Uma janela sobre o mundo bíblico

O Código da Vinci e a Bíblia



  • Estudo
  • 5194
  • 16/03/2006
Bill Mitchell

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O funcionário do serviço de imigração olhou meu passaporte, depois olhou para mim. Eu estava chegando aos Estados Unidos.
- “Em que você trabalha”? – perguntou ele.
- “Sou um tradutor da Bíblia”.
- “Que interessante! Li um bocado a respeito da Bíblia. Pena que foi escrita centenas de anos depois da morte de Jesus”, disse ele.
- “Bem, isto não se aplica aos quatro Evangelhos. Tudo indica que o Evangelho de Marcos foi escrito uns trinta anos depois da morte de Jesus” – eu respondi.
- “É mesmo”?! – disse ele, espantado. “Mas o livro que eu li dizia que foi escrita séculos mais tarde. E o autor diz no começo do livro que tudo que ele diz é verdade. Você tem alguma informação a respeito disso”? Ele fez uma pausa, e então continuou: “Claro que tem, pelo tipo de trabalho que faz”.
De repente ele ergueu os olhos para ver a fila que se formava atrás de mim. Num gesto rápido, carimbou meu passaporte e o devolveu para mim. “Puxa, lamento, a gente poderia ficar a noite toda falando a respeito disso, mas você não pode perder sua conexão”.

A exemplo de centenas de milhares de outras pessoas, aquele funcionário havia lido O Código Da Vinci. E, na opinião dele, o livro até que fazia sentido.
O romance conta uma fascinante história relacionada com a procura do Santo Graal. Afirma que, durante séculos, a Igreja Católica Romana ocultou o verdadeiro significado do Graal. Segundo o livro, o Santo Graal era, de fato, Maria Madalena, que foi mulher de Jesus e teve uma filha com ele. Depois da crucificação, Maria Madalena e sua filha teriam fugido para a França, onde a linha dos descendentes teria continuado através dos séculos.
Numa série de tramas de maior ou menor complexidade, um professor de Harvard (Robert Langdon), uma criptógrafa francesa (Sophie Neveu), uma organização secreta chamada O Priorado de Sião, membros da Opus Dei e um aristocrata inglês (Leigh Teabing) se envolvem na tarefa de desvendar o mistério do Santo Graal.
O romance faz uma série de afirmações a respeito da verdadeira identidade de Jesus, o desenvolvimento da igreja cristã primitiva, o papel de Maria Madalena dentro dessa igreja, como os Evangelhos foram escritos e como se formou o Novo Testamento. Isto sem falar do papel do imperador romano Constantino dentro da igreja. No prefácio, o autor afirma: “Todas as descrições de obras de arte, arquitetura, documentos e rituais secretos neste romance correspondem rigorosamente à realidade”. Mas será que correspondem de fato à realidade? Aqui queremos abordar apenas aqueles aspectos que tratam de Jesus, da igreja antiga e do Novo Testamento.

Jesus Cristo: um simples homem?
Uma das afirmações mais contundentes do livro é esta: os cristãos só começaram a acreditar que Jesus era divino quando se tomou uma decisão nesse sentido no Concílio de Nicéia, em 325 A.D. A certa altura o livro diz:

“Nesse concílio, muitos aspectos do cristianismo foram debatidos e receberam votação – a data da Páscoa …, além, naturalmente, da divindade de Jesus. … até aquele momento da história, Jesus era visto pelos seus discípulos como um mero profeta mortal … um grande e poderoso homem, mas que não passava de um homem. Um mortal. … Jesus só passou a ser visto como “Filho de Deus” no Concílio de Nicéia, depois que esse título foi proposto e aprovado por votação”. (p.221-222)
A verdade é que muito tempo antes de ser realizado o Concílio de Nicéia os cristãos já tinham plena convicção de que Jesus era divino. Os quatro Evangelhos mostram que Jesus era verdadeiro homem (ele comia, bebia, ficava triste, se zangava, chorou, e morreu). Também mostram que ele era Deus. Marcos começa seu Evangelho assim: “Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1.1 – ARA). E João, no começo de seu Evangelho, não é menos enfático:
“No começo aquele que é a Palavra já existia. Ele estava com Deus e era Deus. … o amor e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo. Ninguém nunca viu Deus. Somente o Filho único, que é Deus e está ao lado do Pai, foi quem nos mostrou quem é Deus” (Jo 1.1,17,18 – NTLH)

