Uma janela sobre o mundo bíblico

Gênesis 1 a 3: recriação



  • Estudo
  • 9432
  • 28/11/2007
Gilvander Moreira

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Artigo publicado no livro Criação de um outro mundo – Gênesis 1-11, Rogério I. de Almeida Cunha (org.), CEBI, São Leopoldo, 2007, pp. 7-32.) e também presente no site do autor (www.gilvander.org

1) Ponto de partida: O paraíso está gravemente ferido

Uma leitura comunitária, transformadora e libertadora dos primeiros três capítulos do livro de Gênesis pressupõe levar no coração e na mente a realidade atual: algumas bombas atômicas explodidas e muitas prontas para seguir o mesmo destino, sementes transgênicas, monoculturas do eucalipto e outras, mineração depredadora, condomínios luxuosos que se apropriam de áreas de proteção ambiental e favelização. Esgoto sem tratamento sendo jogado nos rios, modelo de desenvolvimento capitalista que, como uma máquina de moer capim, chupa tudo para dentro de si e transforma em mercadoria.

O nosso Planeta está em perigo de morte. O uso da energia nuclear no cotidiano, sem que tenhamos solução para o lixo e seus efeitos secundários. A utilização abusiva de produtos químicos que levam ao envenenamento dos solos e das águas. O excesso de gás carbônico decorrente das indústrias e a destruição das florestas tropicais comprometem inexoravelmente a saúde da estratosfera e reduzem a fotossíntese, que fabrica o oxigênio essencial à nossa vida. A própria existência do ser humano está em perigo.

Tudo isso está agredindo covardemente o paraíso terrestre criado por Deus na beleza da evolução. A humanidade vive em alto risco. A vida na terra está ameaçada. Em 1945 aconteceu o maior ato de terrorismo de estado: as bombas atômicas jogadas sobre as cidades japonesas de Hyroshima e Nagasaki.

A ONG WWF, divulgou, em 2006, relatório anual sobre as condições de vida e capacidade dos recursos naturais do Planeta Terra. As informações reveladas são alarmantes: “os seres humanos já usam recursos naturais a uma taxa 25% maior do que a capacidade do planeta de regenerá-los. ” Se não houver uma mudança de modelo de desenvolvimento e de comportamentos, em 2050 “a Humanidade precisará de dois planetas Terra para prover suas necessidades.” Demonstra também que entre 1970 e 2003, o planeta perdeu 30% de sua diversidade biológica, “o que indica que as extinções estão se acelerando.” [1]

O relatório do “Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas” (IPCC) [2] de 02 de Fevereiro de 2007 é de alerta máximo!.O gelo está derretendo, no pólo Norte e no pólo Sul. A água vai ficar mais salgada, as chuvas vão aumentar, o nível dos mares está subindo. As ondas e os ventos vão mudar em freqüência e força. Haverá tempestades muito fortes, furacões, mais calor. Isto acontece porque a produção industrial depende de combustíveis fósseis, como petróleo e carvão ou gás mineral, unida ao desmatamento em grande escala. A “Revolução Industrial” está destruindo o mundo e a própria humanidade.

“Nós perdemos a comunhão com o planeta”, afirma o fotógrafo mineiro Sebastião Salgado, ao apresentar o projeto “Gênesis”, exposição de 40 fotos inéditas: “Meu objetivo é encontrar e revelar um mundo onde a natureza e os animais vivem em equilíbrio ecológico. É absurda esta noção moderna de que humanidade e natureza estão, de alguma maneira, separadas. Nosso relacionamento com a natureza e com nós mesmos está em crise”, afirma o fotógrafo. “O projeto “Gênesis” é uma tentativa de reconectar nossa espécie com nosso planeta. Estou me dedicando a este mundo de pureza com o objetivo de registrar as faces imaculadas da natureza e da humanidade”, almeja o otimista e utópico Salgado. [3]

Diz a sabedoria popular que na frente estão as matas, depois o ser humano passa e deixa um deserto. Dentro de vinte anos a água potável poderá faltar para 40% da humanidade. As multinacionais já estão de olho gordo no “petróleo azul”. Em alguns lugares do planeta a água já é controlada com poder das armas. A vida na Terra está ameaçada, a nossa única casa comum está ficando sem esse combustível sagrado: a água.

Os Sem Terra da Via Campesina - entidade internacional que congrega Movimentos que lutam pela Reforma Agrária integral em 74 países - bradam: “Não aceitamos sementes transgênicas. As sementes são (e devem continuar sendo) um patrimônio da humanidade.” Este grito ecoou forte em quase todas a atividades do 3o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. A semente está no início e no fim do processo da vida. Quem controla a semente controla o fio da vida e o mercado. Primeiro tentaram patentear as sementes. 97% das sementes transgênicas servem mais para as multinacionais venderem seus herbicidas e produtos químicos. Quem quer impor os transgênicos quer acabar com 12.000 anos de evolução das sementes. Estão preparando também a semente exterminadora do futuro, a que gera sementes estéreis. Uma equação matemática necessária hoje é TERRA + SEMENTE NATURAL = SOBERANIA E SEGURANÇA ALIMENTAR. Enfim, sem semente natural não há alimentação de qualidade, nem povo e nem nação.

Semente transgênica é fruto do cruzamento de espécies diferentes para gerar um novo ser. Por exemplo, amendoim com camarão resulta em um amendoim com gosto de camarão. As sementes transgênicas assassinam a biodiversidade, oferecem grandes riscos à saúde e são monopólios das multinacionais. A multinacional Monsanto é proprietária de 70% das sementes transgênicas no mundo e 30% da Monsanto está no Triângulo Mineiro, em Minas Gerais. Quando encontramos nas embalagens a informação “LU” é porque tem algum elemento transgênico no produto.

Ao lado das grandes riquezas que são produzidas, a degradação ambiental cresce em uma progressão geométrica. Vivemos numa sociedade abortiva e cada vez mais violenta e cínica. O Grande desafio será garantir de fato o direito à reprodução, à gestação, ao nascimento e a manutenção de uma vida digna e feliz com justiça social, educação e promoção da cidadania.

A humanidade vive uma das maiores encruzilhadas da história humana. Das duas uma: ou nos salvamos todos ou pereceremos todos. Desta vez não haverá uma arca de Noé para salvar um casal de cada espécie. "Ou o ser humano se torna o anjo protetor da Mãe Terra e da Irmã Água ou ele será o anjo exterminador da nossa única casa comum, o planeta Terra". Ou recriamos a vida com relações e estruturas de fraternidade ou vai acontecer a extinção da raça humana com uma infinidade de outras espécies. [4]

Leonardo Boff, de modo muito incisivo e profético, vem alertando para a necessidade de se articular, de forma integrada, as lutas sociais e ecológicas. Nosso modo de produção capitalista, o mais insustentável de todos, está assassinando a Terra, nossa única casa comum, que é viva, sagrada e nossa mãe. É hora de colocarmos em prática A CARTA DA TERRA, uma das melhores páginas escritas nos últimos tempos, já assumida pela UNESCO. A luta continua para que a ONU a assuma com autoridade equivalente à Declaração dos Direitos Humanos. Eis um imperativo vital: cuidar de todo ser vivo. Deve reinar em nossos corações a integridade e uma justiça sócio-cósmica. Nós somos parte da terra. Entramos e saímos da vida o tempo todo.

