Uma janela sobre o mundo bíblico

Diário duma peregrinação à Terra Santa



  • Estudo
  • 3472
  • 21/11/2007
Ildo Perondi

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Que alegria quando me disseram: vamos à Casa do Senhor” (Salmo 122,1)

1) VIAGEM

07 a 13 de outubro de 2007: Neste período tive a alegria de poder retornar à Terra Santa, visitando os lugares onde aconteceram os fatos mais importantes da Bíblia, sobretudo do Novo Testamento. A agência Mount Carmel, de Curitiba, foi quem ajudou e deu toda a assistência. Fomos em 23 pessoas. O nome do nosso grupo era Kairós, palavra grega que significa “tempo da graça de Deus!”. Posso dizer que é uma sensação muito bonita poder tocar o chão onde Jesus pisou, poder passar pelos lugares onde Ele andou e ensinou.

A primeira parada nossa foi em Paris, onde chegamos de manhã e por um problema do vôo. Com isso pudemos fazer um giro por Paris. Visitamos os lugares históricos como a Torre Eifel, o Arco do Triunfo, passamos ao lado do Museu de Louvre, mas o que mais marcou foi a visita à Catedral de Notre Dame, com sua beleza, os vitrais, as rosáceas, esculturas, etc. E ver a torre da Catedral que ainda não foi concluída (e nunca será!). A ajuda do Caco (Carlos Braile) foi muito importante.

O embarque em Paris foi demorado. Cada um de nós passou pelos agentes de Israel e por uma bateria de perguntas sem fim: “Conhece todos do grupo? Desde quando? Quem arrumou sua mala? Alaguem deu alguma coisa para você levar? Conhece alguém lá? etc...” Mas no fim embarcamos todos. Viajamos pela EL-AL a empresa aérea de Israel. EL-AL quer dizer “asas de Deus”. No avião, a maioria eram judeus. Viajar para a Terra Santa era um sonho que se realizava. Sonho de Moisés e do povo. Da janela do avião eu olhava para a noite escura. A Terra Prometida estava logo ali. Não se podia vê-la, mas como Moisés era preciso acreditar que ela estava próxima!

Na manhã do dia 9 de outubro, terça feira de manhã, chegamos ao aeroporto de Tel-Aviv, carimbamos o passaporte de ingresso, desta vez bem mais fácil. Mas, para nossa surpresa, as nossas bagagens não chegaram. Durante dois dias tivemos que andar somente com os pertences que tínhamos na mochila de mão. Aprendemos também com isso. Jesus mesmo nos ensinou que não devíamos levar tanta coisa no caminho (Mc 6,8-9; Lc 10,2-4).

2) NA TERRA SANTA

Tel Aviv
, é também chamada a “Cidade Branca” devido ao seu estilo arquitetônico moderno. O nome significa "Colina da Primavera" ou "Colina da Renovação", ou, em tradução livre, "a nossa renovada terra ancestral". De Tel-Aviv partimos, com um ônibus, em direção ao norte de Israel. O nosso guia se chamava Miguel, era um judeu uruguaio e que agora mora em Jerusalém. Muito simpático. Nas horas de folga ele trabalha gratuitamente como policial. O motorista era o Suleiman, um palestino, de religião muçulmana e como estavam na última semana da festa do Ramadã, só podia comer e beber de noite (não ingeriu nada entre as 4 horas da manhã até as 18 horas). Também muito simpático e parecido com o nosso técnico de futebol Filipão.

Aprendemos logo que a saudação hebraica é “Shalom”. E que “bom dia” é “boqer tov”. E “muito obrigado” é “todah rabah”.

O clima na Terra Santa estava muito bom (isso aconteceu em todo o período que ficamos na por lá). Faziam sete meses que não chovia. Um pouco quente e com isso tivemos que beber muita água (que custava caro se comprada fora).

Respira-se um clima de muita paz na Terra Santa. Em todos os dias que estivemos lá não vimos uma cena de violência, nem as famosas “bombas”. É certo que existe um clima tenso, mas é localizado, isto é, na Faixa de Gaza que fica longe dos lugares onde passamos. Mas se pode andar sem medo pelas ruas, mesmo à noite.