O apóstolo Paulo, que escreveu as suas epístolas apenas vinte ou trinta anos depois da morte de Jesus, isto é, entre os anos 50 e 60 A.D., disse o seguinte a respeito de Jesus, em sua carta aos cristãos de Filipos:
“Ele tinha a natureza de Deus, mas não tentou ficar igual a Deus. Pelo contrário, ele abriu mão de tudo o que era seu e tomou a natureza de servo, tornando-se assim igual aos seres humanos ...” (Fp 2.6-7 – NTLH)
Desde o começo do ministério de Jesus, os discípulos se perguntavam a respeito da identidade dele. Depois que Jesus acalmou a tempestade, eles disseram uns aos outros: “Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?” (Mc 4.41 - ARA). Nos séculos que se seguiram, a maioria dos cristãos acreditava Jesus era ao mesmo tempo humano e divino. Disso eles não duvidavam. O que eles discutiam era como ele podia ser Deus e homem ao mesmo tempo, e este foi um dos assuntos tratados em Nicéia.

O Novo Testamento: Criação do Imperador romano?
Além de afirmar que um concílio da igreja, no quarto século, decretou que Jesus era divino, o romance defende a visão de que a igreja e Constantino destruíram muitos documentos antigos. Esses documentos teriam sido exatos do ponto de vista histórico, mostrando que Jesus era um simples homem, e não Deus. Em lugar desses documentos, teriam colocado alguns outros, em menor número. Entre eles, os quatro Evangelhos do Novo Testamento. Diz O Código da Vinci:
“Jesus Cristo foi uma figura histórica de uma influência incrível … Não é de admirar que sua vida tenha sido registrada por milhares de seguidores em toda a região. … Mais de 80 evangelhos foram estudados para compor o Novo Testamento, e no entanto apenas alguns foram escolhidos – Mateus, Marcos, Lucas e João. … A Bíblia, conforme a conhecemos hoje, foi uma colagem composta pelo imperador romano Constantino, o Grande. … Constantino … foi pagão a vida inteira, batizado apenas na hora da morte” (p. 220).

Essas afirmações não se sustentam diante dos fatos históricos. Apenas dez por cento das pessoas que viviam no mundo greco-romano sabiam ler e escrever, e não havia “milhares de seguidores” que registraram a vida de Jesus. Não há nada que permita afirmar que mais de 80 evangelhos estavam cotados para fazer parte do Novo Testamento. Mateus, Marcos, Lucas e João não integram um grupo de evangelhos que estavam no Novo Testamento; eles são os únicos evangelhos no Novo Testamento. O livro também afirma que o próprio Jesus fazia um registro escrito daquilo que fazia – um texto que hoje é chamado de documento “Q” – o que também não é verdade.
Os mais antigos documentos cristãos que temos são as cartas do apóstolo Paulo, escritas, como indicado acima, entre 50 e 60 A.D. Os Evangelhos do Novo Testamento, escritos entre os anos 60 e 95 A.D., são os mais antigos relatos que temos a respeito da vida e do ministério de Jesus. Os demais livros do Novo Testamento foram escritos no mesmo período. Já naquele tempo os cristãos haviam começado a atribuir a alguns desses escritos a mesma autoridade que davam à Bíblia Hebraica. Em outras palavras, quase 200 anos antes de Constantino, os cristãos já estavam escolhendo que livros tinham autoridade, e quais não tinham.
No segundo século, a igreja em expansão assumiu formas diferentes e passou a ter uma maior diversidade. Outros ‘Evangelhos’ apareceram. Alguns deles foram escritos para preencher as lacunas dos outros Evangelhos, como é o caso dos assim chamados ‘evangelhos da infância de Jesus’, que contêm material lendário a respeito de Jesus quando criança. Outros foram escritos por mestres ou grupos que tinham uma compreensão diferente da fé cristã e eram considerados não ortodoxos pelos líderes da igreja. Entre esses grupos se encontram os gnósticos. São estes os escritos que, segundo Leigh Teabing, foram destruídos por ordem de Constantino e substituídos pelos evangelhos que se encontram no Novo Testamento. Teabing então acrescenta:
“Felizmente para os historiadores, conseguiram-se preservar alguns evangelhos que Constantino tentou erradicar”. (p. 223)

