Uma janela sobre o mundo bíblico

Bíblia e a Vida de Jesus - Validade Histórica



  • Estudo
  • 2923
  • 09/03/2006
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Existe um abismo cada vez mais alarmante entre os resultados da pesquisa científica em torno da Bíblia e o que dela sabe o cidadão comum, pertencente ou não a alguma igreja. Essa frase parece, em princípio, vir de algum ferrenho crítico da religião ou até mesmo de um ateu. Mas, na verdade, ela foi escrita por um religioso: Rochus Zuurmond, professor de teologia bíblica da Universidade Livre de Amsterdã, na Holanda, em seu livro Procurais o Jesus Histórico? Essas palavras se aplicam a uma das questões mais delicadas e incômodas para o catolicismo e outras religiões cristãs: Jesus teve realmente intenção de fundar uma nova igreja?

Na virada do século 20 para o 21, dois escritores deram respostas diferentes para essa delicada questão religiosa. Em 2000, o francês Georges Suffert, do comitê editorial do jornal parisiense Le Figaro, publicou o livro Tu És Pedro – A história dos primeiros 20 séculos da Igreja fundada por Jesus Cristo. O título da obra, editada no Brasil este ano, dispensa esclarecimentos sobre sua posição nessa polêmica. Por sua vez, o espanhol Juan Arias (ver entrevista abaixo) lançou este ano o livro Jesus – Esse grande desconhecido, no qual deixa bem claro que, para a maior parte dos estudiosos bíblicos, o judaico-cristianismo palestino do século 1º não era uma nova religião.

Apesar do título, o livro de Suffert nem sequer comenta as pesquisas sobre a intenção de Jesus de estabelecer uma religião. Limita-se a citar a famosa frase do Evangelho de Mateus em que Pedro é apontado como a "pedra" sobre a qual será edificada a Igreja. É uma obra declaradamente engajada, na medida em que o autor afirma fazer "das posições tomadas por Roma o eixo central" de sua narrativa. No entanto, no livro de Arias, em que um capítulo inteiro é dedicado à pergunta sobre a fundação da Igreja, as interrogações são abundantes. "Esta Igreja, que se diz fundada por Jesus, não será antes a herdeira de uma fé que foi sendo construída ao longo dos séculos sobre os frágeis pilares de sua verdade histórica, sobre seu mito e sobre os dogmas por ela criados?"

Como a Igreja responde a essa pergunta sobre o propósito de Jesus? Um exemplo de resposta afirmativa está na internet no portal Sacramusic.com: "Sim. A prova bíblica de sua intenção, a encontramos em Mateus 16,18". Essas palavras foram extraídas do livro Em que Cremos?, do padre Alberto Luiz Gambarini, de Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo. Menos taxativamente responde o padre Eduardo Rodrigues Coelho, do Vicariato da Comunicação da Arquidiocese de São Paulo, para quem a preocupação central de Jesus era o Reino de Deus, e a forma de alcançá-lo dependeu do momento histórico enfrentado pelos apóstolos. "Não foi possível a convivência, naquela época, com o judaísmo. Os seguidores de Jesus entenderam que foi preciso fundar uma nova comunidade", diz Coelho.

Validade histórica
Até o século 19 era praticamente nulo o conhecimento histórico sobre Jesus. As únicas fontes amplamente conhecidas sobre a vida e os ensinamentos da figura humana central do cristianismo foi o Novo Testamento, em especial os evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas e João. Em 1725, o italiano Giambattista Vico (1688–1744) havia publicado seus Princípios de uma Nova Ciência, a primeira crítica de cunho científico para o trabalho dos historiadores. Essa obra foi seguida pelos textos de Voltaire (1694-1778), Edward Gibbon (1737–1794), Friedrich Hegel (1770–1831) e de outros que criticaram a historiografia.