Nossa primeira parada foi em Lida, lugar onde Pedro realizou um milagre quando ele curou o paralítico Enéias (At 9,32-35). Em seguida fomos para Jope, onde Pedro também esteve e aí ressuscitou Tabita (At 9,36-42). Visitamos a casa onde morava esta mulher. Lá está também a casa de Simão, o curtidor, onde Pedro ficou hospedado (At 9,43). Foi aí que Pedro recebeu a visão e o chamado para ir à Cesaréia na casa de Cornélio, o centurião romano. Este fato é importante para a Bíblia, pois foi o início da conversão dos pagãos (At 10). Cornélio e sua família foram batizados e sobre esta família também desceu o Espírito Santo, o chamado “Pentecostes aos gentios” (At 10,44-48).

Depois rumamos para Cesaréia, uma cidade romana construída por Herodes, o Grande, para agradar aos romanos. Herodes construiu aí também um porto e um grande anfiteatro para 5 mil pessoas, cuja construção está ainda lá. Ao lado foi construído um local de corridas e jogos. Herodes construiu um aqueduto com 18 km de comprimento para trazer água e abastecer a cidade. Era em Cesaréia que moravam os romanos que governavam a Terra Santa na época de Jesus.

Esta Cesaréia não é a mesma “Cesaréia de Filipe” (Mt 16,13; Mc 8,27) onde nos seus arredores Jesus pede a confissão de Pedro: “E vós quem dizeis que eu sou? Pedro respondeu: Tu és o Cristo” (Mc 8,29). Mas esta Cesaréia também é importante para a Bíblia, pois foi ponto de chegada e partida das viagens paulinas (At 9,30; 18,22; 21,8). Aí esteve o diácono Filipe (At 8,40). Foi também de Cesaréia que o Apóstolo Paulo foi mandado preso para Jerusalém (At 23,23ss) e depois de Cesaréia para Roma onde sofreu o martírio (cf. At 23-26).

De Cesaréia, subimos para Haifa, uma bela cidade, onde está o Monte Carmelo. Lá estão as Irmãs Carmelitas e na Igreja do Convento rezamos a nossa primeira missa na Terra Santa. Este monte é importante para a Bíblia, pois nos recorda o Profeta Elias (1Reis 17 a 19). Lá encontramos um Convento e também a gruta de Elias. O local é muito lindo e místico. A comunidade Bahá’i, uma religião de origem persa (atual Irã) fundada em 1844, comprou um terreno no monte Carmelo e aí construiu o seu Templo, é um jardim muito bonito, segundo o guia, a maioria são ricos dos Estados Unidos.

Em Haifa há uma população cristã numerosa, em torno de 10 mil pessoas (17% da população). As Irmãs do Carmelo são nascidas aí, portanto são judias (muito queridas e nos atenderam muito bem). Então fomos para Tiberíades, no hotel onde tomamos banho e descansamos. No Hotel Bali havia uma brasileira trabalhando. Era judia do Rio de Janeiro.

3) NA GALILÉIA

No dia seguinte giramos pela Galiléia, nos lugares onde Jesus iniciou o seu ministério. Passamos por Tiberíades, cidade 100% judaica e muito bonita. Fomos à beira do Lago de Genesaré (ou Mar da Galiléia), que fica cerca de 200 metros abaixo do nível do mar. Este lago é de água doce e possui muita vida, dá muito peixe. Possui 20 km de comprimento e 12 de largura. É formado pelas águas do rio Jordão que nasce no monte Hermon, depois de abastecer o Mar da Galiléia, as águas continuam pelo Jordão até o Mar Morto.

Atravessamos o Lago de barco, onde os navegadores colocaram o Hino Nacional Brasileiro e hastearam a Bandeira Brasileira, foi emocionante. Podíamos ver os peixes na água, mas desta vez não havia gaivotas (elas só estão aí no inverno). Foi à beira deste Lago que Jesus chamou os primeiros Apóstolos (Mc 1,16-20; Mt 4,18-22; Lc 5,1-11). Neste Lago Jesus ia pescar com os Doze, e foi nele também que acalmou a tempestade (Mt 8,23-27; Mc 4,35-41; Lc 8,22-25). Na saída do Lago passamos por Tabga (sete fontes) lugar onde aconteceu a primeira multiplicação dos pães (Mt 14,14-21).

Subimos o Monte das Bem-aventuranças (Mt 5,1-12; Lc 6,20-26), de onde se vê toda a cidade de Cafarnaum e o Lago em baixo. O local é muito bonito, com uma bela Igreja e um jardim. Lemos o texto das Bem-aventuranças (Mt 5,1-12) e fizemos uma profunda reflexão e orações. No local havia um grupo de peregrinos alemães fazendo uma procissão silenciosa.

