Uma janela sobre o mundo bíblico

Gênesis 1-11: Que beleza todas as criaturas!



  • Estudo
  • 2502
  • 03/09/2007
Gilvander Moreira

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“Amazônia, missão neste chão”, eis o tema da Campanha da Fraternidade de 2007. Nenhum texto bíblico é melhor do que Gênesis 1 a 11 para iluminar a luta pela preservação da Amazônia, sua riquíssima biodiversidade, seus povos e culturas. Os relatos de Gênesis 1 a 11, se lidos de forma comunitária, ecumênica e militante, podem nos inspirar no enfrentamento dos desafios que se colocam para a humanidade diante do aquecimento global, causado principalmente pelo estúpido e genocida sistema capitalista. De acordo com a ONU, em 2005 aconteceram 360 desastres naturais: 168 inundações, 69 tornados e furacões e 22 secas que afetaram 154 milhões de pessoas. No final de 2004, um tsunami ceifou a vida de 280 mil pessoas.

Em Gen 1-11 está uma série de relatos que não podem ser interpretados como se fosse simples história das origens do universo e da humanidade. Com uma roupagem simbólica mostram o Deus da vida como sendo “o senhor da Criação” e não a multidão de ídolos que povoavam e povoam os céus das ‘monarquias’ dos poderes político-econômico-religioso.

Deus cria na evolução a partir da palavra, não por meio de decreto, nem de tanques de guerra, nem pela ditadura do poder econômico. O espírito de Deus ‘paira’ sobre as águas (Gn 1,2b), melhor dizendo, todas as criaturas, toda a realidade, tudo e todos são permeados e perpassados pelo divino, pelo espírito de vida. O divino não está acima e nem fora do real, mas está na realidade com todas as suas relações. A realidade mais sagrada é o profano, pois foi criado por Deus só por amor. A criação acontece a partir da palavra, elemento frágil à primeira vista, mas poderoso, pois tem a força de carregar a verdade que liberta ao consolar os aflitos e ao afligir os consolados.

“Houve uma tarde e uma manhã!” (Gn 1,5.8.13.19.23.31), eis o refrão que revela que para o povo da Bíblia a vida caminha das trevas da noite para a luz da aurora. “Faz escuro, mais cantamos”, diria o/a autor/a de Gen 1-11. Com mãos à obra, construímos a esperança. Na criação de relações e instituições libertadoras, como o/a autor/a de Gen 1, podemos exclamar: “Que Beleza! Tudo é muito bom! A vida, a mãe terra, a irmã água, toda a biodiversidade, tudo é vocacionado para ser berço de relações de amor e de vida!”

Deus criou o ser humano como sua imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26). Sim, mas não só o ser humano. Toda a comunidade de vida – terra, água, seres vivos, cerrado, Amazônia, ar, sol, lua, estrelas, etc - é banhada pelo divino, irradia a luz e a força de Deus. Basta de antropocentrismo que tanto mal tem feito à humanidade. Oxalá consigamos perceber que somos parte, pertencemo-nos uns aos outros. O irmão sapo, por exemplo, como grande ecologista, ajuda a limpar o ambiente instaurando o equilíbrio natural. O irmão morcego, grande semeador, cumpre a missão de semear uma variedade infinita de espécies por onde vai passando.

“Submetam a terra!” (Gn 1,28). Não no sentido superficial como aparenta à primeira vista. Não deixe um reinar só submetendo todos. Reine compartilhando responsabilidades e crescendo em todos os sentidos, não só no sentido econômico. Cresça espiritualmente, deixe de ser analfabeto político e ecológico. Não se curve diante de nenhum tipo de tirania. Exerça sua liderança. Participe da coordenação da terra, isto é, dos destinos da vida.

O mundo do campo parece ser o chão econômico e geográfico de Gen 1-11. A humanidade é gente tirada da terra (Gen 2,7). Somos tão filhos e filhas da terra e da água quanto filhos e filhas de Deus. É hora de retomar nossa ligação íntima com a mãe terra que não pode continuar sendo tratada como mercadoria e espoliada do seu sangue, as águas. Rasgar o ventre da mãe terra, deixá-la coberta de chagas e ferida de morte é geocídio, é chamar a morte para nós, seus próprios filhos/as.