Na Antiguidade, os textos históricos consistiam em crônicas e narrativas. Na Idade Média, sob o poder da Igreja, eles continuaram com as características desses gêneros, mas passaram a mostrar a História como um mero desdobramento dos planos de Deus. Foi nesse contexto que, em meados do século 19, os estudiosos da religião começaram a admitir que os textos evangélicos, assim como todo o conteúdo da Bíblia, não podiam ser aceitos como trabalhos históricos.

"Os livros bíblicos foram escritos com o objetivo de levar as pessoas a se comprometer. Não podemos exigir que nos forneçam o que escreviam os historiadores", afirma o padre Ivo Storniolo, tradutor de livros da Bíblia, autor de várias obras sobre o cristianismo e assessor da Editora Paulus, de São Paulo.

Como a Igreja responde a essa pergunta sobre o propósito de Jesus? Um exemplo de resposta afirmativa está na internet no portal Sacramusic.com: "Sim. A prova bíblica de sua intenção, a encontramos em Mateus 16,18". Essas palavras foram extraídas do livro Em que Cremos?, do padre Alberto Luiz Gambarini, de Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo. Menos taxativamente responde o padre Eduardo Rodrigues Coelho, do Vicariato da Comunicação da Arquidiocese de São Paulo, para quem a preocupação central de Jesus era o Reino de Deus, e a forma de alcançá-lo dependeu do momento histórico enfrentado pelos apóstolos. "Não foi possível a convivência, naquela época, com o judaísmo. Os seguidores de Jesus entenderam que foi preciso fundar uma nova comunidade", diz Coelho

Essas considerações se aplicam à passagem bíblica alusiva à escolha de Pedro por Jesus como a pedra sobre a qual se ergueria sua Igreja. Muitas passagens dos evangelhos são comuns às quatro versões. Três desses livros – os de Marcos, Mateus e Lucas – são chamados pelos especialistas de evangelhos sinóticos, pois é possível fazer uma sinopse única de grande parte de seu conteúdo. Nessa sinopse, porém, não entra a famosa citação de Mateus, pois ela consta somente do seu evangelho. Segundo vários estudiosos, o texto desse apóstolo foi escrito em Antioquia, na Síria, cidade onde o próprio Pedro realizou grande parte de seu apostolado. Mateus teria, portanto, como se diz, "puxado a sardinha" para o seu lado. E conseguiu o milagre de multiplicá-la.

Se Jesus realmente disse a Pedro o que Mateus escreveu, ele não o teria incumbido de construir um templo religioso, nem de fundar uma nova Igreja no sentido que essa palavra tem de religião. A frase teria sido dita em aramaico, língua falada na Palestina no dia-a-dia (o hebraico só era usado em atividades religiosas), mas as versões mais antigas do texto de Mateus estão em grego, o idioma oficial mesmo sob a dominação romana. "Igreja" é a tradução do grego "enklesía", que significava então comunidade. Uma nova comunidade não era necessariamente uma nova religião.

Esses esclarecimentos foram enriquecidos com a chamada pesquisa cristológica. Mas esses estudos foram se tornando um campo demasiadamente restrito, limitado a especialistas que precisam compreender línguas como grego, latim, hebraico e aramaico, além de conhecer profundamente os textos bíblicos em suas versões cristã e judaica e também a História Antiga e Medieval. Em seu livro Procurais o Jesus Histórico?, escrito em1994, Zuurmond afirma que muitos desses pesquisadores têm a tendência de "apresentar as coisas de forma tão complicada que fora de um círculo restrito ninguém entende nada".

Imagens conflitantes
Três anos antes de Zuurmond, o irlandês John Dominic Crossan, professor de estudos bíblicos da Universidade De Paul, em Chicago, nos Estados Unidos, já reclamava do número cada vez maior de pesquisadores competentes gerando imagens conflitantes de Jesus. "A pesquisa do Jesus Histórico está virando uma piada sem graça", diz ele em seu livro O Jesus Histórico.

