Uma janela sobre o mundo bíblico

Leitura bíblica na Amazônia



  • Estudo
  • 3317
  • 09/10/2007
Tea Frigerio

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Seminário de estudos - Meio ambiente amazônico e as Comunidades Eclesiais de Base


Introdução

Ao pensar como desenvolver o tema proposto para este seminário, fiquei bastante em dúvida sobre o teor da reflexão: escolher um texto ou alguns textos e daí desenvolver a temática ou refletir olhando à Bíblia no seu conjunto.
Um pensamento esteve presente desde o início: o texto bíblico, que consideramos Texto Sagrado, nasce de constantes releituras da experiência fundante do povo de Israel, isto é, da libertação da opressão do Egito. Por sua vez, as releituras são provocadas pelo contexto histórico, pela situação existencial que o povo estava vivendo e que exigia uma atualização da Palavra, a fim de que falasse para os novos tempos. Isso vale para o Primeiro Testamento, como para o Segundo Testamento.

O texto bíblico nos faz pensar em tecido, em uma grande colcha de retalhos tecida a partir de um retalho fundamental. Texto originário, texto fundante que tem um padrão inicial e com o tempo vai se alargando, enriquecendo. O padrão inicial inspira novos trançados, repetindo, inovando, introduzindo novos desenhos, símbolos. As tecelãs e os tecelões usam novos fios, novas cores. Às vezes prevalecem os tons escuros. Outras vezes, os tons luminosos, tons de desespero e de esperança. Tons que falam das experiências da vida: dor e paixão, crueldade e doação, opressão e liberdade, egoísmo e solidariedade, indiferença e luta, choro e alegria. Texto, tecido que articula a experiência da fé como resposta humana a desafios históricos ou à interpelação divina na história.
Texto fundante que reconhecemos na experiência do êxodo, que identificamos como experiência de libertação. O êxodo, a fé no Deus libertador, é a semente que vai desabrochar, florescer, frutificar nas múltiplas experiências do povo ao longo da história. É luz que ilumina histórias antigas e as relê na variedade de nomes com que o povo vai identificar o Senhor, na experiência de Jesus de Nazaré e das Comunidades.

A rigor, esta experiência nos convida a ir além, pois o Deus do êxodo é libertador porque é o Deus da vida, o Deus presente na vida, é Deus-Vida.
A Vida é o fio condutor. Voltando à imagem do texto-tecido, a vida é o fio-cor que perpassa toda trama do desenho, toda a colcha de retalhos. A cor-vida é o fio condutor de toda releitura, é o padrão que compõe o nosso Texto Sagrado.
Texto Sagrado que consideramos Palavra de Deus. Texto Sagrado que não é livro fechado, mas que se esparrama na história. Fonte que nos convida a escutar a Palavra de Deus no nosso cotidiano, na nossa história. Escuta que ilumina e alimenta criativamente nosso pensar, nosso agir, que nos torna capazes de reler e assim continuar a escrever o Texto Sagrado. A colcha de retalhos não está concluída, pois estamos ainda tecendo, estamos ainda escrevendo.
A Vida é o fio que perpassa todo o Texto Sagrado. A Vida é o trançado que compõe a trama da Amazônia.

Tomando emprestadas as palavras de Norman Myers, podemos dizer: “Não compreenderemos inteiramente a vida enquanto não compreendermos as florestas tropicais”. As florestas tropicais estão entre os mais antigos ecossistemas terrestres. Isso vale por excelência para a Amazônia onde a vida se manifesta nas centenas, senão milhares de inter-relações entre as espécies, nos gratificando com sua explosão vital. A Amazônia tem a sua vocação nitidamente florestal. Por isso, temos que encará-la como fonte inesgotável de vida, luz, renascimento, regeneração e amor. Um milagre em cada amanhecer.

Por isso, optei para me deixar desafiar pela realidade, por este momento histórico que estamos vivendo. Sim, porque a Campanha da Fraternidade, tendo como protagonista a Amazônia, e o inter-eclesial das CEBs, em 2009, preparado e realizado no coração da Amazônia, são momentos históricos, são estrelas que nos guiam, nos provocam a nos colocar a caminho como se colocaram a caminho os sábios e sábias que viram no céu a estrela, perceberam o novo despontando no antigo (Mt 2,2). Então silenciamos, aguçamos a vista, colocamos em alerta nossos ouvidos, abrimos nossas mentes, nosso coração para a Palavra de Deus que somos convidados e convidadas a ouvir, a escrever hoje a partir da Amazônia.

Silenciar

Silenciar: no silêncio, criar as condições para aguçar a vista e perceber a cor-vida que do Texto Sagrado nos acena e nos convida a sermos tecelãs, tecelões. No silêncio, apurar os ouvidos para os sons que vão orientar nossas mãos no padrão antigo que se torna novo. No silêncio, purificar nosso sentir e, assim, perceber os cheiros que se desprendem e nos convidam a sair em busca, a nos tornar ousadas, ousados.

 Silenciar e sentir a brisa que sopra da floresta, o frescor que vem das águas, a pluriforme beleza que brota do ecossistema: Que mensagem nos é anunciada que chega até nós na brisa, na água, na beleza do ecossistema?


Muitíssimos livros se propõem a esta árdua tarefa de “Salvar a Amazônia”. Será que alguém poderá “Salvar a Amazônia”?
O que você, eu, nós queremos da Amazônia? O que será da Amazônia daqui a 30 anos, se continuarmos a ignorar a grave situação dos 300 mil índios e dos 6 milhões de habitantes do interior da floresta? Deixaremos que o desmatamento alcance as margens do grande rio? E a pobreza concentrada na periferia das cidades da região como iremos enfrentá-la? E a dilapidação do patrimônio genético? E a maior reserva de madeiras duras do planeta? Que tipo de Amazônia queremos legar às próximas gerações?
A voz de Euclides da Cunha nos alerta: “Realmente, a Amazônia é a última página, ainda a escrever-se, do Gênesis”.
E Fritjof Capra, em seu livro O Ponto de Mutação, afirma com palavras proféticas: “A nova visão da realidade… baseia-se na consciência do estado de inter-relações e interdependência essencial de todos os fenômenos – físicos, biológicos, psicológicos, sociais e culturais. Esta nova visão transcende as atuais fronteiras disciplinares e conceituais”.

