Uma janela sobre o mundo bíblico

História Cultural de Israel - Metodologia



  • Estudo
  • 5202
  • 04/04/2005
Julio Paulo Tavares Zabatiero

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1. Teoria: ação comunicativa

O estudo acadêmico da história de Israel não pode ser confundido com a interpretação da Palavra de Deus presente na Bíblia Hebraica. A visão canônica da história de Israel não foi construída de forma científica, mas como expressão da identidade e da fé do povo de Deus. Ao constatar isto, não se afirma, porém, que essa visão não tenha valor para uma reconstrução científica, ao contrário! Distinguir a visão canônica da visão científica é essencial para que se possa, no estudo historiográfico, tirar o melhor proveito possível da Bíblia como fonte para a reconstrução da história israelita. Os escritos bíblicos possuem um valor documental incomparável para a pesquisa historiográfica do antigo Israel, na medida em que são as principais e mais antigas representações textuais daquela história. Recusar valor documental à Escritura é adotar uma postura positivista em relação ao método historiográfico e abrir mão de uma fonte insubstituível para a escrita da história de Israel.
Na perspectiva do historiador J. Rüsen, podemos dizer que os textos do Antigo Testamento são uma forma pragmática de história, configurada como tradição:
A história emerge de tradições, nas quais os limites da relação do passado com o presente são ultrapassados: o passado torna-se consciente enquanto tal, adquire uma qualidade temporal em seu conteúdo experiencial, fornecendo, assim, com essa nova qualidade temporal, novos elementos de compreensão da dimensão temporal da vida humana prática. (RÜSEN, J. Razão Histórica. Teoria da história: os fundamentos da ciência histórica. Brasília: Editora UnB, 2001, p. 83)

Não se pode, por isso, adotar a visão canônica da história israelita como uma reconstrução científica, pois esta não era a preocupação nem o objetivo dos autores e autoras dos textos bíblicos. Sua atividade pode ser melhor descrita como reflexão sobre a identidade e a fé do povo de Deus ao longo da sua história, ao invés de tentativa de reprodução exata de acontecimentos dessa história. É exatamente por isto que a Bíblia Hebraica é fonte incomparável para a pesquisa historiográfica – ela oferece os testemunhos escritos mais antigos dos processos e dos conflitos de formação da identidade de Israel como um povo que vivenciou sua fé em meio às vicissitudes da vida no Antigo Oriente Próximo. Praticar a fé e construir identidade são parte integrante da consciência histórica e suas representações escritas podem ser adequadamente usadas para a reconstrução científica da história de um povo.
Quais são os passos necessários para irmos da consciência pragmática à científica da história? Ainda segundo Rüsen, são três:
1. Metodizar a relação com a experiência, através da abstração dos significados, normas e valores presentes nas narrativas pragmáticas; e através do recurso crítico às fontes, que: (a) transforma a tradição, artificialmente, em vestígios; e (b) torna o conteúdo empírico das histórias controlável, ampliável e garantível pela experiência;
2. Metodizar a relação com as normas, através da reflexão crítica sobre o referencial historiográfico; mediante a colocação dos fatos históricos em uma perspectiva adequada, ao compreender que os fatos do passado somente podem ser trazidos ao presente mediante uma ordenação de perspectivas, que são enraizadas na vida prática contemporânea, e colocadas às claras no texto historiográfico; e
3. Metodizar a relação com as idéias, mediante um raciocínio que opera com racionalidade narrativa, ou seja, mediante uma teorização construtiva: obedecer a uma regra que imponha a(o) historiador/a explicitar e fundamentar os critérios (idéias) que determinam a instituição do sentido, as seleções dos fatos e significados que se fazem com eles e a síntese entre ambos. A teorização visa estabilizar a identidade de seus destinatários ao longo das mudanças no tempo e a ampliação dos seus horizontes.(Citação livre de RÜSEN, J. op. Cit., pp. 108-126.)
Estudar academicamente a história de Israel, portanto, é uma atividade de pesquisa que terá na Bíblia Hebraica a sua fonte principal, além dos demais textos dos povos do Antigo Oriente Próximo e dos achados arqueológicos relativos à região. Seu objetivo será a reconstrução mais precisa possível da história do povo israelita, com foco primário no processo sócio-cultural de construção de sua identidade. A perspectiva que utilizaremos de modo privilegiado é a da história sócio-cultural, especialmente conforme discutida e praticada por Edward P. Thompson, Roger Chartier e Carlo Ginzburg. Conquanto a teoria e a perspectiva adotadas sejam relativamente recentes e tenham tido pouco utilização na história da disciplina acadêmica da história de Israel, isto não dispensa o recurso às histórias de Israel já elaboradas ao longo dos três últimos séculos.
Tendo em vista que realizamos este estudo a partir da vivência da fé cristã e da formação teológica para o cumprimento da missão do povo de Deus, devemos tomar redobrado cuidado para não confundirmos o estudo da história de Israel com o da teologia bíblica, praticando consistentemente o terceiro passo da passagem da visão pragmática à científica da história, segundo Rüsen. A reconstrução acadêmica da história do antigo Israel é uma atividade preparatória para o estudo da exegese e da teologia bíblica e deve ser realizada com a maior objetividade historiográfica possível, como o estudo histórico de qualquer outro objeto de pesquisa. Se cremos que Deus age na vida humana e na sua história, quanto mais profundamente conhecermos a história do povo de Deus no passado tanto melhor estaremos habilitados para o exercício do discernimento espiritual no presente. Para nós continua válido o conselho de Paulo aos coríntios: “estas coisas lhes sobrevieram como exemplos, e foram escritas para advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado” (I Co 10,11).