A CARTA DA TERRA, que é a Bíblia do planeta Terra, nos mostra que a Terra é viva. Devemos partir das revoluções moleculares, começando a partir de nós mesmos. Queremos paz perene com compromisso, mas não pacificação. Diálogo consigo mesmo, com o outro, com os antepassados, com o futuro, é o que descortina novos horizontes. Isso implica superar a idéia de que o ser humano foi colocado na terra para dominar e subjugar toda a criação.

Os astronautas, ao contemplar a Terra de fora dela, exclamaram: “É pequena. Cabe na palma da nossa mão. Olhando de cima, não há distinção entre humanidade e Terra. É uma coisa só.” Essa visão está em consonância com o relato da criação que diz que o ser humano foi criado do barro. O nome Adão vem de Adamah (= terra fecunda). Somos terra fértil, húmus. O nome Adão quer dizer “filho da terra fértil”. Há uma grande unidade em tudo. Pouco mais de 100 elementos constituem tudo. Somos um elo vivo da grande rede da vida. Das bactérias até nós todos, temos os mesmos elementos. Somos um alfabeto vivo: cada letra só tem sentido unida com outras. Somos todos interdependentes. A nova física e a física quântica nos ensinam que “tudo no universo tem a ver com tudo em todos os pontos. Há uma inter-retro-dependência. Dependemos uns dos outros, entre nós, de trás pra frente e de frente para trás. A comunidade de vida, composta por humanos e não humanos, forma um organismo único, universal.

2) Resgatando a Teologia da Criação

Para captar as luzes e forças de Gen 1- 3 é preciso também deixar nossa luz poética brilhar.
Contemple a beleza de um pavão e a do Arco-íris!
Contemple a força de um touro e a de um sertanejo!
Contemple a coragem de um leão e a dos Sem Terra!
Contemple a ternura de uma criança e a de uma flor!
Contemple a esperança de um mandacaru e a do povo simples!
Contemple a solidariedade das formigas ao desfolhar uma laranjeira!
Contemple a perseverança de um João de Barro que constrói a casa de “grão em grão”!
Saboreie a delícia de um doce de leite!
Deleite-se com um abraço cheio de fraternura!
Deixe seus olhos admirar as coisas mais belas e genuínas!
Feche os olhos para ver o que realmente é essencial: o invisível!

Reler o livro de Gênesis, capítulos de 1 a 3, pode ajudar o ser humano a impor limites à competição e reforçar a dimensão da cooperação e do cuidado. Cuidar uns dos outros para exorcizar o medo.

Os relatos da Criação, no livro de Gênesis, estão em uma linguagem simbólica. Podem ser considerados contra-mitos, isto é, mitos usados para “explicar” as origens e responder a mitos mistificantes dos povos vizinhos. Mito não é algo que não existe. Trata-se de uma tentativa de explicar o difícil de ser explicado. Por isso usa uma linguagem simbólica.

Há tribos indígenas que contam o seguinte mito para explicar o nascimento da lavoura na roça: O pai ia pescar. Ao voltar, a filha sempre perguntava: “O que pescou, papai?” O pai respondia assobiando. A filha disse à mãe: “Cave a terra e me enterre até o pescoço.” Após sete dias, o pai, estranhando o fato de a filha ter sido semi-enterrada, voltou no local e, surpreso, constatou que a menina semi-enterrada tinha se transformado em uma roça de todos os tipos de cereais, verduras e frutas. Assim nasceu a roça, revelando a ligação umbilical entre a terra e a mulher.

Uma índia, ao arrancar a mandioca, conversa com a planta, um ser vivo. Não há separação entre nós e o “meio ambiente”. A comunidade de vida, composta por humanos e não humanos, forma um ambiente inteiro.

O final do primeiro relato da criação (Gen 1,1-2,4a), diz: “no sétimo dia Deus descansou.” Esse repouso sabático é o símbolo da libertação interior e deve ser vista de forma articulada com a narrativa bíblica do livro do Êxodo que retrata a luta pela libertação exterior. Lutar e descansar e vice-versa, eis os dois pólos da libertação integral que está em curso: libertar-se das opressões externas e superar os limites internos.

“Paraíso terrestre é saudade ou esperança?”, pergunta Carlos Mesters. Mais do que algo do passado, trata-se de algo que existe no presente, de forma ambígua e em meio a conflitos, mas é primordialmente algo do futuro. Com lutas de transformações construímos esta esperança. Deus é apaixonado pela humanidade e por todas as criaturas terrestres. Por isso veio morar conosco. Deus não é transcendente, mas trans-descendente Ou seja, Deus não está lá longe, no alto para além das nuvens, mas Deus habita em nós, nas relações humanas e ecológicas. O divino está no humano. A transcendência está na imanência. Javé ouve o clamor e desce para libertar (cf. Êxodo 3,7-10). Através da humanidade e de todas as criaturas, Deus cria “novo céu, nova terra” (Isaías 65,17-25). Deus assume a condição humana, nascido de mulher, humano que se tornou divino, pois foi muito humano (Gal 4,5). No final da Bíblia, a transdescendencência de Deus continua sendo afirmada: “Deus desce dos céus, arma sua tenda e mora entre nós” (Ap 21,1-5).

“No início (bereshit, em hebraico) criou Deus ...” (Gen 1,1a). Assim abre-se a Bíblia. Normalmente se entende a primeira palavra da Bíblia de forma temporal, cronológica, como se tivesse tido um início a partir do nada e em tal data. Essa interpretação tem alimentado um conflito artificial entre Criação e Evolução. Darwin tem sido satanizado e incompreendido pelos adeptos da “teoria da criação”. A questão não é criação ou evolução, mas criação na evolução. A palavra bereshit (= no início) é difícil de ser traduzida, pois é “início, começo, cabeça”, mas não no sentido temporal, cronológico. Trata-se de “início, começo” no sentido qualitativo, no mais profundo das relações da teia da vida. Temos que trazer à mente a distinção que os gregos fazem na idéia de tempo: chronos (tempo físico quantitativo, sucessão dos fatos) e kairos (tempo qualitativo, o divino tocando o humano, a graça contagiando tudo). O autor bíblico não quis estabelecer uma oposição entre Criação e Evolução, pois falou de “início” no sentido de algo profundamente qualificado tocando a evolução. A criação se dá na evolução. O dedo de Deus toca tudo. Tudo está permeado e perpassado pela dimensão divina. Evolução é a criação continuada, continuamente acontecendo.

O movimento negro que luta contra o racismo diz “nosso início não está nas senzalas, mas na liberdade da África”. O autor bíblico queria dizer: “no início está a criação, o espírito de Deus presente e envolvendo tudo. Não começamos no pecado, mas na liberdade da maravilha da criação, que se dá na evolução. Evolui-se criando e cria-se evoluindo.

Outro equívoco é considerar “criação” como fazer algo a partir do nada. Essa é uma idéia filosófica grega, que distorce o sentido bíblico do criar. Cria-se a partir do caos. “No início estava o caos, a terra sem forma e vazia”. O Big Bang produziu um caos e o cosmos se faz a partir da organização do caos. O caos não é só caótico, cria cosmo, ordem bela e harmonia.

