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O Evangelho de Judas - Traidor ou libertador?



  • Estudo
  • 3607
  • 07/03/2008
Jacir de Freitas

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A descoberta e tradução do Evangelho de Judas despertou polêmicas sobre o seu papel na história. Teria Jesus pedido a Judas para que o traísse? Qual o significado desta descoberta e da traição de Judas? Qual é o contexto do Evangelho de Judas? Judas deixou de ser traidor para se tornar libertador? Qual a importância desta descoberta para o cristianismo?

1. Judas em fragmentos apócrifos

A descoberta do Evangelho de Judas não é primeira informação que temos sobre este personagem importante na história do cristianismo. Outras histórias foram conservadas sobre ele. Como veremos, elas não vão de encontro com os relatos do Evangelho de Judas.

Alguns fragmentos de textos coptas, chamados assim porque foram encontrados nesta língua, considerada um dialeto do grego, falado no Egito. Eles foram escritos entre os séculos V e VII da Era Comum. As histórias sobre Judas contadas nestes textos são:

a) Na multiplicação dos pães, Judas foi o último a distribuir os pães para a multidão.

b) Num fragmento intitulado A história da mulher de Judas conta que ela, considerada má, recebia o dinheiro que Judas roubava da bolsa comum dos apóstolos. Ele não dava o dinheiro para os pobres, mas para a sua mulher, que se alegrava com essa sua atitude. Quando Judas chegava em casa sem dinheiro, ela zombava dele. A sua mulher era tão perversa, segundo o texto, que foi ela quem sugeriu a Judas entregar o seu Mestre Jesus aos judeus em troca de dinheiro. Judas aceitou a sugestão da mulher e com isso, entregou sua alma para o Demônio. O texto liga a ação da mulher de Judas com Adão que se deixou levar por Eva. Judas recebeu o dinheiro dos judeus e o levou para a sua perversa mulher. E o texto termina bruscamente. Esta história quis transferir para a mulher a culpa de Judas, o que era importante na visão machista da época.

c) Nesta mesma linha, a de transferir a culpa de Judas para a sua mulher, um outro fragmento apócrifo conta que no dia em que Judas entregou Jesus e recebeu as 30 pesos de prata, o filho de José de Arimatéia, de apenas 7 meses, que era amamentado (criado) pela mulher de Judas, não quis mais alimentar-se. José de Arimatéia foi à casa de Judas. O menino, então, disse: -“Vem, meu pai, e tira-me das mãos desta mulher, que é uma fera selvagem”. Ouvindo isso, o pai o levou consigo.

d) Significativo e contrário ao Evangelho de Judas, há um fragmento apócrifo que narra o encontro de Jesus com Judas, depois da morte. Quando Jesus morreu, ele desceu à mansão dos mortos antes de ressuscitar. Ali, ele salvou a muitos. Encontrando-se com Judas, Jesus lhe disse: “que vantagem tiveste, entregando-me? Sofri todas as dores para salvar uma criatura. Mas ai de ti, Judas! Caia sobre ti duplo anátema e dupla maldição”. E o texto termina: “A parte de Judas é a mesma do diabo. Seu nome foi cancelado do livro da vida. Seu destino não está no número dos viventes. Sua lembrança foi destruída, apagada a sua estrela. Com ele Satanás recebe também a sua condenação, pois está coberto de desprezo. Foi-lhe tirado o posto, roubada a coroa. Estranhos tomaram-lhe os bens e ele se revestiu de maldição. Foi contaminado como água suja. Foi-lhe roubado o seu hábito de glória. A luz de sua candeia foi apagada. Sua casa ficou deserta. Seus dias foram abreviados. Esgotou-se sua vida. Não há mais paz. A dor veio a seu encontro. Foi agarrado pela trevas, tornou-se herança do verme. Está coberto de podridão”.

