Uma janela sobre o mundo bíblico

A Autoridade e a Profecia. Uma Leitura do Início da Monarquia em Israel



  • Estudo
  • 5909
  • 30/05/2005
Luiz da Rosa

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Esse ensaio visa defender que o relato sobre a instituição da monarquia em Israel, em 1Sm 8 – 12, é uma releitura da história idealizada imediatamente após o exílio do povo judeu em Babilônia, caracterizada por forte ideologia profética. A história bíblica da monarquia ensina que a profecia é o vínculo que liga a autoridade aos princípios divinos. Sem ela, o rei esquece o seu papel de representante do divino e centra a sua ação nos próprios interesses. A pena é o exílio, que denuncia a falência dos homens de Israel, sobretudo do rei, em instaurar uma sociedade baseada na Lei dada por YHWH.


1. História e Historiografia
Costumamos chamar de ‘Livros Históricos’ os textos bíblicos a partir de Josué até 2 Macabeus. Não nos damos conta de que tal nomenclatura pode limitar a interpretação dos textos que compõem esses livros. De fato, quando falamos de livros históricos, pensamos em obras literárias que narram, com objetividade, fatos de um passado distante, que o autor quis imortalizar através da escrita. Excluímos, então, outros gêneros literários, tais como a profecia e a poesia e suas eventuais tendências sociais e religiosas. O estudo crítico dessa seção bíblica tem mostrado porém que os livros históricos transmitem textos onde não existe o rigor histórico moderno. Estão muito mais preocupados com a transmissão de determinadas ideologias, às vezes sacerdotais, às vezes proféticas e às vezes ligadas à realeza.
O povo transmitia as façanhas de Israel sobretudo de forma oral, dinâmica. Nesse processo de transmissão, cada geração relia os fatos acontecidos inserindo elementos inerentes a sua atual realidade vital. Por isso, quanto à inauguração da monarquia, pode ter existido uma tradição oral que sublimasse a figura de Saul e também outra que dissesse ser ele indigno do cargo de monarca. Apenas em época recente se decidiu colocar tudo por escrito. E quem o fez tinha em mente um objetivo preciso: reler toda a tradição histórica ancorado em determinado ponto de vista.
Além disso, o conceito moderno de autor também não serve para a determinação desse ponto de vista mencionado. Não podemos falar de livro pronto, mandado ao prelo. Não existiam edições de duas mil cópias, impossíveis de serem uniformemente emendadas. Existia provavelmente uma cópia, guardada com cuidado, a qual uma geração sucessiva podia tranqüilamente acrescentar correções e revisões que cresse necessárias e justas. O resultado final é um livro, às vezes incoerente, que esconde a dinâmica religiosa e social do povo de Israel, que acredita em YHWH que se revela na história.
A história do início da monarquia é um texto propício para desvelar quão complexa é a obra histórica de Israel. Em 1Sm 8, os chefes do povo pedem a Samuel um rei. O cap. 9 anuncia então como Saul é ungido por Samuel príncipe de Israel, depois de andar procurando as mulas perdidas de seu pai Cis. Mas o leitor se surpreende quando, a partir de 1Sm 10,17, lê uma outra história sobre a eleição de Saul, dessa vez escolhido diante de Samuel por meio da sorte. A trama se complica depois, pois em 1Sm 11,15 se fala duma ulterior escolha de Saul como rei, dessa vez inclusive sem a presença de Samuel.
O leitor, crendo-se inteligente, perguntaria qual das três histórias é a verdadeira.(1) Essa interrogação, todavia, ignora certos princípios hermenêuticos. Um escritor não pode escrever a história dum movimento que inicia hoje. Deve esperar que ele se desenvolva, apresente suas conseqüências e se constitua uma realidade. Por isso, toda narração sobre o início duma instituição será sempre uma leitura a posteriori dos fatos, uma releitura. Como implicação não existe, historicamente falando, um fato em si, mas testemunhos escritos ou orais desse fato. As obras literárias de cunho histórico não têm apenas a influência intrínseca do acontecimento, mas dependem também das pessoas que procuram transmiti-las, das seqüelas que um fato histórico exerce sobre a pessoa que escreve. Experimente-se ler a narração sobre as ditaduras na América Latina escrita por um militar, e a mesma escrita por um dos perseguidos. O fato objetivo é o mesmo, mas as obras literárias teriam diferentes contextos, e poderiam inclusive resultar contraditórias, embora falem do mesmo evento.
