Uma janela sobre o mundo bíblico

Sobre a Leitura Popular da Bíblia no Brasil



  • Estudo
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  • 25/05/2006
Carlos Mesters

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Este artigo é como uma fotografia. Uma vez feita, ela não muda mais. Mas a pessoa fotografada continua mudando. Depois de alguns anos, ela talvez não se reconheça mais nesta fotografia que aqui apresentamos com muito respeito e carinho. O artigo reflete a nossa prática no CEBI[1] e nas Comunidades Eclesiais da Base (CEBs)[2]. Abordamos a leitura popular feita nas comunidades. Apesar de elas serem uma minoria, é significativa a sua irradiação na vida das igrejas.

I

Dez Características da leitura popular

1. A Bíblia é reconhecida e acolhida pelo povo como Palavra de Deus. Esta fé já existia antes da chegada do que se convencionou chamar leitura popular. É nesta raiz antiga que se enxerta todo o nosso trabalho com a Bíblia junto do povo. Sem esta fé, todo o método teria de ser diferente. “Não es tu que sustentas a raiz, mas a raiz sustenta a ti” (Rm 11,18).

2. Ao ler a Bíblia, o povo das Comunidades traz consigo a sua própria história e tem nos olhos os problemas que vêm da realidade dura da sua vida. A Bíblia aparece como um espelho, "sím-bolo" (Hb 9,9; 11,19), daquilo que ele mesmo vive. Estabelece-se uma ligação profunda entre Bíblia e vida que, às vezes, pode dar a impressão de um concordismo superficial. Na realidade, é uma leitura de fé muito semelhante à que faziam as primeiras comunidades (cf. At 1,16-20; 2,29-35; 4,24-31) e os Santos Padres.

3. A partir desta ligação entre Bíblia e vida, os pobres fazem a descoberta, a maior de todas: "Se Deus esteve com aquele povo no passado, então Ele está também conosco nesta luta que fazemos para nos libertar. Ele escuta também o nosso clamor!" (cf. Ex 2,24;3,7). Nasce assim, imperceptivelmente, uma nova experiência de Deus e da vida que se torna o critério mais determinante da leitura popular e que menos aparece nas suas explicitações e interpretações. Pois o olhar não se enxerga a si mesmo.

4. Antes deste contato mais vivido com a Palavra de Deus, a Bíblia ficava longe da vida do povo. Era o livro dos “padres”, dos “pastores”, do clero. Mas agora ela chegou perto! O que era misterioso e inacessível, começou a fazer parte da vida quotidiana de crianças, mulheres e homens empobrecidos. E junto com a sua Palavra, o próprio Deus chegou perto! “Vocês que antes estavam longe foram trazidos para perto!” (Ef 2,13) Difícil para um de nós avaliar a experiência de novidade e de gratuidade que isto representa para as pessoas empobrecidas.

5. Assim, aos poucos, foi surgindo uma nova maneira de se olhar a Bíblia e a sua interpretação. Ela já não é vista como um livro estranho que pertence ao clero, mas sim como o nosso livro, "escrito para nós que tocamos o fim dos tempos" (1Cor 10,11). Às vezes, ela chega a ser o primeiro instrumento de uma análise mais crítica da realidade. Por exemplo, a respeito de uma empresa que oprime e explora o povo, o pessoal da comunidade dizia: "É o Golias que temos que enfrentar!"

6. Pouco a pouco, cresce a descoberta de que a Palavra de Deus não está só na Bíblia, mas também na vida, e de que o objetivo principal da leitura da Bíblia não é interpretar a Bíblia, mas sim interpretar a vida com a ajuda da Bíblia. A Bíblia ajuda a descobrir que a Palavra de Deus, antes de ser lida na Bíblia, já existia na vida. As comunidades descobrem que a sua caminhada é bíblica. “Na verdade, o Senhor está neste lugar, e eu não o sabia” (Gn 28,16)!

