Uma janela sobre o mundo bíblico

A Tradição Oral - Novo Testamento



  • Estudo
  • 4139
  • 04/10/2007
Brian Gordon Lutalo Kibuuka

Antes da redação dos documentos literários neotestamentários, a transmissão do Evangelho era oral, através do testemunho público da fé, do culto e da instrução à comunidade. Esta transmissão é perceptível no mais antigo testemunho cristão primitivo neotestamentário, as epístolas paulinas, através da observação de: menções explícita à tradição: I Co 11.23, 15.3; indicações sobre o conteúdo da fé: Rm 10.9s; estrutura firme, indicando transmissão oral: I Co 15.3-5, Rm 4.25; subdivisões por estrofes: Fl 2.6-11; Cl 1.15-20; estilo participial: Rm 1.3s; menções Honoríficas: Rm 1.3s; II Tm 2.8; e expressões que indicam epifanias: I Co 15.5; I Tm 3.16.

* Além destas menções à tradição – que remotam à uma tradição provavelmente oral de eventos relacionados à Jesus e à fé da comunidade cristã primitiva, temos:

I) As confissões de fé
As confissões de fé apontam para o testemunho da Igreja em seus primórdios sobre Jesus. Estas confissões de fé são as seguintes:

1) aquelas que apontam para Jesus crucificado e ressurreto como Senhor.
Não existe nenhuma pregação feita por algum líder da Igreja Cristã Primitiva que tenha sido conservada, porém esta influenciou os escritos neotestaentários (I Co 16.19-24, Hb 13.22).Os sermões de Atos (At 2.14-39, 3.12-26, 4.9-12, 5.30-32, 10.34-43, 13.16-41, 14.15-17, 17.22-31) são construções do autor do livro, já que estas mensagens mantém um esquema fixo ao falar que a cruz e a ressurreição são o cumprimento das promessas do Antigo Testamento.

Um resumo da pregação neotestamentária está em I Ts 1.9s. As características desta pregação é que ela, em primeiro lugar, parte da pregação missionária do judaísmo helenista, que convida para a repulsa aos ídolos e a dedicação ao Deus verdadeiro – e acrescenta a afirmação de que os cristãos aguardam o retorno do Filho de Deus.

2) aquelas que apontam para a ação de Deus na cruz e na ressurreição de Jesus, e destacam o testemunho daqueles que aceitaram esta mensagem
(Rm 10.9, Lc 12.8s, Jo 1.20, Rm 1.16). Esta confissão se faz pelos títulos que Jesus recebe (I Co 12.3; Fl 2.11; I Co 8.5s, Rm 3.30, Gl 3.20, Tg 2.19).

3) As fórmulas de fé, que afirmam que Deus agiu em nosso benefício em Jesus
Rm 10.9, I Ts 4.14, Rm 4. 24s, 8.34, 14.9, II Co 13.4, I Co 15.3-5

4) Diversas outras fórmulas apontavam para uma tradição oral cristã primitiva:
I Co 9.16ss, Rm 1.3s, Gl 4.4

* Além das confissões de fé, temos:

II) Os hinos da cristandade primitiva
Os hinos apontam para a tradição oral da mesma. Estes hinos são:

1) Fl 2.6-11,
que é um hino cristológico cristão primitivo que tem duas estrofes: a primeira trata da humilhação do Cristo; e a segunda trata da sua exaltação.

2) Cl 1.15-20,
que celebra o senhorio universal de Cristo, contendo uma introdução solene que convida ao louvor (12-14), e duas estrofes que falam da soberania de Cristo (15-20, falando dele como Senhor da criação e da reconciliação).

3) I Tm 3.16,
fala da revelação preexistente na carne, para glorificar a Cristo como revelador e redentor.

4) Ef 1.3-14, 5.14, I Pe 2.22-24 (25) e Hb 5.7-10.
Estes e outros hinos eram a “Christo quase deo” (Plínio, o Moço, Ep. X 96,7).

III) A tradição litúrgica da Comunidade Cristã Primitiva
Esta também aponta para a tradição oral da mesma, já que no início do culto da comunidade existia inicialmente a prédica, a confissão e o canto, organizados livremente e organizadas de maneiras distintas conforme a época e o grupo. A tradição sinagogal influenciou esta tradição cristã, o que se pode ver no uso de expressões litúrgicas sinagogais em textos cristãos – que refletem seu uso na liturgia da Igreja: I Co 14.16, Ap 19.1,3,6. Algumas influencias dos cultos pagãos também encontraram lugar na tradição cristã de algumas comunidades, como o caso da Igreja de Corinbto (I Co 14). A eucaristia também era celebrada, e nesta se trocava o ósculo santo, os descrentes eram mandados para fora (anátema) e entoava-se o chamado da vinda do Senhor (I Co 16.22, p 22.20).

* A celebração da ceia é determinada pela tradição oral sobre a última ceia de Jesus, e nesta estava registrada a maneira como a comunidade deveria proceder (I Co 11.23-25; Mc 14.22-24). A morte do Senhor era anunciada no pão partido e no beber do cálice (I Co 11.26).

* O batismo e o culto batismal também apontam para a tradição, por usar uma série de expressões litúrgicas 9I Co 6.11, Rm 6.3, I Co 12.13, Rm 10.9, Fl 2.6-11, Cl 1.15-20, II Co 5.17).

* O louvor a Deus também remonta à tradição oral dos cristãos primitivos. Este está presente:
1) Nas doxologias do começo das cartas (II Co 1.3, Ef 1.3) ou no meio do escrito (Rm 1.25, II Co 11.31, Rm 9.5), ou nas afirmações honoríficas (Rm 11.36, 16.27, Gl 1.5, Fl 4.20).

IV) A tradição parenética
ou seja, as admoestações também refletem a tradição. Estas apontam para:

1) O catálogo de vícios ou virtudes
(Rm 1.29-31, 13.13, I Co 5.10s, 6.9s, II Co 12.20s, Gl 5.19-21, Ef 4.31, 5.3-5, Cl 3.5,8, I Tm 1.9s, II Tm 3.2-4, Gl 5.22s, I Pe 3.8, II Pe 1.5-7). Estes catálogos têm o objetivo não de mencionar vícios de determinada comunidade, mas é um catecismo sobre o que deve ser feito e evitado.

2) O catálogo de normas para a vida doméstica
(Cl 3.18-4.1, Ef 5.22-6.9, I Tm 2.8-15, Tt 2.1-10, I Pe 2.13-3.12). Estes catálogos estão baseados na tradição porque têm como ponto de partida as instruções ministradas na sinagoga helenista e na filosofia que a influenciou, os quais se tornaram ponto de partida para a tradição da Igreja.

3) Comportamento no mundo
(I Pe 2.13-17, Rm 13.1-7, 12.1-2).

4) Catálogo de deveres
(I Tm 3.1-7, Tt 1.7-9, I Tm 5.17-19, Tt 1.5s, I Tm 3.8-13, I Tm 5.3-16). Da mesma maneira que entre os helenistas arrolava-se as qualidades e tarefas que deveriam ter os que exerciam cargos públicos ou militares, a Igreja adotou seus esquemas para a ordem eclesiástica.

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