Uma janela sobre o mundo bíblico

As Línguas Bíblicas



  • Estudo
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  • 20/02/2006
Luiz da Rosa

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Os escritores bíblicos escreveram suas obras em 3 diferentes línguas: hebraico, grego e aramaico.

1. O hebraico

A idioma faz parte das línguas semíticas (Sem, filho de Noé) norte ocidentais, grupo ao qual pertencem também o ugarítico dos testos de Ras Shamra, o fenício, cananaico, moabitico da estela de Mesa e amonitico.

O alfatebo hebraico, que se desenvolveu a partir do fenício, consta de 22 letras consonânticas. Não existem vogais e os atuais sinais vocálicos presentes no hebraico bíblico que temos hoje foram acrescentados apenas entre os anos 600 e 800 d.C. pelos estudiosos judeus, os massoretas, em base à leitura tradicional. Isso aconteceu porque a partir do cativeiro em Babilonia a língua hebraica foi influenziada sempre mais pelo aramaico, que crescia e se tornava a língua internacional, como acontecera com o acádico no II milênio a.C. Depois o hebraico passou a ser apenas língua liturgica e culta. No tempo de Cristo o aramaico era a língua corrente falada na Palestina. A partir do fim do século XIX, com o movimento sionista, se fez do ebraico uma língua moderna, escrita e falada, que hoje é a língua oficial do estado de Israel, ao lado do árabe.

Veja abaixo uma apresentação do alfabeto hebraico.

Nome

Símbolo

Transcrição

Valor numérico

Alef

1

Bet

b

b

2

Gimel

g

g

3

Dalet

d

d

4

He

h

h

5

Waw

w

w

6

Zayin

z

z

7

Het

x

hi

8

Tet

j

ti

9

Yod

y

y

10

Kaf

k

k

20

Lamed

l

l

30

Mem

m

m

40

Nun

n

n

50

Samek

s

s

60

Ayin

[

70

Peh

p

p

80

Sadeh

c

si

90

Qof

q

q

100

Resh

r

r

200

Sin (shin)

f

ś(š)

300

Taw

t

t

400

O hebraico se escreve da direita para a esquerda.

Originalmente o hebraico não tem vogais, como acontece com a língua moderna. Porém a partir do século IX a.C. se começaram a usar certas consoantes (y, w, e h) para indicar as vogais finais (i, u e demais vogais, respectivamente). Depois do exílio em Babilônia o y e o w foram usados também no meio das palavras; o y indicava ‘i’ e ‘e’ e w indicava ‘u’ e ‘o’. O h continuou a ser usado no fim das palavras para indicar as demais palavras.

Tomemos algumas palavras para esclarecer esse uso.

yerushalaim (Jerusalém)

Torah (lei)

elohim (Elohim)

Shemuel (Samuel)

YHWH (?) (Senhor)

adonay (Adonai ou ‘meu senhor’)

A preocupação com a fidelidade ao texto sagrado conduziu os escribas a indicar com exatidão como devia ser lida a Bíblia Hebraica. Na Idade Média foi feito um escrupuloso trabalho e foi acrescentado em cada palavra da Bíblia Hebraica sinais que dizem com exatidão o som que a palavra deve ter. Esses sinais não fazem parte do texto original, mas são fruto do trabalho dos assim chamados massoretas. O nome vem da palava “tradição” (massorah). Essas pessoas eram formadas por famílias que se dedicavam a tal estudo. A mais famosa é a família de Ben Asher. A massorah compreende também considerações laterais ao texto hebraico. Essas considerações foram feitas pelos assim chamados soferim (contadores). Eles contavam o número das palavras para vigiar a autenticidade do texto dos manuscritos. Cf., por exemplo, Lv 8,8, onde a margem do texto está escrito “meio da Torah”. Eles também indicam as palavras que aparecem só uma vez na Bíblia, com um lamed (não tem outro – lo’ ’it). Fizeram também mudanças, 18, chamadas tiqqunê soferim, isto é, emendas dos escribas (cf. Gn 18,22).