2. O contexto do Evangelho de Judas

Se os textos acima estão datados entre os séculos V e VII, o Evangelho de Judas e sua tradução para o copta encontram-se em uma época bem anterior. A existência de um tal Evangelho de Judas já é conhecida desde o ano 180 d.C, quando Santo Irineu, Bispo de Liyon (Gália Romana), mencionou em seu tratado Contra as Heresias este evangelho, catalogando como pertencente a um grupo de heréticos, chamados de cainitas, originários dos gnósticos. Para Irineu este evangelho é ficção. Também Santo Epifânio, Bispo de Salamina, em 375 mencionou o Evangelho de Judas, classificando-o da mesma forma que Irineu.

A datação do Evangelho de Judas recai sobre o século II, em torno ao ano 150. O manuscrito encontrado recentemente é datado entre o início do século III e início do século IV.
O contexto do Evangelho de Judas remete aos gnósticos, grupo que influenciou o cristianismo emergente (120 a 240 E.C.) e se estendeu até o séc. VIII em várias ramificações, na Palestina, Ásia Menor, Egito, Síria, Arábia, Pérsia e Roma . Valentino, um teólogo do séc. II da E.C., tornou-se notório na influência recebida dos gnósticos e divulgação do pensamento gnóstico em suas obras. No ano 381 da E.C., quando o imperador Teodósio I reconheceu oficialmente um único ramo do cristianismo como ortodoxia católica no Império Romano, os gnósticos e outros tantos grupos considerados “heréticos” foram perseguidos e aniquilados.

O grupo dos gnósticos vivia de modo coeso e sectário, o que não lhes faltou resistências advindas do mundo cristão. Eles tinham um modo próprio de se comunicar e levavam uma vida ascética. Aqueles que entravam no grupo passavam por um batismo ritual. Os gnósticos acreditavam que os seres humanos estariam divididos entre gnósticos e não-gnósticos. Ser gnóstico era o mesmo que “ser capaz de alcançar o conhecimento”. Gnosis é um substantivo grego que significa “conhecimento” de modo profundo. Segundo o mito gnóstico das origens, um “Salvador celestial foi enviado para ‘despertar’ a humanidade gnóstica, para dar-lhe o conhecimento (gnosis) de si mesma e de deus, para libertar as almas do destino e da escravidão do corpo material, e para ensiná-las como escapar à influência dos malévolos ‘governantes’. Para contrapor-se ao mau espírito desses governantes, um bom espírito foi derramado sobre os gnósticos. Conforme a maneira como reage e adquire conhecimento, a alma escapa e retorna a deus, ou se reencarna em outro corpo; uma ‘punição eterna’ especial está reservada aos apóstatas da seita”. Assim, os gnósticos defendiam que a salvação era adquirida através do conhecimento de Deus.

Algumas correntes gnósticas acreditavam que Deus, na sua essência, tinha o elemento feminino e masculino. Deus era visto como “Mãe-Pai”.

Tendo Set, filho de Adão, como ancestral e modelo, cada gnóstico procurava viver na contemplação e no ascetismo, negando a matéria, o corpo que aprisiona a alma que deve ser libertada. Jesus era exemplo de gnóstico perfeito. As mulheres eram mestras e sacerdotisas em alguns grupos gnósticos, embora considerassem, sob influência das filosofias da época, que a matéria criada era feminina. Grupos gnósticos chegaram a ser hostis à mulher. Membros desse segundo grupo chegaram a colocar na boca de Pedro o pedido a Jesus que expulsasse a mulher Madalena do meio deles, pois essas não eram dignas da vida (Evangelho de Tomé, 114).

Os gnósticos ensinavam que cada pessoa podia atingir a salvação através da harmonia e da busca interior. Não eram necessárias as instituições e suas práticas ritualísticas para atingir a salvação. Como conseqüência dessa visão, a salvação tinha um caráter mais pessoal que coletivo. Não importaria tanto a visão messiânica e revolucionária que o cristianismo defendia. E é nesse contexto de libertação espiritual que podemos compreender a negação do corpo. Os docetas e encratistas, grupos originários dos gnósticos, ensinavam, respectivamente, que a encarnação de Jesus era só aparente e que a abstinência sexual, a virgindade era um caminho seguro de salvação. O sofrimento de Jesus na cruz, não poderia, segundo os gnósticos, salvar àqueles que aderissem à Igreja de Cristo. Por esse e outros motivos, a Igreja lutou ferrenhamente contra os gnósticos, relegando-os à heresia. Com isso, o que era bom e ruim do gnosticismo foi condenado ao ostracismo.

