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Plano para matar Jesus (Jo 11,47-53): Um conflito pela unidade.



  • Estudo
  • 8206
  • 03/04/2015
Bernardo Correa d’Almeida

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Introdução:
Ao longo dos anos, diversos têm sido os motivos de interesse no estudo do plano do sinédrio para matar Jesus – Jo 11,47-53. O nosso trabalho, sem excluir a relevância doutros estudos, tem a originalidade, partindo da investigação mais recente, de debruçar-se sobre o conflito pela unidade aí presente, expresso no confronto entre dois modos: de compreender Deus; de configurar a unidade do seu Povo; e de assegurar essa unidade.
O estudo parte do texto canónico – tendo por base o texto Novum Testamentum graece editado por E. Nestle – K. Aland e outros (Stuttgart 271993) – e do princípio que o Evangelho joanino é uma obra literária inserida no seu contexto histórico e com o objectivo de conduzir à fé e à sua confissão em Jesus Cristo, o Filho de Deus (20,31). Nesse sentido, começamos por apresentar o texto grego e a sua estrutura para depois de o analisarmos semanticamente situarmos o texto no seu contexto histórico, social e doutrinal.

Estrutura do Texto (João 11,47-53):
O texto está estruturado em três unidades narrativas, com uma introdução (v.47a) e uma conclusão (v.53). A primeira unidade apresenta o problema das autoridades religiosas (v.47bc) e suas prováveis consequências: acreditar de muitos (v.48ab), vinda dos romanos (v.48c) e perda do lugar e nação (v.48d).
A segunda unidade (vv.49-50), no seguimento do problema, descreve o dito de Caifás acerca da actividade de Jesus e a solução por ele apresentada. O sacerdote daquele ano (v.49a) critica os presentes pela incapacidade de compreender o problema (vv.49b-50a) e esclarece-os da utilidade política da morte de Jesus (v.50bc).
A terceira unidade, na sequência do dito de Caifás, forma o comentário do evangelista às palavras de Caifás (vv.51-52). O autor classifica o dito de Caifás como profecia (51a), apresenta o seu conteúdo e esclarece os seus beneficiários (51b-52a) descrevendo a consequência da própria profecia (52b). O texto conclui-se com decisão de matar Jesus (v.53).
Estas três unidades estão linearmente unidas por três acções decisivas que envolvem directamente Jesus: a realização de sinais (v.47), a eventualidade da sua morte (v.50) e o congregar na unidade (v.52). Uma progressão estrutural linear centrada na figura que se determina nas três unidades: este homem, um só homem, Jesus; o qual está em confronto com o sinédrio e Caifás e unido à dupla repetição do verbo reunir (v.47.52).

11,47-53: Plano para matar Jesus
11,47a Introdução: Sinédrio reúne-se
11,47b-48 Problema do sinédrio
11,47bc Apresentação do problema
11,48 Prováveis consequências
11,48ab Acreditar de muitos
11,48c Vinda dos romanos
11,48d Perda da posição e da nação
11,49-50 Dito de Caifás
11,49a Apresentação de Caifás
11,49b-50a Caifás critica o sinédrio
11,50bc Apreciação de Caifás sobre a utilidade da morte de Jesus
11,51-52 Comentário do evangelista
11,51a Anúncio da profecia de Caifás
11,51b-52a Necessidade da morte de Jesus
11,52b Reunir na unidade os filhos de Deus dispersos
11,53 Conclusão: decisão de matar Jesus

Análise semântica:
A perícope 11,47-53 é marcada pela significativa correspondência do verbo suna,gw: no início, referindo-se à acção de reunir do sinédrio (v.47); e, praticamente no final, descrevendo a acção de reunir de Jesus (v.52). Esta formulação semântica em torno da acção de reunir, incluindo a contraposição do seu significado, surge como motivo decisivo para a compreensão de 11,47-53.

