Uma janela sobre o mundo bíblico

A Ceia Pascual de Jesus



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  • 24/03/2016
Giuseppe Ghiberti

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Tradução do Francês de Luiz da Rosa
Revista SIDIC, Vol XXX, n. 1, 1997 - pp 7 – 11



O último ato comunitário realizado por Jesus antes de ser preso no Getsêmani foi uma janta, ceia, particularmente solene. Alguns dizem que se tratou de uma “janta de despedida”, outros dizem que foi uma “ceia pascual”, mas se pergunta se não seria correto unir esses dois aspectos e afirmar que a ceia pascal, por ocasião do último encontro, ganha o caráter de uma janta de despedida, ou que Jesus, para essa despedida, queria deliberadamente utilizar uma ceia pascal. Penso que as testemunhanças, um pouco problemáticas, dos evangelhos nos permitem chegar a essa conclusão.


A Páscoa no Novo Testamento
A narração da Paixão de Cristo tem como pano de fundo, em todos os evangelhos, o cenário da celebração da Páscoa judaica que serve seja para explicar a maneira com a qual os sacerdotes e escribas tentam prender Jesus (Mc 14,1 e Lc 22,1: “A Páscoa e os ázimos seriam dois dias depois, e os chefes dos sacerdotes e os escribas procuravam como prender Jesus por meio de um plano para matá-lo”), ou para sugerir os motivos pelos quais tudo aquilo aconteceu com Jesus (Mt 26,1 e particularmente Jo 13,1: “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar desde mundo paro o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”). A festa da Páscoa constitui, sem nenhuma dúvida, em relação ao ato final da vida de Jesus, o critério hermenêutico mais importante: a sua vida não poderia ser compreendida, e ainda mais a sua paixão, sem a Páscoa, na qual estão presentes os elementos essenciais.

O uso que faz o Novo Testamento do termo “Páscoa” é uma primeira demonstração dessa tese. Essa palavra, presente somente na narração da paixão em Mateus e Marcos, encontra uma primeira antecipação em Lucas (2,41) em relação com a peregrinação de Jesus a Jerusalém, quando tinha 12 anos. Em João, ao contrário, é um dos meios utilizados para marcar o tempo. As duas menções feitas no capítulo 2 (Jo 2,13 e 23) fazem referência provavelmente a mesma festa; 6,4 faz pensar ao ano seguinte, com a multiplicação dos pães e o sermão que segue; de 11,55 até 19,14 fala sempre da Páscoa na qual se concluirá a vida de Jesus. Em João encontramos ainda duas vezes a expressão “a Páscoa dos judeus” (2,13 e 11,55), mas não parece que o evangelista queira antepor essa àquela de Jesus e muito menos àquela dos cristãos: é, invés, uma simples referência aos costumes próprios da festa da Páscoa daqueles tempos, em particular à peregrinação a Jerusalém, que Jesus observa como fazem seus contemporâneos.

Em Atos 12,4 se faz ainda referência às festividades pascoais tradicionais, assim como Hebreus 11,28 é uma recordação da instituição mosaica da Páscoa. Apenas em 1Co 5,7 o termo “Páscoa” é aplicada a Cristo “nossa Páscoa”, que foi imolado. Nesse caso não existe mais uma oposição entre “nossa” Páscoa e uma “outra” Páscoa, mas somente a afirmação que Cristo tem uma relação única com a Páscoa, onde ele realiza em grau mais elevado a salvação.

Nesse clima de continuidade orgânica é compreensível que o momento supremo da realização da missão de Jesus seja descrito como o momento pascual. Porém tudo isso não basta para tirar uma conclusão sobre a última ceia.


Outros dados do Evangelho
A ceia que representa o ponto auge da experiência familiar de Jesus com seus discípulos é programada, segundo as passagens dos sinóticos, como uma ceia pascual: “onde queres que te preparemos para comer a Páscoa?” (Mt 26,17). Também, aquilo que é propriamente eucarístico no gesto de Jesus, quando chama o vinho de “meu sangue, o sangue da aliança” (Mt 26,28) o pensamento é dirigido ao estabelecimento da Aliança no Sinai (Ex 24,8: “este é o sangue da aliança...”). Porém Jesus se refere igualmente ao sangue do cordeiro pascual, que salvará os primogênitos de Israel, por ocasião da fuga do Egito, e que se torna o sacrifício da Páscoa do Senhor (Cf. Ex 12,22-27).