O Evangelho de Judas foi escrito por um grupo de gnósticos que se intitulavam Cainitas, nome derivado de Caim, filho de Adão. Eles consideravam Caim e Judas Iscariotes como modelos de gnósticos. Caim e Judas representavam o lado mal do deus criador. Eles mataram o bem (Abel e Jesus) para que eles pudessem vencer o mal. Os gnósticos cainitas eram considerados um dos grupos mais libertinos da época. A inspiração em Judas tinha como objetivo encontrar a salvação. Judas, ao trair Jesus ou aceitar o pedido de traição, teria cumprido o seu papel na história cristã, o de revelar o conhecimento que salva. Assim, a traição de Judas estaria em função de Jesus, de sua libertação. Judas teve a capacidade de conhecer a verdade sobre o mistério da salvação trazida por Jesus. E foi por isso que ele consumou o mistério da traição.

3 . Judas no Evangelho de Judas

Considerado texto perdido até 1978, quando foi descoberto uma tradução do texto original grego para o copta, nas proximidades da cidade de El Minya, no Alto Egito, o Evangelho de Judas consta de 26 páginas. Ele foi vendido na Europa, chegou aos Estados Unidos e ali permaneceu em um cofre durante 16 anos. Em 2001 iniciou-se o seu processo de restauração e tradução.
O livro apresenta temáticas do pensamento gnóstico, colocadas na boca de Jesus, de Judas e os apóstolos. Vários diálogos são travados entre Jesus e Judas, o mestre e o discípulo. Este procedimento era normal entre os gnósticos. Outros evangelhos apócrifos gnósticos têm o mesmo gênero literário. Vejamos alguns trechos do Evangelho e seu comentário .
Judas: o discípulo predileto

O Evangelho de Judas começa afirmando que o texto se trata do “relato secreto da revelação que Jesus falou em conversação com Judas Iscariotes durante uma semana, três dias antes de ter celebrado a Páscoa”.

Entre os gnósticos era comum este tipo de procedimento, o mestre revela segredos para os seus discípulos prediletos. Outros apócrifos gnósticos falam que Jesus revelou segredos para Maria Madalena, Tomé, etc. Este último, que nos canônicos duvida da ressurreição de Jesus, nos apócrifos recebe a revelação de três segredos de Jesus. Os outros apóstolos lhe pedem para revelá-los e Tomé se nega, dizendo que coisas terríveis aconteceriam se ele revelasse tais segredos. Também nos evangelhos canônicos, Jesus revela ou explica questões para os apóstolos em particular. Quem não fazia parte do grupo próximo a Jesus tinha dificuldade de entender os seus ensinamentos. João, nos canônico, é considerado o Discípulo Amado, predileto. Sem conhecer este modo de procedimento judaico ou literário daquele tempo, isto é, de um apontar um discípulo predileto do Mestre, não podemos entender o alcance deste tipo de revelação no Evangelho de Judas. Portanto, baseando-se somente no Evangelho de Judas não podemos dizer que ele era o discípulo predileto.
A revelação de Jesus para Judas está situada na semana da Páscoa, três dias antes desta festa magna do judaísmo. O número três situa o fato na esfera do divino. Trata-se de um simbolismo.

Jesus não aparece em forma humana e ri

A cena seguinte do Evangelho de Judas fala do ministério de Jesus na terra. Interessante que aqui se diz “ele freqüentemente não aparecia para os seus discípulos como ele mesmo, mas era encontrado entre eles como uma criança”. Para os gnósticos o humano, o histórico de Jesus não conta, mas o sublime, a realidade superior de onde ele veio. Apresentar-se como criança significa dizer que ele está aberto e puro para receber o conhecimento que conduz à salvação. O Evangelho apócrifo gnóstico de Tomé 22 diz que o Reino é semelhante a crianças que se amamentam. Este mesmo tipo de relação aparece nos evangelhos canônicos. O detalhe no Evangelho de Judas é o próprio Jesus, que se apresenta em forma de criança. Esta condição lhe possibilitava revelar segredos do além e dos fins dos tempos. Esta outra realidade, segundo os gnósticos era chamada de Pleroma, a realidade de onde ele provinha. Como gnóstico perfeito, Jesus teria o poder de salvar a todos que o conhecessem.

