Uma janela sobre o mundo bíblico

Escola Bíblica



  • Estudo
  • 7364
  • 27/05/2005
Luzia Ribeiro Furtado

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1. ABRINDO A PORTA E ENTRANDO NO MUNDO DA BÍBLIA

Introdução

Estamos iniciando uma nova experiência de estudo bíblico: “a Escola bíblica para jovens”, num momento da história em que somos desafiados a dar “as razões de nossa esperança” no diálogo aberto com irmãos e irmãs de outras denominações cristãs e até mesmos de outras religiões e crenças.
O caminho que nos propomos é exigente e só podemos percorrê-lo se estivermos convencidos que “por trás das palavras” há um Deus que fala, que chama, que age... Para entrar na Bíblia somos chamados a algumas atitudes fundamentais: atenção e paciência, para que possamos ir percebendo como o texto lido vai nos falando sempre algo novo...
Deus escreveu dois livros para nós. O primeiro é a vida, a criação, os fatos. O livro da vida deveria ser transparente, mas nem sempre é, por isso Deus inspirou a humanidade a escrever o segundo livro: a Bíblia - para nos ajudar a entender o primeiro, a vida, e a descobrir nela os apelos de Deus.
Para Santo Agostinho a Bíblia existe para nós:
v Para ajudar-nos a decifrar a vida,
v Para devolver-nos olhos certos,
v Para revelar os apelos de Deus na vida.

1. Cinco mandamentos da leitura bíblica:
1. Ler, ler, ler e ler a Bíblia
2. Escutar a Palavra de Deus
3. Ler em comunidade
4. Assumir o saber como serviço
5. Ler nas entrelinhas o contexto, a motivação, a vivência do autor

2. Tomando a Bíblia nas mãos – leitura de Lucas 24,13-35

O “caminho de Emaús” que vamos ler neste nosso encontro nos apresenta um método de leitura bíblica que chamamos “lectio divina”, ou “leitura orante da Bíblia” que vamos vivenciar em todos os nossos encontros.

1º passo: partir da realidade – Jesus se apresenta e caminha com os discípulos. Ele pergunta: “O que é que vocês estão conversando pelo caminho?” Esta pergunta hoje também vai nos ajudar a entrar na Bíblia... Qual é a realidade de onde estamos lendo a Bíblia em nossa escola bíblica?

2o passo: leitura - ler/estudar a própria Bíblia – Jesus convida os discípulos a fazer uma caminhada pela memória do povo trazida pela Bíblia passando por Moisés, os Profetas e os Escritos.
Neste encontro de Jesus com os discípulos podemos contemplar o eixo que atravessa a história da salvação: A ALIANÇA que Jesus com sua vida, morte e ressurreição renova e propõe aos discípulos e a nós hoje.
A pergunta chave deste passo é : O QUE DIZ O TEXTO?

3º passo: meditação - o confronto com a Palavra vai aquecendo o coração, vai envolvendo os discípulos, vai criando uma relação entre eles e Jesus. É o momento de perguntar: O QUE O TEXTO DIZ PARA NÓS?

4º passo: oração e vivência comunitária da fé na Ressurreição – a conversa de Jesus com os discípulos termina numa celebração. A Bíblia só não basta! Aquilo que realmente abre os olhos e faz reconhecer a presença de Cristo na vida é a celebração. A leitura orante deve nos levar a responder a Deus que chama celebrando com a comunidade a comunhão que Ele propõe. A pergunta chave neste passo é “O que o texto me faz dizer a Deus?”

5o passo: contemplação – “reconhecer Cristo caminhando conosco hoje” – toda leitura bíblica deve nos levar a ver a realidade com os olhos de Deus, ou seja, reconhecer seu Filho Jesus no companheiro que caminha ao nosso lado, na Palavra de Deus contida na Bíblica e na vida e na partilha do pão.

2. Pontos importantes para conhecer a Bíblia

A . Em que língua a Bíblia foi escrita?

A Bíblia foi escrita originalmente em três línguas: hebraico, grego e aramaico. O novo testamento foi escrito todo em língua grega. Hoje, quando lemos as traduções devemos prestar bem atenção ao sentido da frase original.

