra de Israel, seja os que foram exilados, como aqueles que mudaram e foram habitar em outros países, mas que continuaram fiéis à religião e às tradições judaicas.
3. No hebraico o verbo “’avad” pode significar tanto oprimir, escravizar, trabalhar, como servir. Da mesma forma o substantivo “’eved” pode significar tanto o escravo como o servidor. O contexto é que os distingue. O povo era “escravo” do faraó e depois se torna “servo” do Senhor.



BIBLIOGRAFIA
A. C. AVRIL – D. MAISONNEUVE. Les fêtes juives (Edittions Du Cert, Paris 1993). Tradução do original por: J. M. C. VILLAR. As Festas Judaicas (Documentos do mundo da Bíblia 11, Paulus, São Paulo 1997).
BÍBLIA DE JERUSALÉM. Introduções e notas de rodapé (São Paulo 2002).
J. L. MACKENZIE. Dicionário Bíblico. Tradução do original por CUNHA A. et al. (Paulus, São Paulo 72002).
L. A. SCHÖKEL et al. La Bibbia nel suo contesto (Paideia, Brescia 1994).
P. L. VASCONCELOS – V. DA SILVA. Caminhos da Bíblia. Uma história do povo de Deus (Paulinas, São Paulo, 2003)

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