A história do início da monarquia pode, portanto, conter interpretações que transcendem a origem propriamente dita do novo sistema de governo. Diante do texto bíblico, devemos ter a consciência de estarmos sendo confrontados com arranjos literários que pretendem contar um evento histórico transmitindo uma mensagem fortemente influenciada por uma ideologia. Talvez nenhuma das três tradições presentes em 1Sm 9 – 11 queira originalmente explicar a designação de Saul, mas tente ver o início da monarquia como falta de fé em YHWH, apresente as dificuldades de união entre as tribos, ou testemunhe o descontentamento com a autoridade dos juízes. Todas essas visões são recolhidas por alguém que, vivendo em determinado Sitz im Leben, procura transmitir a sua compreensão do que os seus antepassados viveram e, ao mesmo tempo, jogar luz no futuro da caminhada do seu povo.


2. Quem escreveu 1Sm 8 – 12?
Entre os exegetas, existe certo acordo sobre a natureza da composição atual de 1Sm 8 – 12. Trata-se dum texto que usa diferentes tradições, que podem ser escritas ou orais. A dificuldade, no entanto, é descobrir quem resolveu colocar tudo isso junto e fazer determinados e decisivos acréscimos. Um exemplo poderia ilustrar nossa dissertação sobre a questão do autor. Ultimamente, no Brasil, foi realizado um trabalho cinematográfico focalizando duas correntes existentes na Igreja Católica: uma influenciada pela TdL, e a outra representada pelos carismáticos. O autor usou depoimentos de representantes de ambas as ideologias. Mas entre uma testemunho e outra colocou pequenos comentários e imagens que não nos permitem dizer que se trata duma visão objetiva do argumento, mas sim dum juízo tendencioso. Até mesmo a forma de estruturar o filme, mostrando certas atitudes incoerentes dos representantes do setor conservador em contraposição ao modo de ser simpático do grupo da TdL, influencia o compreensão final do trabalho por parte do expectador. Assim também fez o autor/redator(2) do atual texto que conta o início da monarquia: acolheu diferentes visões sobre o início do novo sistema de governo, mas organizou essas idéias de forma tendenciosa.
O parágrafo acima sugere uma atitude de fundo diante da questão do autor, contudo não responde à pergunta sobre o autor e as eventuais fontes usadas na composição do texto atual. Procurando solucionar o problema, Julius Wellhausen, que influenciou, durante tanto tempo, os estudos sobre o Pentateuco, defendeu a existência de duas fontes, uma a favor da monarquia (1Sm 9,1-10.16; 11,1-11; 13 – 15), e outra contrária (1Sm 7,3-17; 8; 10,17-27; 11,12-14; 12). A fonte originária seria aquela que mostra simpatia pelo sistema de governo monárquico, enquanto a segunda teria sido inventada por um autor durante o tempo do exílio em Babilônia. Mas por que unir duas fontes contraditórias? A investigação sucessiva é influenciada por Martin Noth, que procura exatamente sublinhar a unidade da obra histórica. Afirma que uma única pessoa contou toda a história de Israel, iniciando com o livro do Deuteronômio, uma introdução que condiciona toda a história de Israel, e terminando em 2Rs 25,30. Noth chamou esse grande trabalho literário de História Deuteronomística (HD) (3).
A tese de Noth é até hoje aprovada por muitos. Tem a vantagem de enfatizar a unidade da obra. Mas, ao mesmo tempo, peca por dar pouca importância às fontes que serviram como base para essa composição e a seus contextos. (4) Por isso, alguns exegetas descartaram a unidade pensada por Noth, e se propuseram dividir a História de Israel em diferentes redações. O comentário de Dietrich, Nakanose e Orofino é influenciado por essa corrente exegética.(5) As teses dessa escola têm em comum a defesa de diversas redações que culminaram na obra atual. As redações, dependendo do exegeta considerado, podem ter sido realizadas em duas ocasiões ou até mesmo em nove. A idéia mais seguida é a defendida pela escola alemã de Göttingen. Diz existirem três redações, todas realizadas em tempos do exílio em Babilônia, que formam o atual texto da história de Israel. Esse grupo de exegetas parte da constatação que, quando o tema na narração histórica é a monarquia, convivem juntos dois pareceres: em certos momentos, existe um forte “sim” a ela, mas em outros um decisivo “não”. Timo Veijola, então, afirma que o primeiro redator, que ele chama DtrH (Historiker) e teria escrito em 580 a.C., não tinha nenhum preconceito contra o sistema de governo dos reis. Também o segundo redator (DtrP = Prophetischer) não critica a monarquia. Apenas enfatiza a figura do profeta, que se apresenta como o mediador entre um povo que peca e um Deus severo. O terceiro e último redator (DtrN = Nomisticher), que trabalhou em 560 a.C., é o que deu o tom negativo à monarquia.