B. Quando a Bíblia foi escrita?

A Bíblia não foi escrita de uma só vez. Os primeiros livros foram escritos mais ou menos 1250 anos antes de Jesus; os últimos mais ou menos 100 anos depois de Jesus. O tempo em que a Bíblia foi escrita é só uma pequena parte da grande história do povo de Deus.
Uma boa parte dos livros da Bíblia foram escritos no cativeiro, quando o povo foi levado para longe de sua terra. O cativeiro começou no ano 587 antes de Cristo.

C. Onde a Bíblia foi escrita?

Este livro, que chega até nós hoje, foi escrito em diferentes lugares: Palestina, Babilônia, Egito, Ásia Menor, Grécia, Itália... para chegar até nós a Bíblia teve que ser transmitida e traduzida porque aqueles lugares estão muito longe e lá se falava línguas diferentes. A Igreja cuida muito que a Palavra chegue nas mãos do povo numa tradução fiel. Traduzir fielmente significa manter o sentido verdadeiro do texto original, e isso nem sempre é trabalho fácil. A Bíblia já foi traduzida para mais de mil línguas diferentes, tornando-se assim verdadeiramente o livro da humanidade.

D. Quem escreveu a Bíblia?

Não foi uma única pessoa que escreveu a Bíblia. Muita gente deu sua contribuição e todos estavam unidos pela mesma preocupação: construir um povo irmão, onde reinasse a fé e a justiça, o amor e a fraternidade e tudo isso só é possível na medida em que age o Espírito de Deus, por isso é que se diz que todos os que escreveram a Bíblia foram inspirados por Deus e é nesse sentido que podemos dizer que ela é Palavra de Deus. O caminho dos fatos narrados na Bíblia é este: eles foram vividos, transmitidos oralmente, escritos e copiados... até chegarem em nossas mãos.

E. Qual o conteúdo da Bíblia

A mensagem central da Bíblia é o nome de Deus! Essa mensagem vai sendo transmitida ao longo da caminhada de um povo que sai da lama para ir até Deus. Ele mesmo diz a seu povo: “Eu quero ser Javé para vocês e vocês devem ser meu povo!”
A Bíblia é uma carta de amor de Deus para com a humanidade e foi escrita para manter o povo na caminhada contando seu passado, anunciando seu futuro e dando-lhe olhos para ver o presente com uma nova luz.

2. A FORMAÇÃO DO POVO DE DEUS

INTRODUÇÃO

Em nosso último encontro dizíamos que é importante ler a Bíblia para descobrir a presença misteriosa de Deus na vida. Os textos sagrados são uma reflexão de fé sobre a vida, sobre a presença de Deus nos acontecimentos.
Hoje, vamos refletir sobre a origem e a formação do povo de Israel e nosso ponto de partida será o livro do Êxodo, Juizes e Josué, mas não podemos nos restringir ao que eles dizem pois a formação destes livros levou muito tempo, ou seja, os fatos aconteceram mais ou menos nos anos 1200-1000 antes de Cristo, mas só foram definitivamente escritos pelos anos 400 antes de Cristo depois do exílio da Babilônia.

O livro do Êxodo

A organização em forma de tribos em Israel foi uma experiência sem igual e exemplar para o povo de Israel. Não é por acaso que o êxodo, isto é, a luta por vida em terra livre, motivada pela fé no Deus libertador, seja o eixo fundamental de toda a Bíblia. A experiência do êxodo também está na origem da formação das tribos.
O livro do êxodo é como se fosse uma corda invisível que sustenta todos os outros livros da Bíblia. O “Êxodo” é o acontecimento que gera o povo de Deus!
O livro do Êxodo é uma releitura ao longo da história da experiência fundamental que deu identidade ao povo de Deus. Ele foi sendo escrito aos poucos, em etapas:

A) Primeira etapa : saída do Egito (+- 1250 a. C.) – Ex. 3,1-15 ;14,1-31

O acontecimento principal é a saída ou fuga dos escravos hebreus, sob a liderança de Moisés, Aarão e Miriam. Deus se revela como Javé, o Deus libertador e, em meio a grandes prodígios, liberta o povo para fazer com ele uma aliança.

B) Segunda etapa: a luta pela terra ( +- 1200-1000 ª C.) - Ex. 18,13-27; Js 24)

Depois de uma longa e difícil peregrinação, os escravos que fugiram do Egito chegaram à terra prometida, organizaram-se de uma maneira nova, formando uma associação de tribos e clãs, num projeto novo de justiça, igualdade e fraternidade.