Aqui ele tem em vista os Manuscritos do Mar Morto, o Evangelho de Maria, e documentos de Nag Hammadi tais como o Evangelho de Filipe e o Evangelho de Tomé. No entanto, será que isso é mesmo assim?
Os escritos de líderes da igreja que viveram na segunda metade do segundo século, muito tempo antes de Constantino, pintam um quadro diferente. Em 150 A.D., Justino Mártir faz referência às “memórias dos apóstolos”, referindo-se provavelmente aos quatro Evangelhos que fazem parte do Novo Testamento. Por volta de 170 A.D., seu discípulo Taciano compilou o Diatessarão, uma harmonização dos quatro Evangelhos. Em 180 A.D., Irineu escreveu a respeito dos quatro Evangelhos reconhecidos pelas igrejas. A mais antiga lista de livros do cânone do Novo Testamento de que dispomos é o Cânone de Muratori. Esta obra foi, ao que tudo indica, originalmente escrita em Roma, na segunda metade do segundo século, isto é, por volta do ano 190 A.D. Essa lista contém vinte e dois dos vinte e sete livros que estão em nosso Novo Testamento, incluindo Mateus, Marcos, Lucas e João. Nenhum outro Evangelho consta da lista.
Foi a igreja que decidiu quais Evangelhos tinham autoridade. E esses Evangelhos, como vimos, mostram que Jesus é ao mesmo tempo humano e divino. Afirmar que esses Evangelhos foram impostos à igreja por Constantino numa época posterior, numa tentativa do Imperador para encontrar uma figura divina especial que pudesse consolidar sua base de poder político, é faltar com a verdade.

Constantino: cristão ou pagão?
Segundo Leigh Teabing, Constantino alterou a forma do Cristianismo tendo em vista seus interesses políticos. Vimos que não se sustenta a tese de que o Imperador eliminou os evangelhos que enfatizavam a humanidade de Jesus, e canonizou textos que mostravam que ele era Deus.
Constantino era cristão? Será que Teabing tem razão ao dizer que ele “foi pagão a vida inteira, batizado apenas na hora da morte, fraco demais para protestar”? (p. 220)
Eusébio, um erudito cristão que viveu no quarto século e que por vezes é chamado de “pai da história da igreja”, escreveu uma biografia de Constantino. Ele afirma que, em 312 A.D., Constantino, na véspera de uma batalha, viu um sinal sobrenatural – o sinal da cruz. Naquela noite ele sonhou que Cristo veio até ele com o mesmo sinal e lhe disse que usasse esse sinal como proteção contra seus inimigos. Sob o sinal da cruz, Constantino saiu vitorioso da batalha e isto o levou a tornar-se cristão. Um ano depois ele proclamou o fim da perseguição aos cristãos e promulgou o “Edito de Milão”, que concedia liberdade religiosa a todos que viviam no Império.
Embora não conheçamos todos os detalhes, a conversão de Constantino foi um dos maiores eventos na história da civilização ocidental. O cristianismo deixou de ser uma religião minoritária e perseguida e passou a ser a religião do próprio Imperador. Se Constantino tentou valer-se do cristianismo para unificar seu império, como se afirma no livro de Dan Brown, então havia um problema que tinha que ser enfrentado, ou seja, a própria igreja estava dividida em relação a muitas questões teológicas! O real motivo por que mais de 200 bispos foram convocados para um concílio na cidade de Nicéia, em 325 A.D., foi a necessidade de fazer frente às questões que estavam sendo discutidas e que causavam a divisão interna da igreja.

