Uma janela sobre o mundo bíblico

“Queremos o que vamos pedir” (Mc 10,35)



  • Estudo
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  • 19/10/2006
Valmor Oliveira de Azevedo

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Tiago e João, filhos de Zebedeu, foram muito transparentes no diálogo com o Mestre, explicitando o seu desejo. Esta transparência é um valor que não deixa o coração humano mergulhado em camuflagens que fecundam prejuízos enormes para o relacionamento entre as pessoas. Sua transparência foi tão grande que atingiu o patamar de quase sobrepor o próprio desejo ao querer de Deus. Eles não hesitaram em dizer a Jesus que queriam que Ele fizesse o que formulariam em solicitação. Naturalmente, percebe-se uma inversão de prioridades quando se trata de realização de desejos. O desejo de Deus, sua vontade, é sempre prioritário em relação a qualquer desejo humano. Não foi outro o caminho pelo qual o Mestre conduziu o diálogo com os dois discípulos. É importante perceber e assumir a prioridade da vontade de Deus. Só a vontade de Deus está acima de tudo. Só o querer de Deus modula adequadamente o coração humano evitando os confrontos das disputas e das indignações que impedem a fraternidade. Não foi por outro motivo que os outros dez discípulos se indignaram com os dois irmãos.

O que quereis?
Jesus, grande Mestre, não inibe a expressão dos desejos dos seus discípulos. Seus corações estão povoados de desejos, e desejos de todo tipo. Sua adequação e necessárias correções se dão na medida em que o relacionamento com o Mestre proporciona o confronto que possibilita as purificações inadiáveis. O desejo de Tiago e João se localizava no território da garantia de lugares, um à direita e outro à esquerda. Uma localização que explicita a compreensão de poder, lugar garantido ao lado daquele que dirige e ocupa em tudo a centralidade. A purificação do desejo começa com o confronto que se estabelece para que se possa chegar a ocupar aqueles lugares pretendidos. O desejo da glória e do reconhecimento pessoal ofusca o coração na sua procura e o incapacita para a percepção do caminho a ser percorrido. Jesus, por isso mesmo, afirma que eles não sabem o que estão pedindo. O confronto aumenta quando lhes pergunta a respeito da disposição de beber o cálice que Ele, Mestre e Senhor, iria beber. A resposta foi pronta e imediata: ‘Podemos’. A rapidez da resposta revela ainda o não alcance do significado de beber do cálice. Não é um gesto simples e ritual qualquer. É muito mais.

O cálice, o batismo e o lugar
O diálogo que Jesus estabelece com os dois discípulos, visando a compreensão do sentido do pedido feito, leva-os ao mais profundo do coração de Deus. Este lugar não é apenas uma configuração geográfica de ser à direita ou à esquerda. O lugar para Deus é gesto de amor. Só o gesto de amor configura o lugar. O único gesto de amor que configura e garante o lugar é a oferta total de si mesmo para o bem de todos. O cálice que se bebe é fruto da oferta de si, sem reservas. Não é fácil. Tende-se sempre a reservar o melhor para si. Não é raro tentar conseguir o próprio lugar e nele depositar o conforto do coração e a comodidade da vida. Deus considera este lugar como oferta. Só a oferta traz a garantia deste lugar. Uma garantia que se sela pela inserção total e sem reservas na oferta de Deus. Só esta disposição e aceitação revelam os escolhidos de Deus para quem ele reserva os lugares à sua direita e à sua esquerda. Estes lugares não são conquistados por barganhas ou solicitações políticas; não são dados aos que simplesmente chegam primeiro, usuários da inteligência dos oportunismos. Nem mesmo estes lugares são reservados por Deus a partir de critérios que possam estar nos leitos da mesquinhez e dos preconceitos. A reserva que Deus faz é justa e destina-se a todos aqueles que seguem o caminho do Mestre e se oferecem sem reservas para o bem.

Entre vós não deve ser assim
O caminho da oferta de si é o único que não provoca colisões relacionais entre os discípulos de Jesus. Outros caminhos confundem as lógicas e enchem os corações de indignações alimentando disputas e criando distâncias. Não foi diferente entre os primeiros discípulos. Não será nunca diferente entre os discípulos de outros tempos. A diferença que eleva e preserva a verdadeira fraternidade se encontra no caminho da oferta de si. Jesus ensina aos seus, buscando refazer entre eles a unidade, que este caminho é diferente daqueles que oprimem e tiranizam, convencidos exageradamente do seu poder e de seus direitos de governar. A ocupação de lugares ao redor de Deus é direito de quem é grande. Uma grandeza à moda de Deus que no Filho Amado se faz servo de todos, ensinando a tônica que deve ter a grande regência do dia a dia dos seus discípulos: “ O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate para muitos”. Só assim é possível sentar-se à sua direita e à sua esquerda.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte

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