Uma janela sobre o mundo bíblico

Discipulado de Jesus



  • Estudo
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  • 06/11/2006
Maria Clara Bingerman

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Segunda, 14 de agosto de 2006 - 14h09min


No Novo Testamento, a questão do discipulado ser¨¢ compreendida a partir da pessoa de Jesus de Nazar¨¦, visto e reconhecido como aquele que escuta a Deus e ao povo incessantemente, e carrega sobre seus ombros os sofrimentos e enfermidades de todos, a fim de lhes trazer o consolo e a libertação.Jesus ¨¦ ao mesmo tempo a Palavra e o perfeito ouvinte. É o Verbo de Deus voltado para a contemplação do rosto do Pai desde toda eternidade (Cf. Jo 1,1), e por sua Encarnação ser¨¢ o rosto do Pai voltado para a humanidade (Cf. Jo 1,18.) E ¨¤queles que faz seus disc¨ªpulos ensinar¨¢ tudo o que escutou como perfeito disc¨ªpulo e Filho amado do Pai, para que sejam no mundo seu rosto, sua boca e seu corpo dado em oblação e serviço a todos.

Os elementos distintivos da identidade do disc¨ªpulo cristão são, portanto, acima de tudo: a escuta ¨¤ chamada de Jesus, a resposta crente e amorosa, a vinculação a uma comunidade de f¨¦ e a missão que a comunhão de vida e destino com Jesus vai lev¨¢-lo a desempenhar. A verificação da autenticidade do discipulado poder¨¢ ser percebida nos frutos que da¨ª brotarão.

A relação de Jesus com seus disc¨ªpulos começa com um chamado. Jesus convoca a quem quer nos mais diversos lugares: junto ao lago, no caminho, na montanha, em uma refeição; em diversas circunstâncias: na cotidianidade, no trabalho de pescador ou de coletor de impostos; e com uma proposta bem definida: estar com Ele e ser enviado a pregar. Enquanto, no juda¨ªsmo rab¨ªnico, eram os disc¨ªpulos que escolhiam a escola e o mestre, aqui sucede algo novo. A novidade de Jesus ¨¦ que Ele ¨¦ quem chama por pr¨®pria iniciativa e o faz com autoridade. "Não me escolheram voc¨ºs; fui eu quem os escolhi a voc¨ºs." (Jo 15,16).

Este chamado ou vocação não ¨¦ algo individualista e subjetivo, mas personalizado e comunit¨¢rio. Totalizante, exige a vida inteira daquele ou aquela que escuta o chamado. Situa-se no interior do projeto de salvação, em um contexto eclesi¨¢stico concreto, e ¨¦ algo exigente e vital. O chamado de Deus pela boca de Seu Filho Jesus se realiza seja de maneira direta, sens¨ªvel e evidente como tamb¨¦m, freq¨¹entemente, atrav¨¦s de mediações diversas, que convergem e se esclarecem na mediação comunit¨¢ria e social. Pede ouvidos atentos e obedientes para ser escutado. E desde o primeiro momento, ¨¦ um chamado a compartilhar a vida, o destino e a missão de Jesus.

O ponto de partida do discipulado cristão ¨¦, portanto, um encontro com a pessoa viva de Jesus, que pode dar-se em muitos lugares e circunstâncias: na escuta da Palavra, na mesa da comunhão, em situações vitais onde a mente e o coração humanos são postos em xeque e muito especialmente no rosto do outro. Em um segundo momento se d¨¢ a resposta, a qual compele o novo disc¨ªpulo a desinstalar-se e a deixar ou relativizar tudo: fam¨ªlia, bens, costumes, para seguir o Mestre. Este ser¨¢ para ele de agora em diante o ¨²nico absoluto. A relação mestre-disc¨ªpulo não se reduz a uma relação de ensino e aprendizagem intelectual; implica comunhão de vida e assimilação de um estilo e de um destino comuns. Nunca poder¨¢ pretender o disc¨ªpulo ser mais que o mestre, mas "lhe bastar¨¢ ser como seu Mestre" (Cf. Lc 6,40).

Essa mudança radical de vida est¨¢ longe de ser uma atitude provis¨®ria, que dura enquanto o disc¨ªpulo não chega a ser mestre. Do princ¨ªpio ao fim não h¨¢ mais que um Mestre, Cristo (Mt 10,24s; 23,8). Por isso, a vinculação dos disc¨ªpulos a seu mestre ¨¦ imensamente mais estreita e ¨ªntima que a de outros mestres. Jesus chama os disc¨ªpulos "para que estejam com ele" (Mc 3, 14), participando de seu caminho errante, de sua car¨ºncia de domic¨ªlio e inclusive de seu perigoso destino. Trata-se de uma comunhão total, que carrega em si a força e o conte¨²do de uma confissão de f¨¦ e de vida em Jesus como Messias. Confessar isto com a boca e a vida poder¨¢ levar o disc¨ªpulo at¨¦ o final do testemunho, ou seja, ao mart¨ªrio.

A resposta do disc¨ªpulo, portanto, não corresponde a um saber intelectual, mas ¨¦ sua vida mesma, dada e oferecida para que outros tenham vida. Ela se d¨¢ em um itiner¨¢rio de f¨¦ que parte do chamado e do encontro com Jesus, passa pela conversão, segue em fidelidade at¨¦ a cruz e d¨¢ testemunho da Ressurreição, a ponto de estar disposto a dar a vida por outros. Seguimento e testemunho, at¨¦ o cume do mart¨ªrio são, portanto, duas dimensões fundamentais do discipulado. Implica dar vida, dando a vida.


Maria Clara Bingerman
* te¨®loga, professora e decana do Centro de Teologia e Ci¨ºncias Humanas da PUC-Rio

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