Uma janela sobre o mundo bíblico

A morte como sentido da vida em Eclesiastes



  • Estudo
  • 14228
  • 10/10/2006
Jacir de Freitas

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1. O prenúncio da morte
O dia amanheceu fechado. Uma tênue e miúda chuva cai sobre a cidade. Da janela do meu quarto, vejo gotas de chuva que escorrem das folhas das arvores. Elas são como lágrimas de saudade que parecem nos lembrar: “Hoje é o Dia de Finados!” Os mortos e a morte rondam, por um instante, o meu pensamento. Vem-me à lembrança os indígenas da Serra Madre, no México. Ontem, com certeza, eles terão preparado as salas de suas casas com uma mesa farta e um caminho de flores até à rua para receber os seus mortos, que, segunda a tradição, hoje irão visitá-los. Assim como eles irão aos seus túmulos levando flores e comida para um banquete festivo.

Entre nós, as igrejas receberão fieis para celebrar a memória de seus mortos, o Dia de Finados. Muitos também visitarão os túmulos de seus entes queridos.
Morte! Sagrado mistério da morte que envolve a todos nós! Para onde vamos após a morte? A resposta de fé do cristão é simples: para vida de ressuscitados em Deus, assim como Jesus, que venceu a morte. Mas, o que é mesmo a morte? Alguém poderia me responder? O que o livro do Eclesiastes nos tem a dizer sobre a morte?


2. A morte no livro do Eclesiastes

Lendo o livro do Eclesiastes, anotei as seguintes passagens sobre morte.
1. Ninguém se lembra dos seus antepassados. E também aqueles que lhes sucedem não serão lembrados por seus pósteros (1,11).
2. Não há lembrança durável do sábio e nem do insensato, pois nos anos vindouros tudo será esquecido: o sábio morre com o insensato (2,16);
3. Há um tempo de nascer e tempo de morrer (3,2);
4. Tudo caminha para um mesmo lugar: tudo vem do pó e tudo volta ao pó (3,20);
5. Eu felicito os mortos que já morreram, mais que os vivos que ainda vivem (4,2);
6. Mais vale o dia da morte que o dia do nascimento (7,1b);
7. Mais vale ir a uma casa em luto do que ir a uma casa em festa, porque esse é o fim de todo homem (7,2);
8. Ninguém é senhor do dia da própria morte, e nessa guerra não há trégua (8,8);
9. Um cão vivo vale mais que um leão morto (9,4);
10. Os vivos sabem ao menos que irão morrer; os mortos, porém, não sabem, e nem terão recompensa, porque sua memória cairá no esquecimento. Seu amor, ódio e ciúmes já pereceram, e eles nunca mais participarão de tudo o que se faz debaixo do sol (9, 5-6).
O substantivo morte aparece também em outros textos, como aquele que diz: “E descobri que a mulher é mais amarga do que a morte” (7,26). Todos estes textos são frutos de uma reflexão sobre a morte feita pelo autor do livro de Eclesiastes. Uma simples leitura vai nos levar a concluir que o autor é fatalista, pessimista. Não! Esta não é a sua reflexão. Contra a sociedade do seu tempo que propunha uma vida futura para, assim, legitimar a exploração social e moral, Eclesiastes propôs um caminho inverso: a vida na terra vale mais que a morte, mesmo que possamos falar de vida depois dela. Desta fé nasce um Deus próximo. Como entender estas afirmações? É o que veremos na interpretação destes textos de sabedoria popular.


