Uma janela sobre o mundo bíblico

Maria Madalena



  • Estudo
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  • 27/03/2006
Luiz da Rosa

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È impressionante quanto Maria Madalena influencia a literatura e a curiosidade contemporâneas. Porém o que sabemos dela? A resposta deveria ser simples: alguns versículos nos evangelhos e nos textos gnósticos, que falam sobretudo do papel negativo que têm as mulheres no cristianismo e não de sua santidade.

Quanto à identificação do personagem há muita confusão, graças sobretudo a um sermão do Papa Gregório, o Grande, feito em 591, na Igreja do Latrão, em Roma. Ele dizia: “A mulher que Lucas chama de ‘a pecadora’ e João de ‘Maria’, cremos que seja aquela de quem Marcos diz que Jesus expulsou 7 demônios” (Sermões sobre o Evangelho, 33). Dessa forma se passou a identificar numa única pessoa 3 personagens evangélicos: Maria de Magdala, Maria de Betânia e a pecadora de Lucas. Tudo isso é muito prático a nível catequético, pois se cria uma imagem eloquente: a força do perdão é tão grande que transforma o pecador em amigo fiel de Jesus.

Contudo os Evangelhos distingüem claramente os 3 personagens. A primeira é Maria de Magdala (Madalena), citada nos 4 evangelhos como uma das que ficam fiéis a Jesus até o fim, aos pés da cruz (Mt 27,56; Mc 15,40; Lc 24,10 e Jo 19,20). Lucas 8,2 diz que de Maria Madalena Jesus expulsou 7 demônios. Porém uma análise detalhada desse texto conclui que para o Evangelista este detalhe não é importante, mas quer sublinhar o papel das mulheres na missão de Jesus: o grupo apostólico era em prática sustentado por um grupo de mulheres.

João, falando da Madalena, sublinha o acontecimento após a ressurreição (Jo 20,1ss), quando Jesus aparece a ela, que pensa ser o jardineiro. É um texto muito bonito e muito comentado. Tem 3 mensagens fundamentais. A primeira tenta mostrar a crueldade da morte, a dor da separação e a incapacidade de ver além das aparências, de reconhecer a presença do Senhor. A segunda sublinha como a relação entre o cristão e Deus é pessoal, pois Jesus chama Maria Madelena por nome e ela a Jesus de Rabbouni, como provavelmente fazia quando Jesus era vivo. A terceira mensagem é sobre a ressurreição, que acontece ao corpo humano, visto que Maria reconhece Jesus, contituindo assim o cristianismo numa religião de vivos.

Outra Maria é aquela de Betânia. Três evangelhos (Mt 26,6-13; Mc 14,3-9; Jn 12,1-11) a presentam como uma figura profética, como outras mulheres bíblicas (Mírian, Débora, Hulda e Ana): ela perfuma o corpo de Jesus, anunciando a sua morte. Para Lucas esse gesto é feito pela pecadora. De qualquer forma ele dá a Maria de Betânia um papel também espiritual, por ocasião do fomoso episódio de Marta e Maria (Lc 10,38-42). Com isso Lucas, e também os demais profetas, sublinham o papel espiritual que devem ter as mulheres na Igreja.

A terceira Maria é a pecadora de Lucas (8,36-50). Ele retoma o epsódio da unção com o óleo, mas nesse caso sem o tom profético dos outros evangelhos, pois para Lucas a Maria é pecadora e o gesto em si é expressão de amor e reconhecimento: ela reconhece em Jesus o Filho de Deus e isso faz com que seus pecados sejam perdoados. Ela é, portanto, um modelo de contrição.

Outra fonte para conhecer Madalena seriam os textos gnósticos. As igrejas gnósticas, de fato, atribuem a ela um lugar importante. No Evangelho de Tomás Maria de Madalena faz parte dos apóstolos e em Sofia de Jesus Cristo ela tem um papel de igualdade com os homens. Em Pistis Sofia é a interlocutora privilegiada de Jesus. Há até memmo um evangelho com o seu nome, o Evangelho de Maria Madalena. Aparece também no Evangelho de Filipe, de onde é tomado o texto polêmico do Codice Da Vinci, que diz que Maria costumava beijar Jesus.

Em todas essas obras, cuja a autenticidade e caráter merecem um artigo a parte, a Madalena não tem muita personalidade e são poucos os dados biograficos. No fundo esses textos não servem para conhecer Maria Madalena, mas sobretudo os gnósticos, que, em resumo suscinto e precário, fazem parte de movimentos que reinvindicavam o conhecimento de tradições secretas e a detenção da estrada para a revelação desses mistérios.

Fora desses elementos não sabemos mais nada da nossa persoagem. O culto a Maria Madalena é tardio: Gregório de Tours diz, no Século VI, que o túmulo dela está em Éfeso e apenas Beda, o venerável, fala de uma festa liturgica dedicada a ela.


Bibliografia
Infelizmente não existe muita bibliografia em português para o estudo do tema. Quem consegue ler em outras línguas, indicamos os textos que consultei. Em Inglês há o livro de Susan Haskins, Mary Madgdalen, Myth and Metaphor (New Yoirk, Riverhead Books, 1995). Em francês, invés, há mais livros: Marie-Madeleine, illustre inconnue des premiers siècles (Régis Burnet, Le Monde de la Bible, 170 – 2006), Marie-Madeleine, de la pécheresse pardonnée à l’épouse de Jésus (Régis Burnet, Paris, Du Cerf, 2005), L’invention de marie-Madaleine (Pierre-Emmanuel Dauzat, Paris, Bayard, 2001) e Le culte de Marie-Madeleine em occident (Cahiers d’archéologie et d’Histoire 3, 1959)
Sobre o Evangelho de Maria Madalena, pode ler as seguintes publicações:
FARIA, Jacir de Freitas. As origens apócrifas do cristianismo: Comentários aos evangelhos de Maria Madalena e Tomé. São Paulo: Paulinas, 2003; LELOUP, Jean-Ives. Evangelho de Maria: Miriam de Mágdala, Petrópolis: Vozes, 1998. Na rede dê uma olhada na página de Fr. Jacir (http://www.bibliaeapocrifos.uaivip.com.br), que tem vários textos sobre os apócrifos e também nesse endereço um resumo do Evangelho de Maria Madalena (http://www.bibliaeapocrifos.uaivip.com.br/evangelhomariamadalena.htm)

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