“O Espírito (ruah, em hebraico) “pairava” sobre as águas” (Gen 1,2b). É difícil traduzir o termo merahepet, em hebraico) pois “pairava” dá a entender que é algo que vem de cima e que atua de fora. Não é esse o sentido. O sopro divino (ruah) “agitava, revolvia, sagazeava, bailava, tocava, acariciava, abraçava, envolvia, chocava” as águas. Javé respirava nas águas. Namorava as águas, talvez possamos dizer. Trata-se de algo intimamente ligado às águas. Agitava de dentro para fora. Ruah e água não são duas realidades. Trata-se da mesma realidade sob ângulos diferentes. São “carne e unha”, inseparáveis. Em Gen 1,2b “água” é símbolo da realidade. Tudo é água, pois água está em tudo. Logo, não podemos entender água apenas no sentido físico. O autor bíblico quer dizer que o espírito de Deus está em tudo, permeia e perpassa tudo. Em tudo está uma aura de divino, de sagrado. Existe água não só nos rios, mas em tudo há água, em todos os corpos, em todos os seres vivos. A terra é um grande ser vivo, chamada por muitos de Gaia. Todos os seres vivos integram, mantendo identidades próprias, em uma grande sinfonia, o ser maior: o planeta Terra.

A Criação é boa, é muito boa [5], é beleza, é o ato primeiro. E Deus viu que a luz era boa, a terra, as águas, o firmamento, plantas, verduras, árvores frutíferas. Tudo é uma beleza e irradia a luz e a força divinas.

No primeiro relato da criação (Gn 1,1-2,4a) se repete, inúmeras vezes, a palavra “terra”. 12 vezes em Gn 1; 57 vezes em Gn 1-11). Isso é forte indício de que o texto foi escrito por um povo na época em que estava longe da terra, no exílio da Babilônia (587-538 a.C.). Sentindo a falta de terra que era sinal da bênção de Deus, o povo resgata as origens revelando um grande encantamento e reverência pela terra. Sente-se filho da terra.

Na teologia tradicional e na prática pastoral, por séculos e séculos, se enfatizou demasiadamente, quase absolutizando, a exortação de Gen 1,26 onde Deus diz: “Façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança e que ele domine sobre todos os “animais””. Uma interpretação ao pé da letra deste versículo resulta em vários problemas.

Primeiro, não é somente o ser humano que é “imagem e semelhança” de Deus. É claro que há uma distinção e especificidade entre os seres humanos e os outros seres vivos, mas há beleza, grandeza e graça divina em todos os seres criados por Deus. Urge superarmos o antropocentrismo que tem feito tantos estragos à história humana.

Segundo, a exortação para que o ser humano “domine vários seres vivos” – não todos - não pode também ser entendida no sentido de subjugar, dominar e tiranizar sobre todos e tudo. A “dominação” é circunscrita, não é sobre tudo e muito menos sobre todos os seres vivos. [6] Além do mais, temos que recordar a ênfase dada na segunda versão sobre a criação (Gen 2,4b-25) sobre o “cultivar, pastorear, ser jardineiro”. Olhando a totalidade das duas versões da criação (Gen 1,1-2,4a e Gen 2,4b-25) temos que concluir que o espírito de Deus pede cuidado, pastoreio e manuseio responsável sócio-ecológico e jamais incentiva a dominação e a depredação como, infelizmente, o modelo capitalista de desenvolvimento vem fazendo.

Em terceiro lugar, temos que observar que há outras exortações de semelhante importância, como, por exemplo: “Haja um firmamento” (Gen 1,6). Em uma linguagem atualizada, provavelmente, possamos dizer no espírito do texto: Haja camada de ozônio que proteja a humanidade e todas as criaturas que estão no planeta Terra. Reduza-se em 50% as emissões de gás carbono e dióxido de carbono que estão causando uma enorme mudança climática. Que não seja submerso o que Deus criou como terra para o habitat para o ser humano e todos os outros seres vivos da biodiversidade. Em palavras dos nossos tempos: que não se represem as águas gerando barragens e lagos enormes que já atingiram e expulsaram mais de 1.000.000 de famílias. Que se repense o modelo energético e se diversifiquem as fontes geradoras de energia. [7]

“Que a terra verdeje de verdura: ervas que dêem semente e árvores frutíferas que dêem sobre a terra, segundo sua espécie, frutos contendo sua semente” (Gen 1,11). Temos aqui, em tom poético, a descrição do sonho-projeto de Deus: uma biodiversidade rica, uma exuberância de plantas, verduras e frutas de todas as espécies naturais nascendo e crescendo em uma grande sinfonia dos ecossistemas. Aqui temos, indiretamente e implicitamente, uma crítica contundente às sementes transgênicas. Temos aqui uma defesa indireta da agricultura sustentável, orgânica e ecológica.

“Que haja luzeiros no firmamento do céu para separar o dia e a noite; que eles sirvam de sinais, tanto para as festas quanto para os dias e os anos” (Gen 1,14). Ou seja, sigam o ritmo natural de dia, tempo para trabalhar; noite, tempo para repousar. Não acabemos com este ritmo como está acontecendo nas cidades grandes onde muita gente é forçada a trabalhar de noite e nos domingos e dias de festas.

“Fervilhem as águas um fervilhar de seres vivos e que as aves voem acima da terra, sob o firmamento do céu” (Gen 1,20). Para isto é preciso tratamento de esgoto, reconstituição das matas ciliares, freio à agricultura do agronegócio que joga herbicidas e fungicidas de forma indiscriminada sobre as plantações, cujo destino final é sempre os veios d’água, controle também da mineração depredadora que joga resíduos minerários – metais pesados – nas águas dos rios. Tudo isso dizima a exuberante fauna aquática defendida pelo sonho-projeto de Deus.

Estudo publicado pela Revista Science comprova a diminuição da biodiversidade nos oceanos e alerta que isso é uma ameaça à humanidade. "A perda da diversidade marinha está impedindo cada vez mais a capacidade de os oceanos proporcionarem comida, manterem a qualidade da água e de se recuperarem de perturbações.” Segundo o estudo, todas as espécies marinhas selvagens que são pescadas hoje em dia entrarão em colapso (termo que significa o desaparecimento de 90% dos exemplares) até 2050, caso não sejam tomadas medidas para evitar isto. “A menos que mudemos de forma fundamental a maneira como administramos todas as espécies oceânicas, este século será o último de espécies marinhas selvagens", declarou o professor da Universidade de Stanford (EUA) Steve Palumbi, um dos autores do estudo. Um dos dados mais alarmantes é que 29% das espécies pescadas tinham entrado em colapso, em 2003. [8]

Em Gênesis de 1 a 7 repete-se 19 vezes expressão “segundo sua espécie”. Aparece em “semente, segundo sua espécie; ervas e frutos, segundo sua espécie; aves segundo sua espécie; animais, segundo sua espécie; tudo o que vive, segundo sua espécie”. [9] Esta insistência em enfatizar a beleza e a grandeza da biodiversidade demonstra o sonho de transfigurar a terra e transformá-la em um jardim, rico em biodiversidade, sendo o ser humano um jardineiro, cuidador de todos e de tudo.