3 – A morte é o fim de todos

Parece trágica a constatação de Eclesiastes: “Tudo caminha para um mesmo lugar: tudo vem do pó e tudo volta ao pó” (3,20). A vida começa e a vida termina. Ninguém pode fugir dessa realidade. Morre o sábio. Morre o insensato. Morre o pobre. Morre o rico. Morreremos todos e todos voltaremos ao pó. Esta máxima está escrita nos portais de entrada de muitos dos nossos cemitérios.
Os vivos sabem que irão morrer (9,5). Todos temos esta certeza registrada em nossos corações já desde o nascimento. Ninguém jamais conseguiu impedir esse destino. Por isso, “mais vale o dia da morte que o dia do nascimento” (7,1b). Parece trágico, mas não é. Saber que a morte é o fim de todos deve nos levar a viver com intensidade, pois no dia da morte, já não há mais nada para fazer. Que não viveu bem a vida, não terá como se arrepender no dia da morte. Morte é o fim e basta (9,3). Já dizia Dante: “o viver é um correr para a morte” (Purgatório XXXIII,54). E nesse correr para a morte, torna-se mais trágico ainda o fato que “ninguém é senhor do dia da morte” (8,8).
A morte, chegando quando ela bem entender, evidencia essa tragicidade da vida. E quando chega o dia, não há como fugir dela. “Como peixes presos na rede traiçoeira”, que os trazem para a morte fora da água; “Como pássaros presos na armadilha”, que em vão batem asas; “Assim também os filhos dos homens se enredam no tempo da desgraça, quando ela cai de surpresa sobre eles” (9,12). Com a morte chega a dor. Dor de quem fica, que só o tempo cura. Dor fatal de que parte, mesmo que ninguém nos tenha contado como foi a sua dor da morte.
E se a morte é o fim de todos “mais vale um cão vivo que um leão morto”, afirma o autor de Eclesiastes 9,4. Além de ter muito menos força que um leão, o cão, no Oriente Antigo, era considerado um animal impuro e, por isso, sem valor na sociedade. Já o leão representava a realeza. Aqui, diante da fatalidade da morte, é melhor ser fraco, pobre e desprezado, mas estar vivo, que rei, mas morto. O dinheiro e a luxuria não compram a vida. É melhor ser pobre vivo que rei morto.


4 – Com a morte a memória de alguém é esquecida

Os mortos não sabem que irão morrer e nem terão recompensa, porque a memória deles cairá no esquecimento (9,5). Ninguém se lembra dos antepassados, e também aqueles que lhes sucedem não serão lembrados pelos seus pósteros (1,11). Não há lembrança durável do sábio e nem do insensato, pois nos anos vindouros tudo será esquecido: o sábio morre com o insensato (2,16).
Nestas passagens, Eclesiastes reflete sobre a memória dos mortos. Na sociedade da época acreditava-se que no mundo dos mortos, no Xeol, havia também divisão de pessoas. Para tanto, criou-se a “imortalidade mnemônica”, ou seja, a virtude do falecido era perpetuada na memória dos pósteros e inscrita em tábuas de pedra. Os mortos continuavam vivendo na lembrança de seus descendentes e amigos sobreviventes, ou, mais ainda, porque o nome deles ficava escrito em tábuas de pedra. Assim, ninguém poderia esquecer o morto. Seria como as lápides que colocamos, ainda hoje, em cemitérios? Contra esta visão, Eclesiastes nega a possibilidade de memória eterna. No Xeol, o mais famoso dos reis se assentará com o mendigo. Esta terrível afirmação tem o endereço certo, o que vale é a vida presente. Ela sim deve ser igual para todos. Ninguém pode, além de cometer injustiças contra o outro, ainda achar que o seu poder continuará após a morte.
Quando a morte chega, o desespero dos vivos chega junto. Dependendo do grau de relacionamento com o falecido, a dor da morte é sofrida na sua intensidade por aqueles que com ele conviveram. Naquele momento de tristeza ninguém consegue medir as palavras. Uma pergunta pensada e dita: Como será a minha vida sem a sua presença? Na imensidão do abismo criado por aquele momento, o mundo parece também desabar. Com o passar dos dias, a vida parece voltar ao seu ritmo normal. Mesmo que a saudade cale profundamente, tudo vai se ajeitando. O insubstituível é substituído por outra pessoa e coisas.
O trágico é que quando mais tempo passa a memória do morto vai mesmo sendo esquecida. E isso parece normal. Imagine se todos nós tivéssemos que viver o resto da vida como num velório. Não. Isto é impossível! A vida exige de nós seguir o seu curso. Claro, que alguns nunca conseguem deixar os seus mortos morrerem. Eles sofrem para se libertarem. A vida exige que deixemos os mortos viverem a morte. Quem não compreende isso sofre em demasia. Conheço filho que aprisionou sua jovem mãe, depois da morte do pai, impedindo-a de recomeçar novos relacionamentos conjugais. O pai lhe teria pedido, no leito de morte, que não deixasse a esposa se casar novamente. É lastimável tal atitude. Pior ainda, quando a mulher aceita esta condição machista, perpetuada no filho.
Algumas pessoas trabalham como se fossem insubstituíveis nos seus afazeres. Eles esquecem de viver. Quando morrem, no primeiro dia, choramos por ele. No segundo dia, jogamos terra no seu túmulo, como sinal de ruptura. No terceiro dia, reorganizamos a vida e colocamos outra pessoa em seu lugar. A sua memória parece esquecida, embora não será de tudo apagada.
Além da memória esquecida, os mortos não terão recompensa, jamais participarão da faina dos vivos, o amor, ódio e ciúme deles já pereceram (9,5-6). Em síntese, a morte causa cinco desgraças ao morto[2]: elimina o poder de conhecer, não garante recompensa, apaga a memória, impede a participação na faina do dia-a-dia e decreta o fim dos sentimentos. . A pior delas parece a de não poder influenciar no curso da vida, pois essa não lhe pertence mais.
Devemos ressaltar que Qohelet fala do que ele consegue ver “debaixo do sol”. Logo, não podemos generalizar certas reflexões do livro de Eclesiastes. Quando Qohelet diz: ‘ninguém será lembrado’ não está querendo dizer todos de forma indiscriminada. Provavelmente ele faz referência a quem vivia a vida de forma equivocada, enquadrado dentro da estrutura e lógica dos impérios. É claro que muitas pessoas de bem são lembradas após sua morte. Qohelet é um exemplo. Jesus Cristo, Gandhi, Martin Luther King, Einstein, Galileu Galilei e tantos outros. Podemos perguntar: Quais os nomes dos representantes da CIA que mataram Che Guevara? Ninguém sabe. Desapareceram no anonimato. Mas Che Guevara continua vivo, e muito vivo, na memória e nos corações de milhões.


