Uma janela sobre o mundo bíblico

Mês da Bíblia com o Profeta Oséias



  • Estudo
  • 3353
  • 31/08/2005
Gilvander Moreira

Leia mais sobre Mês da Bíblia | Oséias


Setembro é mês da Bíblia. Dia 30 de setembro é dia de Jerônimo (342-420), o tradutor da Bíblia para o latim, a Vulgata. Jerônimo colocou a Bíblia na linguagem do povo, o latim. Em 2005, o livro do profeta Oséias foi o escolhido para iluminar nossa caminhada no mês da Bíblia. Bem-vindos/as à profecia de Oséias, o profeta das relações de amor e da anti-idolatria!

Oséias ouviu os sussurros de Javé que diz: “Eu vou, eu mesmo, persuadir o povo, conduzi-lo ao deserto e convencê-lo.” (Os 2,16). Intui que Javé grita forte: “Quero misericórdia; sacrifício, não!” (Os 6,6). A profecia atribuída a Oséias é composta de catorze capítulos, organizados em duas grandes unidades: 1a) Os 1-4; 2a) Os 5-14. O capítulo 4 parece ser o grande elo das duas partes, pois faz uma ligação entre o conteúdo de Os 1-3 e o de Os 5-14.

O quarto capítulo de Oséias versa sobre o cotidiano da colheita, com uma veemente crítica aos sacerdotes, já que eles representavam o estado. A idolatria justificava religiosamente as relações de opressão e exploração. A isso Oséias chamava de prostituição e de adultério. Eram freqüentes em Israel e afetavam as relações entre mulheres e homens dentro de casa. Em Os 4 temos uma profecia que denuncia a macro-opressão realizada pelos “sacerdotes”, e outra que põe o dedo na ferida da micro-opressão que acontece nas relações interpessoais, particularmente entre homem e mulher, entre adultos e crianças. O miúdo da vida (o cotidiano) e o macro da vida são as duas pernas presentes na profecia de Oséias, se entrecruzam no texto.
Para entendermos bem a profecia de Oséias, precisamos levar em consideração as implicações dos gêneros literários presentes no texto. Precisamos também não cair na armadilha da interpretação simplesmente alegórica, com base em polarizações como Javé-Israel, marido-mulher e fidelidade-infidelidade. Isso reduz tremendamente a realidade gritante que lateja por trás do texto. Por isso vamos navegar um pouco por algumas das profecias de Oséias, mas levando no coração as angústias das pessoas marginalizadas e excluídas e, particularmente, o clamor das mulheres, que resistem, apesar de tudo, frente à violência patriarcal e outros dos mais diversos matizes.

Os primeiros quatro capítulos focalizam o âmbito da casa e suas relações peculiares. Oséias, nos capítulos de 5 a 14, amplia o foco, detendo-se no mo(vi)mento promovido em várias instâncias do Estado monárquico (a corte do rei, seu exército, sacerdotes e funcionários). Isso nos mostra que a profecia de Oséias vai do miúdo da vida para o macro, do cotidiano para as questões globais, mas revelando a interdependência e o entrelaçamento das várias dimensões da vida humana e social. Oséias denuncia o poder opressor localizado nas grandes instituições, mas também desvenda a microfísica do poder: todas as relações interpessoais (sociais, etc) são permeadas de relações de poder. O poder não está localizado somente nas grandes instituições, mas está presente nas micro-relações. Estão permeadas de poder as relações homem-mulher, adulto-criança, professora-estudante, governante-governados, branco-negro, são-doente...

A profecia de Oséias revela para as pessoas, em particular, o que significa viver sob as guerras e alianças de Israel com o Império Assírio (cf. Os 5,13; 7,11; 8,9), em um ir e vir sem rumo que foi corroendo as forças da nação até chegar ao seu final (cf. Os 5,12; 7,9; 8,8). Isso sem falar da violência que rasgou ventres de mulheres grávidas (cf. Os 14,1) e tirou a vida de crianças de peito (cf. Os 9,11-14).

A biblista Tânia Mara, com fina sensibilidade e intuição feminista, nos diz que em Oséias “movimentos de corpos prostituídos abrem a profecia... movimentos de corpos em resistência atravessam a profecia... movimentos de corpos transgressores desafiam a leitura da profecia e proclamam novidades!” (cf. Os 1,2).

Prostituição, em Oséias, não é uma questão sexual-moral, mas uma questão de idolatria. Oséias não faz censura moral e muito menos é moralista. Não se refere a pessoas individualmente prostituídas, mas ao “país que foi prostituído”.

O livro de Oséias não qualifica Gomer como prostituta. Afirma, ao contrário, que a “nação se prostituiu” (Os 1,2). Assim, a ênfase recai sobre a nação, e não sobre Gomer. Muitas outras mulheres se encontravam em situação parecida. Oséias 4,14 menciona que as filhas se prostituíam e as noras praticavam adultério nos tempos da colheita. Mas faz bem precisar que a prostituição em Oséias é “um dado de realidade que atinge o corpo de homens, mulheres, crianças e lhes expropria a vida. Mais do que isto, é fundamental identificar que as crescentes críticas ao longo da profecia dirigem-se não às mulheres, mas aos sacerdotes, aos reis e aos príncipes (cf. Os 5,1-2.4...)” .

Segundo a profecia de Oséias, os sacerdotes são os grandes culpados. O povo da profecia de Oséias percebe que os sacerdotes haviam se transformado em assassinos e se comportavam como bandidos em emboscada (Os 5,9). O povo percebe a ilusão que é acreditar no Império Assírio como caminho de salvação (Os 14,4). O povo cai na real e consegue ver que os reis e príncipes são insensatos, mentirosos e se matam por disputas internas (cf. Os 7,1-7) e por disputas políticas externas (cf. Os 5,1-15; 7,8-16; 8,8-14; 10,6-15). Diante dessa dramática máfia religiosa e política, o povo, passando por um processo sofrido de conversão, conclui, voltando-se para o Deus Javé: “é em Ti que o órfão encontra misericórdia” (Os 14,4). A hipocrisia e o cinismo dos sacerdotes na condução do culto fazem o povo descobrir que o caminho para a libertação não passa pelos sacrifícios, mas pela misericórdia. A conclusão é: “Misericórdia, sim; sacrifício, não!” (Os 6,6).
A profecia de Oséias não tolera os pecados que estão desfigurando o povo. Quando ouvimos a palavra “pecado” quase automaticamente somos levados para o episódio bíblico da queda de Adão e Eva. Assim, fazemos uma separação entre pecado e história das sociedades. Fica parecendo que pecado é apenas uma ofensa a Deus, sem ter nenhuma relação com as relações humanas e históricas. Oséias ajuda-nos a perceber o “pecado” como vindo das entranhas das relações históricas.

Em Oséias transparece um Deus que é só Misericórdia. Oséias é radicalmente contra não somente os sacrifícios, mas contra todo e qualquer sacrificialismo. O desfecho da profecia de Oséias reconhece Deus como sendo só misericórdia. “Misericórdia quero; sacrifício, não.” (Os 6,6).

Hoje, de forma disfarçada, a indústria do sacrificialismo e da idolatria, denunciada com ira profética por Oséias, está funcionando a todo vapor em realidades tais como o agronegócio, a mineração depredadora, o neoliberalismo religioso e o neoliberalismo político.

3353 visitas



Comentários

Os comentários são possíveis somente através da sua conta em FaceBook