2. Aramaico

O aramaico bíblico é parecido com o hebraico, mas não é um dialeto. A partir de 732, com a queda da Samaria, o aramaico dominava nas províncias do norte do Império Assírio. Quando ela passou a ser a língua oficial do Império Persa ela tomou conta de todo o ambiente bíblico. Depois da conquista de Alexandre Magno (336 - 323 a.C) a língua oficial passou a ser o grego, mas o aramaico estava de tal modo implantado que continuou sendo falado nas regiões anteriormente ocupadas pelos persas.

A Bíblia contém poucos textos em aramaico. Temos um versículo em Gênesis (31,47), un versículo em Jeremias (10,11), parte de Daniel (2,4 – 7,28), e duas perícopes em Esdras (4,8 – 6,18; 7,12-26). Existem também estudos que sustentam o aramaico como língua original de Tobias e do Evangelho de Mateus.

A língua que Jesus falava no dia-a-dia era o aramaico. Porém ele deve ter estudado hebraico, pois sabia ler os profetas, como mostra o episódio na sinagoga de nazaré (Lc 4,16-20). Podia também ter alguma noção do grego, pois era a língua internacional de então.

3. O grego

É a língua dos primeiros cristãos. Por isso todos os livros do NT foram escritos em grego. Também são escritos em grego os livros de Tobias, Judite, parte de Ester, 1 e 2Macabeus, Sabedoria, Siracida (Eclo), Baruc e parte de Daniel.

O grego bíblico é diferente daquele clássico, usado, por exemplo, por Homero, Heródoto, Platão. O nosso grego é dito koiné, che significa “comum”. Nos séculos V/IV a.C. existiam muitos dialetos da língua grega e essa língua “comum” tenta dar uma uniformidade à língua. À base do grego koiné está o dialeto ático.

O alfabeto grego, derivado do alfabeto fenício, é composto por 24 letras. Nós utilizamos parte delas e até mesmo a nossa expressão “alfabeto” é composta pelas duas primeiras letras do abecedário grego. O quadro abaixo quer ser ilustrativo.

Alfabeto grego

Nome da letra

São em Português

Maíuscula

cursiva

A

a

alfa

a

B

b

beta

b

G

g

gamma

g

D

d

delta

d

E

e

épsilon

e breve

Z

z

zeta

z

H

h

eta

e cumprida

Q

q

theta

th

I

i

iota

i

K

k

kappa

k

L

l

lambda

l

M

m

mu

m

N

n

nu

n

X

x

xi

ksi

O

o

omikron

o breve

P

p

pi

p

R

r

rho

r

S

s

sigma

s

T

t

tau

t

U

u

ipslon

ü

F

f

phi

ph

C

c

chi

re (aspirado)

Y

 

psi

ps

W

w

omega

o cumprida

A frase do início do Evangelo de Mateus mostra como é a língua grega na Bíblia: Bibloj genesewj Ihsou Cristou uiou Dauid uiou Abraam [bíblos genéseos Iesú Kristú üiú David üiú Abraám (livro da genealogia de Jesus Cristo filho de David, figlho de Abraão)].

O uso do grego pelos primeiros cristãos esconde um problema. Muitos vocábulos usados no NT têm influência semítica, do hebraico e aramaico. Quando certas palavras gregas são usadas entendendo conceitos semíticos é dito que estamos diante dum “semitismo”. Por exemplo o termo grego sarx (sarks) indica, na língua grega apenas “carne”. Porém quando os autores do NT usavam esse vocábulo pensavam no conceito hebraico da palavra basar (rf"ßB'), que não descreve só “carne”, mas também “ser humano”, “prole”, “família”. Como consequência exegética, não se deveria sempre traduzir “carne”, mas analisar que conceito o autor quis transmitir.

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