Uma janela sobre o mundo bíblico

Mês da Bíblia com Eclesiaste



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  • 01/09/2006
Gilvander Moreira

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Setembro é mês da Bíblia. Dia 30 de setembro é dia de Jerônimo (342-420), o tradutor da Bíblia para o latim, a Vulgata. Jerônimo colocou a Bíblia na linguagem do povo, o latim. Em 2006, o livro do Eclesiastes foi o escolhido para iluminar nossa caminhada no mês da Bíblia.

Ao lermos o livro de Eclesiastes, estamos lendo a palavra um sábio, amigo do povo simples! “A fervura vem do fundo do tacho” e “são os gravetos fracos e secos que alastram o maior fogaréu”, gostava de dizer Zé Paraná, sem-terra de Goiás Velho. “O sábio tem olhos abertos, o insensato caminha nas trevas”, diz Qohelet (Ecl 2,14). Parodiando o/a autor/a do livro do Eclesiastes, podemos dizer: o Divino do divino é viver intensamente cada segundo.

Eclesiastes é certamente um livro instigante e desafiador que sempre fascina os seus leitores. É um dos livros mais sábios da Bíblia. Como uma fonte de água cristalina, de Eclesiastes brota uma sabedoria com sabor de humanidade. Crítica fina, sensatez, discernimento, modéstia, ponderação, senso poético, busca do sentido profundo da vida, são todas expressões que caracterizam o seu conteúdo.

Eclesiastes é o nome do livro na versão grega. Em hebraico trata-se de Qohelet, nome que vem de qahal e significa assembléia. Eclesiastes vem de Ekklesia, nome grego que significa igreja, no sentido de assembléia do povo. Qohelet ou Eclesiastes é quem reúne uma assembléia, um grupo que acredita no Deus da vida.

“Palavras de Qohelet, filho de Davi, rei em Jerusalém” (1,1). Assim se abre o livro. A tradição judaica e cristã, até o século XIX, identificava o autor de Eclesiastes como sendo o rei Salomão, mas, no século XX, confirmou-se impossível ser Salomão o autor de Eclesiastes. Contudo, é possível que o/a autor/a de Eclesiastes seja uma pessoa mais vivida, madura e calejada pela experiência da vida.

Eclesiastes finca a transcendência da vida nas entranhas da imanência. Não deixa espaço para fugir da realidade. O sentido da vida acontece no provisório e nos momentos alegres vividos. É na intensidade com que se vive cada momento que se pode saborear o valor infinito de cada momento da vida que é único, inédito e irrepetível. Só degusta a beleza da vida quem vive intensamente cada segundo. Não se pode alienar-se nem no saudosismo do passado, nem no utopismo do futuro e nem no céu idílico do além.

No livro de Eclesiastes não temos palavra de sumo-sacerdote, nem de escriba, nem de fariseu. Quem fala é um ‘mestre, um sábio com saber saboroso, com linguagem apurada; alguém de ‘fé libertadora’, um ‘intelectual orgânico’ que estudou e ajuda o pobre a compreender as causas de seu sofrimento.