Estando na Judéia, com seus discípulos, Jesus ri durante a oração sobre o pão, na Oração de Ação de Graças ou Eucaristia. Os discípulos lhe perguntam pelo motivo do riso: “Mestre, por que você está rindo de nossa Oração de Graças? Nós fizemos o que está certo”. Jesus lhe explica que o seu riso é porque eles, os discípulos, rezam para um “deus” diferente do dele. E ele diz ainda mais: “Vocês me conhecem? Na verdade, eu digo a vocês, nenhuma geração das pessoas que estão entre vocês me conhecerá”.

Judas: o discípulo capaz de conhecer

A continuidade do episódio anterior mostra que os discípulos ficam irritados e começam a blasfemar. Jesus, percebendo que eles não são capazes de “conhecer” o que ele está explicando, porque o deus deles os levara a esta situação, pede alguém dentre eles que seja forte, perfeito o suficiente, para se apresentar diante da sua face. Neste momento, Judas Iscariotes entre em cena. Os outros não são capazes de realizar tal ato, de se apresentar diante de Jesus. Judas, diz o texto, “era capaz de ficar diante dele, mas não podia olhar em seus olhos, e desviou sua face”. Judas toma a palavra e diz para Jesus: “Eu sei quem você é e de onde veio. Você é do reino imortal de Barbelo. Eu não sou digno de pronunciar o nome de quem te enviou”.

Jesus, percebendo a capacidade de conhecer de Judas, o chamou a parte e lhe prometeu revelar os “segredos dos mistérios do reino”. Judas, no entanto, deveria estar preparado, porque ele sofreria muito com tal revelação. Quando Judas pergunta a Jesus pelo momento de tal revelação, ele desaparece.

Após esta afirmação a respeito de Judas, há uma longa descrição de uma nova aparição de Jesus e sua conversa com os apóstolos sobre o pensamento gnóstico: os imortais, eternidade, gerações. Há também uma narrativa de uma visão do Templo e seus sacerdotes. Jesus diz aos discípulos que ele os sacerdotes “planta árvores sem fruto em seu nome e de forma vergonhosa. Esta narrativa contra o poder hegemônico do cristianismo da época aparece também em outro textos gnósticos, como Apocalipse de Pedro 79, 22-30, referindo-se aos bispos e diáconos, os chamam de “canais sem água”. Estes relatos revelam o pensamento gnóstico que afirmava que não era necessário hierarquia eclesial para se chegar à salvação. Bastava um caminho pessoal, sem estruturas eclesiásticas. Todos os poderes, eclesiásticos ou não, eram considerados pelos gnósticos como malévolos. Eles poderiam impedir a libertação dos gnósticos e, por isso, deveriam ser combatidos.

4. Segredos revelados por Jesus a Judas

A continuidade do Evangelho descreve os segredos que Jesus revela a Judas, em um diálogo travado entre eles. Seguindo o pensamento gnóstico, Jesus expõe para a Judas a condição da raça humana: ela deve morrer para libertar-se do corpo terrestre; precisa conhecer a si mesma e Deus e voltar, libertada, para a sua origem; possui maus governantes. Jesus também explica a Judas a visão que ele teve, fala de Adão, Set, Anjos, Cosmos, caos, os batizados em seu nome, etc. Quanto mais Judas conhece, mais ele está preparado para cumprir a sua missão na terra. Destacamos algumas revelações importantes de Jesus em relação à pessoa de Judas, ao seu destino.

1. Judas é superior a todos os batizados. Ao afirmar isso, Jesus diz que os “batizados” cometem o mal e oferecem sacrifícios ao Deus não verdadeiro. Este tipo de revelação foi preparado no relato do evangelho, de modo que Judas pudesse ser reconhecido por Jesus com uma tarefa especial entre todos os humanos.