Uma das principais fontes de problemas dos estudos científicos da Bíblia está na excessiva especialização de alguns pesquisadores. O risco dessa tendência na pesquisa dos evangelhos, assim como em outras áreas, está na dificuldade de admitir como válidas cientificamente as conclusões obtidas fora dos princípios da área de especialidade. Seria o caso, por exemplo, de arqueólogos bíblicos que desconsiderariam evidências históricas ou lingüísticas sem suporte em registros arqueológicos. "Um número cada vez menor de estudiosos consegue enxergar além dos limites – por eles mesmos traçados – de sua especialidade", diz Zuurmond.

O teólogo holandês não poupa nem mesmo seus colegas de batina: "Mais de uma vez ouvi um colega dizer, a respeito de determinada interpretação de um texto bíblico: 'Sim, é verdade, mas no púlpito não podemos dizer essas coisas'. (…) Acredito que seríamos desonestos se por 'motivos pastorais' escondêssemos nossas convicções como cientistas".

A despeito do grande desenvolvimento dos estudos bíblicos e da pesquisa científica sobre a origem do cristianismo, ainda pairam muitas dúvidas e incertezas sobre o Jesus histórico e a sua mensagem. Sem desqualificar os poucos resultados consensuais já obtidos, parece que boa parte desse avanço está em mostrar o que esse pregador judeu na Palestina do século 1º não era, o que também é importante. No que se refere à questão sobre se ele teve ou não intenção de fundar uma nova Igreja, já existem conclusões relevantes sobre a "missão papal" que teria sido atribuída a Pedro, como já foi visto, e também sobre as discussões de Jesus com os fariseus.

Em seu livro A Religião de Jesus, o Judeu, de 1993, o húngaro Geza Vermes, professor de estudos judaicos da Universidade de Oxford, na Inglaterra, já assinalava que em nenhum trecho dos evangelhos Jesus contesta qualquer mandamento da Torá, a Bíblia judaica. "As declarações controvertidas giram em torno de leis conflitantes, quando uma cancela a outra", diz Vermes referindo-se a declarações atribuídas a Jesus nos evangelhos.

Muitos estudiosos atualmente não descartam a hipótese de Jesus ter sido um fariseu. Em uma outra obra, recentemente lançada no Brasil, Sábios Fariseus – Reparar uma injustiça, Evaristo de Miranda e José Schorr Malca ressaltam o espírito antifundamentalista dos fariseus, que valorizavam o confronto de idéias opostas e defendiam a interpretação e discussão dos textos bíblicos, mesmo que fossem conflitantes. "O fundamentalismo não admite discussão nem o enfrentamento de idéias. Eles (os fundamentalistas) crêem-se travando uma guerra contra forças destruidoras de seus valores mais sagrados e dogmáticos", diz o livro de Miranda e Malca, para quem Jesus usava as mesmas parábolas e metáforas dos fariseus.

O Reino do aqui e agora
Segundo o padre Ivo Storniolo, Jesus compreendeu profundamente que o projeto de Deus nas Escrituras tinha um grande potencial crítico para a forma como era praticada a religião. "O ideal comunitário e igualitário de Jesus ia contra os interesses da casta dos saduceus, que abrangia chefes religiosos e políticos e o clero latifundiário conivente com a realidade imperialista e tributária da ocupação da Palestina por Roma." Uma das certezas das pesquisas cristológicas, segundo o teólogo, é que somente os saduceus participaram com os romanos do processo que levou à morte de Jesus.

Tudo indica, portanto, que Jesus jamais teve a intenção de fundar uma nova Igreja. A dúvida que fica para quem não pertence ao restrito grupo dos estudiosos é o que significava o Reino de Deus, a mensagem central de Jesus. "Em sua pregação, ele simplesmente levou muito a sério o que a religião de seu povo pedia. E foi na sua experiência humana que ele aprendeu isso", afirma Storniolo. "Para Jesus, 'Shalom' (paz em hebraico) era cada um ter sua terra, seu cultivo, poder sentar sob sua figueira ou sua videira e viver em paz na comunidade."



