1. O prenncio da morte
O dia amanheceu fechado. Uma tnue e mida chuva cai sobre a cidade. Da janela do meu quarto, vejo gotas de chuva que escorrem das folhas das arvores. Elas so como lgrimas de saudade que parecem nos lembrar: Hoje o Dia de Finados! Os mortos e a morte rondam, por um instante, o meu pensamento. Vem-me lembrana os indgenas da Serra Madre, no Mxico. Ontem, com certeza, eles tero preparado as salas de suas casas com uma mesa farta e um caminho de flores at rua para receber os seus mortos, que, segunda a tradio, hoje iro visit-los. Assim como eles iro aos seus tmulos levando flores e comida para um banquete festivo.

Entre ns, as igrejas recebero fieis para celebrar a memria de seus mortos, o Dia de Finados. Muitos tambm visitaro os tmulos de seus entes queridos.
Morte! Sagrado mistrio da morte que envolve a todos ns! Para onde vamos aps a morte? A resposta de f do cristo simples: para vida de ressuscitados em Deus, assim como Jesus, que venceu a morte. Mas, o que mesmo a morte? Algum poderia me responder? O que o livro do Eclesiastes nos tem a dizer sobre a morte?


2. A morte no livro do Eclesiastes

Lendo o livro do Eclesiastes, anotei as seguintes passagens sobre morte.
1. Ningum se lembra dos seus antepassados. E tambm aqueles que lhes sucedem no sero lembrados por seus psteros (1,11).
2. No h lembrana durvel do sbio e nem do insensato, pois nos anos vindouros tudo ser esquecido: o sbio morre com o insensato (2,16);
3. H um tempo de nascer e tempo de morrer (3,2);
4. Tudo caminha para um mesmo lugar: tudo vem do p e tudo volta ao p (3,20);
5. Eu felicito os mortos que j morreram, mais que os vivos que ainda vivem (4,2);
6. Mais vale o dia da morte que o dia do nascimento (7,1b);
7. Mais vale ir a uma casa em luto do que ir a uma casa em festa, porque esse o fim de todo homem (7,2);
8. Ningum senhor do dia da prpria morte, e nessa guerra no h trgua (8,8);
9. Um co vivo vale mais que um leo morto (9,4);
10. Os vivos sabem ao menos que iro morrer; os mortos, porm, no sabem, e nem tero recompensa, porque sua memria cair no esquecimento. Seu amor, dio e cimes j pereceram, e eles nunca mais participaro de tudo o que se faz debaixo do sol (9, 5-6).
O substantivo morte aparece tambm em outros textos, como aquele que diz: E descobri que a mulher mais amarga do que a morte (7,26). Todos estes textos so frutos de uma reflexo sobre a morte feita pelo autor do livro de Eclesiastes. Uma simples leitura vai nos levar a concluir que o autor fatalista, pessimista. No! Esta no a sua reflexo. Contra a sociedade do seu tempo que propunha uma vida futura para, assim, legitimar a explorao social e moral, Eclesiastes props um caminho inverso: a vida na terra vale mais que a morte, mesmo que possamos falar de vida depois dela. Desta f nasce um Deus prximo. Como entender estas afirmaes? o que veremos na interpretao destes textos de sabedoria popular.


3 A morte o fim de todos

Parece trgica a constatao de Eclesiastes: Tudo caminha para um mesmo lugar: tudo vem do p e tudo volta ao p (3,20). A vida comea e a vida termina. Ningum pode fugir dessa realidade. Morre o sbio. Morre o insensato. Morre o pobre. Morre o rico. Morreremos todos e todos voltaremos ao p. Esta mxima est escrita nos portais de entrada de muitos dos nossos cemitrios.
Os vivos sabem que iro morrer (9,5). Todos temos esta certeza registrada em nossos coraes j desde o nascimento. Ningum jamais conseguiu impedir esse destino. Por isso, mais vale o dia da morte que o dia do nascimento (7,1b). Parece trgico, mas no . Saber que a morte o fim de todos deve nos levar a viver com intensidade, pois no dia da morte, j no h mais nada para fazer. Que no viveu bem a vida, no ter como se arrepender no dia da morte. Morte o fim e basta (9,3). J dizia Dante: o viver um correr para a morte (Purgatrio XXXIII,54). E nesse correr para a morte, torna-se mais trgico ainda o fato que ningum senhor do dia da morte (8,8).
A morte, chegando quando ela bem entender, evidencia essa tragicidade da vida. E quando chega o dia, no h como fugir dela. Como peixes presos na rede traioeira, que os trazem para a morte fora da gua; Como pssaros presos na armadilha, que em vo batem asas; Assim tambm os filhos dos homens se enredam no tempo da desgraa, quando ela cai de surpresa sobre eles (9,12). Com a morte chega a dor. Dor de quem fica, que s o tempo cura. Dor fatal de que parte, mesmo que ningum nos tenha contado como foi a sua dor da morte.
E se a morte o fim de todos mais vale um co vivo que um leo morto, afirma o autor de Eclesiastes 9,4. Alm de ter muito menos fora que um leo, o co, no Oriente Antigo, era considerado um animal impuro e, por isso, sem valor na sociedade. J o leo representava a realeza. Aqui, diante da fatalidade da morte, melhor ser fraco, pobre e desprezado, mas estar vivo, que rei, mas morto. O dinheiro e a luxuria no compram a vida. melhor ser pobre vivo que rei morto.