2. Judas, você será amaldiçoado e reinará sobre eles. Judas revela a Jesus uma visão que teve: “Eu vi a mim mesmo, enquanto os Doze discípulos me apedrejavam e me perseguiam”. Judas é colocado em oposição aos outros discípulos, que o apedrejam. Judas também pergunta a Jesus sobre o seu próprio destino e por que ele o havia escolhido dentre aquela geração, Jesus lhe diz “você tornar-se-á o décimo terceiro, será amaldiçoado por gerações, mas reinará sobre eles. O objetivo aqui é valorizar a figura de Judas, ao colocar na boca de Jesus estas revelações sobre ele. Judas vai superar os outros apóstolos porque ele vai cumprir o papel de libertar Cristo do corpo de Jesus. Vejamos o que isto significa no próximo segredo.

3. Você, Judas Iscariotes, deve “sacrificar o homem que me reveste”. Mesmo que o texto do Evangelho de Judas, neste trecho, faltem substantivos, nota-se que Jesus justifica seu pedido a Judas, dizendo que ele está bem preparado, sua ira tinha sido aplacada, a sua estrela já estava brilhando o suficiente. Para os gnósticos, cada ser humano está revestido de um “homem” que dever ser libertado, de modo que possamos voltar às raízes de onde viemos. Jesus estaria aprisionado a um corpo. Judas teria que cumprir a missão sublime de libertá-lo, de modo que a centelha divina presente em Jesus pudesse brilhar e, assim, ele voltar ao Plemora (realidade superior). O mito gnóstico da criação diz que Cristo é um ser metafísico que desce para unir-se a Jesus de Nazaré. Jesus é a encarnação de Cristo preexistente. O ato de Judas de sacrificar ou trair Jesus é perfeitamente compreensível na visão gnóstica. Ele não estaria “matando” Jesus, mas Cristo. Neste ponto do Evangelho de Judas encontra-se a polêmica criada em torno a esta descoberta. Mas isso não é novidade. Estudos do gnosticismo já nos evidenciaram este modo de pensar em outros textos. Considerar esta revelação, que não se firmou ao longo da tradição cristã, como verdadeira, é negar todo a historicidade do mistério da encarnação de Cristo no meio de nós e libertação que ele nos veio trazer. Por outro lado, é pena que o cristianismo fortaleceu muito a idéia da morte de cruz com o sofrimento e libertação de pecados. Na outra ponta da linha, se este segredo, o de entregar Jesus para libertá-lo do corpo, teria sido a missão de Judas, o cristianismo não teria se firmado como religião universal. Estamos, na verdade, diante de uma ficção. E aí temos que concordar com Santo Irineu. Um homem considerado mau, porque traiu, assim como Caim, que matou o seu irmão, gerando a violência nas origens, não pode ser considerado exemplo de salvação. Para os gnósticos e, muitos deles, também cristãos, isto era possível. Respeitemos ecumênicamente esta opinião e basta.

4. Judas é a estrela que mostra o caminho. Na seqüência do relato anterior, Jesus diz a Judas: “Levanta os olhos, vê a nuvem e a luz dentro dela e as estrelas ao redor. A estrela que mostra o caminho é a tua estrela”. Judas aqui é apresentado como estrela que aponta o caminho. Com isso ele estaria cumprindo o papel de libertar Jesus e trazer a salvação, com a traição, para todos. No evangelho canônico de Jo 13, 26-30, Jesus declara que um dos 12 o trairia. Pedro lhe pede para dizer quem é o traidor. Jesus declara Judas Iscariotes como traidor entregando um pedaço de pão umedecido no molho e lhe diz: “Faze depressa o que estás fazendo”. A explicação não convincente no texto é de que Judas deveria comprar o necessário para a festa ou que deveria oferecer algo aos pobres, já que Judas cuidava da bolsa comum dos apóstolos. A pergunta que fica é: Qual a relação desta informação da comunidade de João, que por sua vez teve influência dos gnósticos, com o Evangelho de Judas que diz que Jesus pede a Judas para traí-lo? Haveria necessidade de Jesus indicar o traidor? Voltando ao Evangelho de Judas, a história de Judas como estrela que mostra o caminho termina dizendo que Judas entra numa nuvem luminosa. O que ocorre depois não sabemos porque o texto original está destruído. Menciona-se uma voz que sai da nuvem e alguns a ouvem, sem na verdade, relatar o seu conteúdo. Judas é exaltado por Deus, em Jesus. Este tipo de cena ocorre com Jesus glorioso. Um tal BarKoba, que siginifica, “Filho da Estrela” foi proclamado em 135 da nossa Era como o Messias do povo judeu, fato que foi desacreditado posteriormente. Uma estrela guiou os reis magos até Belém para adorar Jesus, considerado por eles, como Rei dos Judeus.