C) Terceira etapa: identidade nacional (+- 1000-930 a.C.) – Ex 20—23; Jz 9,1-4

A invasão dos filisteus e o enriquecimento interno de alguns grandes proprietários abriram caminho para o surgimento da monarquia, mas apesar disso, a memória dos camponeses oprimidos pela monarquia ficou preservada nos Mandamentos e no Código da aliança. Esta memória da antiga época tribal servirá de apoio para as denúncias proféticas ao longo do tempo dos reis.

D) Quarta etapa: esperança no exílio ( 597-538 a. C.) – Is 40-55

O povo enfrentou a sua mais grave crise, ao ser levado para o Exílio, e escravizado pelo império babilônico. A terra ficou destruída, Jerusalém e o templo foram reduzidos a ruínas. Na angústia do cativeiro, o êxodo é um acontecimento cuja lembrança enche-o de esperança e consolo. Assim como Javé os tirou do Egito, também vai tirá-los da Babilônia. O povo voltará para a terra prometida e reconstruirá tudo. Importa não desanimar!

E) Quinta etapa: redação final ( +- 400 a.C.)

O livro do Êxodo recebe sua redação definitiva no final do século V a. C. É a época da dominação dos Persas. Esdras, o escriba, está reorganizando o povo, e o faz a partir da observância da lei. Por isso, o livro do êxodo vem inserido num conjunto de cinco livros chamados Pentateuco.
Assim surgiu o livro do Êxodo tal como o conhecemos hoje reunindo em si toda a caminhada de lutas, a libertação, as leis e os mandamentos, os poemas de vitória, as normas para o culto et..
No entanto, apesar do livro do Êxodo estar pronto, o “processo de êxodo” não terminou...

F) Sexta etapa: ressurreição: um povo novo ( 33 d.C.)

Jesus realiza o último e definitivo êxodo: passa da morte para a vida. As comunidades cristãs surgidas após a ressurreição de Jesus passaram a ler e interpretar o livro do Êxodo à luz da fé em Jesus Cristo, morto e ressuscitado, novo Cordeiro Pascal. Pelo batismo, vivemos também nós o nosso êxodo. Jesus nos dá uma nova lei, nos alimenta com o novo maná. A Páscoa de Jesus Cristo sela definitivamente a Aliança e abre passagem para o novo povo de Deus.

G) Sétima etapa: América latina: Povo de Deus em busca da libertação:

Nós como povo de Deus, vivemos hoje o mesmo processo de êxodo. Nossas comunidades sentem que o êxodo, antigo e novo, serve de estímulo e força na caminhada. Buscamos formar um povo novo, libertado, que construa um mundo mais justo e fraterno. Esta etapa ainda não terminou! Todos somos chamados a percorrê-la...

LEITURA ORANTE DO ÊXODO

Textos de referência:

Grupo 1:Exodo 2,1-3,15 – chamado de Moisés
Grupo 2: Êxodo 12,1-14.21-28 – Páscoa: o povo de Deus celebra a libertação
Grupo 3: Êxodo 17,1-7 – as dificuldades da caminhada: a tentação da dúvida
Grupo 4: Êxodo 20,1-17 – os dez mandamentos: “Tuas palavras são uma lâmpada em meu caminho”
Grupo 5: Êxodo 32,1-24 – o bezerro de ouro: manipulação da imagem de Deus

1º passo: PARA AJUDAR NA LEITURA:

§ De que maneira você divide esse texto e quais os assuntos de cada parte?
§ Quais os principais personagens em cada divisão e o que cada um faz?
§ De que maneira transparece no texto a situação econômica, social e política do povo?

2º passo: PARA AJUDAR NA MEDITAÇÃO:

§ Qual a mensagem deste texto para nós hoje?
§ Como o texto nos ajuda a vivenciar a experiência de “êxodo” vivida pelo povo de Deus em nossa realidade hoje?

3º passo: PARA AJUDAR NA ORAÇÃO

§ Como descobrimos e como respondemos hoje aos apelos que Deus nos faz neste texto?
§ O que este texto nos faz dizer a Ele?
§ Escolher um salmo que expressa nossa oração de louvor pela ação libertadora de Deus na história.

4º passo: PARA AJUDAR NA CONTEMPLAÇÃO

§ Elaborar uma frase que resuma o encontro para levar para a vida.