O sentido do reunir-se do sinédrio:
O evangelista começa por apresentar os muitos sinais de Jesus como o motivo da reunião do sinédrio. A actividade de Jesus, especialmente a partir do último sinal realizado em Betânia, determina que os chefes dos sacerdotes e os fariseus se reunam em vista duma tomada de decisão por causa das consequências da actividade de Jesus.
As movimentações das autoridades religiosas para eliminarem Jesus, nomeadamente dos chefes dos sacerdotes, iniciam-se a partir do cap. 7. Embora o poderio dos chefes dos sacerdotes se devesse orientar para o culto e a sua função dirigente salvaguardar os interesses do povo, o evangelista é claro quanto às suas intenções: permitem o desvirtuar do templo (2,16); condenam inocentes (11,57; 12,10); e iludem o povo e as autoridades romanas com seus propósitos (18,35). Após a decisão do sinédrio assumem, isolada e inflexivelmente, a condução de Jesus à morte.
Unidos aos chefes dos sacerdotes, o evangelista apresenta-nos também os fariseus como promotores daquela reunião. Estes, desde a abertura do Evangelho, constituem a principal força que desacreditava Jesus e que colaborava com os chefes dos sacerdotes na perseguição a Jesus. Os fariseus, à excepção de Nicodemos e daqueles que por medo não confessam a sua fé, representam o conjunto das forças judaicas que se opõem à fé: acusam Jesus de pecador (9,24); ignoram a sua proveniência (9,29); e questionam-se como contrariar a sua acção (12,19). Jesus descreve-os como aqueles que julgam segundo critérios humanos e que desconhecem o Pai (8,13.19).
Assim, se para o evangelista os sinais de Jesus manifestam a glória de Jesus como possibilidade de abraçar a fé (pisteu,w + eivj + auvto,n) , para as autoridades que não o reconhecem e menosprezam (ou-toj o` a;nqrwpoj) tornam-se um problema: agem em reacção ao agir de Jesus (poiou/men – poiei/); são vários contra um (oi` avrcierei/j kai. oi` Farisai/oi – ou-toj o` a;nqrwpoj)È e procuraram uma solução por causa dos seus muitos sinais (ti, poiou/men – polla. shmei/a).
Este movimento de oposição das autoridades contra Jesus que começa por ser, no início do Evangelho, expressão de incompreensão das autoridades, e que se intensifica ao longo da acção evangélica, no momento decisivo da reunião do sinédrio manifesta-se como medo desses perderem o lugar e a nação (avrou/sin h`mw/n kai. to.n to,pon kai. to. e;qnoj).
Um esclarecimento do evangelista que nos elucida acerca das reais motivações do reunir-se do sinédrio: salvaguardar o seu lugar (to,poj), entendido politicamente como o posto de responsabilidade que ocupavam enquanto líderes políticos religiosos; e, unido a esse, preservar a jurisdição governativa sobre a nação judia (e;qnoj).
Assim, o valor semântico do reunir-se do sinédrio torna-se claro: as autoridades são os sujeitos e os interessados no reunir-se; motivados pela conveniência da auto-conservação do poder; servem-se da posição e nação como objectos; para condenarem Jesus; evitando, assim, a intervenção dos romanos. O seu primeiro interesse é manter o status de poder, mormente a posição e jurisdição de governo, que considerando-as como suas (avrou/sin h`mw/n) temiam perder nas mãos dos romanos por causa dos sinais de Jesus.
O modo como o evangelista constrói a intervenção de Caifás, um dos presentes e sumo sacerdote em funções (ei-j de, tij evx auvtw/n – avrciereu.j w'n tou/ evniautou/ evkei,nou), confirma o sentido do reunir-se das autoridades. Face à incerteza do sinédrio, Caifás na sua clarividência (~Umei/j ouvk oi;date ouvde,n( ouvde. logi,zesqe), prosseguindo a tonalidade política dos vv. anteriores, e atendendo apenas ao motivo da nação, explica-lhes do interesse político (sumfe,rei u`mi/n) da morte dum homem pelo povo (lao,j). Ou seja, Caifás prefere preservar as relações com os romanos, de modo a salvaguardar a sua posição de autoridade e o domínio sobre a nação, que permitir que Jesus continuasse a realizar sinais e chamar judeus à fé.
Ainda que Caifás pudesse ter avaliado os sinais de Jesus como dum falso profeta, intencionado em desviar os seus ouvintes de Deus e julgando-se ele mesmo Deus, o autor sublinha o motivo político que o moveu: preferível sacrificar uma pessoa que colocar em risco toda a nação. Estamos, pois, diante a um caso típico de Realpolitik, enfaticamente pronunciado por Caifás. Uma decisão especialmente significativa, no contexto do conflito entre as autoridades e Jesus, pois é determinada pelo sumo sacerdote – expressão máxima do poder hierarquico judaico –, único autorizado a tomar tais veredictos e, dum modo especial, a decretar a oferta do sacrifício substitutivo pelo povo no dia do Yom Kippur.
Desse modo as palavras de Caifás tornam-se centrais e paradigmáticas, pois além de confirmarem o caracter político da acção do sinédrio, possibilitam ao evangelista, nos vv.51-52, esclarecer o sentido teológico da morte de Jesus, o qual surge em contraste com as motivações políticas da reunião das autoridades judaicas expressas nos vv.47-50.