O primeiro relato da Criação (Gen 1,1-2,4a) mostra o ser humano profundamente ligado, inter-conectado, a todas as criaturas do universo. De uma forma poética, o relato bíblico insiste na fraternidade de fundo que existe entre todos os seres vivos que são uma beleza. Deus, ao criar, sempre se extasia diante de todas as criaturas e exclama: “Que beleza! Bom! Muito bom!” O poeta cantor e compositor das Comunidades Eclesiais de Base, José Vicente, capta muito bem a mística que envolve, permeia e perpassa todo o relato da Criação: “Olha a glória de Deus brilhando ...”, em todos e em tudo.

O segundo relato da Criação (Gen 2,4b-25) mostra o ser humano intimamente ligado com a terra e com as águas. “Não havia nenhuma vegetação, porque Javé Deus não tinha feito chover sobre a terra e não havia homem para cultivar o solo.” (Gen 2,5). Dois seres imprescindíveis e inter-dependentes para que o mundo se transforme em um paraíso com sócio-biodiversidade: água e ser humano. A água, junto com a terra, é a mãe da vida. Sem ela, tudo morre. Assassinar uma nascente, poluir um rio, deve ser considerado crime hediondo de lesa pátria. O ser humano é outro ser imprescindível, mas como cultivador, jamais como explorador e depredador.

“Um manancial brotava da terra” (Gen 2,6). Essa afirmação revela a íntima relação entre terra e água que é como “carne e unha”. Uma não pode existir sem a outra. A água é o sangue da terra: Gaia, grande ser vivo. “Javé Deus esculpiu o ser humano com a argila do solo.” (Gen 2,7). Além de ser mãe das águas, a terra, umedecida e fertilizada pela água, aparece também como mãe do ser humano. No princípio era a água e a terra; e a água e a terra se tornaram “carne”: criaturas todas do universo. Não somos apenas filhos e filhas da água e da terra. Somos mais. Somos água e terra que sente, que canta, que pensa, que ama, que deseja, que cria ... Deus cria a partir das águas e da terra. Só podemos ser co-criadores a partir das águas e da terra. Quem não defende, respeita e não tem uma relação de veneração e de encantamento para com as águas e a terra não pode ser criativo. Estará jogando no time dos assassinos da nossa mãe, irmã e nosso próprio ser: a água e a terra. Somos tão filhos/as das águas e da terra quanto somos filhos/as de Deus.

A água está relacionada com os principais eventos fundantes do povo da Bíblia: na criação, no dilúvio, Moisés salvo das águas, transgressão na águas de Meriba, na saída do Egito, na entrada da terra prometida, batismo de Jesus, na Nova Jerusalém.. [10] Qualquer projeto bíblico só se sustenta perto de fontes de água, de rios ou cisternas. Na Bíblia há uma associação da água com a Palavra de Deus. Ao povo Deus deu água de beber de um rochedo, e durante 40 anos, lhe garantiu o pão de cada dia e a água para beber. Hoje, mesmo mantendo características semi-rurais, 80% das pessoas vivem na cidade ou nas periferias e vêem água só na torneira ou no chuveiro, mas já se sente a necessidade de preservar as nascentes, mananciais, córregos e rios existentes, pois na água está o princípio da vida.

Segundo o relato bíblico de Gn 2,1-10.15 a terra é vocacionada para ser um jardim de Deus e o ser humano, um jardineiro. Para povos de regiões áridas, a primeira obra de Deus foi viabilizar a chuva sobre a terra e irrigar uma região quase desértica. Um dia, a falta da água gerou a seca e a fome em toda a região de Canaã. Os hebreus foram obrigados a migrar para o Egito (Gn 47). Lá se multiplicaram e foram oprimidos pelo império dos faraós (Ex 1). Os hebreus escravos gritaram a Deus e este veio libertá-los, conduzindo-os da escravidão para a terra da liberdade, passando pelo Mar Vermelho que se abriu em duas partes, deixando-os passar, em meio às águas, a pé enxuto (Ex 14). Fato semelhante aconteceu quando, mais tarde, conduzidos por Josué, os hebreus, já reunidos no mesmo povo israelita, atravessaram o rio Jordão, a pé enxuto, para entrar na posse da terra de Canaã (Js 3-4).

Devemos nos espelhar na hospitalidade de Abraão que oferece água para que seus hóspedes possam lavar os pés (Gn 18,1-5); na solidariedade de Jacó que tira a pedra do poço para que Raquel possa dar de beber a seu rebanho (Gn 29,10); na decisão de Moisés de garantir o direito à água para as filhas de Jetro (Ex 2,16-17); na generosidade da viúva de Sarepta que, em plena seca, não hesita em dar ao profeta Elias um copo de água e um pedaço de seu último pão (1Rs 17,10-11); na coragem de Abdias, intendente do palácio do rei Acab, que, mesmo temendo a ira do sistema monárquico, alimenta os profetas com pão e água (1Rs 18,4); na sabedoria do profeta Eliseu que torna potáveis as águas para uso do povo (2Rs 2,19-21) e que manifesta sua força curando, no Jordão, a lepra do sírio Naamã e fazendo boiar o machado que tinha caído no rio (2Rs 5,15; 6,6); na ousadia de Judite que sabe burlar a vigilância dos soldados inimigos que controlavam as fontes de águas querendo derrotar o povo pela sede (Jt 7,13-14; 12,7-9). Ao procedermos assim, na gratidão pela água, tornamo-nos água viva. “Aquele que me segue, de seu íntimo jorrarão rios de água viva” (Jo 7,38).

3) Uma leitura libertadora do “pecado de Adão e Eva”

A partir da Teologia da Criação podemos re-interpretar o episódio do pecado original em chave psicológica, social, filosófica e antropológica, a qual nos levará a uma compreensão do comportamento de Eva e Adão. O relato bíblico, comumente entendido, como pecado original é, na verdade, um relato simbólico que quer falar do processo de maturação pelo qual todos nós somos convidados a passar. A Bíblia testemunha a defesa de Javé, Deus da vida, solidário e libertador, e denuncia com veemência todos os ídolos que se apresentam como sendo deuses, com aparência de Deus, mas na realidade não são. Aquele "deus" que proibiu os seres humanos de comer do fruto da árvore do conhecimento queria que os humanos se mantivessem sempre na fase infantil, sempre submissos e dependentes para que deus pudesse ser onipotente, todo poderoso. Mas a mulher (Eva) se rebelou contra a idéia de ficar sempre infantil e dependente, quis crescer, ganhar autonomia. Por este prisma devemos ver que em Gn 2,4b-3,24 temos um relato simbólico que trata do amadurecimento humano no nível pessoal e social. Devemos enterrar a idéia de pensar teologicamente a partir do pecado (original). Este é ato segundo, induz-nos ao pessimismo, a complexos de culpa. Devemos fazer Teologia a partir do Ato Primeiro que é a Criação, fruto bom e gratuito do infinito amor que Deus tem por nós e por todas as criaturas.

3.1) Notas exegéticas que ajudam na interpretação de Gen 1-3

Gênesis 1 a 3 não pode ser lido com um relato histórico empírico e pontual que descreve os primeiros dias da humanidade. Trata-se de uma “parábola” como uma metáfora narrativa que exprime uma substância histórica profunda, porém, sem estabelecer referências pontuais a personagens, lugares e tempos. Em roupagem mítica se reflete sobre a realidade histórica vivenciada pelo povo da Bíblia. Não se trata de uma biografia de Adão e Eva.