Somos gente colocada numa horta/roça para cultivá-la como um jardim (Gen 2,8-9). Nossa missão é cuidar, proteger, pastorear toda a biodiversidade. Conviver de forma fraterna com todos e tudo. Isso é construir uma sociedade sustentável. Preservar o máximo deve ser o princípio necessário. Construir e produzir só se forem dentro dos limites da sustentabilidade. “Desenvolvimento sustentável”, eis uma contradição; virou falácia, uma grande mentira, apenas uma fachada de discurso usado pelas grandes empresas para continuar depredando impiedosamente a natureza. ‘Desenvolvimento’ está na linha do progresso, da acumulação tecnológica e do crescimento. Isso é capitalismo que deixa um rastro de destruição atrás de si. ‘Sustentável’ está na linha da preservação, da convivência e respeito a toda biodiversidade, é ecologia, é holística. O futuro da humanidade e da biodiversidade está intrinsecamente ligado à construção de uma sociedade sustentável.

Mulheres consideradas inferiores porque saídas de uma costela? (Gn 2,21). Não. Basta de leitura fundamentalista. Homem e mulher são “carne da mesma carne”, se complementam. Como disse dona Marta: “Deus criou a mulher da costela do homem, costela que protege o coração, para que homem e mulher partilhem, lado a lado, alegrias e desafios, sejam companheiros/as. Deus não criou a mulher da sola do pé do homem para que este não subjugue a mulher. Não a criou também de um pedaço da cabeça do homem para que a mulher não impere sobre o homem.”

Eva, a culpada de tudo? Não. Eva, companheira, aquela que teve a grandeza de acolher a verdade sugerida pela serpente. Eva liderou o processo de amadurecimento humano. Animou Adão a sair da infantilidade. Passaram pela adolescência e chegaram à fase adulta que é viver e conviver em um mundo maior, sendo autônomos, assumindo o que faz parte da vida: dar à luz em dores de parto e trabalhar para sustentar a vida. Isso não é castigo. É apenas o diagnóstico que revela o ser humano assumindo a maioridade, caminhando com as próprias pernas.

‘Pecado original’ não é discernir entre o bem é o mal. Isso é bom. É agir de forma ética. ‘Pecado original’ é transcender a autonomia humana e recair na auto-suficiência, no entender-se como independente, cultivar espírito arrogante e prepotente. Isto se dá tanto em pessoas como em sistemas econômico-político-religiosos que oprimem e excluem pessoas. O grande filósofo Jean Jacques Rousseau pondera que o pecado original entrou no mundo quando alguém resolveu cercar um pedaço de terra e dizer: isso é meu. Os outros, de braços cruzados, abaixaram a cabeça e aceitaram. Ou seja, a raiz de todos os pecados está na instituição da propriedade privada que de propriedade de bens necessários à vida passou à propriedade dos meios de produção, o que instaurou a violência no mundo, Caim matando Abel.

Mulheres sedutoras, eternamente conspirando, para fazer os homens caírem nas garras do mal. Mulheres-cobra, de língua dupla, mentirosas, perversas e maliciosas? Não. Em Gen 3, a Serpente não seduz Eva, apenas diz-lhe uma verdade que a anima a crescer humanamente. Eva não seduz Adão, apenas come da fruta e a partilha com Adão. Não há nenhum jogo de sedução no relato. Somente tardiamente, sob clima apocalíptico e em clima de patriarcalismo, é que Eclesiástico viu Eva como a primeira a pecar (Eclo 25,24).

Gen 3 não fala de mulheres carregando uma certa essência impura e pecaminosa, por isso impossibilitadas à plena presença do divino. Excluir as mulheres de muitos lugares e instituições, impedi-las de “tocar” no sagrado, no altar, nos ritos e liturgias é trair completamente o sentido em si de Gen 3.