5 – A morte confere sentido à vida

Diante das constatações acima, poderíamos afirmar que Eclesiastes é um tremendo pessimista. Para que viver se a morte é o fim? De que me adianta acumular fortunas ou viver na pobreza, se vou morrer? Não. Não é este o caminho apontado no livro. A constatação da morte deve levar o ser humano a viver com intensidade a vida, procurando sempre a sua felicidade. Olhando para o presente. De que me adianta pensar ou viver em função de um futuro que tampouco conheço ou que nem sei como será. O que vale é a vida vivida com intensidade. E é a certeza da morte que me leva a viver plenamente a vida em todos os sentidos. Viver com intensidade é amar a vida.
O dia da minha morte, que nem sei quando será, confere sentido à minha vida e ao dia do meu aniversário (7,1b). O dia da morte de alguém me recorda que eu também morrerei. Portanto, é importante viver com intensidade a vida que me resta. Ninguém fica para semente, diz a sabedoria popular.
No dia da morte de alguém vivenciamos no velório, o luto, a dor e as lágrimas. Muitos de nós não gostamos de velório. Se eu pudesse não iria a nenhum deles. Queremos viver como se a morte não existisse. Eclesiastes 7, 2 segue o caminho inverso deste pensamento, ao afirmar que “mais vale ir a uma casa em luto do que ir a uma casa em festa, deste modo, quem está vivo refletirá”. Mais uma vez, estamos diante do sentido da vida conferido pela morte. Diante dela somos chamados a refletir, a mergulhar no interior de nós mesmos. Desta reflexão surge o sentido da vida a partir da morte. Então perceberemos que nossas vidas estão cheias de banalidades, absolutismo, ganância que levam muitos à miséria, etc. E um desejo de mudar de vida ressurge. Nasce a consciência de que tudo é relativo. Ser rico e poderoso é um apêndice na vida. A morte põe um fim em tudo. Este fim pode tornar-se começo desde que tomo consciência de que uma nova vida é possível aqui e agora.
Uma casa em festa pode nos desviar do verdadeiro sentido da vida, pode maquiá-la. Pensando bem, esperar uma festa é melhor do que realizá-la. Ao prepará-la, refletimos, pensamos, impulsionamos a vida para aquele momento festivo. O momento festivo, no entanto, é passageiro. Além disto, algo errado pode acontecer no dia da festa, na hora da festa. E a festa torna-se um desastre. Por isso mesmo, Eclesiastes prefere o dia do velório. Ali nada pode acontecer pior que a morte. E a morte nos devolve para a vida.

6 – Viver com intensidade a vida por causa da morte

Quem tem consciência da morte, não deixa para amanhã aquilo que se pode fazer hoje, celebra a vida com intensidade. Quando chega a dor, a doença não há o que festejar. Aí também é necessário viver com intensidade a dor. Embora, a nossa tendência natural é negar esta cruel realidade.
No dia do aniversário de alguém é costume entre nós desejar muitos anos de vida. Estas palavras expressam o desejo de vida em abundância, como se a morte não existisse. Com isso falseamos a realidade. A vida tem um fim. Melhor seria desejar muita vida nos anos de vida que ainda restam para aquela pessoa. Assim estaríamos desejando intensidade nos gestos e ações da vida desta pessoa e não vida sem vida. Bom, mais isso também poderia ser a negação do sofrimento.
E na vida, muitas vezes, vivemos fugazmente. Pena que quando a morte se aproximar, ou idade avançada sinalizar que a morte está chegando, não haverá mais o que fazer. Encanta-me a poesia Instantes, de Jorge Luis Borges. Eis o texto:

Se eu pudesse viver novamente a minha vida,
Trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, seria mais relaxado.