4 Com a morte a memria de algum esquecida

Os mortos no sabem que iro morrer e nem tero recompensa, porque a memria deles cair no esquecimento (9,5). Ningum se lembra dos antepassados, e tambm aqueles que lhes sucedem no sero lembrados pelos seus psteros (1,11). No h lembrana durvel do sbio e nem do insensato, pois nos anos vindouros tudo ser esquecido: o sbio morre com o insensato (2,16).
Nestas passagens, Eclesiastes reflete sobre a memria dos mortos. Na sociedade da poca acreditava-se que no mundo dos mortos, no Xeol, havia tambm diviso de pessoas. Para tanto, criou-se a imortalidade mnemnica, ou seja, a virtude do falecido era perpetuada na memria dos psteros e inscrita em tbuas de pedra. Os mortos continuavam vivendo na lembrana de seus descendentes e amigos sobreviventes, ou, mais ainda, porque o nome deles ficava escrito em tbuas de pedra. Assim, ningum poderia esquecer o morto. Seria como as lpides que colocamos, ainda hoje, em cemitrios? Contra esta viso, Eclesiastes nega a possibilidade de memria eterna. No Xeol, o mais famoso dos reis se assentar com o mendigo. Esta terrvel afirmao tem o endereo certo, o que vale a vida presente. Ela sim deve ser igual para todos. Ningum pode, alm de cometer injustias contra o outro, ainda achar que o seu poder continuar aps a morte.
Quando a morte chega, o desespero dos vivos chega junto. Dependendo do grau de relacionamento com o falecido, a dor da morte sofrida na sua intensidade por aqueles que com ele conviveram. Naquele momento de tristeza ningum consegue medir as palavras. Uma pergunta pensada e dita: Como ser a minha vida sem a sua presena? Na imensido do abismo criado por aquele momento, o mundo parece tambm desabar. Com o passar dos dias, a vida parece voltar ao seu ritmo normal. Mesmo que a saudade cale profundamente, tudo vai se ajeitando. O insubstituvel substitudo por outra pessoa e coisas.
O trgico que quando mais tempo passa a memria do morto vai mesmo sendo esquecida. E isso parece normal. Imagine se todos ns tivssemos que viver o resto da vida como num velrio. No. Isto impossvel! A vida exige de ns seguir o seu curso. Claro, que alguns nunca conseguem deixar os seus mortos morrerem. Eles sofrem para se libertarem. A vida exige que deixemos os mortos viverem a morte. Quem no compreende isso sofre em demasia. Conheo filho que aprisionou sua jovem me, depois da morte do pai, impedindo-a de recomear novos relacionamentos conjugais. O pai lhe teria pedido, no leito de morte, que no deixasse a esposa se casar novamente. lastimvel tal atitude. Pior ainda, quando a mulher aceita esta condio machista, perpetuada no filho.
Algumas pessoas trabalham como se fossem insubstituveis nos seus afazeres. Eles esquecem de viver. Quando morrem, no primeiro dia, choramos por ele. No segundo dia, jogamos terra no seu tmulo, como sinal de ruptura. No terceiro dia, reorganizamos a vida e colocamos outra pessoa em seu lugar. A sua memria parece esquecida, embora no ser de tudo apagada.
Alm da memria esquecida, os mortos no tero recompensa, jamais participaro da faina dos vivos, o amor, dio e cime deles j pereceram (9,5-6). Em sntese, a morte causa cinco desgraas ao morto[2]: elimina o poder de conhecer, no garante recompensa, apaga a memria, impede a participao na faina do dia-a-dia e decreta o fim dos sentimentos. . A pior delas parece a de no poder influenciar no curso da vida, pois essa no lhe pertence mais.
Devemos ressaltar que Qohelet fala do que ele consegue ver debaixo do sol. Logo, no podemos generalizar certas reflexes do livro de Eclesiastes. Quando Qohelet diz: ningum ser lembrado no est querendo dizer todos de forma indiscriminada. Provavelmente ele faz referncia a quem vivia a vida de forma equivocada, enquadrado dentro da estrutura e lgica dos imprios. claro que muitas pessoas de bem so lembradas aps sua morte. Qohelet um exemplo. Jesus Cristo, Gandhi, Martin Luther King, Einstein, Galileu Galilei e tantos outros. Podemos perguntar: Quais os nomes dos representantes da CIA que mataram Che Guevara? Ningum sabe. Desapareceram no anonimato. Mas Che Guevara continua vivo, e muito vivo, na memria e nos coraes de milhes.