O pensamento ecológico que nasce destes pensadores nos convida a pensar e viver a vida como uma rede de relações, rede que forma o ecossistema. Pensamento ecológico que é parte da elaboração de novos paradigmas de pensamento. Entre estes novos paradigmas está o da hermenêutica bíblica.
O pensamento ecológico tem desafiado a reler as primeiras páginas do nosso Texto Sagrado. Estamos cientes de que estas páginas, Gn 1 e 2, são releituras de mitos da criação dos povos entre os quais vivia o povo de Israel. Hoje, é patrimônio adquirido, que os dois relatos são reflexão de fé a partir de contextos existenciais de lugares e épocas diferentes.
Nós cristãos reconhecemos, e disto precisamos pedir perdão, que estes textos, sobretudo Gn 1,26-28, foram lidos e interpretados para legitimar e construção de uma mitologia do poder, dominação e exploração indiscriminada sobre a natureza, na civilização ocidental.
Gn 1 e 2, embora escritos em épocas diferentes (VI e X séculos), chegam a nós um em continuidade do outro. Isto aponta a necessidade de uma leitura própria para cada texto, mas também a necessidade de perceber que um é o complemento do outro, um esclarece o outro. Então, se Gn 1,28 traz os verbos kabash = pisar na terra, subjugar, e radah = dominar, por sua vez, Gn 2,15 nos fala que o ser humano deve cultivar = ‘abad e guardar o solo = shamar. Cuidar, cultivar o solo para vida se multiplicar e ser fecunda é a vocação humana inscrita nestes textos.
Parafraseando Abraham Heschel, podemos dizer: “Não se pode construir outra imagem do Todo-poderoso além desta: nossa própria vida como representação de Sua vontade. Homem e mulher, criados à Sua imagem, devem imitar Sua misericórdia. Ele delegou à humanidade o poder de agir em Seu lugar. Somos seus representantes quando aliviamos o sofrimento e trazemos alegria.” O Todo-amoroso nos criou à Sua imagem e semelhança, para sermos no universo a continuação de Sua presença criadora e fecunda, para cultivar e cuidar da vida.

Em sua Carta aos Romanos, Paulo nos associa ao gemido que sai da terra cativa. Anima-nos ao dizer que, ao nosso gemido, o Espírito vem em socorro, pois não sabemos escutar os gemidos que sobem do universo, não sabemos gemer (Rm 8,18-27).
Deixar-nos levar pelo Espírito, que une seu gemido ao nosso, é acolher os novos paradigmas que estão sendo elaborados, é usá-los como instrumentos para reler nosso Texto Sagrado. Deixar-nos conduzir pelo Espírito, que faz seu o nosso gemido e o da natureza é permitir que nos leve ao encontro das pessoas, cristãs e não cristãs que já estão, há anos, buscando estas luzes, iluminar nossa fé, nosso agir e responder às interpelações de Deus na nossa história hoje. E, assim permitir que o Espírito faça penetrar em nós o gemido da natureza que anseia por libertação. Assim, o universo libertado, será a oikos, casa comum de todos os seres vivos e do próprio Deus.

 Silenciar e ouvir o canto dos povos amazônicos, povos remanescentes, povos ressurgentes: O que estes povos estão cantando?


Gerd Theissen em seu livro a La Religione dei primi cristiani – Uma teoria sul cristianismo delle origini, se interroga a respeito da particularidade do sistema de sinais na religião. Responde dizendo que é uma combinação de três formas de expressão, que se interligam, desta forma, unicamente no interno da religião: mito – rito – ethos. A partir da analise de cada elemento, desenvolve e aponta como o Movimento de Jesus se tornou Religião Cristã.
Quero ressaltar isso porque não podemos ler a Bíblia a partir da Amazônia, olvidando esta dimensão tão entranhada na vida dos povos indígenas. A Bíblia, nosso Texto Sagrado, está também entranhado de mitos, ritos, ethos.
As ciências modernas, ligadas à religião, têm resgatado o valor do mito tão desvalorizado no passado.
Lendo sobre mitos, encontrei esta definição: “Mito é um produto coletivo ou grupal que conta uma verdade universal de um modo altamente simbólico... Trata-se da verdade que foi experimentada coletivamente e desenvolvida em mito ao longo de muitas gerações, por meio de um esforço coletivo... Característica das sociedades predominantemente orientadas para o grupo, em contraste com o modo histórico de comunicação das sociedades orientadas predominantemente para o indivíduo”.

Por sua vez, Mircea Eliade, em seu livro Aspectos do Mito, aponta cinco elementos constitutivos do mito:
1. Constitui a história de atos dos seres sobrenaturais;
2. Que esta história é considerada verdadeira e sagrada;
3. Que o mito se refere sempre a uma criação, conta como algo começou a existir, ou como um comportamento, uma instituição ou um modo de trabalhar foram fundados; é por isso que os mitos constituem os paradigmas de todo ato humano significativo;
4. Que conhecendo o mito conhece-se a origem das coisas…;
5. Que, de uma maneira ou de outra, vive-se o mito no sentido em que se fica imbuído de força sagrada e exultante dos acontecimentos evocados e ritualizados.

Por que esta insistência sobre o mito? Chamou-me atenção uma frase de Hans Küng: “O mundo moderno trouxe muita ciência, mas pouca sabedoria”.
Os povos indígenas expressam sua cosmovisão, sua antropologia, sua relação com o transcendente, através de seus mitos. O que nós chamamos de reflexão teológica, de hermenêutica bíblica, é expresso, por eles, na narração dos mitos, nas festas, nos ritos. Seus mitos são Textos Sagrados. Seus mitos são as respostas às perguntas da vida. Isso não é muito distante do processo vivenciado pelo povo de Israel.
Severino Croatto refletia que cada mito está configurado para dizer algo sobre o presente, não sobre o passado. O passado do mito é o sentido do presente vivido. Por isso, os mitos mostram como é a nossa vida presente ou como ela deveria ser, mediante o recurso às origens. Então, os mitos podem também criticar a realidade pela forma com que falam.

Com os povos indígenas, apreendemos a sentir-nos parte de um tudo. O pensamento holístico não é paradigma moderno, mas é o novo desabrochando do antigo. É a experiência antiga, é a tradição oral que se torna tradição escrita.
O canto que vem dos povos indígenas nos convida a revisitar nossos mitos, relê-los, iluminá-los. Vamos fazer isso de coração aberto, preparados e preparadas para as surpresas, para os novos sentidos que o texto encerra em si mesmo.
A narrativa da cidade de Babel (Gn 11,1-9) pode se transformar no mito que critica a uniformidade, como forma de poder, para apontar que a vida está na diversidade. Esta nova luz pode alcançar o mito que está na origem das comunidades cristãs, das Igrejas (At 2,1-12). Dizer-nos que a pluriformidade está no DNA genético das Igrejas

O canto que vem dos povos indígenas convida-nos a acolher seus Textos Sagrados, tão Sagrados quanto o nosso. Textos Sagrados não escritos, textos Sagrados contados, cantados, mantidos na memória da tradição oral, mantidos na memória nas lendas, nos mitos e nos ritos. Beber da fonte dos textos Sagrados indígenas e dos textos Sagrados cristãos. Beber das duas águas é, talvez, descobrir que as duas águas se misturam, e misturando-se se enriquecem reciprocamente, pois ambas são águas da vida.

(Um exemplo desta possibilidade está no anexo n.1)

 Silenciar e escutar a voz do povo amazônida, povo nascido de uma história sofrida, povo da terra, povo dos rios: O que o povo amazônida está nos falando?


