Uma janela sobre o mundo bíblico

Gênesis 1 - 11: uma sociedade sustentável



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  • 20/09/2007
Gilvander Moreira

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“Amazônia, missão neste chão” e “Defesa da Vida” - temas da Campanha da Fraternidade de 2007 e de 2008. Nenhum texto bíblico mais sugestivo que o do Gênesis 1 a 11 para orientar nossa convivência sustentável com respeito à Amazônia, ao Brasil, ao mundo, à Vida - com biodiversidade, povos, culturas e religiões. Os relatos no Gn 1 a 11 - lidos de forma atualizada, ecumênica e militante – hão de inspirar-nos para um lidar saudável com os desafios diante do aquecimento global e outros problemas atuais, causados, principalmente pelo sistema econômico neoliberal genocida.

De acordo com a ONU, em 2005 aconteceram 360 desastres naturais: 168 inundações, 69 tornados e furacões e 22 secas que afetaram 154 milhões de pessoas. No final de 2004, um tsunami ceifou a vida de 280 mil pessoas.

Em Gn 1-11 há relatos que não podem ser interpretados como se fosse simples história das origens do universo e da humanidade. Com uma roupagem simbólica, eles nos conferem uma responsabilidade decisiva na construção do mundo e da história, após o longo processo da evolução cósmica. O Deus da vida nos convoca à missão de parceiros na Aliança da Criação-Salvação. Para Gn 1-11 não há uma multidão de ídolos que povoaram ou povoam a terra com suas ‘monarquias’ dos poderes cultural-político-econômico-religiosos.

A criação toda se encontra em Deus – grávido do universo – e desde sempre, do mesmo, ela flui, passando por uma gestação progressiva, em que a gratuidade do mistério da vida se anuncia a partir de formas minúsculas e na lentidão do infinito, do eterno. A pessoa humana capta e se arrisca de verbalizar o que é encoberto por um silêncio impenetrável. Daí, seu recurso a metáforas – Deus cria falando e recorre a dias – que expressam, simbolicamente, um mistério que ora amedronta ou encanta, ora suscita nossa admiração ou nos interpela.

Deus, então, cria a partir da palavra, isto é, deixa emanar de seu ser - não por meio de simples decreto nem por um poder ditatorial – uma rica gama de seres. É algo como o próprio espírito de Deus ‘pairando’ sobre as águas (Gn 1,2b), melhor dizendo, todas as criaturas, toda a realidade, tudo e todos são permeados, perpassados pelo divino, pelo espírito de vida. O divino não está acima e nem fora do real, porém está na realidade com todas as suas relações se encontra abrigada em Deus.

Nesta perspectiva o profano é realidade sagrada, pois emanado de Deus reflete algo de seu mistério. Se a criação acontece a partir da palavra – sopro divino – participa, em seu íntimo, do mistério divino e merece de todos, no respeito, a gratidão. Somos, pois, elevados a administradores do divino a ponto de –descuidando da criação – anularmos algo da essência divina e cometermos uma lesa-divindade. Conseqüentemente, maltratando da criação, prejudicamos a nós mesmos.

“Houve uma tarde e uma manhã!” (Gn 1,5.8.13.19.23.31). Eis o refrão a revelar que para o povo da Bíblia a vida caminha das trevas da noite para a luz da aurora. “Faz escuro, mas cantamos”, diria o/a autor/a de Gn 1-11. Com mãos à obra, havemos de construir a esperança. Na criação de relações e instituições libertadoras, como sugere Gn 1, exclamamos: “Que Beleza! Tudo é muito bom! A vida, a mãe terra, a irmã água, toda a biodiversidade, tudo é destinado e chamado a ser fruto e berço de relações humanitárias a serviço da vida!”