Depois em Cafarnaum, visitamos a casa de Pedro ou da sogra de Pedro (Mc 1,29), sobre a qual foi construída uma Igreja. Era a casa maior do vilarejo. Isto significa que Jesus escolheu um líder importante da comunidade. Visitamos os restos da sinagoga de Cafarnaum, onde Jesus ia aos sábados, e que fica próxima à casa de Pedro. Voltamos outra vez à beira do Lago onde está a Igreja do Primado de Pedro. Foi aí que Jesus instituiu Pedro como Chefe da Igreja. Como Pedro havia negado três vezes, Jesus pediu três vezes a confirmação: “Pedro, tu me amas?” (cf. Jo 21,1-17). Rezamos juntos o “Creio em Deus Pai...”

Almoçamos num kibbutz, onde o prato principal é o famoso “peixe de São Pedro”. O almoço é servido com muitos ingredientes, e então vem um peixe para cada pessoa. É um peixe frito, parecido com uma tilápia, pescado no Mar da Galiléia, de mais ou menos 700 gramas. E, segundo dizem, foi este o peixe que Pedro pescou quando Jesus lhe pediu para pagar o imposto: “Vai ao mar e joga o anzol. O primeiro peixe que subir, segura-o e abre-lhe a boca. Acharás aí uma moeda. Pega-a e entrega-a a eles por mim e por ti” (Mt 17,17).

Depois do almoço, fizemos uma visita ao kibbutz, com um trenzinho. Este é um dos kibbutz mais antigos de Israel, está localizado no norte, na fronteira, perto das colinas de Golan, local de guerras e por isso toda a população deve estar sempre pronta para a defesa. Os kibbutzim foram uma das formas de vida implantada depois da criação do Estado de Israel (em 1947). Muitos judeus vieram da diáspora (dispersão), sobretudo da Alemanha, Polônia e Rússia e queriam uma vida comunitária, baseada nos tempos dos juízes na Bíblia. Na Europa os judeus não podiam ter terra e trabalhar nas lavouras e por isso ao chegar em Israel tiveram que estudar a agricultura e pecuária nas Escolas. A vida no kibbutz é comunitária, a produção é coletiva; há tempo para o trabalho, estudo, lazer e religião. Hoje em Israel existem mais de 250 kibbutz, com 3% da população e dos kibbutz vem 40% da produção agrícola e pecuária. Porém, hoje a realidade dos kibbutz está mudando. Os filhos que nasceram aí estão indo embora para a cidade. Outra forma de organização das comunidades é o moshaf também em estilo cooperativista, mas mais individual. Neste modelo vive 7% da população. Em Israel 90% das terras pertencem ao Estado e toda a produção é organizada pelo Estado.

Assim é a Terra Prometida hoje. Segundo a promessa é uma terra onde “corre leite e mel” (Ex 3,8). O leite é o primeiro alimento que recebemos, por isso necessário. O mel simboliza a doçura da vida. Na Terra Prometida o pasto é fértil e as cabras e vacas produzem o leite. As abelhas dão o mel. Também das tâmaras se produz o mel... Aliás, vimos muitas plantações de tamareiras. E comemos muitas tâmaras, que são muito gostosas e doces. Atualmente boa parte da terra está descansando. Segundo a Bíblia, a terra deve descansar depois de sete anos (Lv 25). Em muitos lugares se faz o rodízio para garantir a produção, mas ao longo de sete anos toda a terra deve ter repousado um ano.

Por fim subimos ao Monte Tabor, lugar da Transfiguração de Jesus (Mt 17,1-8; Mc 9,2-8; Lc 9,28-36). É um monte isolado, não está numa cadeia de montanhas. É alto e belo. Tem uma floresta de mata nativa e própria da região. Sobe-se por uma estrada cheia de curvas, por isso os ônibus não podem chegar lá, é preciso ir de táxi. Sobre o Monte está a belíssima Igreja da Transfiguração e várias Capelas. Lemos os textos bíblicos da Transfiguração e aí rezamos. Pedro tinha razão em dizer: “É bom estarmos aqui!” (Mc 9,5).

