Uma janela sobre o mundo bíblico

A bíblia e a defesa da vida



  • Estudo
  • 4650
  • 10/12/2007
José Adalberto Vanzella

Introdução
Desde que Caim matou Abel (Cf. Gn 4, 8-16), o homicídio, nas suas mais diversas formas, entrou no mundo, e a vida passou a ser constantemente ameaçada. Deus se coloca como defensor da vida, pois até mesmo o assassino não pode ser assassinado, pois quem matar Caim será vingado pelo próprio Deus sete vezes (Cf, Gn 4, 15). Deus quer destruir a cadeia de morte que entrou no mundo, mas o pecado, ação livre e responsável das pessoas humanas, como que estendendo tentáculos, cria uma rede de ódio que gera uma mentalidade de morte, presente no mundo até os nossos dias.

1 – Deus é o doador da vida.
A presença da vida em nosso planeta é um dom de Deus. Foi ele quem ordenou o surgimento da vida vegetal (Cf. Gn 1, 11-12), a vida animal em todas as suas dimensões e características (Cf. Gn 1, 20-22) e, por fim fez o ser humano, conforme nos narra o Livro do Gênesis: “Então o SENHOR Deus formou o homem do pó da terra, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida, e ele tornou-se um ser vivente” (Gn 2, 7). Assim, por um dom divino, a vida surgiu na terra e evoluiu até os nossos dias. Mas a vida humana mereceu um destaque especial na obra da criação. A vida vegetal e animal surge e se desenvolve a partir de um imperativo divino, mas a vida humana surge e se desenvolve a partir de uma ação divina na qual o Criador se envolve com a criatura e dá a ela o seu próprio hálito como princípio vital. Sem o sopro divino, falta a vida (Cf. Ez 37, 7-11).
A vida humana é que enfeita o universo. Assim nos diz o Salmo: “Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, pelo sopro de sua boca tudo quanto os enfeita” (SL 32 [33], 6), de modo que é a vida humana que dá sentido à toda obra criada já que o ser humano é como o sopro (Cf. SL 37 [38], 6.12; 143 [144], 9). Assim, toda obra da criação encontra o seu verdadeiro sentido a partir da vida humana.
Deus é o Senhor da vida. Até mesmo a vida dos poderosos está em suas mãos (Cf. SL 75 [76], 13) e dependem de seu sopro que vai e não volta (Cf. SL 76 [77], 39), pois nossos anos acabam como num sopro (SL 89 [90], 9). O Salmo assim nos diz: “Se escondes teu rosto, desfalecem, se a respiração lhes tiras, morrem e voltam ao pó. Mandas teu espírito, são criados, e assim renovas a face da terra” (SL 103 [104], 29-30). Também no livro da Sabedoria, o autor sagrado reconhece que Deus é o Senhor da vida e tem poder sobre ela quando reza: “Pois tu tens poder de vida e de morte, levas às portas da morte e de lá trazeis de volta” (Sb 16, 13). E o Deus da vida garante a continuidade do seu sopro vital. Somente Deus tem poder sobre o alento da vida (Cf. Ecle 8, 8). Nós não podemos acrescentar um minuto em nossas vidas (Cf. Mt 6, 27).

2 – Deus é o defensor da vida
Com razão, canta o salmista: “O SENHOR é minha luz e minha salvação; de quem terei medo? O SENHOR é quem defende a minha vida; a quem temerei?” (SL 27, 1). Ele coloca toda a sua confiança em Deus porque sabe que dele depende a sua vida e que ele a defende e a protege, pois a vida é preciosa aos seus olhos (Cf. 1Sm 26, 21). Sabemos que Deus é amigo da vida (Cf. Sb 11, 26) e por isso a defende. Ele não é a causa da morte, que não é obra sua nem seu desejo (Cf. Sb 2, ‘24). Deus não deseja a morte nem mesmo para o pecador, mas espera a sua conversão, porque a morte é fruto do pecado (Cf. Ez 18, 23). Deus não só defende a vida como também livra os que são conduzidos à morte (Cf. Pv 24, 11).