A hipótese da escola alemã contém um erro de prospectiva. Quando lemos a Bíblia, não abandonamos nossa concepção literária moderna, e até mesmo alguns cientistas procedem assim. Para nós, é fácil imaginar que cada momento da vida moderna seja gravado sobre o papel. As facilidades tecnológicas hodiernas não podem, porém, ser transportadas ao passado. Temos de estabelecer divisões entre passado e presente. Hoje, podemos ter várias obras literárias que, num arco de poucos anos, emitem juízos críticos diversos sobre um mesmo presidente, por exemplo. Símile produção literária não existia no tempo da composição da História de Israel. Hoje, questiona-se até mesmo a existência de obras literárias que circulavam no século VI a.C. Portanto não é plausível que uma obra tão grande quanto a História do povo de Deus fosse reescrita a cada dez anos, como querem os espertos de Göttingen. De outra parte, é muito provável que as mudanças de opiniões fossem comuns, e se tornassem conhecidas porque transmitidas oralmente. Ao mesmo tempo, deve-se supor que cada região tinha sua própria opinião. Com toda a certeza, um habitante do norte, da Samaria, não teria a mesma opinião de alguém do sul, de Judá, quando o assunto era a monarquia. É presumível que a crítica à monarquia venha do norte ou, ao menos, nasça primeiro lá, pois naquela região, já em 721 a.C., concretizou-se o seu desastre (2Rs 17), ao passo que no sul só vai acontecer em 587 a.C. (2Rs 25).
A busca desenfreada por indícios de diferentes redações provocou uma leitura em sentido contrário, em moda hoje em dia: a leitura literária. Essa pesquisa é sincrônica, concentrando-se sobre o texto final. Pergunta-se sobre o que quis o autor dizer, e não importa muito quem ele é. Esses críticos retêm que a desintegração do texto, em fontes e redações, tem impedido o próprio texto de falar; vêem a necessidade de ler o texto tal como se apresenta, independente da gênese literária. Quando analisam os textos do início da monarquia em Israel, sustentam que as diferentes visões sobre a monarquia, presentes no texto, testemunham a tensão natural que provoca a passagem dum sistema de governo a outro. Julgam que o autor pretende, com a sua narração, determinar a função do rei como submissa a YHWH, que é representado pelo profeta.
A leitura literária deve ser louvada porque chamou a atenção ao valor do texto bíblico atual. Mas é patente a necessidade de ler a Bíblia com a atitude típica do clássico método histórico-crítico. Na prática, a conclusão é que o estudo bíblico deve acolher as conclusões aportadas pela pesquisa histórico-crítica, mas ao mesmo tempo é necessário estudar os princípios adotados pelos últimos redatores dos textos, que deram à pericope a sua forma final.
Ainda não demos uma resposta sobre o autor da narrativa do início da monarquia. Na verdade, a questão permanecerá aberta, pois uma afirmação nesse campo é apenas uma hipótese. Temos nossa sugestão. Acreditamos que o autor usou uma velha tradição sobre Samuel, com fortes características conservadoras, marcada por grande estima das instituições tribais (cf. 1Sm 10,17-27). Essa tradição teria origem junto a movimentos proféticos, provavelmente no Reino do Norte. O autor/redator teria utilizado tal tradição porque útil ao seu objetivo de valorizar a figura profética e colocar o rei no seu justo lugar.(6) Com toda a certeza, o autor/redator tem ligações com essa tradição ou, ao menos, se identifica com ela. Ao mesmo tempo, existem nos textos elementos de uma tradição sobre Saul, que o considera herói, e defende, por conseqüência, a instituição monárquica (cf. 1Sm 9,1-10; 11,1-11). O autor/redator resolveu recontar a história de Israel, aproveitando todas essas histórias populares, organizando-as de tal modo que pudessem tornar-se expressão do seu entendimento. A sua própria idéia aparece sobretudo na moldura em que insere a história da monarquia, os capítulos 8 e 12 de 1Samuel.