O livro de Josué

O livro de Josué é o sexto livro da Sagrada Escritura. Constitui o início dos livros históricos que a Bíblia hebraica chama “Profetas Anteriores ( Josué, Juizes, Samuel e reis), para diferenciá-los dos “Profetas Posteriores”( Isaías, Jeremias, Ezequiel, etc..).
É um livro difícil de se interpretar e para ser melhor compreendido é útil saber distinguir as etapas pelas quais passou desde o seu início até sua redação final: os fatos, a memória e os escritos.

A) Os fatos

O livro começa com a missão de Josué e termina com sua morte. Descreve a entrada do povo na terra da Palestina, ocorrida por volta de 1250 a. C. e a repartição da terra entre as doze tribos realizada por Josué.
É difícil reconstruir os fatos segundo a leitura de Josué porque este livro foi escrito 500 anos mais tarde com uma preocupação mais teológica do que histórica. Não pretendia narrar os fatos ocorridos tal como hoje concebemos a história. Há várias teorias que procuram explicar como se deu, historicamente a ocupação da Palestina pelo povo de Israel no tempo de Josué e dos Juizes. Entre elas três são as principais:

I. A ocupação ocorreu de maneira violenta, através de três ou quatro campanhas relâmpago militares, lideradas por Josué. Esta teoria é a que interpreta o livro de Josué ao pé da letra, sem fazer nenhum esforço de crítica literária às fontes.
II. A ocupação aconteceu de maneira pacífica, através de uma lenta e progressiva infiltração e imigração de tribos seminômades em vida de sedentarização. Ela se fundamenta numa análise mais crítica daqueles textos bíblicos, segundo os quais a ocupação da terra não se realizou de um momento para o outro.
III. A ocupação aconteceu de maneira parcial, só nos planaltos centrais da Palestina, anteriormente despovoados e agora ocupados pelos camponeses e pastores que ali se refugiaram e se reorganizaram para poder resistir contra a exploração imposta a eles pelos Reis de Canaã. Esta terceira teoria é a mais recente, da Segunda metade deste século e parece ser a que melhor explica, combina e respeita os dados todos, tanto da Bíblica como da história universal e da arqueologia.

B) A memória

A memória dos fatos se realiza de maneira especial nas celebrações comunitárias. Elas são feitas ao redor de um círculo de pedras ou nos centros de peregrinação espalhados por todo o país.
As assembléias comunitárias convocadas e coordenadas por Josué, especialmente a de Siquém (Js 24,1-28), são a mais completa memória dos grandes feitos do povo de Israel no tempo de Josué.
O livro de Josué e de Juizes, têm um mesmo esquema dinâmico para apresentar ao povo o forte apelo a não desistir da luta contra a religião cananéia e seu sistema de exploração e de opressão. O esquema é este: o povo esquece a lei e a aliança; cai na idolatria; a conseqüência é a desorganização, o domínio estrangeiro, o castigo; o povo cai em si e grita a Deus com vontade de voltar a Ele; Deus escuta a prece, envia um libertador que enfrenta e derrota o inimigo; a volta da paz.

Leitura orante de Josué

Todos os grupos o mesmo texto: Josué 24,1-28

1º passo: para ajudar na LEITURA

- Estudo do texto:

1. O que o texto conta?
2. Quem conta? Como conta? Para quem conta?
3. Onde e em que ocasião conta?

- olhar para a situação do povo:

1. Qual a situação do povo nesse episódio?
2. Quais os períodos históricos lembrados por Josué? Quais são esquecidos? Porque são esquecidos?
3. De que maneira Josué exerce sua autoridade diante do povo reunido?
4. O que ele pretende ao despertar a memória do povo?

2o passo: para ajudar na MEDITAÇÃO

1. De que maneira essa memória feita por Josué animava a caminhada do povo naquela época?
2. Esse processo de recuperação da memória ficou preservado naquela pedra, erguida como um marco por Josué. Qual a pedra da sua história pessoal que serve de alerta para sua caminhada hoje? E qual a pedra de alerta para a PJ – Diocese de Duque de Caxias?
3. Recuperar a memória para atualizar a Aliança. O que tudo isso nos ensina hoje? E o que exige de nós hoje?

3o passo: para ajudar na ORAÇÃO

1. O que este texto lhe faz dizer a Deus? Escolher uma pedra e escrever junto a ela os fatos significativos da memória de sua história e trazer para o momento celebrativo.
2. Expressar em forma de compromisso seu desejo de renovar a aliança com Javé e com seus povo em Jesus Cristo.
3. Rezar o salmo 44(43) – sem memória não há fidelidade!