O sentido do reunir-se de Jesus:
No seguimento do dito de Caifás, o evangelista adverte que as palavras do sumo sacerdote não eram ditas por ele mesmo (tou/to de. avfV e`autou/ ouvk ei=pen( avlla....), mas enquanto sumo sacerdote em funções tinha profetizado que Jesus devia morrer. Dessa maneira, o autor confirma-nos não estarmos diante apenas duma questão política entre autoridades e Jesus, mas também duma realidade profética de desígnio divino necessário.
Este esclarecimento do evangelista evidencia a motivação do reunir de Jesus: a unidade dos filhos de Deus, aqueles que acreditam nele por geração divina e que se identificam pela força do amor de Deus. Mas o evangelista refere-se especificamente aos filhos de Deus dispersos, como a uma nova realidade de unidade, não oposta a e;qnoj (ouvc... mo,non avllV... kai,), nem equivalente a lao,j (v.50).
Ou seja, entre as palavras proféticas do sumo sacerdote e o comentário do evangelista, apesar duma certa continuidade [(ouvc... mo,non avllV... kai,) (e;qnoj → lao,j → ta. te,kna tou/ qeou)] destaca-se algo de novo, pois pela morte de Jesus não se restabelece propriamente uma nova nação (e;qnoj) ou um novo povo (lao,j), mas fundamentalmente abre-se a possibilidade, àqueles que acreditem em Jesus, de se tornarem filhos de Deus.
Este conjunto de alterações semânticas introduzidas pelo evangelista, e decorrentes do discurso de Caifás, ajudam-nos a compreender o valor semântico do reunir-se de Jesus: o próprio Jesus é o sujeito; morre em favor doutros (avpoqnh,|skein u`pe,r) – os filhos de Deus dispersos – para dar-lhes em vida a unidade.
Um sentido semântico entendido, à luz da actividade de Jesus, como um movimento universal de unidade fundado no amor do Pai e Filho, um dinamismo estrutural de relação entre aqueles que acreditam no Pai por Jesus e entre esses reciprocamente. Um dinamismo que não resulta dum castigo divino, duma lógica de eliminação, ou apenas duma oposição à dispersão, mas duma vida encarnada pela morte de Jesus, causa e segurança de unidade.
Assim se entende o sentido de sunaga,gh| eivj e[n como reunir numa única realidade, em conjunto, na unidade. O modo de ser uno do Pai e do Filho é oferecido aos filhos de Deus dispersos como vida a aceder nessa mesma unidade e de nela permanecer (eivj e[n). Os filhos de Deus, na medida em que já participam da comunhão do Pai e do Filho, assim configuram, como caminho e serviço (13,1ss), a unidade no lugar da comunidade. Um lugar que Jesus, pela sua morte, oferece aos que se dispõem acolhê-lo, como lugar de adoração, como o Filho na presença do Pai, e de nele permanecerem como morada.
Desse modo, o reunir na unidade os filhos de Deus dispersos não significa tanto uma continuação histórica e estrutural das realidades veterotestamentárias, como a dimensão escatológica cumprida e completada por Jesus, que é oferecida – como vida – aos que nele acreditam. A morte de Jesus inaugura uma nova realidade de unidade dada a todos aqueles que, independentemente da etnia, lugar e tempo, se dispõem a participar no dinamismo de vida de Jesus junto do Pai.
O evangelista conclui o texto assinalando que foi naquele dia que as autoridades decidiram matar Jesus. Esta decisão confirma a estrutura linear e o duplo dinamismo do texto, e permite-nos, seguindo as linhas de sentido do texto, desenharmos o seu quadrado semântico. Este organiza-se em torno aos dois sentidos de reunir presentes no texto, ambos centrados no entendimento da morte de Jesus, a partir da qual evidenciamos as seguintes implicações e contraposições semânticas:

Nação F. Deus
Conveniência Necessidade
Interesse Em favor
Posição Cruz

Reunir-se do sinédrio (si) Reunir-se de Jesus (outro)
Dispersão Unidade
Morte Vida
Condenação Salvação
Muitos Um

Análise do contexto histórico, sociológico e doutrinal:
A análise semântica possibilitou-nos avaliar as implicações e contraposições presentes no texto, entre as quais, os dois sentidos do reunir-se. Porém, esses dois modos de entender a morte de Jesus resultam dum complexo processo histórico, sociológico e doutrinal, importantes para a compreensão do relato. Por isso importa considerar as situações vitais que envolveram a sua composição: a decisão do sinédrio propriamente dita; as circunstâncias comunitárias que o mantiveram vivo; e as motivações que favoreceram a sua redacção final. Estas situações vitais evidenciam o evoluir dum conflito entre autoridades judaicas e Jesus / e seus seguidores expresso sobretudo: no modo de compreender Deus; no modelo de comunidade daí decorrente; e na maneira de preservar essa unidade comunitária.

A decisão do sinédrio:
A decisão do sinédrio representa o corolário dum conflito entre as autoridades judaicas e o próprio Jesus. Um confronto integrado num contexto sócio-religioso particular, marcado pelo permanente esforço no interior do Judaísmo, no seguimento do exílio, de reler a revelação de Deus e, consequentemente, de preservar a sua unidade. Um empenho que se expressou, durante os séculos IV-I a.C, em diversos modos de entender a relação com Deus e a configuração da unidade do Povo.
Não obstante o pluralismo das tendências religiosas e culturais no seio do Judaísmo prevaleciam laços de unidade que eram salvaguardados segundo as perspectivas dos principais grupos religiosos, entre os quais os sacerdotes e fariseus gozavam de maior influência garantindo a unidade e a defesa aos ataques que os colocassem em causa.
Os sacerdotes, por um lado, concebiam a revelação de Deus na conformidade da prática da Torah como pacto de Aliança. A partir do qual compreendiam a unidade do Povo no culto estruturado e organizado do templo como expressão concreta da especial relação de Deus com o seu Povo, visível e presente no santuário.
Os fariseus, por outro lado, compreendiam a sua relação com Deus na prática verdadeira e constante da Torah que iluminava todas as realidades quotidianas num esforço de santificação da vida no seio da sociedade. Desse empenho os fariseus concebiam a unidade dos seus membros vivendo separadamente de todas as formas de impureza e ilegalidade e das pessoas que as praticavam, formando uma comunidade sólida e fundada no conhecimento mútuo dos membros.
Estes modelos de entendimento de Deus e da unidade do povo, apesar das suas especificidades próprias, encontravam – como respostas de fidelidade à Torah – um sentido de universalidade intrínseco, o qual deveria ser preservado e promovido. Esse empenho de assegurar a convivência na diversidade no interior do Judaísmo era a principal missão do sinédrio, que procurava manter um status quo económico, social e político que salvaguardasse esse modelo de unidade, reprovando, se tal fosse necessário, movimentos populares e ensinamentos proféticos que o colocassem em causa.
Porém, além desses importantes motivos doutrinais, o templo transformara-se num importante centro de riqueza e prestígio, ou seja, um lugar propício à corrupção e à sustentação de interesses e posições de responsabilidade. Assim, se ao sinédrio, especialmente aos sacerdotes e ao sumo sacerdote, convinha a manutenção dum culto em obediência à Lei como critério de unidade do povo, ao mesmo tempo, interessava manter a sua posição e o status quo do templo. Neste cenário, Jesus surgia como um importante adversário, pois colocava em causa a posição daqueles que deviam proteger o culto e em risco o status quo.
Essa tensão tornou-se cada vez maior e mais visível, pois: o sinédrio, incapaz de reconhecer e aceitar Jesus, por um lado, ter-se-á apercebido do modo como ele se confrontava com a Torah, da sua atitude profética no templo, e da novidade da sua mensagem – mormente o anúncio do Reino de Deus e a sua pretensão messiânica; e Jesus, por outro lado, prosseguia fiel e confiadamente a sua missão até ao fim, sem sair do judaísmo, assumindo as consequências religiosas e políticas de se apresentar como a encarnação e templo de Deus. Neste crescente confronto doutrinal envolveram-se as conveniências religiosas e políticas das autoridades religiosas, interessadas em preservar o seu status e o aparato económico, político e social do templo.
Uma situação de conflito que no seio da ampla e complexa conjuntura daquele tempo – tensão entre Jesus e a elite urbana, entre a renovação do judaísmo e as autoridades romanas, entre a novidade de Jesus e o status quo estabelecido, entre o anúncio de Jesus e a sua incompreensão, e entre outros motivos – propiciou a condenação à morte de Jesus. Uma decisão de morte motivada pelas autoridades religiosas, que sem compreenderem Jesus, viram na sua eliminação um modo de assegurar a sua compreensão de Deus, preservar a unidade do seu povo e, ao mesmo tempo, defender o seu status e todo aparato em torno do templo como forma de auto-conservação do seu poder. Uma iniciativa contra aquele que se apresentou, no seio do Judaísmo, como Deus feito homem para oferecer ao homem a possibilidade de receber a vida de Deus e de nela encontrar a sua unidade.