Jesus, Maria Madalena e a igreja
Uma das figuras históricas que mais recebe atenção em O Código Da Vinci é Maria Madalena. O livro afirma que ela foi tirada de sua verdadeira função de liderança pelos líderes homens da igreja e pela manipulação ou alteração do cânone do Novo Testamento patrocinada por Constantino. Valendo-se de passagens tiradas do Evangelho de Maria e do Evangelho de Filipe (o livro a apresenta como mulher de Jesus e mãe da filha dele.
Maria Madalena era da cidade de Magdala, que fica a uns cinco quilômetros de Tiberíades, na margem ocidental do Lago da Galiléia. A maioria da população de Magdala era de origem não-judaica, e os judeus desprezavam aquela cidade por sua fama de libertinagem. Não existe nenhuma evidência que permita afirmar que Maria Madalena era “da Casa de Benjamim” ou que ela tinha “sangue real” (p. 236).
Maria era uma daquelas mulheres importantes da Galiléia que seguiram Jesus. Fazia parte de um grupo de mulheres que, com os seus próprios recursos, ajudavam Jesus e os seus discípulos (Lc 8.3). Maria havia sido curada por Jesus, ou seja, dela “tinham sido expulsos sete demônios” (Lc 8.2). Ela é claramente identificada como uma das pessoas que anunciaram aos apóstolos que Jesus havia ressuscitado, testemunho esse que não foi levado a sério (Lc 24.10-11). Nos Evangelhos sinóticos, ela sempre encabeça a lista dessas mulheres que são mencionadas. O Evangelho de João relata o encontro que ela teve com o Jesus ressuscitado (Jo 20.11-18), e é somente neste texto que ela é chamada pelo nome de “Maria” (vs. 11,16 - ARA).
É possível que essa presença de Maria junto ao túmulo, na manhã da Páscoa, o encontro que ela teve com Jesus, e o testemunho dela junto aos discípulos, segundo o relato dos Evangelhos canônicos, tenha levado a desenvolvimentos posteriores. Ela aparece com destaque em documentos escritos durante o segundo e terceiro séculos, especialmente documentos de orientação gnóstica. É nesses escritos que se inspira O Código Da Vinci. No entanto, nem todos esses documentos têm a mesma opinião a respeito de Maria Madalena. Numa passagem do Evangelho de Tomé, Pedro se opõe ao fato de Maria estar entre eles, “pois as mulheres não são dignas de viver”. A resposta atribuída a Jesus é enigmática: “Eis que a atrairei para fazê-la masculino, para que também se faça um espírito vivo semelhante a vós homens, pois, toda mulher que se transforma em varão entrará no reino dos céus” (Evangelho de Tomé, 114).
E aí … Jesus era casado com Maria? O livro insiste que “o casamento de Jesus e Maria Madalena faz parte dos registros históricos” (p. 232). No entanto, não existe uma só fonte antiga que diga que Jesus era casado, muito menos que era casado com Maria Madalena. Robert Langdon afirma que “o decoro social daquela época praticamente proibia que um judeu fosse solteiro. De acordo com os costumes judaicos, o celibato era proibido” (p. 232). Isto é uma grande mentira. No tempo de Jesus, muitos membros da comunidade essênia eram celibatários. Quando Leigh Teabing afirma que Jesus era casado (p. 233), isso se baseia numa tradução errônea de um trecho do Evangelho de Filipe.

O Novo Testamento: a fonte confiável
Para resumir, as idéias que aparecem em O Código Da Vinci derivam da imaginação fértil de Dan Brown, e não do que se conhece a respeito do Jesus histórico. A popularidade do livro mostra que as pessoas ficam fascinadas com teorias de conspiração, ainda mais quando isto envolve a igreja! Ao mesmo tempo, as pessoas ainda são fascinadas por Jesus, e isto coloca diante de seus seguidores o desafio de conhecerem mais a respeito das origens da fé cristã. Eles vão descobrir que os documentos do Novo Testamento são de fato dignos de confiança, e que os mesmos podem dar-lhes condições de estarem “sempre prontos para responder a qualquer pessoa que pedir que expliquem a esperança que têm” (1Pe 3.15 – NTLH).
As pessoas vão continuar a escrever livros e romances sobre a vida de Jesus. E, como o Evangelho de João nos lembra: “Ainda há muitas outras coisas que Jesus fez. Se todas elas fossem escritas, uma por uma, acho que nem no mundo inteiro caberiam os livros que seriam escritos” (Jo 21.25 – NTLH).
* * *
Enquanto eu guardava o meu passaporte e pegava a minha sacola, o funcionário da imigração me disse: “Sabe de uma coisa: eu acho que eu deveria mais é ler o Novo Testamento”.
“Ótima idéia!” – disse eu.

