Uma janela sobre o mundo bíblico

Maria na Bíblia: Considerações sobre a discípula de Nazaré



  • Estudo
  • 9581
  • 06/05/2008
Reuberson Rodrigues Ferreira

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1. À GUISA DE INTRODUÇAO

A tradição popular consagrou o mês de maio à virgem Maria. Diversos motivos perimiam o inconsciente coletivo das pessoas para justificar esse fato. As argumentações vão das noivas às mães perpassando pela tradição das rosas no mês de maio. Enfim, a figura de Maria permeia o horizonte da vida de muitos cristãos e cristãs.
Esse dado popular e estritamente necessário para alentar a fé de muitas de nossas comunidades precisa, cada vez mais, ser direcionado para compreensão do papel de Maria, mãe de Deus e nossa, no plano da Salvação.
O Concilio Vaticano II, em sua Constituição dogmática Lumem Gentim, no capítulo VIII, exorta aos “pregadores a através do estudo da Sagrada escritura, dos Santos padres e doutores e das liturgia da Igreja a ilustrarem os privilégio a Bem-aventurada virgem Maria que sempre levam a cristo[...]” 1 Sendo assim, a presente pesquisa visa “ilustrar os privilégios” da Virgem Maria pontuando sua presença no Novo Testamento, buscando mostrá-la como   discipula    a grande discípula de Cristo.
Para fins metodológicos, este trabalho está divido segundo a ordem cronológica dos escritos do Novo Testamento. Por esse motivo será pontuado a presença de Maria nos textos de Paulo. Em seguida nos Evangelhos iniciando por Marcos, depois Mateus, Lucas(Atos dos Apóstolos ) e João(apocalipse). Será uma leitura simples que buscará apontar onde encontramos referências bíblicas á virgem de Nazaré e postular uma interpretação no âmbito do discipulado.

2. MARIA NO NOVO TESTAMENTO

O Novo testamento, composto por 27 livros, é pródigo em  alusões a Maria. Desde Paulo, perpassando pelos evangelistas até o apocalipse encontramos, direta ou indiretamente, alusões a figura Mariana. Embora alguns, como Paulo, não a citem efetivamente, seus textos possuem evidências, vestígios de Maria.
Para apresentar Maria no universo bíblico, faz-se necessário, como fez A. Serra 2 estabelecer uma ordem para as abordagens. Seguir-se a já estabelecida e definida cronologia dos escritos sagrados. Sabendo que alguns textos paulinos (Gl, 49 53.dc) foram escritos antes dos Evangelhos(Marcos 64 Mateus; 70-80; Lucas e Atos, 70 João, 90-100 ), estes por sua vez antes do apocalipse(Apocalipse 100-110), gostaria de abordar a figura de Maria em cada um desses textos seguindo essa ordem cronológica, que como diz A. Serra, nos “permite “ver de que modo e conforme que progresso os autores inspirados tomaram consciência da pessoa e do papel de Maria no arco de toda salvação, antes em suas prefigurações veterotestamentárias, depois em sua missão materna em relação cristo e à Igreja” 3
Desse modo, portanto iniciemos conhecendo Maria no Corpus Paulinum. Em seguida veremos Maria no Evangelho de Marcos, Mateus, Lucas (Atos ) João e, por fim, Apocalipse.

2.1. MARIA NOS ESCRITOS PAULINOS
           
Antes de começarmos essa epopéia(muito restrita!) pelos escritos de São Paulo, faz-se necessário conhecer quais escritos são realmente de Paulo, quais são atribuídos a ele e quais não são deles. Seguindo o raciocínio do Professor, Dr. Con Celso Pedro, as cartas que podemos dizer seguramente que foram escritas por Paulo são: “a Carta aos Romanos, as duas aos Coríntios, a Carta aos Gálatas, a Carta aos Filipenses, a Primeira aos Tessalonicenses e a Carta a Filemon. Temos, portanto, sete cartas que seguramente são Paulinas. Há outras que podem ser paulinas: a Segunda aos Tessalossences e a Carta aos Colossenses.. As outras certamente não são paulinas: a primeira a Timóteo, a carta a Tito, aos Efésios e aos Hebreus” 4.
Nos textos do apóstolos do gentios uma carta em especial deve chamar atenção, por causa da menção, embora que indireta, do autor a Maria. Trata-se da Carta ao gálatas. Ela é um verdadeiro tratado sobre a liberdade Cristã(5,1). Escrita por Paulo para desautorizar a pratica judaizante de muitos Cristãos vindos de Antioquia que queriam judaizar(Gl 4,21) a comunidade galácia.
Paulo não cita diretamente a nome de Maria. No capítulo 4, 4 referindo-se ao nascimento de cristo ele cita: “ ...quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou seu filho, nascido de uma mulher e sob a lei ...” Este versículo aponta Maria como aquela que contribuiu diretamente para o processo da salvação, exercendo o múnus Materno através do qual Jesus alocou-se no seio da humanidade.
É evidente, que neste texto a alusão a Maria - mesmo que indireta – não é o centro da argumentação paulina. Antes, ele diz isso para falar da Salvação que vem por Cristo e não pela lei. Por outro lado, apresenta, mesmo que em germe, Maria como mãe de Deus, aquela que colaborou para o cumprimento da promessa a Israel e livrou o povo do Julgo da lei.
Examinado Paulo, pode-se passar aos textos do evangelho mais velho, segundos os modernos estudos exegéticos, ou seja, Marcos.