Em um símile quadro, a bênção ou ação de graças na qual Jesus pronuncia as palavras ‘corpo’ e ‘sangue’ para que seja o “memorial” que os presentes devem repetir no futuro (Mt26,2ss) adquire um valor pascual. A bênção, que inclui a ação de graça, tem certamente uma vasta possibilidade de significados, mas se refere particularmente à oração que pronuncia o chefe de família sobre o pão ázimo e depois sobre o vinho, durante a ceia pascual. A ordem de “fazer (aquilo) em memória” recupera toda a concepção da Páscoa enquanto “memorial” do Êxodo, do grande acontecimento através do qual Deus se revelou como libertador e salvador.

Muitos outros detalhes da Ceia, considerada como pascual, não são mencionados, mas isso depende do fato que, fundamentalmente, a narração faz uma seleção dos elementos: os evangelistas contam apenas aquilo que serve a eles para transmitir sua mensagem e não têm nenhuma preocupação de conservar elementos inúteis a esse objetivo. A ceia dos sinóticos tem a ver com o passado de Jesus e com o seu futuro e aquele dos discípulos, evitando de contar em detalhes o que aconteceu. Todavia tudo aquilo que é contado está bem organizado dentro do quadro da temática pascual. A perspectiva escatológica não é diferente, encontrando-se presente em todos os evangelistas, especialmente em Lucas: a Páscoa de Jesus, em continuidade com aquela do seu povo, celebra uma salvação que é antecipação daquela final. “O fato de esperar que possa tomar de novo o vinho no reino de Deus é ligado à idéia de um banquete final” (R. Pesch, Das Markusevangelium, II).

A situação muda quando se trata da narração segundo João. Poderíamos aceitar a idéia que o quarto evangelho conhecia uma versão mais cumprida da paixão, que compreendesse também os episódios que conta nos capítulos 12 e 13. A grande estrutura dessa seqüência, que narrativamente continua nos capítulos 18 e seguintes, é construída sobre uma referência à Páscoa, que porém acontecerá somente por ocasião do “Grande Shabat”, que seguirá a crucificação. A narração da ceia começa com a indicação temporal “antes da festa da Páscoa” (13,1) e não se fala nunca nem em preparar nem em comer a Páscoa. Constata-se outros dois aspectos: aqueles que conduziram Jesus da casa de Caifas ao pretório “não entraram no pretório para não se contaminarem e poderem comer a Páscoa” (18,18); além disso, fala-se em “parasceve”, ou seja, preparação da Páscoa, quando termina o processo diante Pilados (“perto da sexta hora” – 19,14) e também quando se constata a morte de Jesus (parasceve do dia particularmente solene do Shabat – 19,31). Portanto para João a Páscoa começa apenas na noite em que Jesus é crucificado e por isso a última ceia não pode ser uma ceia pascual.

Apesar disso encontramos em João certos detalhes que não parecem de acordo com o que se disse no parágrafo precedente, ao menos no parecer de numerosos exegetas: os interessados são esperados para um banquete, Jesus toma um pedaço de pão e dá a Judas (13,26), os discípulos pensam que Judas deva “dar alguma coisa aos pobres” (13,29). Parece, de fato, que somente durante a Páscoa existe a exigência de tal conforto e solenidade; que o pedaço de pão seja aquele que o chefe de casa, na ocasião da Páscoa, oferece aos convidados; e a esmola é uma das obras de caridade recomendadas no contexto da Páscoa.

Mesmo os sinóticos, quanto às contradições, não são diferentes, pois muitas ações ali descritas parecem não serem típicas da época de Páscoa: organiza-se uma ação judiciária, uma execução seguida da deposição da cruz e sepultura, num momento sagrado que exigiria a abstenção de todas essas ações.


A discussão sobre a data da Última Ceia
As questões sobre esse tema podem ser assim resumidas: não há dúvida de que a Páscoa foi celebrada no dia 15 de Nisan do calendário hebraico, como é tradição no mundo hebraico; não há dúvidas que Jesus morreu em uma sexta-feira e que foi retirado da cruz de forma apressada por causa da chegada do Shabat, isto é, antes do pôr-do-sol daquela sexta. Porém que dia era aquela sexta-feira, 14 ou 15 de Nisan? E quando foi realizada a ceia de páscoa que concluiu a vida familiar de Jesus com seus discípulos, terça-feira ou quinta-feira? Se foi quinta-feira, era fim do dia 13 ou 14 de Nisan?

As aparências de João e dos Sinóticos fariam concluir que a Última Ceia foi na quinta, a crucifixão e sepultura na sexta e a ressurreição no primeiro dia depois do Shabat. Porém em João a Última Ceia se realizou dia 13, início do 14 de Nisan e não foi uma ceia pascal e tudo aquilo que aconteceu durante a paixão tem como ambiente o tempo anterior à Páscoa. Para os sinóticos a crucifixão aconteceu dia 15 de Nisan e a Última Ceia era uma ceia pascual. Por que essa diferença? Essas tradições diferentes são incompatíveis entre si?
Um resumo das respostas dadas a essa questão podem ser assim descrito:
1. Os sinóticos antecipam a Páscoa por que querem fazer coincidir a instituição da Eucaristia, a nova aliança, com a festa da antiga aliança.