O ser humano reconhece em si, e em todos os seres, algo da imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26). Sim, não só o ser humano. Toda a complexidade da vida – terra, água, seres vivos, cerrado, Amazônia, ar, sol, lua, estrelas, etc - reflete o divino, irradia a luz e a força de Deus. Longe de nós o antropocentrismo, com sua arrogância excludente, que tanto mal tem feito à humanidade. Finalmente, graças a também a tantas crises, percebemo-nos fazendo parte, pertencendo uns aos outros. Irmãos insetos e passarinhos, por exemplo - exímios ecologistas - ajudam a limpar o ambiente, cuidando do equilíbrio da natureza. O irmão morcego, grande semeador, e o pardal benfeitor cumprem a missão de semear uma variedade infinita de espécies por onde vão passando.

“Cuidem da terra!” (Gn 1,28). Não queiramos trair esta sua missão, simplesmente explorando e submetendo todos. Reinemos compartilhando responsabilidades e crescendo em todos os sentidos, não só na dimensão econômica. Cresçamos espiritualmente, deixemos de ser analfabetos espirituais, políticos e ecológicos. Não nos curvemos diante de sua ignorância e cobiça, nem diante de nenhum tipo de tirania. Exerçamos liderança. Participemos da coordenação da terra, isto é, do destino dos seres e do equilíbrio da vida. Ao cuidarmos da terra, nos beneficiamos a nós mesmos.

O mundo do campo parece ser o chão geográfico e econômico do Gn 1-11. A humanidade é gente tirada da terra (Gn 2,7). Somos tão filhos e filhas da terra e da água quanto somos filhos e filhas de Deus. É hora de aprofundarmos nossa ligação íntima com a mãe terra que não pode continuar sendo tratada como mercadoria, sendo espoliada de seu sangue - as águas e o verde. Rasgar o ventre da mãe terra, deixá-la coberta de chagas e ferida de morte é genocídio, é condenar seus próprios filhos/as.

Somos gente colocada em uma horta / roça para cultivá-la qual jardim (Gn 2,8-9). Nossa missão é cuidar, proteger, pastorear toda a biodiversidade. Conviver de forma fraterna com todos e tudo. Isso é construir uma sociedade sustentável. Preservar, desenvolver e aperfeiçoar ao máximo deve ser a meta prioritária. Construir e produzir ... só se for dentro dos limites da sustentabilidade. “Sociedade sustentável”, eis um grande desafio. Quando continuamos depredando, impiedosamente, a natureza e conservando relações injustas, cometemos uma falácia, uma grande mentira. Nada de nos esconder atrás da ignorância e maldade em discursos e práticas de pequenos e grandes agro-industriais. Sociedade implica respeito por natureza e pessoas. O sistema capitalista tem deixado um rastro de destruição. O futuro da humanidade e da biodiversidade está intrinsecamente ligado à construção de uma sociedade que se sustenta por uma envolvente, multiforme e responsável ecologia. Ecologia é cuidar da harmoniosa integração dos seres.

Mulheres não podem ser consideradas inferiores só porque se teriam originado de uma costela de homem. (Gn 2,21). Leitura fundamentalista não! Homem e mulher são “carne da mesma carne”; emanam do mesmo Deus, sendo sua imagem viva. Eva, a culpada de tudo? A interpretação pode ser outra. Eva se mostrou rebelde frente à rotina, tão comum ao macho. Desde então, toda mudança deve algo a uma incômoda e santa rebeldia. Quem lidera o processo de amadurecimento humano provoca alguma instabilidade, porém estimula a abandonar o infantilismo.

Só quando expulsos do paraíso do sossego e da acomodação, somos impelidos a abraçar o processo histórico com suas potencialidades e ambigüidades. Desde o início, o ser humano passa pela adolescência para chegar à fase adulta, pagando um preço a fim de viver e conviver em um mundo melhor. Ele conquista progressiva autonomia, assumindo o que faz parte da vida: dar à luz em dores de parto e suar por seu sustento. Isto – embora muitos o sintam qual castigo – conduz o ser humano a assumir a maioridade, fazendo-o caminhar com as próprias pernas. Os que buscam o novo, às vezes, com rebeldia, andam de mãos dadas com Deus. “Eis que faço novas todas as coisas”. Eles se fazem co-criadores de Deus.