5 A morte confere sentido vida

Diante das constataes acima, poderamos afirmar que Eclesiastes um tremendo pessimista. Para que viver se a morte o fim? De que me adianta acumular fortunas ou viver na pobreza, se vou morrer? No. No este o caminho apontado no livro. A constatao da morte deve levar o ser humano a viver com intensidade a vida, procurando sempre a sua felicidade. Olhando para o presente. De que me adianta pensar ou viver em funo de um futuro que tampouco conheo ou que nem sei como ser. O que vale a vida vivida com intensidade. E a certeza da morte que me leva a viver plenamente a vida em todos os sentidos. Viver com intensidade amar a vida.
O dia da minha morte, que nem sei quando ser, confere sentido minha vida e ao dia do meu aniversrio (7,1b). O dia da morte de algum me recorda que eu tambm morrerei. Portanto, importante viver com intensidade a vida que me resta. Ningum fica para semente, diz a sabedoria popular.
No dia da morte de algum vivenciamos no velrio, o luto, a dor e as lgrimas. Muitos de ns no gostamos de velrio. Se eu pudesse no iria a nenhum deles. Queremos viver como se a morte no existisse. Eclesiastes 7, 2 segue o caminho inverso deste pensamento, ao afirmar que mais vale ir a uma casa em luto do que ir a uma casa em festa, deste modo, quem est vivo refletir. Mais uma vez, estamos diante do sentido da vida conferido pela morte. Diante dela somos chamados a refletir, a mergulhar no interior de ns mesmos. Desta reflexo surge o sentido da vida a partir da morte. Ento perceberemos que nossas vidas esto cheias de banalidades, absolutismo, ganncia que levam muitos misria, etc. E um desejo de mudar de vida ressurge. Nasce a conscincia de que tudo relativo. Ser rico e poderoso um apndice na vida. A morte pe um fim em tudo. Este fim pode tornar-se comeo desde que tomo conscincia de que uma nova vida possvel aqui e agora.
Uma casa em festa pode nos desviar do verdadeiro sentido da vida, pode maqui-la. Pensando bem, esperar uma festa melhor do que realiz-la. Ao prepar-la, refletimos, pensamos, impulsionamos a vida para aquele momento festivo. O momento festivo, no entanto, passageiro. Alm disto, algo errado pode acontecer no dia da festa, na hora da festa. E a festa torna-se um desastre. Por isso mesmo, Eclesiastes prefere o dia do velrio. Ali nada pode acontecer pior que a morte. E a morte nos devolve para a vida.

6 Viver com intensidade a vida por causa da morte

Quem tem conscincia da morte, no deixa para amanh aquilo que se pode fazer hoje, celebra a vida com intensidade. Quando chega a dor, a doena no h o que festejar. A tambm necessrio viver com intensidade a dor. Embora, a nossa tendncia natural negar esta cruel realidade.
No dia do aniversrio de algum costume entre ns desejar muitos anos de vida. Estas palavras expressam o desejo de vida em abundncia, como se a morte no existisse. Com isso falseamos a realidade. A vida tem um fim. Melhor seria desejar muita vida nos anos de vida que ainda restam para aquela pessoa. Assim estaramos desejando intensidade nos gestos e aes da vida desta pessoa e no vida sem vida. Bom, mais isso tambm poderia ser a negao do sofrimento.
E na vida, muitas vezes, vivemos fugazmente. Pena que quando a morte se aproximar, ou idade avanada sinalizar que a morte est chegando, no haver mais o que fazer. Encanta-me a poesia Instantes, de Jorge Luis Borges. Eis o texto:

Se eu pudesse viver novamente a minha vida,
Trataria de cometer mais erros.
No tentaria ser to perfeito, seria mais relaxado.