O documento Q
No século XIX, biblistas alemães que investigavam as possíveis fontes que os escritores dos Evangelhos teriam usado, notaram que Mateus, Marcos e Lucas têm um bocado de material em comum. Também notaram que Mateus e Lucas têm em comum textos que não aparecem em Marcos. Exemplos disso são as bem-aventuranças (Mt 5.3-12; Lc 6.20-23) e o Pai-Nosso (Mt 6.9-13; Lc 11.2-4).
Em razão disso, postularam uma fonte para esse material, que veio a ser conhecida como “o documento Q” (“Q” vem de Quelle, que, em alemão, significa “fonte”). Trata-se de uma hipótese que parte do princípio de que tal documento existia em grego, já por volta do ano 50 do primeiro século da era cristã. Se esse documento de fato existiu ou não é um assunto que continua sendo debatido com vigor em círculos acadêmicos. O que se sabe é que escritores cristãos dos primeiros séculos não fazem referência a um tal documento, e até hoje ainda não se encontrou nenhum documento que pudesse ser identificado como “Q”.
Está claro que “Q” não é um evangelho escrito por Jesus a respeito de seu ministério, como afirma Leigh Teabing, em O Código Da Vinci: “Supostamente, trata-se de um livro contendo os ensinamentos de Jesus, talvez escrito por ele mesmo. … Por que Jesus não manteria um diário de seu ministério? A maioria das pessoas fazia isso naquela época” (p. 242).

Gnosticismo
Gnosticismo é um nome genérico que estudiosos dão a uma série de religiões que existiram nos séculos dois e três de nossa era. Deriva da palavra grega gnosis, que significa “conhecimento”. Os gnósticos se consideravam um grupo de elite que detinha a chave ou o segredo da salvação. Somente o conhecimento místico que eles tinham de um Deus que não podia ser conhecido de outra maneira poderia trazer paz interior e salvação. Muitos gnósticos se consideravam cristãos, mas acreditavam piamente que o conhecimento espiritual singular que tinham fazia deles um grupo superior aos demais cristãos.
Durante séculos, muito do que se conhecia a respeito do gnosticismo derivava de obras escritas por gente que criticava e se opunha ao gnosticismo. Até que, em 1945, num antigo vaso de cerâmica descoberto em Nag Hammadi, no Egito, foram encontrados 13 livros que incluíam obras escritas por gnósticos. Essas obras dão detalhes sobre o caráter radical da teologia gnóstica. Em síntese, os gnósticos acreditavam que existem dois âmbitos ou mundos distintos. Um é o mundo da luz espiritual, governado por um Ser uno, transcendente, indescritível. O outro é o mundo material de trevas e ignorância, no qual vivem os seres humanos. O conhecimento é o caminho que permite fugir do mundo da matéria para o mundo do espírito. Jesus não é o Filho de Deus em forma humana, que morreu e ressuscitou para resgatar a humanidade do pecado; ele é, isto sim, o grande revelador da gnosis.
Alguns líderes gnósticos eram inicialmente membros de comunidades cristãs chamadas de ortodoxas. Um desses era Valentino, um teólogo de Roma que ganhou destaque por volta de 140 a 150 A.D. Ele era um intelectual brilhante. Chegou a formular um relato de sua maneira de ver a criação do mundo, a condição humana, e o caminho para o verdadeiro esclarecimento. Outros líderes da igreja ficaram preocupados com o rápido crescimento do gnosticismo, e viram nele uma ameaça ao bem-estar da igreja. Em alguns livros do Novo Testamento existem alguns termos que têm uma certa coloração gnóstica. Timóteo, por exemplo, recebeu a seguinte instrução: “... guarda o que te foi confiado, evitando os falatórios inúteis e profanos e as contradições do saber (gnosis), como falsamente lhe chamam, pois alguns, professando-o, se desviaram da fé” (1Tm 6.20-21 - ARA). Com o passar do tempo, o movimento gnóstico foi posto na clandestinidade e os escritos gnósticos foram, em sua grande maioria, destruídos.