“Pecado original” ... Tem a ver com uma inerente e original limitação de não querer assumir a própria condição humana em sua fragilidade. Requer-se a leveza da humildade em conviver com limitações e falhas, uma vez que, em nós, há desequilíbrios e virtudes de tantas gerações qual poeira cósmica a nos humilhar ou dignificar. Aqui, não cabe gloriar-se nem culpar outros. Somos vasos de barro, lembrou Paulo apóstolo. A realidade nos desafia para crescer em autonomia sem recair na auto-suficiência da soberba com prepotência. Longe de nós a dependência que humilha e a arrogância que subjuga. Tanto no bem como no mal, nada é somente meu. Pagamos um preço, não só à condição humana como também à herança genética e a mil e uma circunstâncias do passado e do presente.

Um dos sintomas do pecado original é o instinto excludente de “propriedade privada”, tanto no plano individual como no plano sócio-político-cultural-econômico-religioso. O filósofo Jean Jacques Rousseau pondera que o pecado original entrou no mundo quando alguém resolveu cercar um pedaço de terra e dizer: isto é meu. Os outros, amedrontados pelo poder, abaixaram a cabeça e aceitaram. Ou seja, a raiz de muitos desvios e injustiças estaria nessa instituição da “propriedade privada”. De propriedade de bens necessários à vida passou à propriedade dos meios de produção, o que consagrou a violência no mundo. Daí, é só um passo para Caim matar Abel.

Outro sintoma de pecado original é insinuar que a mulher é ‘sedutora’, eternamente conspirando, para fazer os homens caírem nas garras do mal. Veja a que pode chegar um preconceito, uma atitude covarde: Mulheres-cobra, de língua dupla, mentirosas, perversas e maliciosas. Em Gn 3, a “serpente” pode ser considerada como a lucidez interior ou a informação exterior que conscientizam Eva, isto é a mulher, a fim de que se disponha a crescer humanamente. Não seria tanto o caso de uma imoral sedução, mas a partilha dos bens da cultura. A visão machista não tolera tal atuação feminista. De fato, em um clima apocalíptico e de patriarcalismo, o livro do Eclesiástico chegou a avaliar Eva como a primeira a pecar (Eclo 25,24).

Gn 3 não fala de mulheres carregando uma certa essência impura e pecaminosa, por isso distanciadas da plena presença do divino. Excluir as mulheres de lugares e instituições, impedi-las de “tocar” no sagrado, de partilhar do altar, de ritos e liturgias, é trair o sentido da mensagem bíblica. A biblista Maria Soave nos alerta: “Foi a serpente conhecedora da sabedoria que fez a humanidade acordar: “Não acreditem na força da violência e dos donos das armas! Não acreditem nos tiranos e nos senhores! Tomem da fruta da árvore, tenham força para gritar não, para acreditar na mudança, para tirar do trono os reis poderosos e seus deuses onipotentes e vingativos! Na evolução da história, a humanidade tomou a fruta e comeu. Nossos olhos se abriram e tivemos a coragem de expulsar reis poderosos, sacerdotes opressores e deuses violentos. Tivemos a coragem de ser felizes. Eva – a humanidade com o cheiro de terra – a partir daquele dia, passou a ser chamada com o nome de serpente: hawwah, Eva, Mãe de todos os viventes.”

Caim mata Abel, no passado e no presente. Caim é ferreiro, da cidade. Detentor da tecnologia de guerra e do poder. Abel é pastor, peregrino semi-nômade. Assim era e é o povo de Deus. Não nos fixemos apenas em Caim e na sua violência. Deus se comove com a dor de Abel e interpela Caim: “Onde está seu irmão Abel?” (Gn 4,9). Deus não fica neutro, opta pela defesa do agredido. Os enfraquecidos por sistemas de morte - tal como o capitalismo selvagem – podem inspirar-se no Deus de Abel e no Abel de Deus.