Seria mais bobo do que fui;
Na verdade encararia muito poucas coisas com seriedade.
Seria menos higiênico,
correria mais riscos,
faria mais viagens,
contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais em rios.

Iria mais a lugares que nunca tivesse ido.
Comeria mais sorvetes e menos verduras.
Teria mais problemas reais e menos imaginários.

Eu fui dessas pessoas que viveu sensata
e corretamente cada minuto de sua vida;
claro que tive momentos de alegria.

Mas se eu pudesse voltar atrás,
Procuraria ter bons momentos.
Se não sabem, disso é que é feita a vida,
Somente de momentos. Não percam o agora.

Eu fui uma dessas pessoas que nunca ia a parte alguma
sem levar um termômetro, uma bolsa de água quente,
um guarda chuva e um esparadrapo;
Se pudesse voltar a viver,
viajaria mais levianamente.

Se pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no princípio da primavera
e seguiria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na calçada,
contemplaria mais amanheceres
e brincaria com as crianças;
se tivesse outra vez a vida pela frente ...

Mas já se vai, tenho 85 anos e estou morrendo.

Não há muito que dizer diante desta maravilha poética. Vida não vivida com intensidade gera uma frustração em nós, quando a morte se aproxima. A vida parece que ficou inacabada. É o que quis dizer o poeta.
Muitas vezes vivemos a vida em um eterno disfarce. Nunca somos aquilo que somos. Queremos ser perfeitos, quando perfeito não é a nossa índole. Fazemos mais do que poderíamos fazer. Anulamos nosso corpo com trabalho, porque os outros precisam perceber que “meu nome é trabalho”. O corpo é o burro que carrega as minhas pretensões, mesmo quando as suas pernas são frágeis. E o “burro” não consegue ver quem está ao lado. Eu mesmo lhe e me impus uma viseira. A noite foi feita para descansar, para alguns, também para trabalhar. E o que é pior, a vida parece que foi feita somente para produzir e consumir. Absurda lógica. Quantas vezes damos mais sentido às coisas do que elas deveriam ter. Quantos dos nossos problemas são mais imaginários que reais.
Viver é conferir sentido à vida. O dia é sempre o mesmo. O sol sempre nasce o mesmo. A questão não é o dia e nem o sol, mas como eu estou diante deles. Sou eu quem confiro sentido à vida. Um dia nublado pode ser alegre para mim. E um dia de sol e praia pode ser o pior dos meus dias. A questão está no sentido. E o sentido, segundo Eclesiastes, deve ser conferido à vida porque a morte é certeira.
Por outro lado, viver a vida com intensidade não é curti-la de modo egocêntrico. Percebendo como estruturas e relações opressoras de seu tempo, tornam amarga a vida da maioria do povo, Qohelet desmascara a leviandade que é a vida vivida segundo os ditames do império: acumular, enriquecer e curtir a vida. Ele sugere vida intensa, mas com qualidade. Isto implica viver a vida de forma solidária, terna e comprometida na luta por justiça. Quem assim vive, após a morte, continuará vivo na memória dos vivos. Este é o caso de Jesus Cristo, Che Guevara e tantos outros.