2. Perspectiva: história sócio-cultural

Segundo Roger Chartier, “a história cultural, tal como a entendemos, tem por principal objecto identificar o modo como em diferentes lugares e momentos uma determinada realidade social é construída, pensada, dada a ler” (CHARTIER, R. A história cultural entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 1990, p. 16s.). A relevância desta compreensão da história cultural para o estudo da história de Israel é cristalina: estaremos nos ocupando das diferentes maneiras mediante as quais o povo de Deus, no passado, construiu, pensou e nos deu a ler a sua realidade social através, primária, mas não exclusivamente, dos textos bíblicos. A Escritura hebraica é um arquivo privilegiado de construções da realidade social do povo de Deus, em diferentes momentos da sua história, provindos de diferentes lugares, e que nos são dados a ler graças ao processo de canonização desses textos. Ora, àqueles historiadores ditos minimalistas, que consideram de praticamente nenhum valor historiográfico as Escrituras de Israel; bem como aos historiadores positivistas, ocupados exclusivamente com os fatos, vale destacar que “uma das contribuições reconhecidas de Foucault, adotada por vários dos novos historiadores culturais, encontra-se na importância que ele atribuiu à linguagem/discurso enquanto meio de apreender as transformações” (O’BRIEN, P. “A história da cultura de Michel Foucault”, in HUNT, L. (org.) A Nova História Cultural. São Paulo: Martins Fontes, 1992, p. 58s.). Essas construções discursivas da realidade social, que constituem a Escritura Hebraica, servirão como fonte privilegiada para a pesquisa histórica.
Qual é a tarefa de uma história sócio-cultural? Segundo Roger Chartier:
Por um lado é preciso pensá-la como a análise do trabalho de representação, isto é, das classificações e das exclusões que constituem, na sua diferença radical, as configurações sociais e conceptuais próprias de um tempo ou de um espaço. [...] São estas demarcações, e os esquemas que as modelam, que constituem o objecto de uma história cultural levada a repensar completamente a relação tradicionalmente postulada entre o social, identificado com um real bem real, existindo por si próprio, e as representações, supostas como reflectindo-o ou dele se desviando. Por outro lado, esta história deve ser entendida como o estudo dos processos com os quais se constrói um sentido. Rompendo com a antiga ideia que dotava os textos e as obras de um sentido intrínseco, absoluto, único – o qual a crítica tinha a obrigação de identificar –, dirige-se às práticas que, pluralmente, contraditoriamente, dão significado ao mundo. Daí a caracterização das práticas discursivas como produtoras de ordenamento de afirmação de distâncias, de divisões; daí o reconhecimento das práticas de apropriação cultural como formas diferenciadas de interpretação. (CHARTIER, R. op. cit., p. 27s)