No relato do dilúvio (Gn 6-9) não nos limitemos à inundação destruidora que reforça em nós a imagem de um Deus justiceiro a punir a humanidade. Olhemos, prioritariamente, para Noé, homem justo, íntegro e que andava com Deus (Gn 6,9). Noé, mesmo não sendo profissional, faz uma arca. Em tempos de seca se prepara para enfrentar as inundações. Preocupa-se em salvar toda sua família: um casal de todas as espécies vivas. Assim, Noé se torna o pai da ação ecológica e da defesa intransigente de toda biodiversidade. Assim como Chico Mendes, há milhares de Noés pelo mundo afora, participando da construção de uma sociedade sustentável.
Em Gn 11,1-9 olhemos não apenas para a arrogância humana que constrói uma torre / cidade para destronar Deus. Vejamos, a presença amorosa de Deus que suscita a diversidade de línguas e culturas, inviabiliza todo e qualquer ‘pensamento único’ e, assim, gera a dispersão de planos diabólicos das hegemonias ameaçadoras. O evangelho de Lucas fez questão de registrar no Cântico de Maria, a mãe de Jesus: “Deus derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes”.

Abraão e Sara (Gn 12). Abraão... Algo novo surge do cansaço, quando tudo é julgado perdido. Sara... Esperança há, mas de tão vagarosa provoca zombaria sem desviar-se do caminho. O casal é convocado para o desconhecido, ameaçado pelo que não deseja. Tem de deixar sua terra e reconhecer, duas vezes, que filho não lhe pertence. É no aparente abandono que o novo recebe sua nova chance. Resta-lhe uma risada e um grito de dor a ecoar pelos caminhos do tempo, conscientizando seu povo, a humanidade. Passos certos têm de ser dados. Pressa não. Falhas não fecham portas.

Abraão..., inspiração dos que crêem..., maltratados no presente, ameaçados pelo futuro. Como Sara, na velhice, ele gera um filho. E na terra do Faraó, não assume a companheira como sua. Ao mesmo tempo, fiel a si mesmo, até na perda, se faz defensor da vida contra a morte. Modelo dos que crêem, troca o incerto por certo, mas, fragilizado, recebe a ordem: “Vá, retire-se”. O caminhar faz o caminho.

Ousa viver com uma promessa sem livrar-se de sua pequenez. Deus não precisa de super-homens. Em Sara e Abraão, somos todos justificados pela fé. O pensamento iluminado nos preserva contra a ditadura de um poder central – a partir de dentro de si e da realidade. Aqui, não pode haver oposição entre fé e mundo, entre sagrado e profano, entre fé pessoal e autoridade. Autonomia e responsabilidade formam a base de uma maturidade espiritual. O impulso dinâmico da fé está na base da evolução da história e da fé.

Enfim, com o ser humano intimamente ligado à mãe terra, com homem e mulher em pé de igualdade e dignidade, com a liderança de Eva, com Abel, Noé, Abraão e Sara, a bênção de Deus envolve todas as criaturas e nos convoca para recriarmos o mundo em suas relações e instituições. Tudo isso é uma beleza! Vale a pena investir nossas energias nesta empreitada para o nosso bem e para o bem das próximas gerações.

Com Fé no Deus da vida, fé nos pequenos, fé em toda a biodiversidade e fé em nós mesmos, vamos, com mãos à obra, cantando: “Vencer o inimigo invencível; ...Não me importa saber se é terrível demais, quantas guerras terei de vencer, por um pouco de paz, E amanhã, se este chão que beijei, for o meu leito e perdão, vou saber que valeu delirar e morrer de paixão; E assim, seja lá como for, vai ter fim a infinita aflição, e o mundo vai ver uma flor brotar do impossível chão.” (Maria Bethânia)

Belo Horizonte, 08/09/2007.

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