Uma janela sobre o mundo bíblico

O Deus da Bíblia é violento?



  • Estudo
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  • 07/06/2007
Ildo Perondi

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Quando lemos alguns textos da Bíblia, sobretudo do Antigo Testamento, seguidamente nos encontramos diante de situações e cenas de violências, massacres, assassinatos, etc. que quase nos assustam. E, se lermos as interpretações, vamos ver que quase tudo isso foi feito em nome de Deus.
Será então que o nosso Deus é um Deus violento e que gosta de eliminar seus inimigos e os inimigos do povo de Deus? Como ficamos diante de textos que falam destas cenas graves de violência?


Textos que nos chocam:
Vou citar algumas passagens bíblicas que falam dessas situações:
- Êxodo 7-12: encontramos as dez pragas lançadas por Deus contra os egípcios. A última praga é o massacre de todos os primogênitos das famílias dos egípcios.
- Êxodo 14,23-31: vemos que as águas do mar afogaram os soldados do faraó;
- Êxodo 32,28: três mil homens foram mortos porque violaram a Aliança, adorando o bezerro de ouro.
- Na conquista da terra foram usadas táticas de guerra, cidades foram conquistadas com métodos diversos e no final “passando a fio de espada seus habitantes” (Josué 6,21; 8,24; 10,30-39; 11,11-14). Alguns reis e chefes destas cidades-estado foram enforcados em árvores (Josué 8,29;10,26).
- O Salmo 136 que é muito bonito e canta a história de Deus no meio do seu povo, nos diz também que Deus “feriu reis famosos; matou reis poderosos; Seon reis dos amorreus e Og rei de
Basã... porque eterno é seu amor!” (Sl 136,17-20).

Textos assim vamos encontrar também no Livro dos Juízes, nas conquistas de Saul, Davi e Salomão. E temos também alguns Salmos assim (chamados “Salmos imprecatórios”).


Que explicações podemos dar?
É importante afirmar que estes fatos aconteceram dentro de uma sociedade que viveu há uns três mil anos atrás. Era a mentalidade da época. Isso não significa que Deus esteja de acordo com tudo o que é atribuído a Ele.
É certo também que muitos destes textos são exagerados, são textos que contam histórias a partir dos vencedores e que foram transmitidos oralmente antes de serem escritos. Era um modo de ser contar as histórias da época, valorizando os antepassados. Usava-se uma “força de expressão” para chamar a atenção dos ouvintes.

Na morte dos primogênitos egípcios é certo que há um “aumento”. Se o fato tivesse acontecido como é relatado na Bíblia, teria havido uma mortandade de meninos nunca vista na face da terra. Mas fora da Bíblia não há nenhuma informação sobre isso. Porém, sabemos que houve a morte do filho do Faraó. Ora, o Faraó era considerado um deus, o pai do povo. Portanto, quando morreu o menino foi como dizer: “Nesta noite estamos de luto, pois é como se tivesse morrido um filho nosso”.

Na passagem do mar, os egípcios estavam perseguindo os filhos de Israel. O mar foi a salvação deles. É quase impossível acreditar os egípcios não conhecessem os perigos do mar, portanto, ao ver o mar que recuava seguramente o exército voltou atrás e alguns soldados devem ter morrido. Mas como eles desapareceram e não perseguiram mais os israelitas foi como se tivessem morrido todos e para sempre. É como se dissessem: “Estes aí não incomodam mais!”
No texto que diz que os três mil homens morreram porque violaram a Aliança, também seguramente temos um número alto demais. O texto quer transmitir uma mensagem: “Aqueles que violam a Aliança de Deus, têm um único destino: a morte!”.