4o passo: para ajudar na CONTEMPLAÇÃO

Elaborar uma frase que resuma esta experiência para levar para a vida.

O livro dos Juizes

Na época dos Juizes, 200 anos de formação do povo, as tribos renasceram e começara a lembrar o seu passado, e a contá-lo. Na maneira de contar a história dos antepassados, expressavam a esperança que os animava no presente. O livro dos Juizes se refere à situação dos israelitas na Palestina; fala do tempo de Israel pré-monárquico: de uma vida de luta pela sobrevivência diante das ameaças internas e externas.
A mensagem teológica do texto se concretiza em cada um dos doze juizes. Os juizes são líderes carismáticos, cuja função principal era salvar ou libertar Israel. Eles aparecem como heróis tribais que, movidos pela sua fé em Javé, lideravam os movimentos de libertação nacional/tribal.

História da formação do livro dos juizes.

1. Os fatos:

No início do século XIII a . C. , o Oriente Médio chegara a um equilíbrio de forças, organizadas em um triângulo geográfico: assírios, egípcios e hititas ( Ásia Menor). Mas sua decadência se acelerou na Segunda metade daquele século, quando duas grandes correntes migratórias, procedentes de polos opostos, se aproveitaram da fraqueza dos impérios para conquistar suas terras férteis.
Do Ocidente vieram os chamados” Povos do mar”. Entre eles estavam os filisteus, que esse estabeleceram ao longo da Costa de Canaã, ao sul do monte Carmelo.
Do Oriente vieram os diversos clãs nômades, genéricamente chamados de arameus. Os moabitas, amonitas, edomitas, madianitas e outros.
Em meio àquele enorme redemoinho, que provocou a derrubada dos impérios, Deus se fixa em um pequeno grupo oprimido e heterogêneo que vai instalar-se nessa passagem estreita, Canaã, região estratégica para os impérios.
O livro dos Juizes é um testemunho do choque destas ondas migratórias em Canaã: do deserto vêm os israelitas; do mar os Filisteus.

2. A memória

Os fatos heróicos do livro dos Juizes encontram-se enraizados em tradições muito antigas, talvez próximas do período dos fatos narrados.
Nesse livro, em forma de poemas épicos, celebram-se com regozijo popular as façanhas de seus grandes heróis. Elas eram parte do folclore em Israel, transmitido pela boca dos trovadores e, principalmente, por narrativas familiares.
No período posterior, seguramente antes da divisão dos reinos, estas narrativas começaram a ser agrupadas em blocos escritos com seleção dos heróis ligados a determinadas regiões. O objetivo das narrativas era exaltar o modo de ser e a história do começo daquele povo. E nisso entrava um componente teológico: era Javé que tudo fizera! Por isso procurava-se destacar a dificuldade de cada situação e evidenciar quão frágeis e inúteis eram os homens chamados por Deus a salvar o seu povo.
Alguns trechos do livro dos Juizes, como a base do canto de Débora, provavelmente são datados do tempo dos fatos narrados. O núcleo mais antigo é o que vai de Jz 3,15b a 12,15.

Leitura orante de JUIZES 4-5 – A figura da mulher na formação de Israel

O povo de Israel viveu muitos momentos de crise aguda que ameaçavam de extinção a sua vida. Nem sempre as lideranças oficialmente constituídas conseguiram assumir sua missão, nesses momentos, no tempo dos juizes. Numa dessas situações de dispersão e desânimo do povo, surge a figura de Débora. Ela exerce uma liderança decisiva como juíza e profetiza.
Também hoje vivemos crises agudas. Na América Latina, no mundo todo, desânimo, perda de esperança, descrédito dos movimentos populares. Vemos porém, a presença da mulher assumindo lideranças novas, organizando grupos e comunidades; sustentam, assim, a semente de esperança para o futuro.

Como percebemos a presença e a liderança da mulher em nossas comunidades? Que figuras femininas estão diante de nossos olhos nessa virada de milênio, a nível local, nacional, mundial?