Os Rolos do Mar Morto
No início de 1947, alguns beduínos que cuidavam de cabras nas imediações de Wadi Qumran, junto ao Mar Morto, saíram à procura de um animal desgarrado nas escarpas daquela região. Acabaram encontrando uma caverna com jarros cheios de manuscritos. Nos anos que se seguiram, mais dez cavernas foram encontradas e exploradas na região montanhosa de Qumran. Foram encontrados mais alguns rolos, bem como milhares de fragmentos de rolos: os restos de aproximadamente 800 manuscritos produzidos entre 200 A.C. e 68 A.D.
Entre os manuscritos encontrados nas cavernas de Qumran estavam cópias antigas de livros bíblicos em hebraico e aramaico, hinos, orações, e outros textos e escritos judaicos que aparentemente representam as crenças de um grupo judaico que morava no antigo sítio de Qumran. A maioria dos eruditos acredita que a comunidade de Qumran era um grupo essênio. Os essênios eram uma das quatro “filosofias” judaicas descritas por Josefo, o historiador judeu do primeiro século.
Não sabemos com certeza quem escreveu aqueles rolos. No entanto, pode-se dizer que os autores dos textos aparentemente tinham algum vínculo com o sacerdócio, eram liderados por sacerdotes, não concordavam com o sacerdócio que controlava o Templo de Jerusalém, estimulavam um estilo de vida piedoso e ascético, e aguardavam para breve um embate entre as forças do bem e as forças do mal.
A “biblioteca de Qumran”, como veio a ser chamada, nos ajudou a entender melhor o texto da Bíblia Hebraica, particularmente no que diz respeito à transmissão do texto. Ao mesmo tempo, nos ajudou a entender melhor o desenvolvimento do judaísmo primitivo, sem falar que nos deu uma melhor compreensão do contexto cultural do judaísmo daquele tempo e do contexto em que surgiu o cristianismo. No entanto, nenhum Evangelho foi descoberto em Qumran. Também não se encontrou nenhum outro documento que falasse de Jesus Cristo ou do cristianismo.
Todos os rolos e fragmentos são judaicos. É totalmente falsa a afirmação de Teabing de que “os manuscritos do mar Morto ... encontrados na década de 50, escondidos em uma caverna perto de Qumran, no deserto da Judéia ... falam do ministério de Cristo em termos muito humanos” (p. 223). Também não é verdade que os manuscritos do mar Morto são “os mais antigos registros cristãos” (p. 233).

O Evangelho de Maria
Esse texto é atribuído a Maria Madalena e foi preservado em dois fragmentos gregos do terceiro século (P. Rylands 463 e P. Oxyrhynchus 3525), bem como num manuscrito copta fragmentário do quinto século (Berolinensis Gnosticus 8052,1). O livro como tal provavelmente foi escrito em língua grega, no final do segundo século A.D. Contém idéias a respeito de salvação que são muito parecidas com as que se encontram em outros textos gnósticos.
Embora não tenhamos o texto completo, podemos ver que a obra se divide em duas partes. Na primeira, Jesus, ressuscitado dentre os mortos, transmite uma revelação a todos os seus apóstolos. Mostra-lhes a verdadeira natureza do pecado, admoesta e abençoa-os, comissiona-os a pregar o evangelho, e então se retira. Isso deixa os apóstolos tristes. Maria, então, passa a consolá-los e os estimula a que meditem naquilo que Jesus havia dito. Maria havia recebido uma revelação especial de Jesus. Em função disso, Pedro solicita que ela lhes conte o que Jesus revelara a ela em particular.
Na segunda parte da obra, Maria descreve a visão que havia recebido. Infelizmente, nesta altura faltam quatro páginas do manuscrito, e isto faz com que conheçamos apenas o começo e o final da visão. Tudo indica que Maria tivera uma conversa com Jesus. Ele lhe fez uma descrição de como a alma humana pode ascender, livrando-se dos quatro poderes que controlam o mundo, para encontrar seu descanso eterno.
O fato Jesus ter aparecido numa visão apenas a Maria, explicando-lhe coisas que os apóstolos não conheciam, faz com que Maria tenha, neste Evangelho, uma relação especial para com Jesus. No final do Evangelho, André duvida que Jesus tenha dito aquelas coisas a Maria. Pedro, por sua vez, questiona se Maria de fato teve aquela visão. É neste ponto que Levi diz a seus colegas que Jesus “a conhecia bem e por isso a amou mais do que a nós”. Eles os anima a que saiam e preguem o evangelho, como Jesus havia ordenado. Foi o que fizeram, e assim termina este Evangelho.
O texto pertence ao gênero conhecido como “diálogo gnóstico” e reflete algumas das tensões que surgiram no cristianismo do segundo século. Pedro e André representam o ponto de vista ortodoxo que nega o valor de tais visões e rejeita a autoridade de mulheres para ensinarem na igreja. Maria aparece como estando acima de tudo isso, por causa de um relacionamento especial com Jesus, pelo conhecimento que ela recebeu e pela sua função de encorajar os apóstolos entristecidos.