7. A Bíblia entra na vida do povo não pela porta da imposição autoritária, mas sim pela porta da experiência pessoal e comunitária. Ela se faz presente não como um livro que impõe uma doutrina de cima para baixo, mas como uma Boa Nova que revela a presença libertadora de Deus na vida e na luta do povo. As pessoas que participam dos grupos bíblicos, elas mesmos se encarregam de divulgar esta Boa Notícia e atraem outras para participar. “Vinde ver um homem que me contou toda a minha vida!” (Jo 4,29).

8. Para que se produza esta ligação profunda entre Bíblia e vida, é importante: a) Ter nos olhos as perguntas reais que vêm da realidade, e não perguntas artificiais que nada têm a ver com a vida do povo. Aqui aparece como é importante o/a intérprete ter convivência e experiência pastoral inserida no meio do povo. b) Descobrir que se pisa o mesmo chão, ontem e hoje. Aqui aparece a importância do uso da ciência e do bom senso, tanto na análise crítica da realidade de hoje como no estudo do texto e do seu contexto social. c) Ter uma visão global da Bíblia que envolva os próprios leitores e leitoras, e que esteja ligada com a situação concreta das suas vidas hoje.

9. A interpretação que o povo faz da Bíblia é uma atividade envolvente que compreende não só a contribuição intelectual do/a exegeta, mas também todo o processo de participação da Comunidade: trabalho e estudo de grupo, leitura pessoal e comunitária, teatro, celebrações, orações, recreios, “enfim, tudo que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honroso, virtuoso ou que de qualquer maneira merece louvor” (Fl 4,8). Aqui aparecem a riqueza da criatividade popular e a amplidão das intuições que vão nascendo.

10. Para uma boa interpretação, é muito importante o ambiente de fé e de fraternidade, através de cantos, orações e celebrações. Sem este contexto do Espírito, não se chega a descobrir o sentido que o texto tem para nós hoje. Pois o sentido da Bíblia não é só uma idéia ou uma mensagem que se capta com a razão e se objetiva através de raciocínios; é também um sentir, um conforto que é sentido com o coração, “para que, pela perseverança e pela consolação que nos proporcionam as Escrituras, tenhamos esperança” (Rm 15,4).

II

Um pouco de história

A situação dramática do nosso povo, a renovação das igrejas e a divulgação dos resultados da exegese moderna contribuíram, cada uma a seu modo, para que se chegasse a esse tipo de leitura da Bíblia. O que nos interessa aqui é ver de perto alguns fatores mais imediatos, dos anos 60 para cá.

A situação do povo, a renovação das igrejas e a leitura popular

No início dos anos 60, na América Latina, a situação do povo era (e continua sendo) de abandono e de opressão. No Brasil, o trabalho político de conscientização popular teve a participação ativa de membros de várias igrejas cristãs. Diversos setores da chamada Ação Católica, JOC, JEC, JUC e JAC[3], tiveram uma atuação muito grande. Eles chegaram a formar um partido, a Ação Popular. Este compromisso político dos cristãos e cristãs repercutiu na maneira de se ler a Bíblia. A desumanidade das ditaduras militares, algumas delas feitas com o apoio velado de autoridades eclesiásticas ou em nome da assim chamada tradição cristã, despertava muitos cristãos para uma leitura mais libertadora e mais ecumênica, impedindo que a Palavra de Deus fosse manipulada para legitimar a opressão e a exploração do povo. Neste processo, fundamental também foi a contribuição de setores de igrejas protestantes, como por exemplo, a PPL – Pastoral Popular Luterana.

Aos poucos, porém, percebeu-se, para além do trabalho de conscientização política, a necessidade de um trabalho educativo mais capilar e mais paciente junto do povo, respeitando melhor a sua religião, a sua cultura, a sua caminhada. Naquela situação de perseguição e de controle ideológico, as igrejas surgiram como um espaço, onde se podia trabalhar com certa liberdade, ainda que a perseguição e tortura tenham chegado também a muitas pessoas “religiosas”.

Assim, a partir dos anos 60, diante da necessidade de um trabalho mais respeitoso no meio dos pobres, surgiram as Comunidades Eclesiais de Base e, nas comunidades, em todo canto, foram surgindo os Círculos Bíblicos, grupos de reflexão, grupos do evangelho, celebrações da Palavra.