No dia seguinte fomos ao Rio Jordão. É certo que o local do Batismo de Jesus foi no rio Jordão, mas bem mais adiante, perto do Mar Morto (Mt 3,13-15; Mc 1,9-11; Lc 3,21-22). Porém lá hoje não se pode ir, pois o território foi minado de bombas, na época da guerra e hoje é perigoso. Por isso, foi construído um local próprio para visitas ao Jordão e batismos. Ali recordamos o batismo de Jesus e foi também onde nós renovamos as promessas do nosso Batismo, por aspersão. Lemos os textos bíblicos sobre o batismo de Jesus e cantamos: “Pelo batismo, recebi uma missão...” Lá encontramos muitos grupos que faziam o batismo até por imersão, meio estranho. Mas pode-se alugar as vestes e o ministro afunda o sujeito debaixo da água. Pudemos comprar uma garrafinha de com água do Jordão!

Fomos então para Caná, lugar do primeiro sinal no Evangelho de João (Jo 2,1-12). Na Igreja, celebramos a Missa e os casais presentes renovaram o seu sacramento do matrimônio. Numa loja pudemos beber o vinho e também comprar uma garrafinha com o vinho de Caná.

Então fomos visitar Nazaré o local da Anunciação (Lc 1,26-38), onde foi construída uma bela Basílica. Rezamos o “Anjo do Senhor anunciou a Maria...” e lemos alguns textos bíblicos sobre a Anunciação do Anjo a Maria. Em Nazaré também visitamos a casa onde possivelmente morava José e também a casa de Maria.

A Basílica de Nazaré é grande e bela, com muitas pinturas sobre os fatos bíblicos envolvendo o anúncio do nascimento de Jesus. Há alguns anos os muçulmanos começaram a construir uma mesquita de nove andares bem em frente à Basílica. Isso gerou um conflito entre cristãos e muçulmanos. A questão teve que ser resolvida na Justiça e com a intervenção do Estado de Israel. E a mesquita será construída em outro local.
Fomos visitar uma Igreja (não sei se era do rito armênio ou ortodoxo) e alguém tirou uma foto no local e ainda havia uma mulher com uma blusa sem mangas. Resultado: fomos expulsos pelo senhor mal educado que cuidava da Igreja. Almoçamos em Nazaré num restaurante árabe.

4) A SUBIDA À JERUSALÉM

À tarde começamos subir à Jerusalém. Foi difícil sair de Nazaré. Um trânsito complicado, onde não há leis e todo mundo fica calmo. Levamos uma hora para fazer alguns quilômetros e poder sair da cidade. Passamos pela Cisjordânia e nos vales se viam os kibbutz, com muitas plantações. É o deserto florindo e dando vida, segundo as profecias de Isaías (Is 32,15; 35,1.6; 41,18-19). Passamos perto de Jericó, mas não foi possível entrar.

Chegamos ao Mar Morto, mas antes fomos visitar as grutas de Qumran. Nestas grutas, a partir de 1947, foram encontrados muitos manuscritos da Bíblia, o que é considerada a maior descoberta bíblica dos últimos 2000 anos. Era em Qumran que viviam os essênios, uma seita judaica e que teve muita influência no cristianismo, pois João Batista conviveu com eles e talvez até o próprio Jesus. Alguns Apóstolos também devem ter vindo dos essênios (para mais informações ver o meu texto sobre os manuscritos de Qumran e do Mar Morto).

Fomos ao Mar Morto, onde a água tem 35% de sal e não há nenhuma espécie de vida, mas se pode banhar na água e ela faz bem, e ninguém afunda, mesmo quem não sabe nadar... Foi gostoso boiar, relaxar e nadar nas suas águas.

Anteriormente quando descrevemos o Mar da Galiléia dissemos que ele recebe a água do rio Jordão e depois partilha, manda a água em frente. E por isso tem peixes e outras formas de vida. O Mar Morto, ao contrário, retém para si toda a água, não partilha, por isso é estéril e não possui vida...

Reiniciamos a viagem e rezamos o Salmo 122. É um dos Salmos das Subidas (Sl 120 a 134) que os judeus rezavam nas peregrinações ao Templo. E ao anoitecer chegamos à cidade santa de Jerusalém!

5) NA CIDADE SANTA: JERUSALÉM!