A alegria é buscada como algo imprescindível que dá um sentido bonito à vida. “Que beleza!”, parece exclamar Qohelet inúmeras vezes. “Exalto a alegria, porque não existe felicidade maior para o ser humano debaixo do sol do que comer, beber e alegrar-se. Essa é a única coisa que lhe serve de companhia na fadiga, nos dias contados da vida que Deus lhe concede debaixo do sol.” (Ecl 8,15). A exortação a alegrar-se é repetida sete vezes! Desfrutar o fruto do trabalho, seis vezes! Viver com Deus, seis vezes! Comer e beber, cinco vezes!
O livro de Eclesiastes faz-nos recordar João Guimarães Rosa ao criar uma linguagem nova a partir da linguagem do povo. Com um tom pessoal, no qual o uso da primeira pessoa do singular é uma constante, o/a autor/a inova na forma de transmitir a experiência vivenciada por um povo que vive uma experiência libertadora de Deus. Um tom reflexivo e provocante marca todo o livro.
Eclesiastes foi escrito no século III a.C., um tempo de crise, de transição, uma época de mudanças e de mudança de época. O povo judeu estava sob a dominação dos reis ptolomeus. Além do tributarismo que explorava o povo com os altos impostos, estava sendo introduzido o sistema de escravidão. Os sacerdotes, em torno do Templo, ajudavam no recolhimento dos tributos. O povo, descontente com a exploração e impedido de usufruir os frutos do seu trabalho, era denunciado na iminência de qualquer tentativa de resistência. Pagar impostos e mais impostos, trabalhar arduamente e sobreviver sob o regime de escravidão era o que se oferecia ao povo pobre. Conseqüência disso é que também indignação frente a tanta injustiça era o que não faltava. Por mais que a ideologia tentasse dizer que ser pobre e sofrer era algo natural, não podia sufocar os clamores e as rebeliões que se forjavam nos corpos de tantas pessoas. Eclesiastes dá vazão a esses clamores e os transforma em gritos de liberdade. No capítulo 4, ele aborda os problemas da opressão e do choro dos pobres e oprimidos (Ecl 4,1-3), da competição e da concorrência (Ecl 4,4-6), do trabalho exagerado de gente que vive sozinha sem ajuda de ninguém (Ecl 4,7-12).

Como um sábio que ouve com todo o seu coração o que se passa “debaixo do sol”, a tarefa de Qohelet é pesquisar, tentar conhecer, mas não se deixa alienar pelo sistema corruptor vigente. Olha para a vida e para os acontecimentos e toma posição.

Eis a sentença mais solene, lapidar, e “quinta-essência” do livro de Eclesiastes: “Vaidade das vaidades – diz Qohelet – tudo é vaidade!” (Ecl 1,2; 12,8). Assim se abre e se fecha o livro. O que o/a autor/a quis transmitir com esta afirmação categórica? Não se trata de um resumo do livro nem de uma tese antecipada. Trata-se de uma provocante introdução ao livro. É a porta de entrada. É necessário entrar casa adentro e freqüentar todos os doze capítulos para se perceber o testemunho de um místico que reflete acerca da vida. Logo não podemos, ao ler logo no início do livro a expressão “vaidade das vaidades”, concluir: Eclesiastes defende que tudo é vaidade. Na Bíblia hebraica hebel aparece 73 vezes, sendo 38 vezes em Eclesiastes (mais 2 vezes em Eclesiástico 41,11) e é, normalmente, traduzido por vaidade. O sentido fundamental é “sopro”. Em Ecl 1,2 hebel não indica a ausência de significado, mas a transitoriedade do que acontece no mundo humano.

“Tudo é vaidade!” Este “tudo” abarca o quê? Não se trata de “tudo” no sentido absoluto de que não há exceção. Certamente o autor não quer afirmar que não exista nada que não seja vaidade. Trata-se do humano, de determinadas construções históricas precisas. Provavelmente se refere somente a relações e estruturas humanas criadas historicamente e que eram experimentadas pelo/a autor/a como sendo “vaidades”. Logo, se restringe a algo que sucede “debaixo do sol”. Talvez possamos dizer no espírito de Eclesiastes: Tudo é vaidade, mas a vaidade não é tudo.

“Que vantagem tem o homem em seu duro trabalho com que se afadiga debaixo do sol?” (Ecl 1,3). Esta pergunta farol é programática no livro de Eclesiastes. Algo semelhante se ouve no meio dos pobres: “Que adianta trabalhar feito burro, ganhar um mísero salário, quando uns magnatas roubam malas e mais malas de dinheiro e vivem folgadamente? Somos trouxas; levamos tapa na cara o tempo todo. Deixamos os espertalhões andarem montados em nós como se fôssemos burros de carga. Vale a pena viver assim?”, pergunta, indignado, o desempregado que não tem dinheiro para comprar o pão para seus filhos. Qohelet não rodeia. Vai ao cerne da vida e pergunta sobre o sentido do viver sob opressão. Tem sentido? Vale a pena?