Falar do povo amazônida, que povo? Hoje, o povo amazônida é a mistura de muitos grupos: indígenas, afro-descendentes, nordestinos, agro-extrativistas, ribeirinhos, posseiros, colonos e migrante, populações urbanas. A história da colonização, da ocupação da Amazônia, fala-nos disso. História que deve ainda ser escrita ou que foi escrita a partir do colonizador.
Amazônia: um lugar de descobertas e revelações. A sabedoria milenar acumulada na vivência dos povos tradicionais da floresta que se manifesta em suas atitudes éticas de respeito e admiração pelos seres da natureza.
A tradição cultural dos povos amazônicos nos ensina que a terra não é um bem de especulação que possa ser vendida ou trocada (Lv 25,23). Os povos indígenas que lutam pela demarcação de seus territórios, os remanescentes de quilombos que reivindicam o reconhecimento de domínio de suas terras, os agro-extrativistas que estabelecem normas de uso dos recursos naturais reafirmam que a terra não é um bem negociável, mas fonte de vida.

Na América Latina existe, há diversos anos, o esforço de reler a História do Povo de Israel não a partir dos projetos hegemônicos, mas a partir dos projetos de resistência.
Reler a formação do povo a partir dos grupos que estão na origem do Povo de Israel e iluminar as origens, a formação do povo amazônico.
Reler o exílio a partir dos grupos que nestas terras viveram e vivem seu exílio. Exílio como caminho e busca de vida. Exílio, experimentado como sendo exilado na própria terra.
Reler o pós-exílio a partir dos projetos de reconstrução, não do projeto vencedor, emergente, mas a partir dos grupos que resistiram e resistem com projetos alternativos. Projetos de preservação dos rios, da terra e da floresta, do potencial genético.
Reler Jesus de Nazaré, seu Movimento, as Primeiras comunidades, como proposta e experiência de espaços alternativos onde era e é possível experimentar novas relações, num mundo, numa religião excludente.

Há anos, vem-se fazendo isso. Mas, quem sabe, precisamos assumir esta hermenêutica bíblica como comunidade cristã. Assumi-lo para a formação nos seminários. Assumi-lo em fidelidade a Jesus de Nazaré, ao povo amazônida.

 Silenciar e perceber os cheiros que emanam das cidades antigas e novas, das periferias: Estes cheiros o que revelam?


A realidade amazônica não é mais somente floresta, rio, hoje é cidade, é urbana. As cidades, com suas periferias são para as comunidades cristãs, hoje o grande desafio. Sempre mais escutamos vozes afirmar que no futuro viveremos num mundo urbanizado.
As CEBs nasceram e desabrocharam no mundo rural. Ainda estamos num processo doloroso de busca: como enxertar esta experiência na pastoral urbana?

A Teologia da Libertação, a Leitura Popular da Bíblia e outras instâncias bíblicas tiveram como um dos paradigmas para ler o Texto Bíblico o conflito Campo X Cidade. A exegese e a hermenêutica, seja do Primeiro como do Segundo Testamento à luz deste conflito tornam a cidade o lugar da opressão, exclusão, enfim símbolo de tudo o que é mau.

Dissemos no início desta reflexão, que o contexto é o ponto de partida de toda reflexão bíblica. Então os cheiros que sobem da cidade devem mover nossa exegese, nosso hermenêutica. Mas na cidade não há somente cheiros desagradáveis, há também perfumes. Lá onde tem homens e mulheres vivendo tecendo relações há cheiros desagradáveis e perfumes.
Aqui o/a exegeta tem na frente um labor sem igual, pois se faz necessário uma conversão profunda. O/A exegeta mais do que nunca deve tomar consciência que não pode fazer isso sozinho, num mundo isolado, mas deve-se misturar nestes cheiros, embebedar-se deles, para que entranhado/a e com as vísceras se contorcendo sinta o fio de perfume, a brisa leve e farejando vá atrás, capengando, errando, dando voltas até que encontre a ruela certa. Nesta tarefa, talvez possamos ter como companheiro o apóstolo Paulo. Paulo libertado dos moralismos doutrinários. Paulo cidadão e amante da cidade, pois fez das polis greco-romanas seu chão evangelizador.

Esta tarefa não è somente nossa, dos/das exegetas é da comunidade cristã como um todo, pois o futuro aponta para uma sociedade urbanizada.

 Silenciar, tirar as sandálias, pois estamos pisando em terra sagrada, o chão da religiosidade popular, povo místico que resistiu e resiste: Que fé este povo místico nos transmite?


“Tira as sandálias dos pés porque o lugar em que pisas, é terra santa” (Ex 3,5). Tirar as sandálias dos pés, pois estamos pisando em lugar sagrado, a terra mística de um povo místico.
É interessante notar neste texto que citamos alguns elementos: Moisés está na labuta cotidiana, o pastoreio. Desconhece que o chão da tarefa cotidiana é chão sagrado. Então os sentidos se abrem como que misteriosamente. Os olhos vêem. O ver suscita curiosidade, querer conhecer. O ver coloca em movimento seus pés. O corpo todo responde a estes estímulos. Sair do caminho traçado, se aproximar para ver de perto, para conhecer. E, acontece o encontro: quem vê é visto e, principia um diálogo que dos olhos alcança todos os outros sentidos até chegar ao conhecimento, ao coração. No encontro, no diálogo a revelação: a terra do cotidiano é lugar sagrado.

Sair do traçado, enveredar por caminhos desconhecidos, ir ao encontro, conhecer de perto, o corpo todo empenhado nesta busca.
Quem sabe seja o caminho que necessitamos percorrer para chegar ao coração desta terra mística, deste povo místico.
A região amazônica onde água e céu se encontram; onde o verde da mata se confunde com o azul do céu; onde a vida é marcada pelo ritmo da maré; onde, apesar da tecnologia, as pessoas ainda se integram com a natureza; onde a tradição indígena, negra, lusitana deixaram uma marca profunda; onde os espíritos, os encantados, os encostados, o saçis-perere, a matinta pereira e o boto são realidades vivas para o povo caboclo.
A relação mística que o povo indígena tem com a natureza. A relação mística que o ribeirinho tem com o rio, os lagos. A relação mística que o agricultor tem com o solo. A relação mística que as mulheres têm com a vida. A relação mística… Deixo vocês continuarem esta ladainha.

E, aqui, sinto a proximidade que o povo tem com o transcendente, proximidade com o povo bíblico.
Agar chama Deus de El Roi – Vejo ainda aqui, depois daquele que me vê. Proclama seu credo no lugar aonde Deus veio ao seu encontro (Gn 16,13-14). Raquel e Lia que fazem teologia nos filhos, filha que dão à luz escrevendo neles nomes de Deus, dar à luz tornando-se experiência mística (Gn 29,31-30,24). Lugares que recebem nomes, memória da experiência com o divino. Experiências de um Deus que se manifesta sempre em novidade. Nomes que revelam Deus Rocha, Pastor, Pai, Libertador, Redentor, Mãe, Esposo, Parteira (Sl 92,16; Sl 23 Ex 15,21; Is 44,24; Is 49,14-16; Is 62,4-5; Jo 38,28-29). Experiência de Deus que brota do vivido.
Jesus de Nazaré é filho desta experiência mística, deste povo místico. Ele não a encerrou. Ao se encarnar, ao colocar sua tenda em nosso meio nos convida a colocar-nos à escola do povo. Sair para ir ver, para conhecer de perto, para se aproximar e descobrir o sagrado no cotidiano, nos corpos, na natureza, nas expressões religiosas do povo.