5. Conclusão

O Evangelho de Judas termina, após uma lacuna no texto, quando falava que ele entrou numa nuvem luminosa, de forma inesperada. Diz apenas que os escribas e sumo sacerdotes haviam se preparado para prender Jesus durante o momento de sua oração. Eles se encontram com Judas e lhe perguntam o porquê dele estar ali e afirmam que ele, Judas, era discípulo de Jesus. Judas responde a perguntas, recebe dinheiro deles e entrega Jesus.

Judas o papel de libertar Jesus, mas não de traí-lo. Judas não é o traidor. Jesus o pede para realizar tal ato. Como vimos, no Ev. de João a reflexão parece estar na mesma linha. Não estaríamos diante de um fatalismo? Judas não teve a liberdade para decidir. Se aceitamos este tipo de reflexão, teremos que concordar que a morte de Jesus foi também fatalismo. Ele tinha que morrer na cruz e basta. Não. Jesus não teria que morrer na cruz. A sua morte foi conseqüência de sua atitude revolucionária e libertadora.

A descoberta do Evangelho de Judas torna-se importante para o cristianismo na medida em que ela nos permite rediscutir o papel de Judas na história do cristianismo. O documento encontrado pode ser verdadeiro, mas não o seu pensamento. Obras de ficção também eram escritas naquela época. E é dentro de seu contexto que elas precisam ser compreendidas.

No entanto, perguntas permanecem: Por que os evangelhos canônicos apresentam Judas como traidor? Se Jesus era tão conhecido, por que ele precisaria de um delator? Jesus não era uma liderança tão conhecida do Império Romano? Ou todo grande personagem precisa de um grande traidor?

O nome Judas nos remete aos Judeus. Judas teria sido colocado na lista dos apóstolos para dizer que os judeus traíram Jesus. A figura de Judas foi criada para estigmatizá-los como traidores.
Como vimos, fragmentos apócrifos sobre Judas procuram transferir a sua atitude de traidor para a sua mulher. Ademais, Jesus ressuscitado, encontrando-se com Judas após a sua morte, o amaldiçoa pela traição cometida. Baseando apenas em um livro apócrifo não podemos tirar conclusões exacerbadas. O contexto de cada escrito precisa ser analisado. Não resta dúvida que o Evangelho de Judas faz parte de uma corrente de pensamento que cristão que não se sedimentou como a verdadeira. Havia no início do cristianismo várias correntes de pensamento. Uma se torna a vencedora nas disputas teológicas.

O Evangelho de Maria Madalena, também trazido à tona em tempos modernos, deve ser analisado em outra perspectiva. Nele encontramos a mulher que foi destruída na sua liderança pelos homens do poder hegemônico. Ela é a mulher que tanto amou Jesus e que Jesus tanto amou.

Com o Evangelho de Judas somos instigados a repensar o seu papel na história da humanidade cristã. Por que este homem teve que carregar uma culpa tão pesada? Queimar Judas em nossos dias não seria usar de violência com o povo judeu ou até mesmos com os Judas de hoje? Violência gera violência. Um Judas pode gerar outros Judas. Judas somos todos nós, quando traímos o projeto do evangelho, a vida na sua essência.

O Jesus histórico que pregou a libertação do ser humano de toda e qualquer vil opressão não poderia ter pedido para ser traído. O Evangelho de Judas pode nos ajudar a compreender ou trazer mais luzes para o estudo do gnosticismo, mas não mudar o curso da história cristã. Embora, volto a dizer, urge repensar o papel de Judas.


Um resumo deste artigo foi publicado no Jornal Estado de Minas, Belo Horizonte, 6 de maio 2006.

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