Reconstruir criticamente o sentido da construção, a difusão e a apropriação dos discursos que estabilizaram as representações que, ao longo do tempo e em diferentes lugares sociais, os israelitas fizeram de sua própria história é a nossa tarefa. A esta descrição da tarefa feita por Chartier, devemos acrescentar dois elementos, o primeiro proveniente de Ginzburg: a reconstrução dos processos de circularidade cultural (ou seja, os diálogos entre representações e discursos originários de diferentes situações culturais e sócio-políticas), mediante os quais as representações se transformaram em discursos históricos; o segundo, de E. Thompson: uma visão conflitiva do processo sócio-econômico, que pode ser resumida conceitualmente através do conceito de classe social: “a classe acontece quando alguns homens (sic), como resultado de experiências comuns (herdadas ou partilhadas), sentem e articulam a identidade de seus interesses entre si e contra outros homens (sic) cujos interesses diferem (e geralmente se opõem) dos seus. A experiência de classe é determinada, em grande medida, pelas relações de produção em que os homens (sic) nasceram – ou entraram involuntariamente. A consciência de classe é a forma como essas experiências são tratadas em termos culturais: encarnadas em tradições, sistemas de valores, idéias e formas institucionais” (THOMPSON, E. B. A formação da classe operária inglesa, I, 1987, p. 10).

3. Dispositivo metodológico sêmio-crítico

A definição da tarefa apresentada por Chartier, e acrescida dos conceitos de circularidade cultural e classe social, demanda a constituição de um método apropriado, pelo que acrescentamos a proposta metodológica de John B. Thompson que, embora não oriunda das ciências históricas, pode perfeitamente ser adaptada aos nossos propósitos de construir uma história sócio-cultural de Israel. Thompson (THOMPSON, J. B. Ideologia e cultura moderna. Teoria Social Crítica na era dos meios de comunicação de massa. Petrópolis: Vozes, 1995. As citações a seguir são todas extraídas desta obra.) desenvolveu um método ao qual chama de “Hermenêutica de Profundidade e Análise Sócio-Histórica”, que assim se constitui:

(1) Algumas condições hermenêuticas da investigação sócio-histórica

a. “o estudo das formas simbólicas é fundamentalmente e inevitavelmente um problema de compreensão e interpretação” (p. 357). O termo formas simbólicas corresponde ao termo representações na definição de Chartier;
b. “os sujeitos que constituem o campo sujeito-objeto são, como os próprios analistas sociais, sujeitos capazes de compreender, de refletir e de agir fundamentados nessa compreensão e reflexão” (p. 359);
c. “os sujeitos que constituem parte do mundo social estão sempre inseridos em tradições históricas” (p. 360).

(2) O referencial metodológico da hermenêutica de profundidade
a. “a hermenêutica da vida quotidiana é um ponto de partida primordial e inevitável do enfoque da Hermenêutica de Profundidade. [...] o enfoque da Hermenêutica de Profundidade deve se basear, o quanto possível, sobre uma elucidação das maneiras como as formas simbólicas são interpretadas e compreendidas pelas pessoas que as produzem e as recebem no decurso de suas vidas quotidianas” (363);
b. Este nível da análise, porém, pode ser enganador e gerar uma compreensão inadequada da realidade social. “Para evitar esse perigo, devemos fazer o que eu descreveria como uma ruptura metodológica com a hermenêutica da vida quotidiana” (364);
c. “a Hermenêutica de Profundidade é um referencial metodológico amplo que compreende três fases ou procedimentos principais ... não tanto como estágios separados de um método seqüencial, mas antes como dimensões analiticamente distintas de um processo interpretativo complexo: (a) hermenêutica da vida cotidiana; (b) hermenêutica da profundidade; e (c) interpretação.

O primeiro nível do método da hermenêutica da profundidade corresponde, grosso modo, ao momento pragmático da constituição da história na teoria de J. Rüsen, enquanto os demais correspondem à passagem da visão pragmática à científica da história. (Ver sua obra já citada, Razão histórica. Teoria da história: os fundamentos da ciência histórica. Brasília: Editora UnB, 2001, capítulos 2 e 3.) Estes três momentos metodológicos nortearão a nossa reconstrução da história de Israel a partir da Escritura Hebraica. Para cada período da história de Israel, começaremos nosso estudo pela compreensão da doxa das tradições israelitas relativas ao período; seguida pela análise sócio-histórica do período; passaremos à análise semiótico-discursiva dos textos bíblicos e demais fontes relevantes com vistas à reconstrução das relações sociais, normas, valores e instituições; e, finalmente, estabeleceremos nossa síntese interpretativa, que inclui a crítica ideológica das tradições.

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