Quem sabe aqui na Amazônia consigamos realizar o impossível: a convivência da ritualidade oficial com a ritualidade diversificada do povo amazônico.

Começar

A Amazônia é mais falada que conhecida, mais discutida do que vivida. Mais mito que realidade. Faz-se necessário buscar o significado mítico das águas, florestas, herança da cultura regional e fonte de vida. Estabelecer uma relação amorosa, afetiva que transmita nosso desejo que ela continue existindo através de ações concretas no nosso cotidiano. Convocando outras pessoas para que se juntem a nós na defesa da Amazônia. Interpretar a natureza amazônica agradecendo sua generosa e exuberante beleza e todos os recursos que ela nos oferece: remédios, folhas, raízes, frutas, madeiras, alimentos, beleza a ser mantida, cultura a ser preservada.

Confessar nossa ignorância perante esta explosão de vida e a sua complexidade. Enxergar a Amazônia como fonte de prazer, vida, felicidade, alegria. Encarar a Amazônia como herança verdadeira, viva. Você pode não estar interessado/a na Amazônia, mas ela está interessada em você. A trágica realidade que vive a Amazônia hoje desafia cada um/uma de nós a intervir na realidade social, a criar novas relações de cura pessoal, entre as pessoas, a natureza e todo o cosmos.
Ser humildes, pedir perdão por tanto desconhecimento, ingratidão e maldade. Ser humildes é estar de mente e coração abertos para se aproximar e conhecer de perto. E, depois, querer mudar.

Ter um novo olhar para a Amazônia. Adotar uma atitude de reconhecimento, gratidão e compromisso com a manutenção com o fio da vida, protestando contra os verdes que estão sendo mortos, contra os criminosos que ateiam fogo nas selvas, poluem os rios e lagos, exterminam a fauna e matam seus legítimos filhos e filhas.

Estamos diante de um mundo novo que mal começamos a conhecer. Michael Gonlding acena para nós um caminho ao dizer: “A bacia Amazônica é, acima de tudo, a nossa maior celebração de diversidade do Planeta”.
Celebrar é sentir, é se comprometer: como povo, como terra, floresta da Amazônia. Assim como nos sentimos povo de Deus, nos sentimos povo universal. A Amazônia nos fala de uma realidade que ultrapassa os limites do Brasil, do Continente Latino-Americano ... Ao nos sentirmos cidadão e cidadãs planetárias desafiadas a aprender, buscar alternativas para fazer renascer constantemente a vida. Vida que renasce das cinzas que viram adubo fertilizando a terra.

Com carinho e alegria, podemos perceber o fio condutor da manutenção da vida que perpassa a Amazônia, tal como também perpassa a Bíblia, interligando as realidades, histórias, vivências diferenciadas, mas todas elas conectadas entre si.
O ser humano e a terra são casados. Formam um único casamento indissolúvel. Rompido esse casamento, as pessoas tombam num exílio feito de poeira amarga e estéril. Que este não seja o nosso futuro. A fantástica biodiversidade da Amazônia nos leva a transformar os ais em benditos com as palavras do salmo:

Bendize ao Senhor
que faz brotar fontes de águas,
elas correm e dão de beber a todos os animais;
regam montes e planícies, a terra se sacia dando fruto.
Fazes brotar relva para o rebanho,
plantas úteis para o povo,
que da terra tira seu pão.
Nas árvores frondosas os pássaros se aninham
alegrando o universo com seu canto.
Bendize ao Senhor
que fez a lua para marcar o ritmo do tempo,
o sol para iluminar e fecundar a terra.
Quão bela é tua obra Senhor,
a terra está repleta da tua sabedoria.
Luovem ao Senhor, sol e lua
águas, plantas, animais.
Homens e mulheres louvem
celebrem o Deus na vida.

(Salmo 104,1.10-17; 149,3)


Notas
1. MEIRELLES FILHO, João Carlos, O livro de Ouro da Amazônia: mitos e verdades sobre a região mais cobiçada do planeta, Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.
2. RAIMER,Aroldo, Toda a Criação: Bíblia e Ecologia, São Leopoldo: OIKOS, 2006.
3. THEISSEN, Gerd, La Religione dei Primi Cristiani: Una teoria sul cristianismo delle origini, Torino
4. CROATTO, Severino, A vida e a natureza em perspectiva biblica – Apontamentos para uma leitura ecológica da Bíblia, em : Revista de interpretação Bíblica Latino-Americana, n. 21, Petrópolis, 1995
5. CAPRA, Fritjof, O Ponto de Mutação – A Ciência, a Sociedade e a Cultura emergente, São Paulo, Cultrix, 2000


ANEXO 1

TEXTOS SAGRADOS....?!?!?!


Desde pequena, fui educada a olhar a Bíblia como um Texto Sagrado: Sagradas Escrituras em absoluto.
Desde pequena, fui educada a pensar que a Bíblia era o Texto Sagrado: a única Sagrada Escritura.
Desde pequena, fui educada a acreditar que a Bíblia era o Texto Normativo, o único Texto Normativo.
Na pequena cidade do norte da Itália, na região de Milão, onde nasci e vivi até a adolescência, todos e todas, sem exceção, eram católicos. Apontava-se a dedo quem não ia à missa aos domingos pela manhã e à tarde na doutrina cristã.
Era um mundo pequeno, com parâmetros bem definidos. Comportamentos e condutas regradas, de um mundo fechado, provinciano e moralista.
A bem da verdade, a Bíblia pouco entrava nesse mundo católico romano. Era propriedade privada de um reduzido número de homens, o clero. Víamos, nas grandes funções religiosas, este livro sendo levado em procissão, sempre fechado, numa capa toda bordada em ouro. O que ouvíamos no catecismo eram ‘as estorinhas sagradas’.
A Bíblia, como Palavra de Deus, entrou em minha vida já na juventude e foi dela e do testemunho de um missionário na África que desabrochou minha vocação além fronteiras. Além fronteiras, outros horizontes, outros países, outros povos, outros... outras...
O além fronteiras conduziu meus caminhos nesta região amazônica onde água e céu se encontram; onde o verde da mata se confunde com o azul do céu; onde a vida é marcada pelo ritmo da maré; onde, apesar da tecnologia, as pessoas ainda se integram com a natureza; onde a tradição indígena, negra, lusitana deixaram uma marca profunda; onde os espíritos, os encantados, os encostados, o saçis-perere, a matinta pereira e o boto são realidades vivas para o povo caboclo.
E neste mundo onde aportei, descobri que existem outros Textos Sagrados, tão Sagrados quanto o nosso. Textos Sagrados não escritos, textos Sagrados contados, cantados, mantidos na memória da tradição oral, mantidos na memória das lendas e dos mitos. Então, ao elaborar esta reflexão, achei importante beber no poço dos textos Sagrados indígenas e dos textos Sagrados cristãos. Beber das duas águas e partilhar com vocês seu sabor.