Mais difícil de explicar são os massacres de Josué. É certo que para conquistar a terra, foi necessário enfrentar os antigos reis de Canaã, que viviam nas cidades-estado. Estes reis viviam bem nas suas fortalezas. Os servos ou escravos ficavam de fora e os protegiam. Os reis de Canaã recebiam também proteção do Egito. Portanto, ao conquistar a terra foi necessário travar combate contra eles. Parece que os servos e escravos em muitas situações passaram para o lado dos filhos de Israel, o que tornou mais fácil a conquista. É certo que aqui também temos a história contada pelo povo que venceu. Dá para ver que só morre gente do outro lado. Somente em um caso, morreram trinta e seis homens dos israelitas (Js 7,1-5), mas foi porque violaram a ordem de Deus.
Quanto a enforcar os reis vencidos era uma prática dos povos da época. Ainda que nós não concordamos com ela. Era costume também que o guerreiro da tribo vencedora matasse o guerreiro da tribo perdedora e bebesse o seu sangue. Esta prática os israelitas nunca fizeram, pois o sangue é a vida e ninguém pode beber o sangue do outro.

Os textos que falam da destruição das cidades conquistadas também devem ter números um pouco exagerados. Escavações feitas por arqueólogos nos informam que não foram encontrados sinais de cidades destruídas pelos israelitas. Mesmo a destruição de Jericó, aconteceu muitos anos antes da chegada do povo de Israel segundo a arqueologia. Então parece que a prática mais usada foi essa:
expulsão dos reis das cidades-estado
aliança com os servos e escravos
re-ocupação das cidades: “Dei-vos cidades que não construístes e nas quais habitais...” (cf. Js 24,13; Dt 6,10).
Mas as cidades conquistadas não eram grandes. A maioria eram cidades-estado, portanto, pequenas vilas com poucos habitantes.


E como fica Deus nestes fatos?
É importante afirmar que a Bíblia é muito mais um livro de Mensagem do que de história. Para transmitir a sua mensagem, muitas vezes os fatos históricos são aumentados, para dar mais valor e credibilidade.

Por exemplo: se nós vamos ver lá no início da Bíblia, ficamos sabendo que Deus colocou Adão e Eva num jardim (vejam como o projeo de Deus para o ser humano é belo!), mas porque pecaram, eles foram expulsos do jardim (Gn 3,23-24). Logo em seguida, vamos ver que Caim matou seu irmão Abel, este também se retirou de diante do Senhor (Gn 4,16). (OBS. No texto hebraico está “em direção ao Oriente”).
Da mesma forma, Deus vai conduzir o povo que era escravo para a terra de Canaã, onde habitavam alguns povos (cf. Ex 3,8). Por que Deus foi fazer isso, se havia gente lá? A explicação da Bíblia é a seguinte: “Deus é o único proprietário da terra e é Ele que distribui os povos sobre a face da terra” (cf. Lv 25,23; Dt 32,8-9). Os habitantes de Canaã praticavam rituais que não agradavam a Deus, como a queima de crianças; não faziam bom uso da terra e por isso “a terra os vomitou” (Lv 18,25).

Mas atenção: o povo de Deus não estará livre disso, pois se não fizer um bom uso da terra e se não seguir a Lei de Deus também será expulso (cf. Lv 18,28; 20,22-24). É isso que vai acontecer mais tarde, quando em 721 aC a Assíria vai expulsar as dez tribos do reino do Norte (cf. 2Reis 17) e em 586 aC a Babilônia vai tomar Jerusalém e o Reino do Sul (cf. 2Reis 24-25). Outra vez o povo foi expulso da terra e levado ao cativeiro “em direção ao Oriente”!


Três explicações:
Mas, afinal, nosso Deus quer mesmo a morte dos inimigos? Será que Ele se alegra vendo a morte das pessoas? Quero recordar três explicações interessantes:
a) Quando os judeus celebram a Páscoa, são servidos quatro copos de vinho em sinal da alegria pela libertação e passagem da escravidão à libertação; do Egito à Terra Prometida. No entanto, depois de servir o segundo cálice, antes de ser tomado, são recordadas as dez pragas do Egito e a cada praga mencionada, é tirada uma gota de vinho do copo. Por que derramar uma gota de vinho quando se mencionam as pragas com as quais Deus castigou os egípcios? O costume de derramar-se vinho do copo ao mencionar as pragas com as quais Deus castigou os egípcios tem origem no Midrash: Ele nos conta que quando Deus abriu o Mar Vermelho para salvar os israelitas e fechou-o em seguida afogando os egípcios, os anjos do céu queriam cantar um hino de louvor, mas Deus os repreendeu, dizendo: “Minhas criaturas estão se afogando no mar e vocês querem cantar?”. Portanto, não devemos nunca nos alegrar na hora da dor das outras pessoas, mesmo na dor dos nossos inimigos. Por isso derramamos uma gota de vinho do nosso copo. Ele
não pode estar cheio ao comentarmos a tristeza alheia” (cf.Hagadá de Pêssach, pg. 21) .