1o passo: para ajudar na LEITURA:

Ver o texto de perto:

1. Qual é o conflito que o texto narra?
2. Qual é o papel de Débora e das outras mulheres em Juizes 5?

Olhar a situação do povo:

1. procurar analisar um pouco a situação histórica da época que transparece no texto.
2. Como se percebe a animação e a organização das tribos?

2º passo: para ajudar na MEDITAÇÃO

1. Que lições os israelitas daquele tempo tiraram destes fatos?
2. Conhecemos vitórias populares realizadas em nosso continente, em algumas circunstâncias parecidas às de Débora e Barac? Vamos conversar sobre elas.

3º passo: para ajudar na ORAÇÃO

1. Escrever em linguagem atual o cântico de Débora.
2. Trazer para a oração comunitária figuras femininas deste tempo que são para nós chamado de Deus assumir nossa missão libertadora na história.
3. Expressar em forma de compromisso, o desejo de fazer algo de concreto a partir da PJ na “reconstrução” de nosso país neste tempo novo em que se encontra.

4o passo: para ajudar na CONTEMPLAÇÃO

Batizar o grupo com um nome feminino que possa inspirar a ação e missão da PJ em nosso tempo na Igreja e na sociedade.




A FORMAÇÃO DO POVO DE DEUS – SÍNTESE DA REFLEXÃO

O PROJETO DAS TRIBOS E O PROJETO DOS REIS - QUADRO COMPARATIVO

Projeto egípcio e cananeu Seguido pelos Reis

A) Sociedade desigual , fundada no interesse particular e organizada à partir de cima: rei – funcionários – notáveis – soldados – camponeses e artesãos (Js 11-12)

B) Exploração da força de trabalho. A terra pertence ao rei e o povo é obrigado a trabalhar sob as duras condições impostas pelo rei, que se apropria do excedente da produção dos camponeses ( Ex. 5,1-18)

C) Poder centralizado no rei. O rei é dono de tudo e decide sobre tudo (1Sm 8,10-17)

D) Exército estável de mercenários. O rei mantém exércitos regulares, que lhe garantem a dominação e a repressão (1Sm 8,11-12)

E) As leis defendem os interesses do Rei. Graças ao seu poder, a palavra do rei é lei para o povo ( Ex. 1,8-10.22;5,6-9)

F) Vários deuses, manipulados e impostos pelo rei, a fim de legitimar e promover a exploração e a opressão: Baal, outros ( Js 24, 14-15).

G) Culto centralizado para celebrar mitos que legitimam o poder do rei. Poderoso meio de dominação, sujeito a um esquema rigoroso. Nada deve mudar ( 1Sm 5; 1Rs 11,1-8).

H) Sacerdotes- levitas a serviço do povo. Exercem uma liderança que não permite a acumulação de bens. Não podem Ter terras e vivem do seu trabalho, ao lado dos pobres e necessitados ( Nm. 18,20; 35,1-8; Dt 12,12.18-19; 14,27; Js 13,14). Mas não havia sacerdotizas.

Projeto tribal – sonho na ocupação da terra – Josué e Juizes

A) Sociedade igualitária, fundada no interesse comum e organizada a partir da base: família patriarcal – clã – tribo (Nm. 1,1--2,2,34).


B) autonomia produtiva. A terra pertence ao povo e é distribuída entre as famílias ou grupos. Proíbe acumulação (Ex. 16) e celebra o ano jubilar e o ano sabático, para devolver a terra aos seus antigos donos (Lv. 25; Dt. 15, 1-18)

C) Poder participado. As decisões são tomadas pelos anciãos (chefes de família, de clã e de tribo). Grandes decisões são tomadas em assembléias do povo ( Ex. 18,13-27; N m 11,16-25; Js 24)

D) Exército ocasional improvisado. Para se defenderem, as tribos se reúnem e organizam suas forças para lutar contra o inimigo comum (Jz. 4,6-10)

E) As leis defendem a igualdade. Os mandamentos preservam a liberdade conquistada (Ex. 20, 2-17; Dt. 5,6-21)


F) Fé unicamente em YHWH, o Deus libertador que promove a liberdade e a vida através da fraternidade e da partilha ( Ex. 3,1-15; 22,20-26; Dt. 24,6-22).