1o O mito da “terra sem males”

“Os povos Tupi, em geral, e os Guarani, em particular, têm como elemento forte de sua teologia a superação do sofrimento pela conquista da “terra sem males”. Entre os vários mitos, destaca-se este, dos Guaranis Apapocuva, recolhido por Curt Nimuendaju, no início do século XX” (Texto base C.F.2002).
No livro do Gênesis, encontramos também relatos que nos falam de um jardim de harmonia plena, de águas que tudo submergem e de um sinal no céu como memória de uma aliança entre Deus e os seres vivos que habitam a terra.
Vamos lê-los em paralelo, percebendo os pontos de encontro e as peculiaridades de cada relato.


Terra sem males
O grande Pai quer acabar com a terra a causa da maldade:
Quando Nhanderuvuçu (nosso grande Pai) resolveu acabar com a terra, devido à maldade dos homens...
Alguém merece ser avisado do que vai acontecer:
avisou antecipadamente Guiraypoty, o grande pajé, e mandou que dançasse. Este obedeceu-lhe, passando toda noite em danças rituais. E quando Guiraypoty terminou de dançar, Nhanderuvuçu retirou um dos esteios que sustenta a terra, provocando um incêndio devastador.
“Guiraypoty se coloca a salvo com a família:
Guiraypoty, para fugir do perigo, partiu com sua família, para o Leste, em direção ao mar. Tão rápida foi a fuga, que não teve tempo de plantar e nem de colher mandioca. Todos teriam morrido de fome, se não fosse seu grande poder que fez com que o alimento surgisse durante a viagem.

Guiraypoty constrói uma casa para resistir ás águas:
Quando alcançaram o litoral, seu primeiro cuidado foi construir uma casa de tábuas, para que quando viessem as águas ela pudesse resistir. Terminada a construção, retomaram a dança e o canto.

Há uma grande inundação:

O perigo tornava-se cada vez mais iminente, pois o mar, como que para apagar o grande incêndio, ia engolindo toda a terra. Quando mais subiam as águas, mais Guiraypoty e sua família dançavam.

Guiraypoty tem medo, a mulher o incentiva à esperança:
E para não serem tragados pela água, subiram no telhado da casa. Guiraypoty chorou, pois teve medo, mas sua mulher lhe falou: - Se tens medo, meu pai, abre teus braços para que os pássaros que estão passando possam pousar. Se eles sentarem em teu corpo, pede para nos levar para o alto. E mesmo em cima da casa, a mulher continuou batendo a taquara, ritmadamente, contra o esteio da casa, enquanto as águas subiam.
A casa flutua:
Guiraypoty entoou então, o canto solene guarani. Quando iam ser tragados pela água, a casa se moveu, girou, flutuou, subiu...

Nasce dessa experiência o mito da terra sem males:
...subiu até chegar à porta do céu, onde ficaram morando.
Esse lugar para onde foram chama-se Yvy marã ei (a “terra sem males”). Aí as plantas nascem por si próprias, a mandioca já vem transformada em farinha e a caça chega morta aos pés dos caçadores. As pessoas nesse lugar não envelhecem e nem morrem e aí não há sofrimento.

Gênesis 6,5 – 9,17
Deus tem uma atitude semelhante vendo a maldade humana:
Iahweh viu que a maldade do homem era grande sobre a terra... farei desaparecer...
Gn 6,5-7
Noé encontra graça e Deus lhe comunica seu propósito:
Mas Noé encontrou graça aos olhos de Iahweh... Deus disse a Noé: “chegou o fim de toda carne, eu o decidi, pois a terra está cheia de violência por causa do homem, e eu os farei desaparecer....”
Gn 6,8-13

Da mesma forma Noé coloca-se em salvo com sua família:
Noé, com seus filhos, sua mulher e as mulheres de seus filhos, entraram na arca para escapar das águas do dilúvio. Passados sete dias chegaram as águas do dilúvio sobre a terra...
Quanto a ti reúne todo tipo de alimento e armazena-o; isto servirá de alimento para ti e para eles.
Gn 7,1-9; 6,21
Deus ordena a Noé de construir a arca, dando a maquete:
Faze uma arca de madeira resinosa; tu a farás de caniços e a calafetarás com betume por dentro e por fora... Mas estabelecerei minha aliança contigo e entrarás na arca, tu e teus filhos, tua mulher e as mulheres de teus filhos.
Gn 6,14-16
Conhecemos este acontecimento com o nome de dilúvio:
Passados sete dias chegaram as águas do dilúvio a terra... Nesse dia, jorraram todas as fontes do grande abismo e abriram-se as comportas do céu. A chuva caiu sobre a terra durante quarenta dias e quarenta noites.
Gn 7,10-24
No relato do Gênesis não tem correspondente.

A arca flutua:
Durante quarenta dias houve o dilúvio sobre a terra; cresceram as águas e ergueram a arca, que ficou elevada acima da terra. As águas subiram muito sobre a terra e a arca flutuava sobre as águas.
Gn 7,17-24
Uma nova aliança é vivenciada no sinal do arco-íris:
Deus lembrou-se então de Noé e de todas as feras e de todos os animais domésticos que estavam com ele na arca. Deus fez passar um vento sobre a terra e as águas baixaram... Então assim Deus falou a Noé: “Sai da arca... Enquanto durar a terra, semeadura e colheita, frio e calor, verão e inverno, dia e noite não hão de faltar... Eis o sinal de aliança que instituo entre mim e vós e todos os seres vivo que estão convosco, para todas as gerações futuras: porei o meu arco na nuvem e ele se tornará um sinal de aliança entre mim e a terra. Quando o arco estiver na nuvem, eu o verei e me lembrarei da aliança eterna que há entre Deus e os seres vivos com toda carne que existe sobre a terra”.
Gn 8,1.15-16.22; 9,9-16