“Há tempo para nascer, tempo para morrer ...” Como conhecer o tempo oportuno para tudo? É possível criar tempo oportuno? Eis a questão central de Ecl 3,1-15. O texto faz referência a um sentido teleológico, finalístico. Não se trata de tempo de X e tempo de Y. Trata-se de tempo para X e de tempo para Y. A sabedoria está em discernir qual é o tempo justo para tal ação. Não basta que a ação seja boa, é preciso que seja no momento oportuno, nem antes e nem depois. É para se ter a sabedoria de agarrar a oportunidade quando ela aparece na nossa frente. Ou mesmo construir o tempo propício. Faz história quem age no momento adequado e quem vivencia o sentido mais profundo de cada momento.

Qohelet diz que Deus inoculou em tudo a eternidade, isto é, eternidade inclui o tempo que o ser humano experimenta e o transcende. O divino passa pelo provisório. Qohelet teve uma experiência da (e)ternidade a partir das relações mais simples da vida: comer, beber, alegrar-se, amar, trabalhar, descansar.

“Coma o próprio pão e beba o próprio vinho com alegria” (Ecl 9,7), exorta Qohelet. “Comer e beber”, além de ser uma necessidade e direito humano, é uma metáfora do viver bem. “Pão e vinho” roubado, conseguido dentro da lógica e estrutura capitalistas, sem a fadiga do trabalho, não pode ser fonte geradora de coração feliz. Em Eclesiastes, denuncia-se veementemente a exploração do trabalho humano que gera frutos que são usufruídos por outros. Qohelet defende respeito à dignidade humana de cada pessoa que deve e tem o direito de ganhar o próprio alimento com suas próprias forças. Subliminarmente, assistencialismo também é questionado.

A brevidade da juventude (Ecl 11,10b) não deve desencorajar o jovem na busca da alegria. Qohelet não exalta toda e qualquer alegria, mas uma alegria vivenciada como dádiva de Deus.

“Tema e observe os mandamentos de Deus”, resume o livro de Eclesiastes (Ecl 12,13). Esta expressão sugere que Deus deve ser reverenciado, levado a sério, respeitado. Seu nome não deve ser usado em vão. Não pode ser manipulado e nem enquadrado em esquemas religiosos que diminuem a grandeza e a força do amor de Deus. Ao dizer “tema a Deus!” Qohelet parece sugerir “deixe Deus ser Deus na sua vida”. Para Qohelet, Deus é extremamente presente e, ao mesmo tempo, extremamente ausente. Quer ver o ser humano cultivando sua autonomia, sentindo a companhia terna de Deus, mas não quer jamais tutelar as pessoas carregando-as nos braços e, muito menos, ser fonte de pavor.

Eclesiastes é um livro incômodo, com um pensamento complexo e provocador. Ensina-nos a amar a vida, aceitar os limites e sentir-nos envolvidos pela beleza, luz e força divina, existentes em cada um/a de nós e em todas as criaturas.

Enfim, tudo parece vaidade, mas não é. Nem tudo é vaidade. Assuma a provisoriedade e a fugacidade de todos os segundos da vida. Não queira fugir, nem para o futuro, nem para o passado, nem para o além. Abrace cada segundo da vida como uma dádiva de Deus e da vida; viva intensamente; “coma e beba gozando os frutos do seu próprio trabalho; seja ético; não vivas às custas de outros, e, assim, serás feliz.


Obs: Para entender melhor o livro de Eclesiastes, sugiro o livro VV.AA., O Povo sabe das coisas, Eclesiastes ilumina o trabalho, a vida e a religião do povo, CEBI, São Leopoldo, 2006.

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