2.2.   MARIA NO EVANGELHO DE MARCOS

MARCOS 5na ordem canônica das Sagradas escrituras, aparece como o segundo Evangelho. Sua composição, contudo, é datada de 64-74 d.C. O que faz dele o primeiro texto, dentre os quatro, escritos sobre Jesus que se tem conhecimento - canonicamente. O Autor desde sempre foi identificado como uma figura que não conheceu Jesus. Ele, talvez, seja aquela pessoa que é citada no final da carta de Pedro (1Pd 5, 13). No processo de redação, ele utiliza fontes Rabínicas e tradições orais acerca de Jesus, provavelmente de ditos de Pedro(?). Ele escreve em grego e, talvez para uma comunidade Pagã.. O Evangelho tem 16 capítulos e guia-se pela tônica do segredo messiânico(Mc 1, 40-45 / 15, 38-40). Nesse sentido, por ser ele o escrito evangélico, canônico, mais antigo pode-se aquiescer que seu testemunho sobre Maria é o mais remoto, conseqüentemente, o mais próximo da “Maria histórica” – se quisermos usar esse termo.
No evangelho de Marcos, Maria é mencionada cinco vezes(Mc 3,31-35; 6,1-6; 15,40.47; 16,1). Dessas cinco, apenas duas(Mc 3,31-35; 6,1-6) são explicitamente Marianas e outras três(15,40.47; 16,1) podem ser interpretadas como referências a mãe de Jesus. 6 Neste estudo nos deteremos apenas em analisar os dois primeiros textos.
Mc 3, 31-35. Trata-se de uma passagem complexa até para os mais esclarecidos exegetas. Muitos a analisam em relação aos versículos imediatamente anteriores, isto é 3,20-21 que trata dos irmãos(os seus, que achavam que ele estava fora de si)7 . Para além dessa aporia o texto apresenta Maria, como mãe de Jesus, pois fala dela. Estes versículos associados indicam que há uma incompreensão da atitude de Jesus. Seus parentes não entendem seu trabalho, querem impedi-lo. Desse ponto decorre que a  missão de Jesus é fazer a vontade de Deus conseqüentemente que seus parentes são aqueles que fazem a vontade do Pai – o que aquelas pessoas, inclusive Maria parece não entender. Desse modo, para fazer parte da família universal de Jesus até sua própria mãe tem que fazer a vontade Deus. Uma frase que sempre usada é: uma vez gerado ventre, Maria precisava gerar no coração - lembremos que nesta primeira aparição de Mariana, talvez o evangelista ainda não tenha entendido como Maria fez a vontade de Deus.
A segunda referência Maria nos escritos Marcos aparece em Mc 6, 1-6. Nesta cena Jesus aparece ensinando no templo. Os letrados, para rechaçar sua autoridade tentam argumentando que ele é apenas mais um: Filho de Maria, filho do Carpinteiro, irmão de José e outros. Maria aparece aqui como a tentativa, pelos judeus, de menosprezar Jesus. Este versículo gerou um problemas, pois fala dos irmão de Jesus. Usado por muitas pessoas para negar a virgindade de Maria. Uma reposta comumente dada é que a palavra grega adelfos (αδελφός) significaria primo o que desqualificaria uma irmandade sangüínea e preservaria a virgindade de Maria – embora houvesse outro temo anepsoi” (άήεπισοί) que expressaria primo 8. Outra resposta que proponho é que, em Mc 3,31-35 Jesus afirma quem são seus irmãos(Fazem a vontade do pai). Assim, possivelmente, o evangelista pode está se referindo a esse tipo de irmandade. Os irmãos de Jesus, filhos de Maria, seriam , pois seus discípulos. Seria um método usado pelos sábios dizer que se os discípulos são simples muito mais o mestre. Outras passagens dos evangelhos, como de João, poderiam ser invocadas para ratificar essa resposta. Em João 20, 17 – 18. Maria madalena, desesperada, vai ao túmulo do Senhor e não o encontra. Ela começa chorar. Jesus fala com Ela, que o reconhece e fica radiante. Jesus manda Maria avisar os seus “irmãos”(vv.17); Maria madalena, por sua vez, vai aos discípulos(vv18). Assim, também neste texto, fica caracterizado que fraternidade, parentesco para os evangelhos é discipulado
Outras citações indiretas do Evangelho de Mc, são: 15,40.47; 16,1. Para encontramos Maria neste textos temos fazer algumas associações. Em Mc 15, 40 aparece a mãe de José. Se a pergunta em Mc 6, 3 fala de José irmão de Jesus, essa mãe é Maria. Ela acompanhava Jesus na crucifixão. Atitude digna de uma mãe-discípula. - O mesmo acontece em 15,47. em Mc 16, 1 para vermos Maria a mesma associação tem que ser feita, só que desta vez com Tiago. Neste episódio as mulheres vão visitar o túmulo de Jesus, atitude digna de uma mãe, ver o filho que jaz. Nesses termos poderia ser Maria
Com esses dados, pode-se dizer que marcos não há uma mariologia definida. Primeiro Maria seria aquela que gerou no corpo, mas precisava gerar no coração seu próprio filho – discipulado. Neste evangelho há uma aporia com relação a outros filhos de Maria. O que desfaz-se pela argumentação que a citação posterior(6,1-13)pode pressupor Mc 3,31-35 – quem são meus discípulos?