2. João atrasa a data da Páscoa por que ele quer demonstrar que Jesus morre como um novo cordeiro pascual, no momento quando acontecia a imolação do cordeiro do seu povo no templo.
Essas duas respostas recorrem primeiro de tudo à tendência substancialmente igual, que é aquela pascual, embora sejam duas interpretações diferentes. Isso não prescinde do valor histórico do fato. De fato a crítica até hoje se divide entre duas orientações: uma afirma que o Novo Testamento se limita a testemunhar a existência de duas tradições paralelas sobre as circunstancias da Ceia no quadro dos últimos acontecimentos da vida de Jesus, sem nos permitir uma reconstrução exata dessas circunstâncias. A outra defende que, entre as informações que nos transmite o Novo Testamento, as circunstâncias são, invés, possivelmente estabelecidas e podem ser determinadas graças a uma pesquisa adequada. Esta segunda orientação se verifica somente na narração dos sinóticos (a ceia foi de verdade pascual). Porém existem outras hipóteses possíveis.

3. Aquilo que conta nos evangelhos não é a interpretação do fato, mas o fato em si. E por isso o acontecimento pode ser visto em uma ou nas duas versões.

4. O fato é contado tal como aconteceu, somente que cada uma das duas tradições vê o acontecimento segundo um calendário diferente.


Sugestões finais
Minha leitura se situa de preferência dentro desta série de hipóteses e explico tentando partir do ponto original que são os evangelhos. Jesus e seus discípulos viveram os acontecimentos da Última Ceia sendo conscientes do momento em que isso acontecia: tudo durante a Páscoa ou antes dela. A consciência de Jesus entendia que tudo conduzia exatamente a tais acontecimentos; a consciência dos apóstolos, invés, era mais limitada, mas eles entendem tudo a partir da releitura que fazem de suas recordações, mais tarde. Não existe razão para pensar que o passar do tempo (um tempo que não foi muito cumprido, até quando foram fixadas as tradições) tenha permitido conservar apenas as interpretações e não os fatos em si e as suas circunstancias importantes, como aquela da data. Na diferença que existe entre a narração dos sinóticos e aquela de João não subsiste sinais que bastam para concluir que tenha existido uma alteração das recordações em função de uma tendência interpretativa sobre a Última Ceia.

Se essas premissas são justificadas, uma leitura harmônica dos textos não é somente uma solução fácil, mas obrigatória. A sugestão é considerar que o texto de João segue o calendário dos Saduceus pois, no ano da morte de Jesus, a Páscoa caiu em um dia antes em relação ao calendário que seguiam os Fariseus, ao qual se apoiariam os sinóticos. Isso deixa aberto o problema do calendário seguido por Jesus: normalmente se defende que ele seguisse aquele dos Fariseus e que portanto Ele quis provavelmente inserir a Ceia Eucarística dentro do ritual da Páscoa dos Judeus. Esta leitura vem confirmada pelos detalhes propostos por João que se explicam como vestígios das recordações sobre a festa da Páscoa.

Recentemente a sugestão de Annie Jaubert despertou um certo interesse, isto é, considerar a Ceia de Jesus como uma Ceia Pascual, mas celebrada terça-feira, segundo as indicações do antigo calendário atestado pelos documentos de Qumrãn: o primeiro mês do ano começa sempre no meio da semana, quarta-feira. De conseqüência, os fatos da Paixão teriam acontecidos num laço de três dias: quarta-feira teria acontecido a primeira audiência de Jesus diante do tribunal judeu; quinta-feira a segunda audiência e a condenação (e pode ser o início do processo romano); sexta-feira a sentença pronunciada pelo tribunal romano e a crucifixão.

Esta última hipótese precisaria ser aprofundada, vista a dificuldade para explicar os elementos “concêntricos” das narrações evangélicas, que fazem pensar a um procedimento que dura pouco tempo. A hipótese que contrapõe os dois calendários, aquele dos fariseus e aquele dos Saduceus, seria a mais simples, mas ela não tem justificação documentária sólida e não explica como puderam ser tomadas, em relação a Jesus, iniciativas proibidas em um dia de festa. Apesar disso, o valor documentário da narração se concentra tão claramente sobre a Páscoa que a colocar em dúvida não teria algum sentido. Deveria ser reconhecido, mais simplesmente, que não conseguimos captar muitos detalhes subentendidos na narração.

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