A Biblioteca de Nag Hammadi
Em dezembro de 1945, perto da aldeia egípcia de Nag Hammadi, alguns agricultores beduínos estavam fazendo escavações, em busca de fertilizantes, quando encontraram um grande vaso de cerâmica. Dentro dele havia treze volumes com encadernação de couro, contendo 52 documentos escritos sobre papiro. Os documentos estavam em língua copta antiga, mas tudo indica que são traduções do grego. Entre os documentos estavam “Evangelhos” supostamente escritos por discípulos de Jesus, como Filipe e Tomé, além de reflexões místicas sobre o mundo e a criação, exposição de doutrinas e ataques dirigidos a cristãos que tinham pontos de vista diferentes daqueles defendidos pelos autores ou grupos de pessoas que escreveram ou preservaram os documentos. Os volumes foram encadernados na segunda metade do quarto século, mas os textos em si foram escritos num período anterior, durante os séculos dois e três.
Não se sabe por que os documentos foram tirados de circulação. Uma possibilidade é que as idéias e os ensinamentos gnósticos contidos neles eram considerados heréticos pela igreja daquele tempo. O mosteiro fundado por São Pacômio ficava a apenas cinco quilômetros do lugar onde os documentos foram encontrados, e é possível que os monges tenham enterrado os mesmos para que fossem preservados.
Quanto ao que se afirma no livro O Código Da Vinci, é preciso dizer que os “Evangelhos” que fazem parte dessa biblioteca se interessam mais pelas qualidades divinas de Jesus do que por sua humanidade. A tese de que Constantino convocou o Concílio de Nicéia para fazer com que os cristãos aceitassem a idéia de que Jesus era divino não se sustenta diante dos fatos históricos.

O Evangelho de Filipe
Em 1945, em Nag Hammadi, no Egito, foi descoberto um único manuscrito copta do Evangelho de Filipe, um documento totalmente desconhecido antes daquela data. É um texto gnóstico, provavelmente compilado no terceiro século. Não se trata de um Evangelho narrativo, como os Evangelhos que se encontram no Novo Testamento. Também não é uma coleção de ditos de Jesus semelhante ao Evangelho de Tomé, em copta. É, isto sim, uma coleção de reflexões místicas atribuídas a Filipe, um dos discípulos de Jesus, que foram tiradas de sermões, discursos e meditações teológicas.
Como os textos não estão em forma de narrativa, são difíceis de interpretar. No entanto, o uso de certas palavras na organização do material ajuda a identificar os temas. Um destes é o contraste entre os que são aptos a entender e os que não são. O texto fala de conhecimento acessível a todos, e conhecimento que é acessível apenas a iniciados. Existem pessoas “de fora” imaturas, que são chamadas de “hebreus”, e que são na verdade cristãos simples ou normais. Existem também iniciados maduros, chamados de “gentios”, que são os próprios gnósticos. A respeito dos “de fora” se afirma que estão errados no que diz respeito a muitas de suas crenças, como, por exemplo, o fato de considerarem a ressurreição de Jesus um evento histórico real (v.21), e não apenas a expressão simbólica de uma verdade mais profunda.
No Evangelho de Filipe dá-se destaque especial aos sacramentos cristãos. Cinco são citados nominalmente: um batismo, uma unção, uma eucaristia, uma redenção, e uma câmara nupcial (v.68). Infelizmente, é difícil saber o que o autor quis dizer com isso, e se esses ritos eram de fato praticados, e como eram praticados. Alguns sugerem que o Evangelho de Filipe é uma coleção de citações tiradas principalmente de um catecismo gnóstico-cristão que tratava dos sacramentos.
Os textos em si foram objeto de muita discussão. Em anos recentes, o que mais se discutiu foi o v.55, que é um texto fragmentário:
A Sofía —a quem chamam “a estéril”— é a mãe dos anjos; a companheira [……………] Madalena. [……………………] mais do que aos […] discípulos (e) a beijou na [……………..]. Os outros [.........] lhe disseram: “Por que [……….] mais do que a todos nós”? O Salvador respondeu e lhes disse: “A que se deve que eu não os queira tanto quanto a ela”?