3 – A Lei divina – Não matarás!
Deus nos fez e somos dele (Cf. SL 99, 3). A vida humana não é propriedade humana. Nós pertencemos a Deus e qualquer ato contra a vida é um ato contra um bem do próprio Deus, que foi claro no seu mandamento: “Não matarás” (Ex 20, 13). Não matar é a expressão proibitiva do valor da vida, que é dado pelo próprio Deus. Não matar significa defender a vida em todas as situações de ameaça. Significa também valorizar a vida em todas as suas dimensões. É por isso que a Lei da Santidade explicita diferentes exigências e proibições no sentido da defesa e valorização da vida como, por exemplo, o cuidado com os pobres, a diminuição da fome, o compromisso com a verdade, o pagamento do salário em dia, a proibição da exploração e da extorsão, o respeito às pessoas com deficiências, a necessidade da justiça nos julgamentos, a proibição da maledicência, a condenação da conspiração contra a vida de outras pessoas, o respeito às pessoas idosas, o tratamento digno aos estrangeiros, a justiça no comércio, etc (Cf. Lv 19, 9-37).
A exigência da celebração jubilar a cada cinqüenta anos também é uma explicitação da valorização da vida pelo próprio Deus, pois nesta celebração, um dos elementos mais importantes é o resgate dos direitos e a preocupação com os empobrecidos (Cf. Lv 25, 23-43). O Livro do Deuteronômio acrescenta que no ano sabático (sétimo ano), deve haver anistia das dívidas, a generosidade com os pobres e necessitados e a libertação dos escravos (Cf. Dt 15, 7-18).
O Livro do Deuteronômio apresenta também um conjunto de maldições, sendo que várias delas estão relacionadas ao desrespeito à vida, como o desprezo aos pais, a invasão da propriedade alheia, desviar o cego do caminho, violar o direito do estrangeiro, do órfão e da viúva, matar o próximo à traição e aceitar suborno para assassinar o inocente (Cf. Dt 27, 16-26).

4 – Os profetas e a defesa da vida
Uma das características principais do profetismo é a denúncia do pecado. No caso da defesa da vida, vemos que vários profetas denunciam a sociedade violenta de sua época. O profeta Isaías denuncia o fato de que a cidade de Jerusalém tornou-se morada de assassinos (Cf. Is 1, 21). O profeta Ezequiel também faz denúncias desse tipo quanto diz: “Aqui estou eu batendo palmas para denunciar a exploração que praticas e os assassinatos que em ti acontecem” (Ez 22, 13). Afirma também a presença de sangue derramado em Israel e em Judá (Cf. Ez 23, 44-45) e que a cidade está repleta de assassinos e de violência (Cf. Ez 7, 23). O resultado disso tudo é o sofrimento (Cf. Jr 4, 31).
Deus se posiciona contra esta situação de morte. O profeta Oséias nos diz que Deus abre um processo contra todos os que atentam contra a vida nas suas diferentes esferas (Cf. Os 4, 1-2), a quem o próprio Deus chama de criminosos (Cf. Os 6, 7-9) e responsáveis pela própria morte (Cf. Ez 18, 10-13).
Deus condena também a conduta de quem pratica a religião, mas não valoriza a vida. Assim fala o profeta Jeremias: “Estais colocando vossa confiança em palavras mentirosas, que para nada servem. Como é isso: roubar, assassinar, cometer adultério, jurar falso, incensar a Baal, seguir outros deuses que jamais conhecestes e, depois, entrardes e vos colocardes diante de mim, nesta Casa consagrada ao meu nome e dizer: ‘Estamos salvos!’, para continuardes cometendo todas essas vergonhas? Acaso esta casa consagrada ao meu nome tornou-se, ao vosso ver, um esconderijo de ladrões?” (Jr 7, 8-11).
Deus combate a injustiça e a violência (Cf. Hab 1, 17) e recompensa quem busca o bem, conforme narra o profeta Isaías: “Aquele que caminha na justiça e só fala a verdade, que se recusa a ficar rico com a exploração, que esconde a mão para não aceitar suborno, que tapa os ouvidos para não ouvir proposta assassina, que fecha os olhos para não apoiar a injustiça, esse vai morar nas alturas, o alto da rocha será seu refúgio” (Is 33, 17).