Seria mais bobo do que fui;
Na verdade encararia muito poucas coisas com seriedade.
Seria menos higinico,
correria mais riscos,
faria mais viagens,
contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais em rios.

Iria mais a lugares que nunca tivesse ido.
Comeria mais sorvetes e menos verduras.
Teria mais problemas reais e menos imaginrios.

Eu fui dessas pessoas que viveu sensata
e corretamente cada minuto de sua vida;
claro que tive momentos de alegria.

Mas se eu pudesse voltar atrs,
Procuraria ter bons momentos.
Se no sabem, disso que feita a vida,
Somente de momentos. No percam o agora.

Eu fui uma dessas pessoas que nunca ia a parte alguma
sem levar um termmetro, uma bolsa de gua quente,
um guarda chuva e um esparadrapo;
Se pudesse voltar a viver,
viajaria mais levianamente.

Se pudesse voltar a viver,
comearia a andar descalo no princpio da primavera
e seguiria assim at o fim do outono.
Daria mais voltas na calada,
contemplaria mais amanheceres
e brincaria com as crianas;
se tivesse outra vez a vida pela frente ...

Mas j se vai, tenho 85 anos e estou morrendo.

No h muito que dizer diante desta maravilha potica. Vida no vivida com intensidade gera uma frustrao em ns, quando a morte se aproxima. A vida parece que ficou inacabada. o que quis dizer o poeta.
Muitas vezes vivemos a vida em um eterno disfarce. Nunca somos aquilo que somos. Queremos ser perfeitos, quando perfeito no a nossa ndole. Fazemos mais do que poderamos fazer. Anulamos nosso corpo com trabalho, porque os outros precisam perceber que meu nome trabalho. O corpo o burro que carrega as minhas pretenses, mesmo quando as suas pernas so frgeis. E o burro no consegue ver quem est ao lado. Eu mesmo lhe e me impus uma viseira. A noite foi feita para descansar, para alguns, tambm para trabalhar. E o que pior, a vida parece que foi feita somente para produzir e consumir. Absurda lgica. Quantas vezes damos mais sentido s coisas do que elas deveriam ter. Quantos dos nossos problemas so mais imaginrios que reais.
Viver conferir sentido vida. O dia sempre o mesmo. O sol sempre nasce o mesmo. A questo no o dia e nem o sol, mas como eu estou diante deles. Sou eu quem confiro sentido vida. Um dia nublado pode ser alegre para mim. E um dia de sol e praia pode ser o pior dos meus dias. A questo est no sentido. E o sentido, segundo Eclesiastes, deve ser conferido vida porque a morte certeira.
Por outro lado, viver a vida com intensidade no curti-la de modo egocntrico. Percebendo como estruturas e relaes opressoras de seu tempo, tornam amarga a vida da maioria do povo, Qohelet desmascara a leviandade que a vida vivida segundo os ditames do imprio: acumular, enriquecer e curtir a vida. Ele sugere vida intensa, mas com qualidade. Isto implica viver a vida de forma solidria, terna e comprometida na luta por justia. Quem assim vive, aps a morte, continuar vivo na memria dos vivos. Este o caso de Jesus Cristo, Che Guevara e tantos outros.