Por maior que seja a nossa curiosidade, não temos certeza quanto a como preencher as lacunas. O texto diz que Jesus beijou Maria, mas não diz onde a beijou. Em O Código da Vinci, este versículo e o v. 36
Três (eram as que) sempre andavam com o Senhor: Maria, a mãe dele; a irmã de Maria; e Madalena, a quem se designa de sua companheira. Maria é, de fato, a irmã, a mãe, e a companheira dele.
são usados para fundamentar a noção de que Jesus e Maria eram casados. Teabing afirma: “Como qualquer estudioso do aramaico poderá lhe explicar, a palavra companheira, naquela época, literalmente significava esposa”. (p. 233). Na realidade, porém, a palavra que aparece no manuscrito copta não é aramaica. Trata-se de uma palavra emprestada do grego—koinonós—que pode significar “sócia”, “companheira”, “amiga”.

O Evangelho de Tomé
Três fragmentos diferentes de versões gregas do Evangelho de Tomé foram encontrados no começo do século vinte, durante escavações arqueológicas de uma antiga biblioteca em Oxyrhynchus, no Egito. O Evangelho de Tomé na sua íntegra, escrito em copta, foi descoberto entre uma coleção de documentos gnósticos na localidade de Nag Hammadi, no Egito, em 1945.
Este “evangelho” é uma coleção de 114 “ditos secretos” de Jesus, supostamente escritos por Dídimo Judas Tomé, que, segundo algumas lendas, era irmão gêmeo de Jesus. O Evangelho de Tomé traz apenas esses 114 ditos. Não há relato de milagres, nenhum tipo de história ou narrativa, e nada a respeito da morte e ressurreição de Jesus. O autor não se interessa pela vida, morte e ressurreição de Jesus. Ao contrário, volta-se para ensinamentos misteriosos que Jesus teria dado. No início ele afirma: “Quem descobre o sentido destas palavras não experimentará a morte” (dito número 1).
Mais da metade dos ditos é semelhante a textos que se encontram nos Evangelhos do Novo Testamento. Um exemplo é o dito número 34:
Disse Jesus: Quando um cego guia outro cego ambos cairão na cova.

Por outro lado, contém ditos e parábolas de Jesus que não constam dos quatro Evangelhos do Novo Testamento. Também traz versões diferentes de palavras bem conhecidas de Jesus que se encontram nos Evangelhos canônicos. Um exemplo é o dito número 31:
Nenhum profeta é aceito em sua aldeia. O médico não cura aqueles que o conhecem.

Alguns ditos são bem diferentes e revelam idéias gnósticas. Exemplo disso é o dito número 11:
Disse Jesus: Este céu passará como aquele que está acima dele. Os mortos não vivem e os vivos não morrerão. No dia em que comeis o que está morto, torná-lo-eis vivo. Que fareis quando estiverdes na luz? No dia em que éreis um, vos tornastes dois. Mas que fareis quando vos tornardes dois?

As pessoas são vistas como espíritos que caíram do mundo divino e estão como que presas em seus corpos materiais. Houve um tempo em que eram um espírito unificado, mas se tornaram dois: um corpo e um espírito. Agora é preciso fugir do corpo e se tornar um outra vez. A salvação só é possível para aqueles que entendem isso e adquirem o conhecimento necessário para fugir do corpo. Estes são os que descobrem o verdadeiro sentido das palavras (dito número 1). Quem transmite tal conhecimento é Jesus. Ele é o revelador divino que traz o conhecimento secreto que pode libertar do mundo material que é mau. A morte e a ressurreição dele não têm nenhum significado para a salvação.
Alguns eruditos acham que esse documento, e outros que são atribuídos a Tomé, apontam para uma certa tradição existente no cristianismo primitivo. Entendem que, excetuando o Novo Testamento, trata-se do mais autêntico e mais significativo documento cristão primitivo. Em termos geográficos, o nome de Tomé era associado à região da Síria, talvez porque Tomé ou algumas pessoas que o tinham por seu mentor apostólico chegaram a viver naquela região. No entanto, mesmo que alguns ditos sejam bastante antigos e possam remontar a Jesus, o documento como um todo foi escrito depois dos Evangelhos que se encontram no Novo Testamento, durante o segundo século A.D. Em todo caso, não foi incluído no Novo Testamento quando este foi formado.


* Bill Mitchell é especialista em tradução da Bíblia e coordenador de Tradução da Área das Américas das Sociedades Bíblicas Unidas.

Fonte: Sociedade Bíblica do Brasil
http://www.sbb.org.br/noticias/noticiaMitchel.asp?noticia=200

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