Gen 3 não pode ser visto separado de Gen 2 e de Gen 1. É preciso observar o conjunto refletido nos três capítulos. Gen 2 e 3 não foram escritos no século X a.E.C, como se pensa tradicionalmente, mas devem ter sido escritos entre os séculos IV e III a.E.C., pois um texto tão rico e importante como esse, se tivesse sido escrito em um tempo tão antigo, teria sido conhecido e freqüentemente citado. Pelo contrário, referência a Gen 2 e 3 só aparece em Eclo 17,1-11 e em Sab 2,23-24, textos deuterocanônicos escritos entre os séculos IV e III a.E.C. Somente a partir desse momento o relato de Adão e Eva se torna importante e começa a aparecer nos diversos escritos apocalípticos escritos na passagem do Primeiro para o Segundo Testamento.

Gênesis 1 aparece como um texto de alegria e glória, no qual um Deus grande, na soberania da sua presença “no início” de todas as coisas, cria o céu, a terra e a luz, antes de fazer tudo o que existe. Em Gen 1 o nome “Javé” não aparece, apenas um “Eloim”, Deus. Em Gen 2 se refere a Deus como “Javé”. Saber o nome de alguém dá um certo poder e indica uma certa proximidade. A cultura moderna obcecada com a privacidade defende o direito de não oferecer o nome se não diante de total liberdade nas relações familiares e de amizade, ou sob exigência judicial. Chamar Deus como “Javé” é certamente um passo rumo a uma relação familiar com a divindade, mas também inclui o risco de manipulação. Jesus não permitiu a si mesmo dar um nome da Deus, somente “pai”. Dar um nome significa conhecer, “pegar”, mas Deus é mistério inaferrável.

Em Gen 1 o verbo “criar” é usado nos momentos mais solenes, é o verbo da grande criação de Deus: céu e terra, mar e montanha, coisas maravilhosas e o ser humano. Em Gen 2 e 3, diferentemente, omite-se o verbo “criar” e fala somente do “fazer” de Javé, ou de “formar, fazer surgir, plantar, colher, estabelecer”.O Deus majestoso de Gen 1 que cria com a força da sua palavra e do seu sopro, que “respira sobre as águas do início”, se tornou, em Gen 2-3, um artesão que elabora minuciosamente sua obra.

Em Gen 2 se insiste sobre a ligação do ser humano com a terra [11]. Como não havia ninguém para cultivar a terra (Gen 2,5), “formou Javé Deus o ser humano, pó da terra” (Gen 2,7). Em Gen 2,19 os animais são colocados na mesma dignidade do ser humano, são também “formados da terra”. A estreita relação do ser humano com a terra já tinha sido colocada em relevo na disposição divina de por o homem no jardim para trabalhá-lo e cuidá-lo (Gen 2,15) e será acentuada ainda em Gen 3,17.19 e em Gen 3,19 (o retorno do homem ao pó da terra) e enfim em Gen 3,23 no mandado para trabalhar a terra. Em Gen 1, o ser humano é “senhor de tudo”; em Gen 2, servo e cuidador da terra.

Se a “terra” é um termo que faz o fio condutor do relato de Gen 2 e marca a diferença com Gen 1 que tem o verbo “criar” como condutor da criação das “grandes coisas”, em Gen 3 parece ser a “nudez” [12] do ser humano o que adquire valor primário.

A serpente aparece em Gen 3 como uma sábia mestra da humanidade, que leva o ser humano a assumir a sua responsabilidade, direitos e alegrias como um ser sexuado, libertando-se de uma interdição que o reduzia a uma condição infantil. A serpente não mentiu nas suas duas afirmações. De fato, o homem e a mulher não morreram imediatamente por terem comido da árvore. Por outro lado, que antes de haver comido da árvore tivesse sido previsto um estado de imortalidade, o texto não diz. Também o homem e a mulher passam a conhecer o bem e o mal, como Javé reconhece em Gen 3,22. E neste sentido se tornam “como Deus”.

Se tudo é assim, quem é bom e quem é mau neste relato? (A serpente é boa e “Javé”, o opressor?) Em que consiste a transgressão? (Sair da infantilidade é transgressão?) O texto deve ser lido como um relato de transgressão? Se não, qual é o sentido de Gen 2 e 3 no conjunto da Bíblia e da fé cristã?

3.2) Gn 2,4b-3,24: Um relato simbólico sobre o amadurecimento humano

Com freqüência se diz que Gen 2,4b-3,24 trata da experiência da origem do mal, e de como o ser humano, criado bom por Deus, se tornou mau por causa de fatores externos à criação de Deus, o mal encarnado na serpente. De forma tradicional o “pecado de Adão e Eva”, considerado pecado original, tem afirmado o poder de Deus e aniquilado o ser humano, além de despejar nas costas das mulheres as culpas por muitos males que afligem a humanidade. Em chave moralista e apocalíptica [13] se diz que Eva e Adão pecaram, porque desobedeceram a Deus e por isso foram castigados com a expulsão do paraíso.

O apóstolo Paulo, preocupado em afirmar o caráter libertador e salvífico de Jesus Cristo, acabou reforçando a culpabilização de Adão. Disse, se referindo a Adão, que “por um homem entrou o pecado no mundo e por Jesus Cristo entrou a salvação.” (cf. Rom 5,12-21). Importa recordar que Paulo não estava interessado em difamar Adão, mas em exaltar o testemunho de Jesus de Nazaré. Disse também que a serpente enganou Eva (2 Cor 11,3). Nossa reflexão visa perceber outro sentido em si da narrativa. Deixemos o texto falar, abandonando, pelo menos por um momento, a visão preconcebida já bastante disseminada e que polui o texto.

O ser humano de Gen 2-3 não nos parece, inicialmente, “bom” e nem social, mas simplesmente ignorante sobre o que seja a vida humana.

A interpretação do “pecado e queda” não é mencionada em nenhum outro lugar na Bíblia, particularmente nos profetas. Somente a partir do 3° século, antes da era cristã, e daí para frente é que a interpretação tradicional do “pecado original de Adão e Eva” começa a vir à tona. Logo a interpretação do “pecado e queda” não é original do texto. Trata-se de um verniz colocado posteriormente no texto. Ao repintar a casa mudaram a cor das paredes. A cor original desapareceu e a nova cor passou a ser considerada como se fosse original. Devemos recordar que o povo da Bíblia, historicamente, tinha uma “orientação grupal”, isto é, primava pela vida comunitária, grupal e social que se dava na família, no clã e na tribo. Com o passar do tempo, pouco-a-pouco foi surgindo uma “orientação individual”, isto é, a particularidade de cada pessoa começou a ser valorizada até chegarmos ao individualismo com o renascimento, no início da era moderna.

Cientistas sociais concordam que o povo do Primeiro Testamento bíblico era predominantemente de orientação grupal (cf. M. Douglas). Via-se a comunidade. A identidade pessoal era quase despercebida. Por exemplo, o decálogo se dirigia ao povo e não apenas a cada pessoa individualmente. Logo, a sociedade e suas instituições não podem matar, nem roubar, nem enganar, nem adulterar. Com o passar do tempo, houve uma privatização do decálogo, reduzindo-o a dez mandamentos. Além de mudar o foco para a moralidade, começou-se a aplicar os princípios do decálogo às pessoas individualizadas. Isso trai completamente o sentido do decálogo.