G)Culto descentralizado para celebrar a vida e a história. Realizado nas famílias e depois nos santuários, celebra a presença e ação de Deus na vida ( Ex. 19,1-18; Dt. 26,1-11; Js 24,1-28; Jz 17)

H) Sacerdotes e sacertotizas a serviço do sistema. Os sacerdotes, ricos e donos de terra, são também os intermediários entro o povo e os deuses, colocando-se inteiramente a serviço do sistema ( Gn 47,20-22)



INTRODUÇÃO GERAL AO ESTUDO DO PROFETISMO – 1000 - 538 a.C.

l. O PROFETA NO ANTIGO TESTAMENTO – CARACTERÍSTICAS PRINCIPAIS

1. Os profetas da Bíblia não surgiram por acaso, eles viveram no tempo e no espaço, brotaram do chão, do chão sofrido e machucado dos pobres da terra. Eles apareceram nos momentos mais difíceis da história do povo da Bíblia, Quando foram surgindo a monarquia, os reis, a falsa religião a serviço do poder dominante. Profetas e reis são contemporâneos, mas inimigos declarados.

2. A fé em JAVÉ é a primeira referência para o profeta, no começo da monarquia esta fé o levava a dar um apoio crítico aos reis, quando a Monarquia se desviou criando um sistema contrário à ALIANÇA, a profecia se torna força crítica diante do poder chamando o povo à fidelidade à aliança com Javé.

A experiência de Javé, Deus do povo, cria no profeta três sentimentos:
- a certeza da presença de Deus na HISTÓRIA
- o despertar da memória crítica e afetiva do povo
- a fidelidade à Aliança

3. O mergulho na realidade do povo é a segunda referência para o profeta, esse mergulho acontece em três experiências concretas:
- a experiência do pecado em confronto com a santidade de Deus
- a experiência de um povo que quebra a Aliança com Javé e o manifesta no abandono aos órfãos, aos estrangeiros e à viúva.
- O apelo dos pobres – a existência de empobrecidos no meio do povo era um apelo à viver melhor a Aliança que tinha como fundamento o respeito a vida e ao pobre.

4. A missão profética: Anunciar e Denunciar
A partir da experiência vivida pelo profeta ele anuncia o amor de Deus e apela à conversão e denuncia o mal e a infidelidade do povo.

5. Os profetas vistos no seu conjunto têm em comum três linhas de ação:
- O caminho da JUSTIÇA –mudança da sociedade e transformação de estruturas injustas.
- O caminho da SOLIDARIEDADE – mudar o relacionamento entre as pessoas, renovar a comunidade.
- O caminho da MÍSTICA – mudar o modo de pensar, recriar a consciência

Esses três caminhos são muito unidos entre si, um não pode ser percorrido sem o outro, e são a chave da leitura para o estudo dos profetas para quem quer viver o profetismo hoje.