Cada relato tem sua própria peculiaridade, mas a fonte de onde jorraram é a mesma: encontrar respostas às perguntas dos grupos humanos sobre seu destino, seu sofrimento, a inimizade existente entre as pessoas, das pessoas com o universo e com o transcendente. As pessoas buscam o porquê de sua vida, das relações, do comportamento. Na busca, as respostas são similares, mas revelam sua percepção peculiar do universo, dos/das outros/outras, do transcendente.
Percebemos, no relato indígena, acentuações ligadas à cosmovisão destes povos: a pessoa humana é integrada no universo. A música, o canto, a dança expressam a integração, a relação entre a realidade humana e a transcendência.
O Ser divino comunica seu desígnio de castigo, deixando o ser humano encontrar seu caminho, suas saídas. A única ordem que o grande pajé recebe é dançar. Dançar é encontrar seu centro vital, é abrir seu canal de comunhão com a mãe terra, com a transcendência. Abrir-se ao mistério para se abrir à comunhão mística com as forças vitais.
A música, a dança e o canto ritual permeiam todo o relato. As mãos marcando o ritmo. Os pés batendo, acariciando, tocando, mantendo contato com as forças vitais da terra. A voz seduzindo, invocando, suplicando, pedindo, subindo, tecendo laços com as força vitais do céu.
Nhanderuvuçu, deslocando um esteio, provoca o fogo e começa a busca de salvação. No castigo, brota a solidariedade. Há solidariedade na fuga rumo ao mar, lá onde as águas podem deter o incêndio. Solidariedade no novo perigo que vem das águas. Solidariedade na procura de alimento, solidariedade no medo. Solidariedade com a natureza, com os pássaros.
No perigo, Guiraypoty tem medo e, sem receio, o expressa chorando. O socorro vem da boca da mulher que profere palavras de consolo, conselho e resistência. Ela convida o marido a abrir-se à natureza, abraçar a natureza, alargar os braços, oferecer abrigo aos pássaros. Estes, ajudados, poderiam ajudá-los, salvá-los. Ao levantar vôo, levam-nos a um lugar seguro, salvando-os.
Enfim, a comunhão dos seres vivos com os seres da natureza flutua e alcança as portas do céu: plenitude de vida.

No relato judeu-cristão, sobressaem outros elementos. O grande protagonista da narração é Deus. Ele comunica seu desprazer, o castigo, o desígnio de eleição. Deus ordena ao seu escolhido Noé, por ser justo, o que fazer, como fazer, quando fazer. A fala predomina, tudo acontece pela vontade de Deus e através de sua palavra. Noé e sua família obedecem à palavra-ação de Deus. A natureza obedece à vontade divina.
Noé, sua mulher, os filhos e suas mulheres em nenhum momento falam, expressam sentimentos. Mesmo nos dois momentos, em que Noé toma a iniciativa na ação, não escutamos sua voz.
O vento de Deus faz baixar as águas, e Noé abre a janela, soltando a pomba. Quando Deus ordena, Noé e sua família saem da arca. Ao sair, Noé constrói um altar e oferece um sacrifício, que propicia a divindade, movendo-a a realizar uma nova aliança.
O altar e o sacrifício são mediações entre a família de Noé e o divino. A música, o canto, a dança são mediações entre a família de Guiraypoty e o divino.
O arco no céu é o sinal da aliança, aliança ecológica, diríamos nós hoje, pois ele é sinal da relação entre Deus, a terra e os seres vivos que nela habitam. No mito da Terra Sem Males, a fartura é o sinal de aliança da nova relação entre o povo e o divino.
Percebemos aqui uma diferença fundamental nos dois relatos. No relato bíblico, a aliança é proclamada pela palavra seguida pelo sinal. No relato guarani, a fartura é o sinal que não precisa de palavra, pois fala por si.
Nos dois relatos, a catástrofe acontece pela maldade humana, atingindo todo o universo. Há solidariedade no castigo, há solidariedade na utopia. A salvação da natureza e da humanidade é mediada por uma família.
A utopia expressa no mito da Terra Sem Males faz ecoar em nós a utopia alimentada em Isaías e no livro do Apocalipse: “Vi então um céu novo e uma terra nova... Ele enxugará toda lágrima dos olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto e nem dor... Há árvores da vida que frutificam doze vezes, dando frutos a cada mês; e suas folhas servem para curar as nações...” (Ap 21,1-22,5; Is 65,17-25).
Sintonia de palavras, sintonia na esperança de vida plena, pois este é anseio da humanidade de todos os lugares e todos os tempos.

2o Pode-se comprar o céu, a terra, o ar, o calor?

“Como se pode comprar o céu, o calor da terra? Tal idéia nos é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do resplendor da água. Como podes então comprá-los de nós?”
Toda esta terra é sagrada para meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias arenosas, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na consciência do meu povo.
Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual ao outro porque ele é um estranho que vem de noite e rouba da terra tudo aquilo quanto necessita. A terra não é sua irmã, mas sim sua inimiga e, depois de sugá-la, ele vai embora...
Sua ganância empobrecerá a terra e vai deixar atrás de si os desertos. Uma coisa sabemos: talvez, o homem branco venha, um dia, descobrir que o nosso Deus é o mesmo Deus.
Julgas talvez que O podes possuir da mesma maneira como desejas possuir nossa terra. Mas não podes. Ele é Deus da humanidade inteira. E quer bem igualmente ao índio como ao branco. A terra é amada por Ele. Causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo seu Criador...
Nós amamos a terra como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe... O nosso Deus é o mesmo Deus e esta terra é querida por Ele”.

Estas palavras são trechos da carta escrita em 1855 pelo Cacique Seathe, do povo Duwamish, ao presidente dos Estados Unidos, e refletem a Tradição Sagrada da Terra Mãe, do Universo como o grande útero que abriga a humanidade e lhe garante a vida. Esta carta foi escrita depois que o governo americano propôs a compra do território daquele povo. Carta que pode ser considerada Tradição Sagrada, pois expressa verbalmente e por escrito uma Tradição oral sagrada.

Na nossa Tradição Sagrada encontramos estas palavras:
“A terra não será vendida perpetuamente, pois a terra me pertence, e vós sois para mim estrangeiros e hóspedes.” (Lv 25,23).
“De Iahweh é a terra e tudo o que nela existe, o mundo e os seus habitantes...” (Sl 24,1). “...eu sou forasteiro junto a ti, um inquilino como todos os meus pais...” (Sl 39,13b). “...eu sou estrangeiro na terra...” (Sl 11,9a).
“...Diante de ti, não passamos de estrangeiros e peregrinos como todos os nossos pais; nossos dias na terra passam como sombra e não há esperança. Iahweh, nosso Deus, tudo quanto ajuntamos para construção de uma Casa para teu santo nome provém de tua mão e tudo te pertence.” (1Cr 29,15-16).

Nas palavras do Cacique Seathe, do povo Duwamish, sentimos uma vibração profunda de amor, sintonia, intimidade, reciprocidade e gratidão com o universo e os elementos que o compõem. A relação estabelecida com o cosmos é de filiação, familiaridade, irmandade, amizade, pois é nele que existe a vida, sua vida, a vida de seu povo.
As palavras do texto bíblico apontam para Iahweh como criador e proprietário do universo, que permite à humanidade ser hóspede, inquilino, estrangeiro, enfim, podendo desfrutar de suas riquezas e potencialidades.