Os Círculos Bíblicos se inspiram no método Ver-Julgar-Agir, usado pelos grupos da Ação Católica. Este método tinha trazido uma nova maneira de se considerar a ação reveladora de Deus. Antes de procurar saber o que Deus falou no passado, ele procura Ver a situação do povo hoje, os seus problemas. Em seguida, com a ajuda de textos da Bíblia, procura Julgar esta situação. Isto faz com que, aos poucos, a fala de Deus já não venha só da Bíblia, mas também dos próprios fatos iluminados pela Bíblia. E são eles, os fatos, que assim se tornam os transmissores da Palavra de Deus e que levam a Agir de maneira nova.

Os Círculos Bíblicos tiveram uma expansão muito rápida. Sinal de que estavam respondendo a uma exigência real. Ninguém sabe quantos são atualmente. Só mesmo o Espírito Santo. Eles foram e continuam sendo a raiz de um novo modo de ser igreja. O seu método imita de perto os passos sugeridos por Lucas no episódio de Emaús, onde o próprio Jesus interpreta a Escritura para os discípulos: (1) Jesus parte da realidade, pois quer saber de que estão falando (Lc 24,13-24). (2) Usa a Bíblia para iluminar o problema dos amigos (Lc 24,25-27) e (3) convida-os a celebrar e partilhar o pão (Lc 24,28-32). (4) Quando, ao experimentarem a presença viva de Jesus, os olhos dos discípulos se abrem, eles mesmos ressuscitam, voltam para Jerusalém e partilham com os outros a sua experiência de ressurreição, como até hoje acontece nos encontros comunitários.

Conhecer a Bíblia, reunir em comunidade e transformar a situação

No decorrer deste processo histórico dos últimos quarenta anos, foram aparecendo três objetivos na atitude do povo frente à Bíblia: vontade de conhecer a Bíblia; desejo de reunir e celebrar a Palavra; decisão de servir ao povo e transformar a situação. Estes três objetivos estão presentes e, às vezes, conflitantes, na leitura popular.

1. Conhecer a Bíblia

As novas descobertas da exegese abriram uma nova janela sobre o texto bíblico e o contexto da sua origem. Na Igreja Católica, o documento conciliar Dei Verbum e as Assembléias Episcopais de Medellin e Puebla fizeram crescer o interesse pela Bíblia. A vontade de conhecer a Bíblia estimulou muita gente a uma leitura mais freqüente.

Através de vários canais, a Bíblia foi chegando mais perto do povo. Entre muitos outros, destacamos: (1) A renovação litúrgica pela qual passou a Igreja Católica Romana, que divulgou o uso da Bíblia na linguagem popular. (2) O trabalho pioneiro de frei João José Pereira de Castro, OFM., que nos anos 50 traduziu a Bíblia de Maredsous, hoje com mais de 150 edições sucessivas. (3) O trabalho da antiga LEB, Liga dos Estudos Bíblicos, cujos membros fizeram uma tradução diretamente dos textos originais e incentivaram em todo canto cursos e semanas bíblicas. (4) Iniciativas como o Mês da Bíblia (mais de 25 anos consecutivos) e o Movimento da Boa Nova (MOBON) (inicialmente apologético, mas hoje um movimento de evangelização libertadora com milhares de grupos). (5) O vigor missionário das igrejas evangélicas, com todo o seu trabalho de divulgação da Bíblia.

2. Reunir e celebrar em Comunidade

Semanas bíblicas, cursos, encontros, dia da Bíblia, mês da Bíblia: tudo isto produziu um fervilhar comunitário que aglutinava as pessoas em torno da Palavra de Deus. Assim, surgem as Comunidades Eclesiais de Base e os Encontros Intereclesiais das Comunidades, que foram acontecendo periodicamente e que no ano 2000 celebraram o décimo Intereclesial em Ilhéus, Bahia.