b) O Livro da Sabedoria nos ensina que não foi Deus que fez a morte e nem tem prazer em destruir os viventes (Sb 1,13.24). Ao contrário, “Deus é Aquele que ama a vida” (Sb 11,20). E ao recontar a história do que Deus fez com o seu povo (Sb 10-19), o Livro da Sabedoria nos ensina que Deus agiu com moderação contra os antigos habitantes da terra santa que praticavam coisas detestáveis, ritos execráveis, banquetes canibalescos, etc. Estes foram expulsos para que a terra recebesse uma digna colônia dos filhos de Deus... Mesmo assim Deus tratou os inimigos da terra com indulgência... Deus dava tempo para a conversão (cf. Sb 12,3-11).
c) Santo Agostinho nos ensina que Deus escreveu dois livros para nós. O primeiro foi a Vida. Todos deveríamos saber ler os sinais de Deus e a mensagem da Vida e vivermos como verdadeiros filhos de Deus. Acontece que, segundo Santo Agostinho, com o passar do tempo, os seres humanos se desviaram do projeto de Deus, e o pecado entrou no mundo. Deus então, na sua infinita bondade e misericórdia, decidiu escrever o segundo Livro que é a Bíblia. Para isso, Ele escolheu um povo e aceitou a sua situação, e aos poucos foi fazendo história com este povo, fez Aliança, e foi revelando a sua mensagem... Este povo deveria ser sinal para todos os povos da terra de como Deus ama seu povo e como o povo deveria se comportar diante de seu Deus. Deste modo, se olharmos o Antigo Testamento, com os olhos de Santo Agostinho, vamos ver a pedagogia de Deus que tomou um povo dentro da cultura e modo de pensar da época e foi introduzindo uma nova maneira de se relacionar. Depois temos o Novo Testamento, onde a mensagem transmitida por Jesus é de um Deus que é Amor (1Jo 4,8.16), que é misericórdia e que dá um novo mandamento “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei” (Jo 13,34; 15,12). Por isso, a linguagem da violência não cabe mais no NT!


A Mensagem é mais importante que a história
A Bíblia também parece ensinar uma importante lição: a terra pertence a Deus, nós devemos usá-la bem e cuidar dela como se ela fosse o nosso jardim. Se não fizermos isso, corremos o risco de perdê-la e sermos expulsos... A má distribuição da terra, faz com que hoje alguns tenham tanta terra e tantos fiquem sem nada, e por isso devemos discutir a função social da terra. O desrespeito que temos hoje pela natureza; o uso indiscriminado de agrotóxicos e fertilizantes; a derrubada das florestas; a poluição do ar e dos rios; a destruição da camada de ozônio e tantas outras violências contra a natureza já estão nos mostrando os sinais de catástrofes que estão chegando... Da mesma forma, a terra precisa ter o seu descanso para poder se recuperar. Ou amamos mais a terra e a natureza, ou corremos os riscos de sermos “vomitados” como bem nos alerta a Bíblia! (cf. Lv 20,22-24).

Certas catástrofes que estão acontecendo no mundo de hoje nos questionam. É fácil atribuir a culpa a Deus. Quando veio o furacão Katrina, nos Estados Unidos, alguns muçulmanos interpretaram como uma ação de Deus contra o povo dos USA; alguns judeus fanáticos disseram que Bush estava apoiando Sharon (primeiro-ministro de Israel) que estava destruindo as casas dos colonos judeus, por isso, para cada casa de Israel destruída, Deus destruiu dez nos USA; os protestantes dos USA disseram que o Katrina foi um castigo de Deus, que preferiu “sacrificar” todo aquele povo para impedir uma parada gay que iria acontecer na cidade de Nova Orleans no domingo seguinte... Todos usaram o nome de Deus, mas poucos deram crédito aos ecologistas que disseram que este e outros fenômenos vão continuar acontecendo na Terra, cada vez mais fortes, se não cuidarmos mais da nossa Mãe Natureza!