Em uma sociedade de orientação grupal, a vida e a salvação vêm através da continuação biológica da vida gerando crianças. Assim o casamento e a família são altamente valorizados e, logicamente, as relações sexuais. Encara-se com naturalidade a relação amorosa entre homem e mulher, passando pela relação sexual.

É necessário superarmos muitos dualismos ocidentais, oriundos de uma determinada interpretação da filosofia grega. Por exemplo, vida e morte são duas faces da mesma moeda. Trata-se de um processo de separação ou de diferenciação. Se o filho não se separa da mãe, se não se corta o cordão umbilical, não empreende respiração no mundo e não adquire autonomia e identidade própria. A semente, ao morrer, faz nascer de si um novo ser vivo que continua o ciclo da vida. O nascimento se dá com a separação entre o filho e a mãe, e na morte se dá a união com a terra-origem. Se não se morre para o ventre materno, não se nasce para o ventre da mãe Terra.

A palavra hebraica “’eden” significa “prazeroso, delicioso”. Sugere mais uma situação prazerosa do que um lugar geográfico. Em Gênesis 2,8 se diz que o jardim está a “leste”, no oriente, simbolicamente do lado do início do dia. Em tom simbólico o texto parece sugerir que o jardim da vida está na infância, isto é, do lado do raiar da vida. Logo, falar de jardim é muito mais simbólico que real.

“Javé Deus tomou o ser humano e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar” (Gen 2,15). Em outras palavras, Deus quer que o ser humano viva de forma intensa e prazerosa cultivando e protegendo sua única casa comum. “Podes comer de todas as árvores do jardim, exceto uma: a árvore do conhecimento do bem e do mal” (Gn 2,17). Aqui cabe precisar algumas coisas. A proibição é somente com relação à árvore do conhecimento do bem e do mal. Devemos perguntar: Discernir entre o bem e o mal é algo positivo ou negativo? Quem proíbe?

“Conhecer o bem e o mal” não quer dizer se tornar como Deus. Parece tratar-se de um conhecimento intelectual, ético, experiencial e discernimento afetivo-sexual. Algo positivo, desejável para todo ser humano. Quando aparece, na Bíblia, a expressão “conhecer o bem e o mal” refere-se, normalmente, a uma capacidade humana, desejável aos filhos do povo (cf. Dt 1,39). As crianças devem crescer e chegar à capacidade de discernir entre o bem e o mal (cf. Is 7,15-16). Nunca é procurar além dos limites da possibilidade humana. "Comer da Árvore do Conhecimento" é preparação crítica para a vida fora do jardim, no mundo dos adultos onde ambigüidades e contradições são constantes. Sendo uma coisa positiva discernir entre o bem e o mal, certamente quem se apresenta para proibir algo bom parece ser Deus, mas, na realidade, é um ídolo. Em muitas passagens bíblicas se fala da necessidade de discernir a voz de Deus. Abraão, por exemplo, caminhou três dias, levando consigo seu filho único Isaac, pensando que Deus pedia o sacrifício do próprio filho, mas, ainda em tempo, percebeu que se tratava da voz de um ídolo e que o Deus da vida gritava em sentido contrário: “não levante a mão contra seu próprio filho. Não lhe faças nenhum mal.” (Gen 22,12aa). Assim Isaac foi salvo. É provável também que em Gen 2,4-3-24 se dê a passagem da voz de um ídolo, disfarçado de Deus, para Javé, o Deus solidário e libertador que quer a humanidade caminhando com as próprias pernas, sem infantilismo.

Em uma linguagem simbólica alegórica, os quatro rios - Fison, Geon, Tigre e Eufrates -, além de fazer referência a todo o mundo conhecido na época, simbolizam toda a terra (cf. Gn 2,10-14).

Deus cria a mulher a partir do homem, enquanto este dorme (Gn 2,21-24). O sono simboliza a morte, demonstra a dinâmica essencial da vida: vida que nasce da morte. O sono também indica que a criação da mulher não teve a participação ativa e consciente do homem. Isto reafirma a igualdade original entre homem e mulher.

Em sociedades de orientação grupal, como no Israel bíblico, a vergonha é o mais forte meio de controle social. Uma pessoa envergonhada é uma pessoa diminuída e acuada. Vergonha não era uma questão moral oriunda da sexualidade, mas se sentia vergonha por uma derrota militar (cf. Jz 20,18-28) ou por um empreendimento frustrado. Historicamente o povo está nu, envergonhado, não por uma questão moral-sexual, mas por ter sido deportado, exilado e oprimido. A “vergonha” na Bíblia é o sentimento de quem ficou desiludido, vencido e pisado.

"O homem e sua mulher estavam nus, porém não sentiam vergonha" (Gn 2,25). O que é central no relato não é a vergonha, mas a descoberta (algo positivo) da nudez, isto é, encontrar-se a si mesmos. O homem e a mulher deixaram o estado infantil e se tornam adultos. Somente na fase da infância o homem e a mulher não se envergonham de estarem nus. As crianças não são ainda socializadas o suficiente para perceber as implicações da nudez pública. A mudança da não vergonha para a vergonha, enquanto nus, indica que ele e ela estavam na adolescência (cf. Gn 3,7). Até o século III a.C. a nudez não era considerada um símbolo do mal, tentação, sedução, pecado sexual. O dominicano Pe. Carron dizia que, para os povos indígenas, pudor era valorizar o corpo nu e pintá-lo, enfeitá-lo. Vestir o corpo é impudor.

3.3) A serpente não é o demônio

Para entendermos bem o relato de Adão, Eva e a serpente, temos que passar uma borracha na interpretação fundamentalista e dualista que associa automaticamente a serpente ao diabo, ao demônio. Essa leitura é muito posterior ao texto e está contaminada por uma visão dualista que vê o diabo, o satanás, como se fosse um deus negativo que compete com o Deus verdadeiro. O Primeiro Testamento Bíblico, sem os livros deuterocanônicos, não estabelece nenhuma relação entre a serpente do Gênesis e “satã”. Somente no último livro do Primeiro Testamento, a Sabedoria, escrito em grego por volta do ano 50 a. C., se faz a ligação da serpente com o diabo (Sab 2,24).

Satanás (satã, em hebraico) ou diabo (diábolos, em grego) não são entes abstratos, um deus negativo que faz oposição ao Deus da vida. Satanás (diabo) é tudo o que divide, separa, desune, oprime, exclui, discrimina e depreda. Pode ser uma dimensão interior nossa, mas em uma sociedade capitalista neoliberal como a nossa, trata-se prioritariamente de estruturas e instituições que oprimem, excluem e depredam a natureza. Por exemplo, podemos dizer que o agronegócio, a mineração depredadora, a monocultura do eucalipto (e tantas outras) e o modelo de desenvolvimento capitalista são realidades satânicas, pois concentram riquezas em poucas mãos, expulsam os pequenos do campo e depredam o meio ambiente, o santuário da biodiversidade.