7 – A felicidade na vida

“E compreendi que não há felicidade para o ser humano a não ser a de alegrar-se e fazer o bem durante a sua vida. E que o ser humano coma e beba, desfrutando do produto de todo o seu trabalho, é dom de Deus” (3,12-13). Vida feliz é aquela que sabe desfrutar os produtos de seus trabalhos, sem o acúmulo e com dignidade. Todo o resto é pura vaidade, fugacidade.
“Mais vale o bom nome do que um bom perfume” (7,1a). O nome é a nossa identidade. No mundo bíblico, o nome tinha um valor imenso. Hoje, quando perdemos o crédito na praça, dizemos que o nome está sujo. E isso é sério, porque a pessoa perdeu a sua possibilidade de comprar e receber confiança de outro. Preservar o nome é muito importante. Quando destruímos alguém, falando mal dele, acabamos com o seu nome. Uma palavra contra alguém, uma fofoca, facilmente cria raízes entre nós. Difícil é desdizê-la. Recuperar um nome difamado leva anos. Eclesiastes, nesta mesma linha, reflete que a vida vale quando o nome é preservado. O bom perfume, mais caro que seja, simplesmente maquia quem o usa. Ele é externo. O que vale é o interno.
A felicidade não está nas coisas, mas pode estar nas relações. Quando alguém resume a sua felicidade em ter algo, por exemplo, um carro novo, ela se frustrará logo que conseguir comprá-lo. O carro não traz felicidade, se não a levo dentro de mim. Ele pode trazer conforto, mas não felicidade. Quantos ricos têm de tudo e não são felizes. Eles chegam a antecipar a morte com o suicídio a as drogas, porque não suportam viver ricamente e infelizes.
“Em tempo de felicidade, sê feliz, e no dia da desgraça reflete” (7,14). Quando a felicidade bate às nossas portas, é arte também saber vivê-la intensamente. Há pessoas que são tão pessimistas que nem percebem que a felicidade chegou. A felicidade pode ser pequena, um gesto, um reencontro, uma viagem... O que vale é viver isso intensamente. Por que não esquecemos o dia da morte de um ente querido? É porque o vivemos intensamente. Tudo o que é vivido com intensidade, a memória não apaga, eterniza-o. Viver intensamente um momento de felicidade é vivê-lo como se ele fosse o último.
Intensamente também deve ser vivido o dia da desgraça, isto é, refletido sobre ele. Não podemos negar as desgraças. Há pessoas que negam tanto os infortúnios da vida, que acabam negando a si mesmas. E elas perdem auto-estima e adoecem. Elas se tornam mal-amadas e transmitem isso para os outros.
As nossas limitações, as desgraças da vida não estão aí para serem negadas, mas integradas na vida. A reflexão no dia da desgraça nos leva a isso. Desse modo, a vida é vivida em profundidade. A desgraça faz parte da vida. Compreender isso é uma arte para poucos.


8 – E conclui que a morte...

A morte é um elemento chave na interpretação do livro de Eclesiastes. Para falar da vida e de todo o seu sentido, ele fala da morte. Porque existe a morte, a vida deve ser vivida intensamente. Tudo que não leva a vida a ser vivida intensamente é “vaidade das vaidades”. A morte dá sentido à vida. A partir da morte se descobre a vida.
Porque o autor de Eclesiastes propõe viver intensamente sem se preocupar com o que vem depois, ele não pode ser chamado de pessimista. O seu otimismo consiste em que o seu leitor, compreendendo a sua reflexão, dê um novo sentido à sua vida, tendo os pés no aqui e agora. O autor de Eclesiastes não perde noites de sono pela vida do além. Essa, ele não a conhece e dela não pode falar.
O mundo grego pregava a imortalidade da alma e nisto estava o sentido da vida para eles. Eclesiastes mostra que o sentido da vida está mais próximo de nós, que imaginamos. Falar da vida é falar de Deus. Nas palavras poéticas e realistas sobre a morte, Eclesiastes revela um Deus próximo de cada um de nós, que nos oferece a vida e as condições para vivê-la com intensidade. Os seres humanos da sociedade de Eclesiastes é que justificaram as suas práticas injustas com reflexões sobre a vida no além.
Os cristãos, mais tarde, compreenderam que Deus em Jesus se encarnou no meio de nós e aqui viveu plenamente. Nele a vida torna-se eterna e terna, pois ele se eternizou no meio de nós, na intensidade de sua vida doada por amor. Celebrar, dia após dia, a sua memória é reafirmar que ele vive sempre. Ele não morreu. Ele viverá sempre. Nele ressurgiremos todos para a vida em Deus.
A felicidade em Eclesiastes consiste no sentido da vida, vivida com alegria. Enquanto a sociedade do seu tempo se preocupava com o acúmulo de bens, Eclesiastes ensina o valor de usufruir os frutos do próprio trabalho. Vida vivida com intensidade produz alegria. Pequenas coisas tornam-se grandes porque foram feitas com o traço da eternidade, mesmo que passageiras.
A vida é uma arte, um eterno rodízio do nascer e morrer. Uns vão e outros vêm. E a vida continua o seu curso. Na vida, há um tempo para tudo, plantar, arrancar a planta; matar e curar; destruir e construir; chorar e rir; atirar pedras e recolher pedras; guerrear e fazer paz, abraçar e separar. Há um momento para cada coisa. Há de tudo na vida. Quem compreende este mistério vive a vida com intensidade. Viver é a arte de viver intensamente no amor! Morrer é arte, desde que se tenha vivido com intensidade. Viver e morrer se entrelaçam numa única irmandade. A morte, no entanto, é o princípio de sabedoria para quem entendeu o seu sentido. Eclesiastes compreendeu isso. Será que nós compreendemos este paradoxo?

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