Uma janela sobre o mundo bíblico

A criação, o Logos em Goethe



  • Estudo
  • 1841
  • 13/09/2007
Gianfranco Ravasi

Leia mais sobre Criação |


Jehi ‘or... Wajjehi ‘or, “Haja luz!... E houve luz” (Gênesis 1,3). São quatro palavras em hebraico, no fundo pobres, mas de força e beleza únicas. Elas não são palavras simples e essenciais? Além do mais, no original são formadas em uma língua marginal, língua de pastores, gente simples como as pedras do deserto, em uma língua simples e quase pobre. Se analizamos, o hebraico bíblico tem apenas 5.750 palavras, enquanto que o inglês tem cerca de 500.000. Apesar disso, as palavras de Gênesis alimentam há muito tempo a fé e a cultura do ocidente. Seria uma dificuldade falar de todas as representações artísticas da criação que a humanidade elaborou em base a esta frase do primeiro capítulo de Gênesis. Poderíamos falar das músicas de Wagner, Schònberg, Stravinskij, Stockhausen. Mas queríamos invés falar de um palarelo bíblico muito belo, ou seja, a obra prima que é o hino (ou prólogo) do Evangelho Segundo João. Também nesse caso estamos diante de uma frase simples, que em grego diz assim: En archè en o Logos, «No princípio era a palavra (ou o Verbo)».

Para descobrir o significado profundo desta frase, um dos maiores poetas de todos os tempos, Johann Wolfgang Goethe (1749-1832), na sua obra prima, Fausto, dedica a este versículo uma página especial. Ele usou o alemão, mas aqui tento, na nossa língua, propor a sua idéia. Como traduzir a palavra grega Logos? A primeira tradução é óbia: é ‘das Wort’, a palavra, realidade frágil, mas de grande potência (pensemos à força que tem uma palavra ofensiva). O poeta, porém continua: Logos tem também um outro valor: é também die Kraft, a potência divina que cria, que julga, que salva. Não é verdade que no livro da Sabedoria se lê: “Quando um profundo silêncio envolvia todas as coisas e a noite mediava o seu rápio percurso, tua Palavra onipotente lançou-se, guerreiro inexorável” (18,14-15).

Porém o Logos, considera Goethe, é também a revelação do criador, do projeto que Deus tem em mente, do nosso destino último: por que, então, não traduzir dizendo que a Palavra é “o sentido, o significado” de tudo? Porém o hino em João continua assim: “Tudo foi feito por meio dele (do Logos) e sem ele nada foi feito (Jo 1,3). E então por que não imaginar que a Palavra não seja também die Tat, ou seja, ‘o ato’ supremo, o acontecimento decisivo? O poeta alemão interpreta esta última tradução em sentido divervo e negativo, mas nós assumimos esta versão e as outras 3 como uma realidade estupenda de significados que testemunham a força e a beleza daquela Palavra que foi pronunciada ‘no início’.

1841 visitas



Comentários

Os comentários são possíveis somente através da sua conta em FaceBook