A serpente é rápida como um raio, é astuta (‘arûm, em hebraico), espécie de sabedoria prática, representa habilidade na linguagem. Já na antiguidade a medicina descobriu que o veneno da serpente, diluído em doses infinitesimais, podia servir de remédio. O veneno da serpente pode ser mortal ou terapêutico. Assim é a vida. Dependendo da forma como é vivida pode ser ocasião de humanização (salvação) ou de perdição. Mitologias e lendas populares consideram a serpente como símbolo cósmico e/ou religioso de vida e de morte. Entre os gregos, os adeptos do deus Príapo acreditavam que o nascimento de um herói provinha da fecundação de uma mulher por uma serpente. A Índia conhece gênios meio homens e meio serpentes (os nâga). Desde a época do budismo, as serpentes são tidas por budistas como “distribuidoras da fertilidade universal”. Há mitos que ligam a serpente à idéia de uma vida que não se acaba. A longevidade atribuída à serpente (por causa das renovações da pele) explica esse simbolismo da imortalidade. [14]

Muitos mitos associam a serpente à idéia de conhecimento e profecia. Ela “conhece todos os segredos e entrevê o futuro”, pois dorme com os olhos abertos, por não ter pálpebras móveis. Assim sendo está sempre vigilante. Enfim, no antigo Oriente Próximo, onde os relatos bíblicos foram escritos, a serpente era tida como símbolo antes de tudo positivo. No livro de Números, a serpente erguida é tida como símbolo de vida. Sob inspiração de Deus, “Moisés fez uma serpente de bronze e a colocou em um poste levantado. Se alguém era mordido por uma serpente, olhava para a serpente de bronze e vivia.” (Cf. Nm 21,4-9). O evangelho de Mateus aconselha: “Sede simples como as pombas, mas astutos como a serpente.” (Mt 10,16).

A serpente renova a casca constantemente, mas tem veneno. Em sociedades agrícolas, como o povo do Primeiro Testamento Bíblico, a serpente é benéfica e ameaçadora, ao mesmo tempo. O povo de sociedades agrícolas não teria a mesma aversão a serpentes que caracteriza muitas pessoas nas sociedades modernas. Em Gn 3,1-5 a serpente é um símbolo de sabedoria ou discernimento, particularmente discernimento do “bem e do mal”. Assim a serpente é um símbolo ideal da oposição das forças da vida. É a serpente que começa o processo da maturação da fase da adolescência (Gn 3,1). É a mulher que interage com a serpente, porque a adolescente feminina começa sua maturação fisiológica mais cedo que o adolescente masculino. Também a mulher tem mais iniciativa e, na maioria das vezes, tem mais preocupação em crescer humanamente. Por isso inspira mais confiança. [15]

Enfim, a serpente aparece mais como parceira de Deus no processo de educação do ser humano do que como instrumento do mal. A punição da serpente é apenas uma recurso literário para manter a estrutura narrativa – três personagens, três punições – ou um sub-produto causado pela narração ou ainda uma concessão a uma polêmica anti-cananéia, onde a serpente era considerada um símbolo do maligno, um ídolo.

3.4) Destaques na narrativa

Gn 3,1-10: A linguagem usada não dá indicação de sedução: a mulher pega, come e dá também para o homem; e este "do mesmo modo" come (Gn 3,6). Mais tarde na conversa com Deus, o homem não indica que a mulher tentou-o ou seduziu-o, mas que ela deu para ele a fruta, do mesmo modo que Javé Eloim [16] deu para ele a mulher (Gn 3,9-12). Não existe argumento que Deus tentou ou seduziu o homem dando a ele a mulher.

Comendo o fruto se realiza um “rito de passagem” no qual a pessoa morre para a fase infantil, passa pela adolescência e nasce para a fase adulta. Não se trata de rebelião, queda ou falta, mas de um movimento natural de maturação, liberdade e realização da identidade. E quanto mais ele e ela entendem a realidade da vida mais ele e ela entenderão Deus.

Gn 3,11-13: Ser adulto é assumir responsabilidades. Ao não assumir responsabilidades o homem e a mulher (Adão e Eva) demonstram a incompletude do processo de maturação, pois quem é maduro assume responsabilidades. Não faz um jogo de empurra-empurra.

Gn 3,14-15: Discernimento da realidade nua e crua da vida familiar. Gn 3,15 mostra a labuta que é a vida; custa suor e exige luta.

Gn 3,16: O que o homem "controla" é o desejo sexual da mulher, não a mulher inteira. Colocar limites é necessário para o crescimento, mas os limites devem ser dosados. As dores sentidas são dores de parto, não estertores de morte. A mulher traz em si mesma a sede de dar a vida, de criar, de amar etc

Gn 3,17-19: À primeira vista estes versículos soam como castigo, mas não são. São apenas o diagnóstico da vida adulta. O homem toma consciência de que a luta pela sobrevivência é dura, custará muito trabalho e suor. O homem se conscientiza também que pertence à Terra, é parte dela. "O homem é pó, e ao pó voltará" (Gn 3,19). O homem se entende como transitório e efêmero. A liberdade é um dos maiores desejos humanos, mas é no provisório, no relativo, no efêmero, que se pode experimentar ser humano.

Gn 3,20-24: Nesses versículos acontece a transição para a fase adulta. A palavra Eva, em hebraico significa mãe “dos viventes” ou “da vida”. Na língua aramaica Eva é Ravah e significa aquela que vê, que compreende, que “tem um sexto sentido”, como diz a sabedoria popular. Esta palavra é usada como título honorífico dado à mulher somente após a “conclusão” do seu processo de amadurecimento. Se conforme a interpretação tradicional, a mulher é responsável por trazer o mal e a morte para o mundo, por que ganharia ela um título honorífico?

Javé Eloim ao fazer roupas para o homem e a jovem, prepara para ele e ela saírem da fase infantil (o jardim) e assumirem o mundo (a fase adulta - cf. Gn 3,21). O salmo 8,4-7 testemunha a grandeza do ser humano, sob a bênção de Deus: “Tu o fizeste pouco menor que um Deus”.

“Javé Eloim expulsou o homem do jardim de Éden para cultivar o solo de onde fora tirado.” (Gen 3,23). Essa “expulsão” aparenta ser um castigo, mas não é. Castigo seria se tivesse jogado o ser humano em uma das prisões brasileiras, onde a dignidade da pessoa, a integridade física e mental e os direitos humanos são pisoteados. Como qual objetivo Deus tirou o ser humano do jardim de Éden? Para cultivar o solo. Eis um motivo nobre. Nem de longe isso pode ser castigo, mas é uma graça. Também no processo de amadurecimento “proibições” são elementos necessários. Uma pessoa só pode conhecer suas possibilidades no momento em que conhece seus limites.

A árvore é “boa para alimentar-se, era bela para ser vista e desejável para adquirir conhecimento”. A proibição recai somente sobre o comer.

3.5) Juntando os fios

No desfecho do relato bíblico sobre o que aconteceu com Adão e Eva, o que era apenas um diagnóstico foi interpretado como castigo. Entender Deus como alguém que proíbe e castiga é contraditório com a idéia de Deus amor.