Visitamos o Muro das Lamentações (a única coisa que restou quando os romanos, no ano 70 dC, destruíram o Templo de Jerusalém). Hoje é local de orações e estudo dos judeus e de todos os povos. No muro há o lugar dos homens e das mulheres. O homem só pode aproximar-se do Muro para rezar se estiver com a cabeça coberta (chapéu, kipá ou boné). No ingresso tem local com kipás de papel para quem não possui nada na cabeça. Entre as frestas do Muro é costume colocar bilhetes com as intenções. Aí eu coloquei o seguinte bilhete:
“Onipotente, Santo e Bom Senhor, Deus de nossos pais e mães da Fé, eu te louvo e dou graças por tudo o que és e fazes por nós. Receba com carinho a oferta dos nomes que trago a Ti: meus pais e irmãos, parentes, meus amigos e amigas, meus alunos(as), freis e todas as pessoas que pediram que eu intercedesse por elas. Derrame sobre todas estas pessoas a tua bênção e o teu Shalom! Amém!”

Perto do Muro é também local de estudo. Uma cena bonita era ver o pai judeu ensinando a Torá ao menino. Um pouco mais adiante um Rabino discutia a Torá com seus discípulos, de forma acalorada...

Restaram as pedras do Templo, como Jesus havia profetizado (Lc 19,41-44). Pedras que falam! Algumas grandes (dizem que pesam até cerca de 6 toneladas). Encostar as mãos nelas é sentir o sagrado, um pedacinho daquilo que era a Casa mais importante que guardava o Nome Sagrado de Deus. Para os judeus é triste saber que na esplanada superior (onde era o Templo) está agora construída a mesquita muçulmana e o Domo da Roca – a famosa cúpula dourada, com 28 quilos de ouro, doados pelo rei da Jordânia (é o terceiro lugar mais sagrado para os muçulmanos). Os judeus até hoje não têm um Templo e lugar para celebrar os sacrifícios e holocaustos. Segundo a tradição é este o local onde deve ser construído o terceiro Templo de Israel (quando vier o Messias). Mas como se fará isso? Se eles mexerem na mesquita o mundo árabe entra em guerra... Jerusalém, Jerusalém!

Estava começando o Shabbat, o Sábado, dia sagrado para os judeus. Todo o comércio parou de funcionar. Carros que circulavam eram somente de muçulmanos ou estrangeiros. Em Jerusalém o dia santo é muito respeitado. Em casa a mulher recebe o marido com flores. No hotel quando chegamos também havia muitas flores, belos arranjos, sinal da festa e da alegria. A refeição já estava à mesa. Só trabalhavam os funcionários necessários. Numa sala ao lado, só para judeus, se podia ver a alegria e a celebração do Dia Santo. Eles cantavam, dançavam e comiam. Uma festa alegre e religiosa, muito familiar (homens, mulheres, jovens, adultos e crianças). Por isso, os judeus dizem que o Sábado é o prelúdio do paraíso.

Visitamos também o local da Santa Ceia de Jesus (Lc 22,7-23). Esta sala no piso superior (At 1,13) era possivelmente a casa da mãe do evangelista João Marcos (At 12,12), local de oração e da substituição de Judas Iscariotes por Matias (At 1,15-26) e também do Pentecostes (At 2,1ss). Debaixo desta sala, foi descoberto que está o túmulo do rei Davi e por isso o local é importante para os judeus. A sala da Ceia foi transformada em mesquita na época da dominação muçulmana. E hoje todo o local está sob a custódia dos judeus. A Igreja há tempos tenta negociar com Israel para ter posse deste lugar importante para a nossa fé.

Visitamos o Monte das Oliveiras, onde Jesus passou seus últimos momentos antes de ser entregue (Lc 22,39-53). O Monte é belo e fica pertinho de Jerusalém, a uma “caminhada de sábado” (At 1,12). Possui muitas oliveiras, algumas delas antigas e dizem que podem ser da época de Jesus. Rezamos a Missa na Igreja chamada Dominus Flevit, uma Igreja pequena em forma de uma lágrima. Aí Jesus chorou sobre Jerusalém! (Lc 19,41-44) e profetizou: “Jerusalém, Jerusalém que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados, quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos como a galinha recolhe seus pintinhos debaixo das asas, e não o quiseste! Eis que a vossa casa ficará abandonada...” (Mt 23,37-38).

A seguir subimos e fomos na Igreja do Pai Nosso, lá nas paredes está escrito o Pai Nosso em todas as línguas. Rezamos de mãos dadas a Oração que o Senhor nos ensinou.