O autor/redator procura, antes de mais nada, definir o que significa a decisão do povo de ter um rei. O povo pede um rei, como aliás é prescrito pela Lei (Dt 17,18). Não agradou a Samuel (1Sm 8,6). Certamente, o descontentamento de Samuel não é só capricho pessoal,(7) mas testemunha os perigos intrínsecos que a pergunta encerra, especialmente os da falta de confiança em YHWH (1Sm 8,7; 12,12) e conseqüente idolatria (1Sm 8,8). O desacordo de Samuel, com quem cremos identificar-se o autor/redator, é transmitido através de elementos particulares que caracterizam os dois personagens centrais, o próprio Samuel e Saul. O narrador apresenta Saul como o “pedido” – SHauL (cf. 1Sm 8,10; 12,13.17.19).(8) De Samuel, lê-se em 1Sm 1,27-28: “É por esse menino que eu então rezei, e YHWH atendeu o meu pedido (SHeLati) que lhe propus (SHaaLti). Por minha vez, eu o cedo (hiSHeiLtihu) a YHWH. Enquanto ele viver, seja entregue (SHauL) a YHWH.” O texto portanto mostra que tanto Samuel quanto Saul são fruto de um pedido (SHaL) feito a Deus. Saul é pedido em momento de falta de confiança em YHWH, quando tudo estava em paz (cf. 1Sm 7,13-14), e dado ao povo. Samuel, invés, é pedido em momento de desespero, para aplacar a vergonha de Ana, sua mãe. Mas ela não o retém a si, e o entrega ao serviço de Deus. Os dois são autoridades em Israel: o último juiz e o primeiro rei. O que está em jogo, portanto, é o poder, a autoridade. No caso de Saul, o texto revela que falta obediência a YHWH. No caso de Samuel, o leitor se simpatiza com ele exatamente por causa da sua ligação e obediência à voz de YHWH, porque ele è fruto dum pedido sincero e enraizado na fé em Deus.
O contexto temporal que leva o autor a organizar a atual história bíblica, na nossa opinião, é a possibilidade de restauração da monarquia, depois que o rei judeu Joaquin, em exílio, é anistiado por Merodac (2Rs 25,27-30). A sucessiva liberdade dada por Babilônia a Israel, de organizar a própria vida, deve ter levado setores críticos da sociedade a uma discussão sobre o papel do rei e de YHWH na vida futura de Israel.(9) Parece que ele quer ler o passado como expressão da desobediência ao justo equilíbrio de forças na sociedade. Em termos de futuro, quer suscitar um novo Israel, que não repita o mesmo desacerto que conduziu à invasão e deportação. A monarquia causou um desequilíbrio social e religioso que conduziu YHWH à vingança. O autor exprime esse juízo na frase que encerra sua narração do início da monarquia: “Se praticardes o mal, tanto vós como vosso rei, sereis exterminados” (1Sm 12,25). É uma profecia ex eventu. Israel já vivenciou isso; trata-se de um fait accompli. Israel, porém, pode voltar a ser castigado se não for fiel à Lei. Saul torna-se protótipo, pois exatamente sua falta de fidelidade à Lei o leva a ser rejeitado por YHWH.(10)
É lógico que o texto propõe a monarquia em chave negativa. Tal conclusão pode ser tirada considerando o contexto imediato no qual é inserido o texto da inauguração da monarquia. 1Sm 7 conta como Samuel, escolhido por Deus como seu profeta em 1Sm 3, consegue afastar de Israel a grande ameaça, os filisteus. E reina a paz (1Sm 7,14). Portanto, ao fim da leitura do capítulo 7 de 1Samuel, ficamos contentes com o desempenho de Samuel. E exatamente nesse ponto da narrativa vem inserido o pedido dos anciãos: “Queremos um rei”. Não era o momento para tal pedido. Desde o início da conquista da Terra Prometida, YHWH mostrou-se capaz de combater ao lado do povo escolhido e derrotar todo inimigo que aparecesse. Quando precisava, suscitava líderes, e estes davam conta do recado. O povo confiou sempre nisso. Pedir um rei, por outro lado, seria falta de confiança. O verdadeiro rei è YHWH (1Sm 8,7; 12,12). Apesar disso, o atual autor/redator sabe que existiu a época dos reis e não pode deixar de narrá-la. Aproveitará, como já dissemos, histórias da época, que o povo contava de roda em roda. Mas as colocará em uma moldura (1Sm 8; 12), que não deixa sombra de dúvidas sobre a interpretação que faz do período monárquico. Quem tem o controle da história é YHWH. O rei deverá obedecer a Ele, que é representado pelo profeta. O rei escolhido pelo povo só existirá enquanto submisso a esse princípio. A obediência a tal estruturação significa condição para a vida nova e segura depois do exílio (1Sm 12,14-15.24-25). Para vigiar a execução desse princípio moral e religioso, intervém a figura do profeta. De agora em diante garantirá a prioridade da realeza divina sobre a terrena.