O processo de amadurecimento sai da infantilidade do jardim (infância: Gn 2,7-9; Infância primeira e média: Gn 2,16-23; adolescência: Gn 3,1-19) e chega ao mundo adulto que Javé Eloim criou para ser povoado por adultos. Forças opostas e a morte fazem parte natural e essencial da vida [17]. Em Gen 2 – 3 Deus, o homem e a mulher amadurecem. O homem rompe sua ligação inicial com o jardim e abraça sua missão: desenvolver-se no mundo. A mulher, que inicialmente aparece como reflexo do homem, amadurece também. E Deus aprende a respeitar os limites de seus direitos sobre o homem e a mulher e descobre que se por amor criou, deve deixar a liberdade vigorar no ser humano, o que implica a possibilidade de errar e ser infiel.

Alguém poderia objetar: como é que fica então o pecado original? Nossa reflexão teve dois objetivos. Primeiro, desconstruir uma interpretação fundamentalista e dualista, que tem justificado colocar a culpa dos males do mundo na mulher como se ela fosse discípula fiel de uma “serpente”, entendida de forma abstrata e a-histórica, como se a causa dos problemas humanos fosse advinda de fora das entranhas da história. Segundo, sugerimos uma releitura do “pecado de Adão e Eva” que quebra tabus e indica a humanidade passando por um processo de humanização. O “pecado”, se é que existe, estaria na ambigüidade da vida humana ou na ambição de conhecer sem limites. O ser humano tem o direito de chegar ao conhecimento do bem e do mal. Conhecer infinitamente, não. A fonte da felicidade está na sabedoria consciente dos limites da condição humana. Somos seres abertos. Sendo livres e profundamente circunstanciados nos deparamos com muitos caminhos. Temos que escolher. Nem sempre as escolhas são as melhores. E, muitas vezes, podem ser condicionadas por sistemas e instituições que ofuscam a escolha. O filósofo Paul Ricoeur diz: “na experiência humana, cada um encontra o mal já presente; ninguém o começa de modo absoluto.” Estamos todos na mesma rede. Ou nos salvamos de forma coletiva ou pereceremos. Não dá para dizer: a vida é uma preciosidade criada por Deus. Que cada um cuide da sua.

O cosmo veio do caos, mas o caos sempre nos acompanha, como um “pecado original”.

Enfim, temos que ouvir os gritos insistentes do ambiente e fazer coro como Leonardo Boff que vem insistindo sistematicamente: “Em nome do desenvolvimento capitalista exploram-se, de forma ilimitada, todos os recursos para que haja mais e mais consumo, sem o qual o sistema econômico-financeiro se afunda. A continuar com a voracidade deste sistema, antes de 2050, advertiu na revista Veja de 25 de outubro do corrente ano, precisaremos de mais de duas Terras para suprir a demanda da humanidade, diz-nos o relatório "Planeta vivo 2006" do Fundo Mundial para a Natureza (WWF). James Lovelock, o formulador da Teoria Gaia - a Terra como super-organismo vivo.: "Até o fim do século é provável que 80% da população humana desaparecerá" em conseqüência do superaquecimento da Terra. E acrescenta o teólogo da libertação: "praticamente todo o território brasileiro será demasiadamente quente e seco para ser habitado". [18]


BIBLIOGRAFIA BÁSICA

1. L. M. BECHTEL, “Rethinking the Interpretation of Genesis 2, 4b-3,24”, in A. Brenner (ed.) A Feminist Companion to Genesis (Sheffield 1993), pp. 77-117.
2. L. M. BECHTEL, “Genesis 2,4b-3,24: a Myth about Human Maturation”, JSOT 67 (1995), pp. 3-26.
3. B. STRATTON, Out of Eden: Reading, Rhetoric, and Ideology in Genesis 2 – 3 (JSOTSS 208; Sheffield 1995).
4. E. van WOLDE, A Semiotic Analisys of Genesis 2 –3. A Semiotic Theory and Method of Analysis Applied to the Story of the Garden of Eden (Assen 1989).

Notas
[1] Cf. Jornal Folha de São Paulo, Caderno Ciência, edição de 25/10//2006.
[2] Cf. www.unisinos.br/_ihu/ - ipcc.ch/meet/meet.html - http://ipcc-ddc.cptec.inpe.br/ipccddcbr/html
[3] Palestra de Sebastião Salgado, no Museu de Artes e Ofícios de Belo Horizonte, em 17/10/2006, na abertura do projeto “Gênesis”, exposição de 40 fotos inéditas feitas por ele.
[4] Cf. BOFF, Leonardo, Do iceberg à Arca de Noé, O nascimento de uma ética planetária, Rio de Janeiro, Ed. Garamond Ltda, 2002.
[5] Cf. Gn 1,1-31, especialmente Gn 1,10.12.18.21.25.31.
[6] Estão na lista de seres a serem “dominados” peixes do mar, aves do céu, animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra. Somente esses! Não estão na lista os peixes dos rios, não todo tipo de ave, nem os animais selvagens. O texto explicita que a dominação seja sobre todas as feras e répteis.
[7] Urge investir também em energia solar, eólica, biodigestor e diversas outras formas.
[8] Cf. http://www.ecodebate.com.br/Principal_vis.asp?cod=3662&cat
[9] Cf. Gen 1,11.12 (duas vezes).21.24(duas vezes).25(três vezes); Gen 6,19.20(quatro vezes); Gen 7,3.14(quatro vezes).
[10] Na Bíblia se fala de águas 369 vezes. Isso revela a importância que a água tem para o povo.
[11] Em Gen 1 somente no v. 25 se menciona Adamah.
[12] Cf. Gen 2,25; 3,7.10.11.
[13] Vários livros apocalípticos apócrifos estão na origem da interpretação tradicional do ‘pecado de Adão e Eva”, tais como: a) O “Livro dos Vigilantes”, primeira secção do 1o livro (CC. 6-36) do Primeiro livro de Enoc (1 Enoc), literatura apocalíptica mais antiga; b) Apocalipse de Moisés (meados do 1o século d.C.) sobre a Vida de Adão e Eva depois da queda; c) “Vida de adão e Eva”; d) Apocalipse siríaco de Baruc (2 Bar); e) Esdras ‘apócrifo’ (4 Esdras).
[14] Cf. GIRARD, Marc., Os Símbolos na Bíblia, Ed. Paulus, São Paulo, 1997, pp. 650-666.
[15] Muhammad Yunus, Prêmio Nobel da Paz, em 2006, empresta dinheiro, em microcrédito, somente às mulheres. Se um homem quiser um empréstimo, ele precisa que uma mulher (esposa, irmã, prima etc) se responsabilize. No início, os empréstimos eram concedidos tanto a homens como a mulheres, mas a prática mostrou que as mulheres são mais “confiáveis”, porque elas vêem nesse dinheiro a grande oportunidade de melhorar a vida dos seus filhos. Cf. Jung Mo Sung, “Nobel da Paz e Economia”, em Jornal de Opinião, 30/10 a 5/11/2006, p. 6.
[16] Deus aqui é invocado como Javé e como Eloim, simultaneamente. Javé é a dimensão de Misericórdia de Deus. Eloim representa a dimensão de Justiça de Deus. Logo, o Deus que interpela o homem e a mulher é misericordioso e justo.
[17] Cf. também SCHWANTES, Milton, "Projetos em conflito, Gênesis 2-3; beleza e realismo", São Paulo, CESEP/Paulus, Curso de Verão - ano V, 1991.
[18] LEONARDO BOFF, “Ecologizar a política e a economia”, em http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=25265

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