Devemos aprender com a Bíblia que na história da humanidade vamos nos deparar com cenas de dor e sofrimento. Não seria correto atribuir tudo isso a Deus (mesmo que alguns textos bíblicos façam isso). Mais bonito e mais bíblico é buscar na Bíblia o verdadeiro Rosto de Deus: Ele é um Deus cheio de amor, que caminha com seu povo; que ama e sofre com seu povo; que está ao nosso lado... Ele é o Deus Criador e que ama a Vida, acima de tudo e que quer conduzir seu povo à Terra Prometida, pois Ele é o Deus que cumpre todas as Promessas (Js 21,45).

É importante notar que na Bíblia existe uma evolução na revelação do verdadeiro Rosto de Deus. Se encontramos textos que mostram um Deus irado e castigador, encontramos também textos que mostram a outra face de Deus. E podemos verificar também que nos momentos mais difíceis da história do povo de Deus, foi também quando Deus mostrou seu rosto mais bonito e mais cheio de amor e carinho:
- Na dura situação de escravidão no Egito, Deus se mostrou como Aquele que ouve o clamor, que vê o sofrimento e que desce para libertar;
- Na dura experiência do exílio na Babilônia, Deus se mostrou como o Deus Consolador, como a mãe que conforta seu filho;
- Na hora da cruz cruel que matou seu Filho Jesus Cristo, Deus se mostrou como o Deus presente e fiel e que depois o ressuscitou e restituiu a esperança aos discípulos.

E, com Jesus, aprendemos também que nosso Deus é o Deus do Reino. Este Reino começa aqui na Terra, é a realização de todas as utopias, onde nunca mais haverá dor e sofrimento, onde haverá justiça e amor, e onde o povo pode e deve ser feliz! Este é o sonho de Deus. É certo que o Reino já começou aqui com Jesus e naquilo que Jesus fez e disse estava o Reino de Deus. O Reino começa aqui na terra, nós devemos trabalhar para que se desenvolva e cresça, mas o reino só se realiza plenamente com a nossa Ressurreição, quando estivermos junto de Deus. Lá não haverá mais dor, sofrimento ou morte. Será a festa da Vida que dura para sempre!

O Frei Carlos Mesters conta uma historinha mais ou menos assim. Certo dia numa sala de aula um professor mostrou a fotografia de um homem e perguntou aos alunos o que achavam daquela foto. – Que homem brabo! – Pobre da mulher dele! – Sujeito difícil de conviver, esse aí! – Vai ser feio assim lá na China! – Não queria ser filho dele! E assim por diante... Então entrou na
sala um rapaz, olhou para a fotografia e disse: – É meu pai! Tenho orgulho dele! Mas aí alguém perguntou: – Com essa cara? E o rapaz respondeu: – Vocês não sabem, mas meu pai é advogado e nesse dia ele estava no Tribunal defendendo uma família pobre que estava sendo injustiçada. Por isso, ele está indignado na foto. Em casa é gente boa, e o povo da comunidade gosta muito dele. Ele tem um coração que vale ouro! Vocês nem imaginam quantas pessoas pobres ele já defendeu e ajudou!. E a turma toda mudou de opinião depois de ouvir o relato do rapaz...

Concluindo: se algumas vezes vamos encontrar textos que mostram a face de Deus como violenta e irada, é certo que não é este o traço principal que a Bíblia nos quer transmitir. Nosso Deus é o Deus da Justiça, é também o Deus do Perdão, da Bondade, da Consolação, presente em todos os momentos da história, Deus Santo, Deus Amor, Deus que é Pai e Mãe, Deus Trindade (a melhor comunidade), Deus Criador e que ama a Vida e que enviou seu Filho ao mundo para que “todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10)... Por isso, podemos cantar “Como é bonito teu Nome, ó Senhor!”.

Frei Ildo Perondi - [email protected]
Visite o site de Fr. Ildo – www.capuchinhosprsc.org.br

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