Duas relações antagônicas que nascem de cosmovisões opostas, teologias diferentes.
Cosmovisão, antropologia, filosofia, teologia e ética são interdependentes. Vamos ouvir estas palavras: “O que está na origem do problema da concepção preponderantemente masculina de Deus refere-se à visão de mundo. Baseia-se numa cosmovisão que separa, estanquemente, o céu e a terra, o que é do alto invisível, transcendente, e o que é de baixo, palpável, imanente. Aprendemos da história e hoje, mais claramente, das modernas descobertas da psicologia religiosa, que a divindade, o ser divino que a humanidade adora em todas as culturas, vem sempre mediado pelo simbolismo arquetípico, respectivamente paterno e materno, somos remetidos a dois tipos religiosos fundamentais: “um ctônico (telúrico) orientado para a terra, a vida, a geração, os mistérios da morte: é a relação maternal. O outro á mais urânico (celestial), orientado para o céu, a infinitude, a transcendência: é a religião paternal. Um voltado para origem, para o paraíso terrestre, e a reconciliação primigênia; o outro voltado para o termo da história, procura a salvação e o Reino de Deus que eclodirá no futuro. Um acentua a geração e o outro o nascimento, um a concepção e o outro a parturição.” (Teologia na ótica da mulher – PUC Rio de Janeiro – 1990).

Nas palavras indígenas, percebemos que o arquétipo religioso é materno, pois a relação com a terra e o universo é maternal, enquanto no texto bíblico, o arquétipo é decididamente paterno.
No nosso parecer, isso orienta a atitudes e valores diferentes. O arquétipo materno suscita relações de receptividade, aconchego, percepção, proteção à vida, gratuidade. O arquétipo paterno privilegia relações transformadoras, produtividade, poder interventor, organização, comando, eficácia.
Será este ponto de partida diferente que origina relações opostas com a natureza? Será que o sentimento de cumplicidade existente entre os povos indígenas e o universo nasce do sentir-se parte de um único e mesmo ser vital? Será que o sentimento de posse, de apropriação, de se adonar e abusar do universo nasce do desejo e ambição de substituir Deus ou dele roubar a propriedade na qual nos colocou como inquilinos? Ou nasce do desejo de sentir o universo como propriedade a ser disputada entre Deus e a humanidade, entre grupos, entre pessoas?

3o Parem e escutem o canto da criação

“Nós, povos vermelhos, temos aprendido muitas coisas.
Às vezes por escolha, outras vezes pela dor!
Meus irmãos brancos, nós somos iguais de muitas maneiras.
Foi um só Criador que fez todos nós humanos.
Nós compartilhamos os mesmos quatro ventos
e todos nós olhamos o mesmo céu, o mesmo sol, a mesma lua.
Nós bebemos as mesmas águas, corpo e espírito dos mesmos oceanos.

Sim, em mais de uma maneira somos iguais.
Mas assim como o Criador nos fez iguais,
Em diversas maneiras também nos fez diferentes:
Como os pássaros diferem em cores, em cantos e modos, assim também são distintos os povos,
Cada um com cores, línguas, cantos e compreensões diferentes.

Nós sempre preservamos para os nossos filhos a herança da criação.
Ocupamos a terra-mãe e, ciclo após ciclo, cuidamos dela.
Mas, num piscar de olhos, só quinhentos anos, os povos de vocês causaram muito sofrimento, destruição e morte para nós e para nossa terra-mãe.
Por isso, pedimos que vocês parem e escutem o canto da criação, com a mente e com o coração.
Respeitem profundamente e cheirem o ar puro que ainda resta e pensem!
Saboreiem a comida e o sabor da criação e estejam contentes.
Toquem nossa terra-mãe e pensem nos filhos dela, os povos diferentes e pensem quantos já desapareceram para sempre.
Vejam a beleza do Criador em diversos tamanhos, cores, formas, desenhos, energias e maneiras dadas para nós todos.
Ajudem a vocês mesmos, seus filhos e os que ainda vão nascer a sobreviver em nossa terra-lar.
Pensem neles e se tornem Povo novamente!”

“O canto da criação” de Juan Reyna nos desafia a colocar-nos em atitude de escuta da criação, a perceber com ele o divino, o transcendente que habita o Universo, a tocar com ternura, respeito, gratidão a Mãe-terra. Ele nos convida a escutar com o coração para apreender a respeitar, cheirar, saborear, tocar e a proclamar:

“Gotejai, ó céus, lá do alto,
derramem as nuvens a justiça,
abra-se a terra e produza a salvação,
ao mesmo tempo faça a terra brotar a justiça!
Eu, Iahweh, criei isto.
Ah! Todos, que tendes sede, vinde à água.
Vós, que não tendes dinheiro, vinde,
comprai e comei; comprai, sem dinheiro
e sem pagar, vinho e leite.
Como a chuva e a neve descem do céu
e para lá não voltam, sem ter regado a terra,
tornando-a fecunda e fazendo-a germinar,
dando semente ao semeador e o pão ao que come,
tal ocorre com a palavra que sai da minha boca...
...Eis que vou trazer a paz como um rio
e a glória das nações como uma torrente transbordante.
Sereis amamentados, sereis carregados sobre ancas
e acariciados sobre joelhos...
...construirão casa e as habitarão,
plantarão videiras e comerão seus frutos...
a duração da vida do meu povo será como os dias de uma árvore...
Acontecerá então que antes de me invocarem, já lhe terei respondido;
Enquanto ainda estiverem falando, já os terei atendido.”
(Is 45,8; 55,1.10; 66,12; 65,21-24).

Que este engatinhar, este mover passos incertos nos torne ousadas em acolher em nossa vida outras Tradições Sagradas. Seja uma provocação para ir em busca dos Textos Sagrados de outras Tradições, lendo-os junto ao nosso Texto Sagrado, afim de aprender, de sentir-nos irmãs e irmãos entre nós nesta Casa que é a Mãe-terra.


Tea Frigerio


1. Este texto nasceu provocado pelo tema da C.F. 2002.
2. Os textos indígenas foram tirados do Texto Base da C.F. 2002
3. Mito Guarani da Terra sem males. PORANTIM, Brasília/DF, agosto/2000, n.227, pg.16)
Texto de Gn 6,5-9,17, tirado da Bíblia de Jerusalém, não é na integra pois é bem mais extenso. Aqui também não analisamos a composição do texto e suas tradições, mas olhamos ao texto como chegou até nós hoje.


ANEXO 2

SALMO DO POVO AMAZÔNICO

1. Bendito seja Senhor, Deus do povo amazônico,
Que te louvem, te festejem e te bendigam todas as pessoas.

Te bendizemos, Deus Pai e Mãe.

2. Tu, Senhor, nos deste, esta terra fértil com seus rios e florestas,
Seus lagos e igarapés e quiseste que pertencessem a todos.

Bendito e louvado sejam, para sempre!

3. Apesar do egoísmo e da ambição das pessoas que torceram teu plano, estragaram a obra de tuas mãos. Teu amor continua sempre fiel, lembra-te de teus filhos e filhas e continuas libertando-os.