Descemos e bem embaixo, ao pé do Monte, está a bela Igreja do Getsêmani (Mt 26,36-46; Mc 14,26-42; Lc 22,19-46), o local da agonia de Jesus e onde Ele rezou e sofreu ao pressentir que a morte se aproximava: “E cheio de angústia, orava com mais insistência ainda, e o suor se lhe tornou semelhante a espessas gotas de sangue que caíam por terra” (Lc 22,44). Foi aí que Jesus foi preso e conduzido às autoridades para ser condenado.

Entre o Monte das Oliveiras e a esplanada do Templo existem muitos cemitérios judaicos. Existe a crença entre os judeus que o Messias quando virá passará por ali, portanto quem estiver enterrado aí será visto por Ele. Como os muçulmanos conheciam as profecias, quando dominaram a região, também enterraram seus mortos aí e inclusive bem em frente à Porta por onde o Messias deve entrar (assim ele se tornará impuro, pois teria contato com mortos pagãos!). É costume judaico colocar pedrinhas sobre os túmulos, ao invés de flores.

Passamos pelo local onde foi apedrejado Estêvão, primeiro mártir cristão, que fica perto de uma das portas da cidade. “E arrastando-o para fora da cidade, começaram a apedrejá-lo. As testemunhas depuseram seus mantos aos pés de um jovem chamado Saulo” (At 7,58).

Fizemos também a Via Crucis por onde Jesus carregou a cruz até chegar no Santo Sepulcro. Infelizmente este não é um caminho para aprofundar a fé. A caminhada é feita em meio a lojas, vendedores ambulantes, fotógrafos, etc... Alugamos uma cruz e carregamos ela pelo caminho, mas de vez em quando se tornava mais um estorvo ou um perigo... Enfim, chegamos ao lugar da crucifixão e morte de Jesus. Outra surpresa: não é uma alta montanha. O Calvário era uma pequena colina e que desapareceu, pois hoje tudo se transformou em cidade. Na Igreja do Santo Sepulcro também estão os vários tipos de cristãos: católicos, ortodoxos gregos, armênios, coptas, sírios e etíopes.

6) BELÉM

No sábado fomos para Belém (beth + lehem = casa do pão), local do nascimento de Jesus. Belém é uma cidade palestina, administrada pela Autoridade Nacional Palestina (ANP). É como se tivéssemos que entrar em outro país. Existe uma fiscalização rígida. Entre Jerusalém e Belém foi construído um grande muro (com cerca de 40 metros de altura). Dá dó ver o muro frio e que separa povos que poderiam viver em paz. Segundo os israelenses com a construção do muro diminuíram ou quase acabaram os atentados terroristas em Israel. Miguel, não podia fazer o trabalho de guia aí. Entrou como turista junto conosco. Jorge, um cristão da Palestina fez o guia, também muito simpático.

Visitamos a Basílica de Belém, local do nascimento de Jesus. A Igreja é bizantina, do século IV, uma das poucas que não foram destruídas pelos muçulmanos, possui mosaicos antigos e muito belos. Uma das entradas é do tempo da guerra contra os muçulmanos e tem a porta estreita e baixa (para que os inimigos não pudessem entrar com os cavalos). A Igreja tem as marcas das divisões entre os cristãos. De um lado é administrada pelos cristãos ortodoxos; a parte central pelos cristãos armênios e o lado esquerdo pelos cristãos católicos.

É muito emocionante ver o local da gruta onde possivelmente Jesus tenha nascido. Jesus se fez criança, se tornou humano: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós!” (Jo 1,14). Quem não recorda aqui o canto “Noite feliz!”? E em Belém se pode cantá-lo sempre, porque em Belém todo dia é Natal! Embaixo é conservada também a gruta onde São Jerônimo ficou no século IV quando traduziu a Bíblia para o latim (a Vulgata).

E visitamos também o campo dos pastores, local onde Jesus recebeu a recebeu a vista dos pastores (Lc 2,8-20), um local bonito com algumas grutas belíssimas e onde foi construída uma Igreja.

Em Belém visitamos uma loja de artesanato que é de uma cooperativa onde trabalham cerca de 50 pessoas cristãs. O trabalho e o artesanato são uma forma de manutenção e também de poder continuar vivendo em Israel. Ali compramos muitos produtos feitos com ramos de oliveira.