OS PROFETAS DO SÉCULO VIII E A SITUAÇÃO DO POVO

O século VIII a . C. foi a época de ouro do profetismo. Nesse período houve um salto de qualidade na profecia. Elias atacou mais os abusos da monarquia. Os profetas deste século atacavam não somente os abusos, e sim o próprio sistema, a própria estrutura da monarquia.
A monarquia, o Estado tributário era o vômito de Javé (Os 13,11)! Javé queria a destruição do palácio opressor, da monarquia, e em lugar do palácio plantar uva para a alegria do povo da terra (Mq 1,6; 3,12). Nesse século houve uma grande virada no cenário internacional e nacional.
Na primeira metade do século (800-750 a . C.) havia uma política expansionista (2Rs 14,22.25). Todos queriam se expandir par cobrar pesados tributos nas regiões conquistadas, para vender seus produtos e para controlar melhor as rotas comerciais e militares.
Nessa onda expansionista surgiu uma nova classe rica: os comerciantes. Havia muito comércio nacional e internacional. Havia muitos produtos circulando. Quem pagava esse “milagre econômico” eram os camponeses roubados e espoliados. Havia um empobrecimento generalizado nas aldeias do interior. A cidade, o comércio exploravam o campo, usando para isso o exército, a religião e a máquina do Estado. Amós, por exemplo, é o lavrador que foi para a capital e encontrou no mercado seus companheiros camponeses, explorados de várias maneiras pelos comerciantes. A sua denúncia é o grito dos camponeses roubados e espoliados ( Amós 8,4-8). O lugar social em que eles viveram foi o berço da profecia.
Na Segunda metade do século se consolidou uma nova potência mundial: a Assíria. Os exércitos assírios provocaram instabilidade entre os países menores do Oriente Médio. Houve muitas guerras, muitas mortes, muitos saques nas roças dos camponeses. Aumentou deseperadoramente o número de órfãos e viúvas. Muitos homens morreram nas guerras ou em conseqüência das guerras.
Em 721 a . C. os exércitos assírios conquistaram e anexaram ao império deles o reino de Israel, lá do norte. Israel desapareceu do mapa. Também o reino de Judá foi atacado pelos exércitos assírios. A capital Jerusalém conseguiu sobreviver “ como choça na vinha” (Is 1,8), mas o interior de Judá ficou arrasado. Milhares de pessoas foram mortas ou deportadas para a Assíria.
Surgiram movimentos populares de resistência. É no meio dessa resistência que apareceu o escrito do Deuteronômio capítulos 12 a 26, como uma bandeira de luta do movimento popular liderado pelos levitas do inteiror. Era chamado forte a uma fidelidade renovada a Javé, o Deus libertador da escravidão do Egito, o Deus da vida e da liberdade.
Os profetas era iniciadores ou porta-vozes desses movimentos de resistência. Amós e Oséias atuaram no reino do norte. Isaías e Miqueias no reino do sul, Judá. Amós profetizou de um a dois anos, em torno de 760 a . C. , Oséias atuou de 755 a 720 a . C. Isaias atuou em Jerusalém , capital de Judá, de 740 a 701 . c. E Miquéias profetizou de 725 a 701 a . C. As datas são aproximativas.
Amós, Oséias e Miqueias tomaram a defesa dos lavradores explorados e empobrecidos por duros impostos e humilhados pelas elites dominantes. Isaias tomou a defesa dos órfãos e das viúvas das periferias de Jerulasém. Isaías é o caso raro de uma pessoa de alta sociedade que rompe com ela e passa para o lado dos pobres da cidade e do interior.

LEITURA E REFLEXÃO DE TEXTOS

GRUPO 1 – ENTREVISTA COM AMÓS

1. Amós, quem és e como nasceu em ti a vocação de profeta? (Am 1,1;7,14-15)
2. Como era a situação econômica, social e política do teu tempo? (2,6-10;5,11-12; 8,4-6)
3. Como foi a tua atuação? ( 8,4-11)
4. Segundo você, quem eram os responsáveis pela situação que o povo estava vivendo?(6,1-8)
5. Como era a religião oficial do teu tempo? (4,4-5;5,21-27)
6. Qual a solução que tu apontaste? (5,4-6.14-15.24)

GRUPO 2 – ENTREVISTA COM OSÉIAS

1. Oséias, conta um pouco de tua vida . (Os 1,1-8;3,1-13; 2,4-7).
2. Como era a situação no teu tempo? 4,1-2;5,11;7,3-7)
3. É verdade que tu falavas tanto de prostituição? O que querias dizer com isso (2,7-15;4,11-16;5,1-4)
4. Como foi a tua atguação? (4,1-6;5,1-4; 6,8.11-13)
5. Quem era o Deus em que acreditaste tanto? (2,17;12,10; 11,1-11)
6. Qual tua maior esperança e o recado que queres deixar para nós? (2, 16-25;6,1-6)

GRUPO 3 – ENTREVISTA COM ISAIAS

1. Isaias, conta um pouco de tuas origens. É verdade que eras da classe alta? Como foi que despertaste para a vocação de profeta? (1,1; 6,1-6)
2. Como era a situação no teu temnpo e como foi tua atuação? (1,21-24;3,12-15;3,16-24)
3. Como foi tua posição diante da religião oficial (1,10-17)
4. Tu falavas de um futuro melhor. Que tipo de futuro? E quem iria construir esse futuro? (11,1-11)
5. Qual a mensagem que queres deixar para nós? ( 1,18-20; 12,1-6; 29,18-20; 30,18-27))

GRUPO 4 – ENTREVISTA COM MIQUÉIAS

1. De onde és, qual a tua profissão e em que época foste profeta? (1,1)
2. Havia guerras no teu tempo (1,2-16) . Como era a situação do povo? ( 2,1-9;3,1-4)
3. Qual é tua impressão sobre os falsos profetas e o templo? (3,5-12)
4. Qual a saída que apontaste? (4,6-8;5,14)
5. Quem era o povo de Deus? (2,1-3; 2,8-10; 4,6-8)
6. Qual a mensagem que queres deixar para nós? (6,8)

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