Muitos exegetas não aceitam datação assim tardia para a História Deuteronomística. Sugerem, ao invés, que a obra literária, que temos hoje na Bíblia, seja fruto de uma escola que protagonizou, em Judá, uma reforma política e religiosa, antes do exílio. O contexto é dos séculos VIII e VII. A Assíria domina o ambiente político do Médio Oriente, e com Teglat-Falasar III (747-727a.C.) impõe tributos a Israel e Judá. Os conchavos do rei Oséias, de Israel, com o Egito, contra os dominadores, fez com que os assírios destruíssem Samaria e deportassem seus habitantes (1Rs 17). Judá, governada por Acaz, Ezequias, Manassés e Amon, paga tributo aos assírios, e por isso se mantém em relativa paz com os dominadores. A decadência dos assírios, que perderão Nínive em 612, cria, porém, força e coragem no Reino de Judá. Nasce a vontade de liberdade e nova vida religiosa. Sobretudo os reinos de Acaz e Manassés, trouxeram para Jerusalém práticas religiosas assírias, entristecendo principalmente a classe profética e a sacerdotal.(11) A necessidade urgente e imediata era acabar com os tantos santuários espalhados pelo interior do território, não controlados, e cheios de elementos cultuais de influência cananéia. Precisava igualmente eliminar o influxo assírio no culto de Jerusalém. Josias (640-609 a.C.) é o rei da reforma. Jeremias, Naum e Sofonias profetizam nesse tempo. Depois da morte de Josias, lutando contra os Egípcios (2Rs 22 – 23), Judá não consegue libertar-se e é invadido, em 597 a.C., por Nabucodonosor, rei da Babilônia, império que tomou o lugar dos assírios. A revolta de Sedecias (2Rs 24,17 – 25,7) provoca a destruição definitiva de Jerusalém (587/586 aC) e a última deportação (2Rs 25,8-26).
O ambiente da reforma de Josias estabeleceu, muito provavelmente, os parâmetros da religião jawhwista. Toda a obra literária sucessiva será influenciada por essa reforma. É contraditório, todavia, colocar a crítica à monarquia num ambiente como este. Josias é o rei bom. Por conseguinte deve ser bom também o sistema de governo que ele lidera. Só depois de algum tempo a situação muda, e tudo que Judá experimentou deve ser questionado, exceto a potência de YHWH. Se os profetas contemporâneos foram partidários da reforma, não podem ter duvidado da natureza do poder do rei que estava a sua frente.
Portanto, acreditamos que os textos do início da monarquia, sobretudo 1Sm 8 e 12, não vêm do período de Josias, mas são posteriores, depois da experiência amarga do exílio em Babilônia.


3. A Necessidade da Profecia
Toda sociedade sente falta de pessoas inspiradas, com índole profética. Ai duma época que não conhece intérpretes do passado, juízes do presente e anunciadores do futuro. Precisamos de gente com coragem de denunciar, na situação concreta em que vivemos, a nossa distância da lei divina; homens e mulheres que saibam ler o passado e jogar luz para o futuro. Precisamos de alguém que tenha coragem de gritar que o rei toma tudo: os filhos, os frutos de nosso trabalho, a nossa identidade (cf. 1Sm 8,11-18). Quem faz isso na Bíblia é o profeta.
A presença do profeta em Israel é definida no Código Deuteronômico, onde são definidas as 4 figuras que compõem as instituições do povo eleito: o juiz (Dt 16,18 – 17,13), o rei (17,14-20), o sacerdote (18,1-8) e o profeta (18,9-21). A passagem sobre o profeta é o clímax da seção. Essas perícopes estão entre as leis que normalizam a relação do homem com Deus (Dt 12 – 16) e as que determinam as relações humanas e sociais. A centralidade da profecia é evidente. Além do mais, os exegetas defendem que, em particular a lei sobre o profeta tem redação provavelmente deuteronomística, ao menos do tempo do exílio, senão sucessiva. Portanto, seria contemporânea ao texto final sobre início da monarquia. Se o livro do Deuteronômio é introdução à História de Israel, pode ser que essa lei tenha sido colocada aqui para ser aplicada na leitura histórica que o autor faz no decorrer da narração.