Cortar ramos de oliveira não é anti-ecológico. A oliveira para produzir o azeite precisa ser podada no tempo certo. Com os ramos que sobram é que são feitos os artesanatos. Quem olha uma cruz ou qualquer obra feita em ramo de oliveira, vai ver que ela não é uniforme. Segundo uma tradição, no I século viveu Rabi Aqiva, um grande Rabino judeu, mas ele foi assassinado. Conta-se que todas as árvores de Israel murcharam neste dia, menos a oliveira. Vendo isso, as demais árvores foram reclamar com a oliveira, pela falta de sensibilidade. A oliveira então respondeu: “Eu estou verde por fora, porque tenho que manter minhas olivas. É com elas que se faz o azeite que tem por finalidade manter acesa a Menorá no Templo e dar a luz nas casas; depois o azeite serve para o alimento e por fim para curar os doentes. Mas, se estou verde por fora, por dentro, estou toda quebrada”. Por isso, quem recebe uma cruz de oliveira verá que ela é cheia marcas (veias). Os cristãos afirmam que esta história aconteceu quando Jesus foi morto.

Em Belém tivemos contato mais direto com os palestinos. Ainda há muita pobreza e sofrimento, mas não há tanta gente nas ruas, como na outra vez que lá estive. Bom sinal, pois o povo está trabalhando. Apesar que a situação ainda é muito difícil. Sonha-se muito com a paz e coma criação do Estado do Estado da Palestina. Se isso acontecer será um estado não continuo, isto é, com cidades onde a maioria da população é palestina como Belém, Jericó, etc. Este seria um acordo com os grupos mais moderados dos palestinos (Fatah), que aceitam a existência do Estado de Israel. Porém, o grupo Hamas (mais radical) tem sua força na Faixa de Gaza e não aceita Israel, luta pela sua destruição. Com este grupo hoje não há negociações...

7) EM JERUSALÉM. DESPEDIDA

À tarde visitamos o local onde era piscina de Betesda e onde Jesus curou o homem doente há 38 anos (cf. Jo 5,1-18). Aí lemos o texto bíblico e rezamos por todas as pessoas doentes e que pediram as nossas orações.

Depois visitamos ainda o Museu do Livro, em Jerusalém, que está situado perto do Knesset, o Parlamento (Congresso) de Israel. Neste local muito bonito, estão os manuscritos encontrados nas grutas da Qumran e do Mar Morto. O local tem a forma da tampa do jarro que continha os manuscritos. Quando se entra no seu interior, é como se estivéssemos dentro do jarro. É um local super-protegido, tanto que se houver uma ameaça de bomba atômica num instante todo o prédio com os manuscritos desce para debaixo da terra. Foi emocionante estar diante dos textos bíblicos de tantos anos!

Na noite antes da nossa partida, Miguel nos convidou para irmos assistir a um espetáculo de música judaica. Foi algo muito bonito, com artistas populares locais que cantaram as mais belas canções judaicas, com coreografias e danças. Uma artista cantou inclusive uma canção cristã.

De volta ao hotel, arrumamos nossas malas. Antes, junto com Miguel e Dalmas, fomos ao Muro das Lamentações à meia noite. O local estava cheio de judeus rezando. Impressionante a manifestação de fé.

As duas da manhã partimos em direção ao aeroporto em Tel-Aviv, passamos pela aldeia de Emaús (mesmo sem vê-la, pois era de noite), no caminho onde Jesus se manifestou às duas pessoas (Lc 24,13-35). Enquanto saíamos de Jerusalém, começou uma leve chuva. Era como se partíssemos deixando uma bênção! No aeroporto, no entanto, tivemos que enfrentar novamente as inúmeras perguntas, confusão, revista às malas... Quase perdemos o vôo, não fosse a intervenção do nosso bravo Miguel. Enfim estávamos de novo dentro do avião da EL-AL (as asas de Deus) e voamos para Roma.

Em todos os lugares que visitamos, lemos os trechos da Bíblia que diziam respeito aos fatos que aconteceram naqueles lugares, rezamos por tantas pessoas que pediram nossas orações, por nossos familiares e amigos. Renovamos a nossa fé. Era como se a Bíblia se tornasse Palavra viva. Foi uma alegria imensa caminhar por estes lugares, mas ao mesmo tempo que aumentava a nossa fé, crescia também a responsabilidade em continuar dando testemunho da mensagem que o Senhor nos revelou nesta Terra Santa. Terra onde as guerras e as divisões foram tantas, mas onde Deus fez história com o seu povo e onde hoje se sonha com a Paz, com o Shalom!

Shalom Aleichem! – A Paz esteja com vocês! ” (Jo 20,19.26)

Fr. Ildo Perondi

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