Bendito e louvado sejas, para sempre!

4. Por amor e fidelidade reservaste para Ti, nesta terra, um povo generoso, capaz de partilhar e ser irmão.

Bendito sejas, Senhor, Deus do povo amazônico.
Que Te louvem, Te festejem e Te bendigam todas as pessoas.

5. Teu sopro de vida fez brotar comunidades, as fez crescer para viver e testemunhar Teu projeto.

Te bendizemos, Deus Pai e Mãe, pela riqueza racial e cultural do povo.

6. Raízes antigas e jovens ramos que constituem o povo amazônico, louvem e bendigam o nome de Deus.
7. Índios, primitivos habitantes da floresta. Louvem e bendiga o nome de Deus.
8. Negros e europeus, nordestinos, sulistas e mineiros. Japoneses, peruanos, colombianos e bolivianos.
9. Homens e mulheres, ancião, jovens e crianças. Louvem e bendigam o nome de Deus.

Bendito sejas, Senhor, Deus do povo amazônico.
Que Te louvem, Te festejem e Te bendigam todas as pessoas!

Te bendizemos, Deus Pai e Mãe, por tua Providência fiel e misericordiosa.
10. Que as roças trabalhadas pelas mãos de homens e mulheres, regadas pelas águas dos céus, bendigam ao Senhor.
11. Juteiros e garimpeiros, operários e pescadores, madeireiros e castanheiros, louvem ao Senhor.

Te bendizemos, Deus Pai e Mãe, por tua Providência fiel e misericordiosa.

12. Florestas e rios, estradas e picadas, furos e corredeiras, louvem a Deus.
13. Lagos, igapós, várzeas, terra firmes, trapiches e flutuantes, canoas e motores, bendigam ao Senhor.
14. Pirarucus e peixes – boi, traíras e piranhas, pacus e bodós, e todos os animais que vivem nas águas, louvem a Deus.
15. Onça e cobras, queixadas e antas e todos os animais da floresta, bendiga o Senhor.
16. Petróleo e gás, ferro e manganês, e todos os minerais do subsolo louvem a Deus.

Bendito sejas, Senhor, Deus do povo amazônico.
Que Te louvem, Te festejem, Te bendigam os homens e as mulheres!

17. A natureza na riqueza de sua biodiversidade, os povos amazônida na sua riqueza culturais, Te louvam e bendizem.

Te bendizemos, Deus Pai e Mãe, pela alegria festiva do povo.

18. Pelo imenso amor que temos pala Mãe de teu Filho, chamando-a de Aparecida, de Perpétuo Socorro, de Imaculada Conceição, de Nazaré, louvemos e bendigamos ao Senhor.
19. Pelas procissões e arraiais acompanhados de bandas de música, cantos, bandeirolas e anjinhos, louvem e bendigam ao Senhor.
20. Pela fé mantida através dos anos em capelas e altarzinhos, pelos puxadores de reza, pelas parteiras, pelos pajés e benzedoras, pelo respeito aos compadres e comadres, padrinhos a madrinhas, louvemos e bendigamos ao Senhor.
21. Pela alegria das festas, pelas quadrilhas e bois-bumbás, pelos casamentos da roça e pelas fogueiras do mês de junho, louvemos e bendigamos ao Senhor.

Bendito sejas, Senhor, Deus do povo amazônico.
Que Te louvem, Te festejem, Te bendigam os homens e as mulheres!

22. Pelo amor à vida multiplicada em numerosos filhos e filhas, pelo pão partilhado, pela importância da amizade e vizinhança, louvemos e bendigamos todas as pessoas.

Bendito sejas, Senhor, Deus do povo amazônico.
Que Te louvem, Te festejem, Te bendigam os homens e as mulheres!

23. Porque ainda não sabemos aproveitaras as riquezas do solo para saciar a fome do povo, perdoa Senhor, o teu Povo.
24. Porque apesar de maduros pelo sofrimento, permanecemos, muitas vezes cegos e surdos e nos deixamos levar por qualquer vento, e diante de promessas vazias e discursos sem conteúdo caímos ingenuamente, perdoa Senhor o teu povo.
25. Porque tendo no coração a grandeza de um povo nobre e bom, ainda assim nos deixamos levar por idéias e valores impostos, abandonando e desprezando nossa cultura, perdoa Senhor, o Teu povo.

Te pedimos perdão e Te damos graças, Senhor Pai e Mãe.
Porque formas o coração e a alma do povo.

26. E agora, Te damos graças, senhor, pelo povo amazônico, que mesmo pobre, é solidário, demos graças ao Senhor nosso Deus.
27. Mesmo desprezado, ainda assim cheio de ânsia de justiça, demos graças a Deus.
28. Mesmo imobilizado pela pobreza ainda assim disposto a organizar-se buscando a libertação, conduzindo por Tua mão, demos graças a Deus.
29. Mesmo esmagado por obras de morte, ainda assim disposto a lutar pela vida, demos graças a Deus.

Bendito seja, Senhor Deus do povo amazônico
Que Te louvem, Te festejem e Te bendigam todas as pessoas!



ANEXO 3

ORAÇÃO DA AMAZÔNIA


Deus, Criador do Universo,
Senhor de todas as coisas,
obrigado pela magnífica Floresta Amazônica
que recebemos de Vosso Eterno e Infinito Amor.
Nela posso contemplar
a mata de terra firme,
as matas de várzeas,
as matas de igapós,
as matas de palmeiras e bambus
e tantas outras formações
que compõem esse cenário natural
de imensa riqueza biológica,
patrimônio do Brasil e da Humanidade.
Olhando seus detalhes,
posso Vos louvar
pelas belas andirobas com suas exuberantes sementes;
o imponente pau-mulato com seu lenho brilhante;
a generosa seringueira com seu látex tão útil;
a impressionante samaúma com suas sapopemas gigantes
e o bom e raro mogno que de tanto ser explorado se encontra ameaçado de extinção.
Quero vos louvar
pela fauna tão rica em espécies,
pelos jacamins,
aves endêmicas da Amazônia,
pelos peixes-boi, botos-tucuxi, ariranhas
e os frutos da Amazônia,
como o cupuaçu, o açaí,
o buriti, a pupunha e o bacuri;
tudo criado por Vós
para que nós, homens e mulheres,
possamos compreender Vossa Bondade
em todas as coisas da Natureza.
Finalmente, quero agradecer-Vos
pelos povos tradicionais da floresta,
pois deles aprendemos a sabedoria milenar acumulada,
sobretudo as atitudes éticas de respeito e admiração pelos seres da Natureza.
Peço-Vos, ó Deus Pai,
em nome de Jesus Cristo e do Espírito Santo,
que nos ajudeis a defender,
conservar e preservar a Floresta Amazônica,
para que as gerações futuras
passam ter a oportunidade de contemplar,
estudar e admirar
este maior patrimônio biológico do país e do mundo.Amém!

Padre Josafá Carlos de Siqueira SJ

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