Armadilhas históricas na leitura atual dos apóstolos

Aos 37 anos, Pedro Lima Vasconcellos, professor do Departamento de Teologia e Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, se dedica a um campo de pesquisas relativamente recente, mas que cresceu muito nas últimas décadas: o estudo científico da religião. Essa área trouxe importantes colaborações da sociologia, antropologia, psicologia, história e outras ciências. Nesta entrevista, o pesquisador explica como a falta de contextualização histórica tem prejudicado a compreensão dos evangelhos.



Apoio da ciência
Pedro Lima de Vasconcellos, professor da PUC de São Paulo


Pedro Lima Vasconcellos: Há um fator histórico fundamental nessa questão: Jesus viveu algumas décadas antes da Guerra Judaica (66–70 d.C.), quando o general romano Vespasiano, depois imperador, sufocou a grande rebelião da Judéia, destruiu o Templo de Jerusalém e massacrou os judeus. Os evangelhos foram escritos depois desse conflito, quando diversas facções do judaísmo foram extintas por causa do elevado número de mortes. O judaísmo pós-70 d.C. foi reconstruído pela seita dos fariseus. Para eles, mesmo antes desse período, Jesus não era o messias previsto pelos profetas do Antigo Testamento. Por isso e por outras razões, como o fato de os cristãos não cumprirem o ritual da circuncisão nem as restrições de alimentos dos judeus, os fariseus e os novos seguidores de Jesus foram se tornando duas seitas que acreditavam no mesmo Deus, mas eram antagônicas. Esse antagonismo se refletiu nos evangelhos, um pouco menos em Marcos, que foi o primeiro deles e deve ter sido escrito na época da guerra.

A Ceia de Emaús
Jesus, um homem comum, no quadro de Caravaggio (1601)

Jesus discordava com os fariseus: Os fariseus valorizavam o debate sobre os princípios da religião e
só o praticavam com aqueles que respeitavam. Eles não teriam, portanto, debatido com Jesus, como mostram os evangelhos, se não tivessem respeito por ele e, acima de tudo, se, em vez de ser um seguidor do judaísmo, ele estivesse pregando uma outra religião. Note-se que havia várias correntes entre os fariseus. Ao serem registrados pelos evangelistas após 70 d.C., esses debates foram descontextualizados. Por isso, os evangelhos devem ser compreendidos à luz dessa mudança de contextos históricos.

Jesus não queria fundar uma religião, Ele trouxe uma nova perspectiva para o que era chamado de Reino de Deus. Para a tradição, esse reino seria um futuro de justiça e de santidade. Para Jesus, ele estaria entre aqueles que vivem o aqui e agora. Como disse John Dominic Crossan, pesquisador irlandês radicado nos Estados Unidos, em seu livro O Jesus Histórico, "o importante não é possuir uma intuição especial para poder ver o Reino do futuro, e sim ter a habilidade de reconhecê-lo como uma realidade presente".

Para ler
- Jesus – Esse grande desconhecido, Juan Arias. Ed. Objetiva. RJ. 2001
- O Jesus Histórico, John Dominic Crossan. Imago Editora. RJ. 1994
- Procurais o Jesus Histórico?, Rochus Zuurmond. Edições Loyola. São Paulo. 1998
- A Religião de Jesus, o Judeu, Geza Vermes. Imago Editora. Rio de Janeiro. 1995
- História do Cristianismo, Paul Johnson. Imago Ed. Rio de Janeiro. 1995
- A Bíblia de Jerusalém. Paulus. São Paulo. 1985

- Sábios Fariseus - Reparar uma injustiça, Evaristo E. de Miranda e José M. Schorr

Malca. Ed. Loyola. São Paulo. 2001

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