Na História Deuteronomística, o profeta é um personagem importante. Pode-se dizer que estamos diante duma historiografia profética. Em âmbito largo, evidencia-se pelo papel que o profeta desempenha: unge Saul (1Sm 9 – 11), informa que o trono não lhe pertence mais (1Sm 13; 15), unge Davi (1Sm 16); determina quem construirá o templo (2Sam 7) e repreende o monarca (2Sam 11 – 12). O que determina, todavia, o caráter profético é sobretudo a sua índole: a história bíblica, falamos aqui especialmente do início da monarquia, não tem como primeiro intuito a informação de dados, mas visa suscitar adesão do povo à compreensão da história como manifestação de YHWH, do seu poder, que liberta em continuação o povo. O poder autônomo dos reis contrasta com o papel da divindade. Por isso, não nos impressiona o conflito entre profetas e rei. Na corte de Davi, teremos um Natã que tenta manter o equilíbrio entre os aspectos seculares e religiosos da identidade de Israel. Em Elias, a crítica ao rei é mais evidente. Os reis ameaçam destruir a identidade de Israel acolhendo o culto sírio-fenício, mas Elias mantém sua fé em YHWH. A história da vinha de Nabot, in 1Rs 21, também é significativa. A ação de Acab simboliza todos os erros que a instituição monárquica cometeu; os princípios de justiça são trocados pela ganância do proveito pessoal. Elias, o profeta, não pode calar! O profeta Oséias também não poupa críticas à atitude que está por trás da monarquia: “Instituíram reis sem meu consentimento, nomearam chefes, mas sem eu saber” (8,4); “Dou-te um rei na minha cólera e o retomo em meu furor” (13,10).(12)


5. Quem são os Profetas?
Em 1Sm 9,9, temos um esclarecimento que nos permite introduzir a temática: “O que hoje em dia se chama profeta, outrora se chamava vidente”. Não é o nosso objetivo apresentar um tratado sobre a história da profecia, mas dessa possível glosa podemos afirmar que, num primeiro momento, o profeta em Israel era o vidente, aquele que praticava adivinhações e profetizava de acordo com sonhos. Eram geralmente associados com divindades e demônios. Com a monarquia, houve desenvolvimento do conceito e o profeta passou a ser chamado de nabi, traduzido em grego como profeta, aquele que anuncia a vontade de Deus através da palavra. Mas os adivinhos não cessaram de existir. Na Bíblia encontramos muitos exemplos de disputa entre os clássicos profetas e os adivinhos (Is 28,7; Jr 23,25-28). Esses textos e outros confrontos servem de base teológica e moral para mostrar falsidade dos videntes e a veracidade dos profetas clássicos, os anunciadores da mensagem de YHWH. Mas esse não é o critério para definir a natureza do profeta. Critério fundamental são as próprias palavras do homem que se apresenta como profeta: se aquilo que diz se verifica, então será considerado verdadeiro profeta. De fato, enuncia o Dt: “Se o profeta falar em nome de YHWH, e o que disse não acontecer nem se realizar, então é coisa que YHWH não disse” (18,22). Esse critério, todavia, não basta: o profeta pode prometer milagres e realizá-los, mas ser um falso profeta (cf. Dt 13,2-6). O critério suplementar e definitivo é a confiança em YHWH presente nas atitudes do profeta. Ele não pode induzir seu público a ir atrás de outros deuses, mas deve amar YHWH com todo o seu coração e com toda a sua alma (Dt 13,3-4).
O autor/redator atribui a Samuel os critérios todos de verdadeiro profeta: ele é chamado por Deus (1Sm 3,4ss); tudo o que diz se cumpre (1Sm 3,19); anuncia a Palavra (1Sm 4,1); defende a justiça social (1Sm 8,11-18); intercede pelo povo (1Sm 9,6.8.10); é homem de YHWH (1Sm 9,9.11.18-19), seu instrumento (1Sm 10,1ss) e proclamador de oráculos (1Sm 22-23.28). Mas é, sobretudo, fiel à Lei (1Sm 12,1-5).(13)
Depois do exílio, Israel vive situação religiosa especial. Nasce o judaísmo propriamente dito, com todas as suas legislações. A religião é tão organizada que se incorre no risco da falta de espaço para o questionamento, para o anúncio do profeta. A voz do enviado de Deus pode ser substituída pela voz do legalismo, do culto formal. Poder-se-ia falar de fim da profecia, baseando-se inclusive na própria Bíblia (Jr 23,34-40; Zc 13,2-6). Mas a profecia não pode terminar. O autor, para garantir sua continuação, a institucionaliza, conforme a palavra de Samuel: “Quanto ao que me toca, eu consideraria como pecado contra YHWH se deixasse de rezar por vós e de vos instruir sobre o caminho bom e correto” (1Sm 12,23).
O papel do profeta é garantido. Não só garantido: nasce uma instituição, mais importante na vida de Israel do que a própria monarquia. Os reis não podem existir, se ao lado não têm o profeta. E realmente a profecia acompanhará, de agora em diante, os fatos da vida da realeza: Samuel unge Davi (1Sam 16); Natã está ao lado de Davi (2Sam 7; 12) e tem papel importante na ascensão de Salomão (1Rs 1); a escolha de Jeroboão é conexa com o profeta Aías (1Rs 11,29ss); o homem de Deus chama a atenção de Jeroboão (1Rs 13). Também os profetas escritores intervêm na vida dos reis: Amós trama contra Jeroboão (7,10-11); Oséias anuncia a queda do reino de Israel (10,15); Jeremias revela que Sedecias será entregue ao rei de Babilônia (37,17). Todos os profetas manterão, mesmo que isso lhes custe condenação ou silêncio forçado, o poder sobre o rei.