3. Servir ao povo e transformar a situação

O conhecimento da Bíblia e a preocupação comunitária encontraram o seu objetivo no serviço ao povo. As pessoas empobrecidas, nas suas comunidades lendo a Bíblia a partir do único critério de que dispunham, a saber, a sua vida de fé e a sua situação de povo oprimido, iam descobrindo o óbvio que não conheciam: uma história de opressão igual à que elas mesmos estavam sofrendo, uma história de luta pelos mesmos valores que elas perseguem até hoje: terra, justiça, partilha, fraternidade, vida de gente. É o período em que se acentua a dimensão política da fé. É neste mesmo período dos anos 70 que surge o CEBI, o Centro de Estudos Bíblicos a serviço da Pastoral Popular, que procura divulgar e dar autoridade a esta leitura popular da Bíblia.

Por abrirem o seu espaço para este trabalho de conscientização em favor dos valores evangélicos da justiça, da liberdade e da fraternidade, as igrejas sofreram e foram vítimas da repressão política. Aqui devem ser lembrados os mártires, essa “nuvem de testemunhas ao nosso redor” (Hb 12,1). Como a carta aos Hebreus, (Hb 11,1-40), a Agenda Latino Americana, cada ano de novo, faz a memória dos milhares de mártires latino-americanos, homens e mulheres, católicos e evangélicos, leigos e religiosos, conhecidos e anônimos. Muitos deles, motivados e sustentados pela leitura orante da Palavra de Deus, deram a sua vida pela causa da liberdade, da justiça e da fraternidade.

A dinâmica interna da leitura popular

Estes três objetivos articulam-se entre si em vista do mesmo objetivo: escutar Deus hoje. Entre os três existe uma dinâmica que marca o processo da interpretação popular: conhecer a Bíblia leva a conviver em comunidade; conviver em comunidade leva a servir ao povo; servir ao povo, por sua vez, leva a desejar um conhecimento mais aprofundado do contexto de origem da Bíblia, e assim por diante. É uma dinâmica que não termina nunca. Um nasce do outro, supõe o outro e leva ao outro.

Não importa tanto a partir de qual dos três aspectos se inicia o processo da interpretação. Isto depende da situação, da história, da cultura e dos interesses da comunidade ou do grupo. O que importa é perceber que um aspecto fica incompleto sem os outros dois. Geralmente, em todas as comunidades, (1) há pessoas que querem conhecer a Bíblia e que se interessam mais pelo estudo; (2) há outras que insistem mais na comunidade e nas suas funções internas; (3) outras ainda estão mais preocupadas em servir ao povo e em dar a sua contribuição na política e nos movimentos populares.

Tudo isto produz tensões entre os vários grupos e interesses, tensões saudáveis e fecundas. O itinerário da interpretação popular, muitas vezes, é conflituoso. Em alguns lugares, a vivência comunitária está pedindo uma ação mais engajada nos movimentos populares. Em outros lugares, a prática política está pedindo um conhecimento mais aprofundado do texto bíblico e uma vivência comunitária mais intensa da espiritualidade da libertação. As tensões ajudam a criar um equilíbrio que favorece a interpretação da Bíblia, e impedem que ela se torne unilateral. Mas também podem levar a um fechamento, fazendo com que um dos três aspectos ignore ou exclua os outros dois. Embora compreensíveis, tais fechamentos são trágicos, pois nenhum dos três alcança o sentido sozinho. Para superar este perigo, é importante manter um ambiente de diálogo. Pois onde a palavra humana circula com liberdade e sem censura, a palavra de Deus gera liberdade.

Concluindo

Esta fotografia é incompleta. Faltou mencionar a ampla produção literária. Faltou espaço para falar da novidade e dos desafios que a leitura popular coloca para a exegese, para a teologia e para a vida das igrejas. A novidade da leitura popular já é antiga. Ela vem de longe e retoma alguns valores básicos da Tradição comum das igrejas. Os desafios são muitos. O desafio da ameaça do fundamentalismo crescente e da institucionalização exagerada que podem apagar o Espírito (1Ts 5,19); o desafio do diálogo inter-religioso com a cultura indígena e afro-brasileira que questiona as construções teológicas do passado; o desafio da leitura de gênero que questiona a visão patriarcal secular e a leitura machista. Ela está abrindo novos e promissores caminhos para o futuro. E o desafio da leitura ecológica, que faz ecoar em nós o clamor de toda a criação. Todos estes desafios estão abrindo novos e promissores caminhos que já marcam o presente e que querem orientar o futuro.

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