5 – A pessoa e a mensagem de Jesus
Jesus veio ao mundo para libertar os que jazem nas trevas da morte (Cf. Is 9, 1; Lc 1, 79; SL 106 [107], 10). Jesus dá a sua própria vida para nos libertar da morte (Cf. Mt 20, 28; Jo 3, 15-16). Ele é a própria vida que vem a nós (Cf. Jo 1, 6), o pão que desceu dos céus e dá vida ao mundo (Cf. Jo 6, 10). Jesus veio para que todos tenham vida e a tenham em abundância (Cf. Jo 10, 10).
Jesus, no Sermão da montanha, vai além. Além da proibição da morte física, nos mostra que não se deve matar moralmente (Cf. Mt 5, 21-22). Mostra também que a justiça de igual para igual não muda a situação de ódio (Cf. Mt 5, 38-42) e que devemos fazer tudo para superar as situações de inimizade (Cf. Mt 5, 43-48). Por fim nos coloca o critério para a defesa e valorização da vida: “Tudo, portanto, quanto desejais que os outros vos façam, fazei-o, vós também, a eles” (Mt 7, 12). É claro que todos desejam que a sua vida não seja ameaçada, mas defendida e valorizada em todos os seus estágios e em todas as suas dimensões.
A vida e a mensagem de Jesus também têm muito de profetismo. Jesus denuncia as formas de opressão que diminuíam o valor da vida, como a proibição de realizar curas em dia de sábado (Cf. Mt 12, 9-14) ou tomar, neste dia, providências para matar a fome (Cf. Mt 12, 1-8). Jesus também condena aqueles que fazem da religião uma forma de opressão ou de promoção pessoal (Cf. Mt 23, 1-12).
Os milagres de Jesus também nos mostram a sua postura de defesa da vida. Em todas as situações de ameaça à vida, vemos inicialmente que nos encontramos diante de uma doença grave que foi muito bem definida, como a lepra (Cf. Mt 8, 2), a paralisia (Cf. Mt 8, 6; 9, 1), febre alta (Cf. Mt 8, 14), demência que gera atitudes violentas (Cf. Mt 8, 28), menina morta (Cf. Mt 9, 18), mulher com corrimento (Cf. Mt 9, 20), cegueira (Cf. Mt 9, 27), incapacidade de falar (Cf. Mt 9, 32) e medo da morte (Cf. Mt 8, 25). Em todos os casos de cura, as pessoas procuram por Jesus (Cf. Mt 8, 2.6.25.29; 9,2.18.21.27.32) e, na ocasião, explicitam a sua fé (Cf. Mt 8,2.8.26.29; 9,2.18.21-22.27-28). Jesus, então, age, estendendo a mão (Cf. Mt 8, 3), mostrando a força de uma só palavra sua (Cf. Mt 8, 8.13.26.32; 9, 5), tocando a pessoa (Cf. Mt 8, 15; 9, 29) e até mesmo repreendendo as forças naturais (Mt 8, 26). Em seguida, as curas são confirmadas (Cf. Mt 8, 3.13.26.32; 9,7.22.25.30), causando reação dos espectadores (Cf. Mt 8, 16.27.34; 9, 8.26.31.33) e uma atitude especial de Jesus em relação às pessoas que foram curadas (Cf. Mt 8, 4.10-12.26; 9, 2-5.22.30).
Jesus tem o poder eficaz na recuperação da vida atormentando os demônios (Cf. Mt 8, 29) e curando todos os doentes (Cf. Mt 8, 16-17) de todas as enfermidades (Cf. Mt 9, 35-38) e o faz a partir de manifestações de fé (Cf. Mt 8, 10; 9,22.28-29).

5 – Conclusão
Deus é o doador e conservador da vida, mas exige de todos nós compromisso com a vida e maturidade diante dela. O Deus da história não quer que sejamos passivos diante das diferentes ameaças à vida, mas sim que, como protagonistas do momento histórico em que vivemos, sejamos capazes de construir novas relações fundamentadas nos valores que defendem e promovem a vida em geral e a vida humana em especial. Esses valores nos são revelados pelas Sagradas Escrituras, de modo que elas nos dão os princípios iluminativos para a nossa reflexão e ao mesmo tempo se constituem no fundamento do nosso agir.
O mistério pascal revela para nós a vitória definitiva do nosso Deus sobre a morte, pois Jesus esteve morto, mas ressuscitou e vive eternamente, o primogênito dentre os mortos que tem poder sobre a morte (Cf. Ap 1, 17-18), e nos convida para darmos a nossa contribuição histórica, através do compromisso de valorização e defesa da vida, para que a nossa realidade seja transformada, a cultura de morte seja substituída pela civilização do amor, que globalize a solidariedade e, assim, a vida humana aconteça cada vez mais de acordo com os princípios daquele que a doou. A vitória de Jesus é a garantia da nossa vitória porque, na verdade, estaremos participando da vitória dele, e esta garantia deve ser a força que nos impulsiona para a certeza da vitória sobre o pecado, a grande causa da morte no mundo.

4650 visitas



Comentários

Os comentários são possíveis somente através da sua conta em FaceBook