A interferência necessária da profecia na vida do monarca aparece já nos episódios da vida de Saul. 1Sm 10 caracteriza profeticamente Samuel, que prediz a Saul o que lhe acontecerá. O narrador confirma: tudo o que Samuel anuncia de fato acontece (10,9). O próprio Saul assume o papel do profeta, provocando a pergunta do povo: “Também Saul é do número dos profetas?” (10,12). A pergunta, colocada pelo narrador na boca do povo, pode ter como escopo discutir a natureza própria do rei, tirando do seu reino uma suposta índole teocrática, que era comum ao rei no contexto daquela época. Acreditamos, contudo, que o objetivo principal dessa cena na narração é demonstrar que a força da profecia condiciona de tal modo o rei que não pode escapar dela. Saul, pois, não está entre os profetas, mas sob o domínio da profecia. Esta convicção é reforçada em 1Sm 19. Nessa perícope Saul torna a assumir o papel de profeta. Mas dessa vez claramente Samuel está diante dele (1Sm 19,18ss). 1Sm 28 mostra, ainda uma vez, como Saul não é profeta, mas depende dele, pois deve ir até à necromante para, através dela, saber do profeta Samuel o que YHWH lhe reserva.


Conclusão
No fim deste ensaio, cremos poder sustentar o seguinte: o autor/redator de 1Sm 8 –12 procura dizer a seu público, de volta do Exílio e iniciando vida nova, que a sociedade que quer ser perfeita no seguimento da vontade de Deus, deve confiar na palavra dos homens inspirados por Deus, os quais fundamentam seu anúncio numa conduta exemplar, e que sobretudo as estruturas da sociedade devem abrir espaço à presença dos preceitos divinos anunciados pela boca do profeta. A monarquia, e com ela toda forma de poder, não é intrinsecamente má, mas longe do princípio da regalidade divina se absolutiza e torna-se veículo de pecado, de opressão (1Sm 8,11ss). O perigo só se afasta se há acolhida da denúncia corajosa dos enviados de YHWH.
No momento da unção com o crisma, no rito batismal, se reconhece que o cristão tem dignidade real, sacerdotal e profética. Nos ministérios, todavia, a função profética não é desenvolvida, e só se usa, de forma metafórica, para definir pessoas carismáticas que têm uma novidade programática em seus discursos e ações. Nós, no fundo, pensamos o profeta como figura extravagante, do AT, antes do exílio, que faz gestos estranhos e provocantes e que tem opiniões contrárias às idéias tradicionais. Na nossa vida eclesial, acolhemos outras figuras do AT, mas o profeta foi colocado à margem. Contudo, em Pentecostes, o espírito da profecia foi derramado sobre o povo, e essa missão deveria ser sempre atual. Não basta substituir tal compromisso pela proclamação doutrinal, nem por conduta ética exemplar. Muitas vezes fazemos disso um álibi tranqüilizante, para esconder uma sociedade cheia de violência e estruturas injustas, contra as quais não temos forças para lutar. É hora de redescobrir a categoria bíblica do profeta para, antes de tudo, compreender o modo como Deus se revela na nossa história, e depois assumir a conseqüente responsabilidade.


Notas
1. Deveríamos, então, perguntar também qual é a verdade, a criação do homem conforme Gn 1,27 ou aquela contada em Gn 2,7; se Noé levou para a sua arca um casal de cada espécie (Gn 6,19) ou 7 casais dos animais puros e apenas um dos animais impuros (Gn 7,2); se a filha de Saul, Micol, teve 5 filhos (2Sm 21,8) ou nenhum (2Sm 6,23). Existem outras tantas incongruências desse tipo dentro do texto bíblico.
2. Preferimos chamar de ‘autor/redator’ porque assim vêm respeitadas seja a influência da última mão que organizou o texto, seja o valor das fontes usadas.