Recordação do acontecimento na comunidade joanina:
A maioria dos estudiosos defende que um conflito – de dimensão local – entre os discípulos de Jesus e os responsáveis da sinagoga terá precedido a composição do Evangelho. Uma disputa entre dois movimentos, no seio da mesma comunidade judaica, que se auto-consideravam verdadeiros herdeiros e seguidores da lei de Moisés. Não obstante as controvérsias, estes judeus que acreditaram em Jesus como Senhor e Messias, inicialmente, conservavam a sua identidade judaica e continuavam a praticar a Torah e assim terão sido aceites na comunidade judaica local.
O conflito entre estes dois movimentos, fruto também da envolvência sociológica, política e teológica do primeiro século, foi-se agudizando e tomando formas concretas. Se, inicialmente, ambos conviviam no seio da mesma comunidade, beneficiando da tolerância da época, o desejo de ambos os movimentos encontrarem a sua identidade e salvaguardarem a sua unidade interna aumentou a distância entre eles.
O próprio evangelista acena algumas dessas controvérsias da sua comunidade com os judeus que exerciam o poder no interior da sinagoga judaica, formada por pequenas assembleias de piedade, conhecimento e compromisso. Os seus membros reuniam-se para aprofundar as promessas de Deus como base de renovação do judaísmo e definiam a sua identidade e dinâmica comunitária em torno da leitura, estudo e compromisso com a Torah. Filão de Alexandria testemunha essa reunião comunitária ao sábado para leitura e estudo da Torah em vista do aprofundamento do seu conhecimento e do aumento da piedade.
O modo e funcionamento de cada uma das sinagogas judaicas dependiam das condições sociais e culturais próprias do seu meio. Pois a vida na sinagoga era compreendida no seio do respectivo panorama local, onde serviam de guia para os seus membros e formavam os lugares onde a comunidade era atacada ou honrada, admitia ou excluía elementos.
Deste modo terão sido nos locais e momentos em que a comunidade judia se reunia que se desenvolveu o conflito entre os seus membros que acreditavam em Jesus e as autoridades da sinagoga que a ele se opuseram. Um conflito que certamente foi vivido entre judeus da comunidade que acreditavam em Jesus e seus familiares e amigos que não reconheceram Jesus. De tal modo que os judeus que acreditavam em Jesus começam progressivamente a construir a sua própria identidade, a desenvolver a sua teologia e assimilar dimensões comunitárias próprias. Um processo que culminou com a separação da comunidade joanina da sinagoga, passando aquela a reunir-se em casas próprias e em torno de Jesus.
Assim a comunidade joanina a partindo do seu próprio background – judeu, sincretista e helénico – construiu, em contraposição com a sinagoga e outras comunidades místicas e filosóficas, a comunidade que viria a ser, alcançando ela mesma a sua própria identidade. Uma comunidade que configura a sua unidade no Logos feito carne, não como expressão de sabedoria ou iluminação da Torah, nem sequer como experiência mística individual, mas identificado com Jesus, verdadeiramente homem que é um com Deus (1,1-3; 10,30; 17,11.21), e que possibilita aos que nele acreditam de alcançarem a vida de Deus, e nela permanecerem unidos na fidelidade do Espírito.
Deste modo a comunidade joanina no contexto do mundo judaico, nomeadamente na sua relação fundante e, depois, conflituosa com a sinagoga, insere-se – após a tentativa falhada, por diversos motivos, da universalização do Judaísmo – num movimento de unidade, que juntamente com aqueles que seguiam Jesus, torna-se uma força mobilizadora duma nova realidade comunitária aberta a todos aqueles que acreditavam em Jesus.