7 A felicidade na vida

E compreendi que no h felicidade para o ser humano a no ser a de alegrar-se e fazer o bem durante a sua vida. E que o ser humano coma e beba, desfrutando do produto de todo o seu trabalho, dom de Deus (3,12-13). Vida feliz aquela que sabe desfrutar os produtos de seus trabalhos, sem o acmulo e com dignidade. Todo o resto pura vaidade, fugacidade.
Mais vale o bom nome do que um bom perfume (7,1a). O nome a nossa identidade. No mundo bblico, o nome tinha um valor imenso. Hoje, quando perdemos o crdito na praa, dizemos que o nome est sujo. E isso srio, porque a pessoa perdeu a sua possibilidade de comprar e receber confiana de outro. Preservar o nome muito importante. Quando destrumos algum, falando mal dele, acabamos com o seu nome. Uma palavra contra algum, uma fofoca, facilmente cria razes entre ns. Difcil desdiz-la. Recuperar um nome difamado leva anos. Eclesiastes, nesta mesma linha, reflete que a vida vale quando o nome preservado. O bom perfume, mais caro que seja, simplesmente maquia quem o usa. Ele externo. O que vale o interno.
A felicidade no est nas coisas, mas pode estar nas relaes. Quando algum resume a sua felicidade em ter algo, por exemplo, um carro novo, ela se frustrar logo que conseguir compr-lo. O carro no traz felicidade, se no a levo dentro de mim. Ele pode trazer conforto, mas no felicidade. Quantos ricos tm de tudo e no so felizes. Eles chegam a antecipar a morte com o suicdio a as drogas, porque no suportam viver ricamente e infelizes.
Em tempo de felicidade, s feliz, e no dia da desgraa reflete (7,14). Quando a felicidade bate s nossas portas, arte tambm saber viv-la intensamente. H pessoas que so to pessimistas que nem percebem que a felicidade chegou. A felicidade pode ser pequena, um gesto, um reencontro, uma viagem... O que vale viver isso intensamente. Por que no esquecemos o dia da morte de um ente querido? porque o vivemos intensamente. Tudo o que vivido com intensidade, a memria no apaga, eterniza-o. Viver intensamente um momento de felicidade viv-lo como se ele fosse o ltimo.
Intensamente tambm deve ser vivido o dia da desgraa, isto , refletido sobre ele. No podemos negar as desgraas. H pessoas que negam tanto os infortnios da vida, que acabam negando a si mesmas. E elas perdem auto-estima e adoecem. Elas se tornam mal-amadas e transmitem isso para os outros.
As nossas limitaes, as desgraas da vida no esto a para serem negadas, mas integradas na vida. A reflexo no dia da desgraa nos leva a isso. Desse modo, a vida vivida em profundidade. A desgraa faz parte da vida. Compreender isso uma arte para poucos.


8 E conclui que a morte...

A morte um elemento chave na interpretao do livro de Eclesiastes. Para falar da vida e de todo o seu sentido, ele fala da morte. Porque existe a morte, a vida deve ser vivida intensamente. Tudo que no leva a vida a ser vivida intensamente vaidade das vaidades. A morte d sentido vida. A partir da morte se descobre a vida.
Porque o autor de Eclesiastes prope viver intensamente sem se preocupar com o que vem depois, ele no pode ser chamado de pessimista. O seu otimismo consiste em que o seu leitor, compreendendo a sua reflexo, d um novo sentido sua vida, tendo os ps no aqui e agora. O autor de Eclesiastes no perde noites de sono pela vida do alm. Essa, ele no a conhece e dela no pode falar.
O mundo grego pregava a imortalidade da alma e nisto estava o sentido da vida para eles. Eclesiastes mostra que o sentido da vida est mais prximo de ns, que imaginamos. Falar da vida falar de Deus. Nas palavras poticas e realistas sobre a morte, Eclesiastes revela um Deus prximo de cada um de ns, que nos oferece a vida e as condies para viv-la com intensidade. Os seres humanos da sociedade de Eclesiastes que justificaram as suas prticas injustas com reflexes sobre a vida no alm.
Os cristos, mais tarde, compreenderam que Deus em Jesus se encarnou no meio de ns e aqui viveu plenamente. Nele a vida torna-se eterna e terna, pois ele se eternizou no meio de ns, na intensidade de sua vida doada por amor. Celebrar, dia aps dia, a sua memria reafirmar que ele vive sempre. Ele no morreu. Ele viver sempre. Nele ressurgiremos todos para a vida em Deus.
A felicidade em Eclesiastes consiste no sentido da vida, vivida com alegria. Enquanto a sociedade do seu tempo se preocupava com o acmulo de bens, Eclesiastes ensina o valor de usufruir os frutos do prprio trabalho. Vida vivida com intensidade produz alegria. Pequenas coisas tornam-se grandes porque foram feitas com o trao da eternidade, mesmo que passageiras.
A vida uma arte, um eterno rodzio do nascer e morrer. Uns vo e outros vm. E a vida continua o seu curso. Na vida, h um tempo para tudo, plantar, arrancar a planta; matar e curar; destruir e construir; chorar e rir; atirar pedras e recolher pedras; guerrear e fazer paz, abraar e separar. H um momento para cada coisa. H de tudo na vida. Quem compreende este mistrio vive a vida com intensidade. Viver a arte de viver intensamente no amor! Morrer arte, desde que se tenha vivido com intensidade. Viver e morrer se entrelaam numa nica irmandade. A morte, no entanto, o princpio de sabedoria para quem entendeu o seu sentido. Eclesiastes compreendeu isso. Ser que ns compreendemos este paradoxo?

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