3. Existe um caos por causa das siglas. O projeto literário, hipotizado por Noth, em alemão é chamado “die deuteronomistiche Grundschrift” (DtrG). Usa-se também “der deuteronomistische Historiker” (DtrH). Dtr geralmente é usado para qualificar o autor/redator que elaborou a obra histórica, mas também os textos desse autor. A sigla D, ao invés, significa os textos que têm afinidades com as leis do livro do Deuteronômio (Dt). Excelente crítica à nomenclatura, ultimamente utilizada pelos exegetas, é feita por R. Coggins, “What does ‘Deuteronomistic’ Mean?”, in Those Elusive Deuteronomists. The Phenomenon of Pan-Deuteronomism, editado por L. S. Schearing, JSOTSupS 268, Sheffield 1999, 21-25.
4. É interessante sublinhar o contexto do autor alemão. Ele escreveu durante a Segunda Guerra Mundial. Noth pensa o Dtr como um autor que, depois da catástrofe da queda de Jerusalém, tranca-se no seu escritório, provavelmente na Palestina (Überlieferungsgeschichtliche Studien, 110), e faz um balanço pessimista da situação. Esse autor não teria compromisso com alguma instituição, nem estaria ligado a qualquer movimento. As motivações que o levaram a escrever são pessoais e restam desconhecidas. Isso tem muito a ver com Noth, que não está ligado a ninguém, e analisa de modo pessimista a sua situação contemporânea condicionada pelo nazismo.
5. Primeiro Livro de Samuel. Pedir um Rei foi nosso Maior Pecado, Petrópolis 1999. Eles sustêm a existência de cinco momentos redacionais compostos por uma “História Original” repetidamente relida (4 vezes: por escribas da corte, pelos profetas, pelos partidários de Josias, pelos exilados em Babilônia).
6. Do mesmo contexto seria a origem de frases anti-monárquicas em Os 8,4 (“Criaram reis que eu não designei; escolheram chefes sem eu saber”) e 13,11 (“Dei-te um rei na minha cólera”).
7. A leitura hodierna dá muita importância ao sentimento. São comuns, por exemplo, interpretações que sustentam que Samuel é um homem ferido no seu orgulho, porque deve ceder seu lugar de chefe de Israel a Saul (cf. M. Begin, “The Prophet Samuel and King Saul”, JBQ 80 [1992] 231). Essa hermenêutica tem a ver com a influência das experiências místicas medievais, onde a religião se tornou introspectiva. Na Bíblia, todavia, a religião tem nítida prospectiva externa e só raramente importa o caráter sentimental. As fontes da revelação não são sentimentos de indivíduos, mas acontecimentos do mundo externo. Deus se revela na história (cf. L. Alonso Schökel e J. L. Sicre Diaz, Profetas. Comentario I, Madrid 1987, 36-37).
8. A raiz etmologica do nome “Saul” é a mesma do verbo hebraico ‘pedir’ (shaal).
9. Voltando do exílio, é provável a existência de grupos que almejavam restabelecer a dinastia davídica. Tantos deportados eram ligados à corte e trinta anos de exílio não devem ter apagado os ideais monárquicos.
10. Dá até para ficar com pena de Saul. O seu pecado, para nós, é tão pequeno, sobretudo se comparado com os de Davi, e talvez até difícil de ser considerado como pecado: ele é condenado porque não matou o rei dos amalecitas, Agag, e porque preservou alguns animais dos vencidos, não para si mesmo, mas para oferecer em sacrifício a YHWH. Mas na visão do autor sagrado o pecado é grande: desobedeceu à lei estabelecida em Dt 7,2 e 20,15-17.
11. Certos exegetas vêem os representantes desses grupos em dois personagens: o Sumo Sacerdote Helcias, por quem a Lei é encontrada, na qual a Reforma se inpirará; e Hulda, a profetisa que é consultada sobre o conteúdo do livro (2Rs 22,8-20).
12. Nos anos noventa, alguns exegetas, entusiasmados com o movimento deuteronomístico, sugeriram a existência de intervenção redacional desse autor/redator também entre os livros proféticos. Criou-se um pan-deuteronomismo. É tese que ainda não se sustenta em nível redacional, porém existe, com toda a certeza, influência de idéias entre os autores dos livros. A crítica de Oséias poderia provar ulteriormente a nossa teoria de que o autor/redator de 1Sm 8 – 12 sofre influência dos profetas do Norte. Sobre o fenômeno do pan-deuteronomismo veja Those Elusive Deuteronomists. The Phenomenon of Pan-Deuteronomism, editado por L. S. Schearing e S. L. McKenzie, Sheffield 1999.
13. índole profética de Samuel é confirmada, em nível diacrônico, por outros textos que o tratam como verdadeiro profeta: 1Cr 9,22; 11,3; 26,28; 29,29; 2Cr 35,18; Jr 15,1; Sl 99,9.


Artigo publicado em 2001, em Vida Franciscana 75

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