Ivone Gebara relata que estava no Norte do Brasil, na floresta amazônica, convidada para trabalhar com camponesas e tinha só uma tarde para se reunir com mulheres operárias e domésticas. Uma mulher disse a ela o seguinte: “Eu trabalho, tenho seis filhos e sou virgem. O chefe do lugar onde trabalho muitas vezes me ofereceu dinheiro para que eu entregasse as companheiras de trabalho que chegavam atrasadas e aquelas que participavam das reuniões de organização da greve. Eu sempre me recusei. Um outro me convidou para jantar e depois fazer um programa com ele, e eu disse que não (...) Isto é para mim ser ‘virgem’, eu não me vendo para esses homens...” (cf. Ivone Gebara, Con-spirando 9/94, p. 45).

Maria Soave nos alerta: “Foi a serpente conhecedora da sabedoria e da humanidade que fez a humanidade acordar: “Não acreditem na força da violência e dos donos das armas! Não acreditem nos reis e nos senhores! Tomem da fruta da árvore, tenham força para gritar não, para acreditar na mudança, para tirar do trono os reis poderosos e seus deuses onipotentes e vingativos!” E a humanidade tomou a fruta e comeu. Os olhos se abriram e tiveram coragem de expulsar reis poderosos, sacerdotes opressores e deuses violentos. Tiveram a coragem de ser felizes. Adão, humanidade com o cheiro da terra, a partir daquele dia, chamou-se também com o nome da serpente: hawwah, Eva, Mãe de todos os viventes.”

Caim mata Abel, no passado e no presente. Caim é ferreiro, da cidade. Detentor da tecnologia de guerra e do poder. Abel é pastor, peregrino semi-nômade. Assim era e é o povo de Deus. Não nos fixemos apenas em Caim e na sua violência. Deus se comove com a dor de Abel e interpela Caim: “Cadê seu irmão, Abel?” Deus não fica neutro, opta pela defesa do agredido. Inspiremo-nos no Deus de Abel e no Abel de Deus: os enfraquecidos pelos sistemas de morte, tal como o capitalismo.

No relato do dilúvio (Gen 6-9) não nos fixemos apenas na inundação destruidora que reforça em nós a imagem de um Deus justiceiro que pune a humanidade. Olhemos prioritariamente para Noé, homem justo, íntegro e que andava com Deus (Gen 6,9). Noé, mesmo não sendo profissional, faz uma arca. Em tempos de seca se prepara para enfrentar as inundações. Preocupa-se em salvar toda sua família: um casal de todas as espécies vivas. Assim Noé se torna o pai da ação ecológica e da defesa intransigente de toda biodiversidade. Assim como Chico Mendes, há milhares de Noés pelo mundo afora, participando da construção de uma sociedade sustentável.

Em Gen 11,1-9 olhemos não apenas para a arrogância humana que constrói uma torre/cidade para destronar Deus. Vejamos a presença amorosa de Deus que suscita a diversidade de línguas e culturas, inviabiliza todo e qualquer ‘pensamento único’ e, assim, gera a dispersão dos planos diabólicos. O evangelho de Lucas fez questão de registrar no Cântico de Maria, a mãe de Jesus: “Deus derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes”.

Enfim, com o ser humano intimamente ligado à mãe terra, com homem e mulher em pé de igualdade e dignidade, com a liderança de Eva, com Abel, Noé, Abraão e Sara, a bênção de Deus envolve todas as criaturas e convoca-nos para recriarmos o mundo das relações e das instituições. Tudo isso é uma beleza! Vale a pena investir nossas energias nesta empreitada para o nosso bem e para o bem das próximas gerações.

Com Fé no Deus da vida, fé nos pequenos, fé em toda a biodiversidade e fé em nós mesmos, vamos com Maria Bethânia, com mãos à obra, cantando: “Vencer o inimigo invencível; ...Não me importa saber se é terrível demais, quantas guerras terei de vencer, por um pouco de paz, E amanhã, se este chão que beijei, for o meu leito e perdão, vou saber que valeu delirar e morrer de paixão; E assim, seja lá como for, vai ter fim a infinita aflição, e o mundo vai ver uma flor brotar do impossível chão.”

Frei Gilvander Luís Moreira

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