Redacção do acontecimento:
Os redactores dos evangelhos foram coleccionadores de histórias e autores inspirados que compuseram as suas obras com propósitos concretos. O de Jo é conduzir os seus leitores à confissão aberta e assumida da fé em Jesus como o Enviado do Pai. Esse fio condutor principal permite-nos compreender o modo como o evangelista, ao contactar com a tradição do processo de Jesus, inseriu-a no Evangelho.
O relato insere-se no movimento configurador da comunidade joanina decorrente do complexo processo de separação da sinagoga, a partir do qual o autor, segundo a sua perspectiva cristológica, interpreta teologicamente o processo de Jesus. O evangelista, separado da sinagoga, dirige-se aos que acreditam em Jesus, apropriando-se, por um lado, da herança judia e, por outro, formulando a sua própria teologia como resposta ao conflito com a sinagoga e modo de configurar a unidade da sua comunidade.
Nesse contexto, apresenta o Pai como o único e verdadeiro Deus, e Jesus, como o seu enviado (17,3) – que veio para oferecer ao homem a vida na relação com Deus (10,10). No desenlace do Evangelho, a decisão do sinédrio, como culminar da actividade pública de Jesus, torna claro essa presença de Jesus como dador de vida. No momento em que os seus opositores se reúnem para decidir a morte de Jesus, o autor confirma o papel salvífico da sua morte, pela qual se configura a unidade dos membros da sua comunidade.
Desse modo as autoridades religiosas, como figuras narrativas tipológicas, fundadas nos seus interesses, eliminam Jesus e perseguem a comunidade. Uma oposição construída à luz do Cristo joanino, o qual apresentado como Luz e Vida, encontra nas trevas e morte, especialmente associadas às autoridades religiosas, que não acreditam nem reconhecem Jesus, a principal força de oposição (8,12; 11,26; 12,34ss; 14,6ss).
Assim, através de 11,47-53, o evangelista, partindo da realidade e servindo-se contrapositivamente das autoridades, confirma Jesus como a encarnação de Deus, em quem se cumpre a verdade presente na Torah, não apenas como revelação de conhecimento, mas como auto-revelação de vida (1,1-18). Uma compreensão cristológica que configura a comunidade que, acolhendo a acção salvífica de Jesus, culminada na sua morte, é reunida na sua unidade. Uma unidade inclusiva, encarnada e oferecida a judeus e pagãos pela atracção da morte de Jesus.
Este dinamismo apresentado pelo evangelista, inserido no movimento daqueles que acreditam em Jesus (21,15-23), surge, no primeiro século da nossa era, como proposta de unidade comunitária que, atraída pela morte de Jesus, anuncia a todos os homens e mulheres, não obstante a sua diversidade, a vivência na comunhão.


Conclusão:
A compreensão semântica do plano do sinédrio para matar Jesus no seu contexto permite-nos apresentar algumas conclusões e caminhos em ordem ao aprofundamento do significado e alcance do processo de Jesus:

- o relato da decisão do sinédrio matar Jesus (Jo 11,47-53) compreende acontecimentos do tempo de Jesus, da comunidade e da experiência do autor durante a composição do texto;
- o processo de Jesus no sinédrio e o da comunidade joanina na sinagoga inserem-se num contexto histórico, sociológico e doutrinal concretos e com consequências determinantes em ambos os conflitos;
- as autoridades religiosas, mantendo a sua concepção de Deus e os seus modelos de unidade, não compreenderam a proposta de Jesus;
- a iniciativa das autoridades entregarem Jesus foi envolvida de interesses e conveniências para manter o seu status de poder;
- Jesus, na sua radicalidade amorosa, apresenta-se como a encarnação da Torah, o novo Templo, o Eu sou de Deus;
- Jesus, através da sua morte, oferece aos homens o acesso à vida de Deus e a possibilidade de se reunirem na unidade dele e do Pai;
- nem as autoridades, nem Jesus, nem a comunidade de Jo, pretenderam uma divisão entre si, nem sequer anunciaram que tal fosse devido.

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