2.3. MARIA NO EVANGELHO DE MATEUS

MATEUS 9 Evangelho composto nos anos 80/85 supostamente na palestina. Atribuído, pela tradição (papias), ao cobrador de impostos Mateus(Mt 9, 9). o Texto têm 28 capítulos. É dirigido a uma comunidade de Judeus convertidos ao nascente cristianismo. Por isso apresenta Jesus como cumpridor das promessas do Antigo Testamento(Mt. 1, 22-23; 2, 15.23; 8, 17;12,17; 13,14;27,9-10; 26, 35;), mestre de Justiça(Mt 5,1). Segundo as atuais pesquisas bíblicas o autor serve-se do Evangelho de Marcos para compor seu escrito e de uma outra fonte, chamada, atualmente de “Q” – Quelle.
Estudiosos de Mariologia e de Sagradas Escrituras 10 asseguram que Maria aparece, neste evangelho, explicitamente, em narrativas da infância(Mt 1-2) e em momentos do ministério público de Jesus (Mt 12, 46-50; 13,53-58).
A primeira aparição de Maria no universo mateano é em Mt 1,18. Antecede esta citação sobre Maria a genealogia de Jesus que está prenhe de pessoas de todas as estirpes(Tamar v.3; Raab v.5; Rute v.5b betsabéia v.6b) 11. Segundo Mateus até o cristo foram 42 geração até Jesus(14 (2x 7) + 14 + 14). O objetivo é mostrar que Jesus é da descendência de Davi o que faz dele herdeiro das promessas feitas aos patriarcas. Nesse ambiente, Maria aparece(v.16) como a esposa de José filho de Jacó(v.16) que gerou Jesus. Percebe-se aqui, que não foi José que gerou Jesus, mas sim Maria. Por outras palavras Jesus é filho do Altíssimo, gerado no Espírito de Deus. Outro ponto significativo da genealogia de Maria é que Deus não se curva diante dos escrúpulos da sociedade. Onde muitos podem ver miséria e desgraça(Tamar v.3; Raab v.5; Rute v.5b betsabéia v.6b), ele pode suscitar salvação.
Maria reaparece nesse mesmo capitulo, agora na “narração” do nascimento de Jesus (Mt 1, 18-25) – embora não haja uma descrição do fato.. O Texto diz que ela estava desposada por José(v.18) – Maria era noiva. Diz mais,fala que Maria ficou grávida antes do casamento. José poderia tê-la rejeitado, mas por causa da revelação do anjo, acolheu-a. Importante neste texto é como Maria é entendia: como a virgem(v.23) que deu a luz ao Deus conosco. Trata-se da mesma promessa feita ao povo de Israel, quando passava por perigos. O profeta Isaías (Is. 7,14), fala de uma virgem que daria luz á um filho e ele se chamaria Emanuel Deus conosco. Naquela época isso aconteceu, mas pré-figurativamente. Com o nascimento de Cristo a Virgem dá a luz ao verdadeiro Salvador, Rei(Deus conosco, Emanuel).Este reinará conforme a vontade de Deus sobre a casa de Davi. Há ainda menções a Maria em MT 2, 11.14.20.21( Reis magos; fuga para o Egito, volta para Galiléia). Com essas citações do Evangelho de MT  comprova-se que Jesus é quem cumpri as promessas do Antigo testamento - salvador – e Maria é quem contribui para esse projeto.
Em seguida vem as referencias a Maria encontradas durante a vida publica de Jesus(Mt 12, 46-50; 13,53-58). Na primeira citação é retomado o mesmo tema de Mc 3, 31-35, isto é, a questão do discipulado. O termo usados são mãe e irmãos ( μήίήςσ / αδελφός)). Desse modo, pode-se assegura que aqui mais uma vez trata-se da conceituação de discípulos. Para Jesus, eles são aquele que fazem a vontade do Pai(vv.50-51). Isso inclui Maria. A família de Cristo não se circunscreve aos laços sanguíneos. Assim, Maria é a mãe biológica de Jesus e se torna “mãe na fé” - parente – à medida que faz a vontade de Deus. A segunda citação também repete o mesmo tema de Mc 6, 1-6. - Nenhum profeta aceito em sua terra entre seus irmãos.
Com esses dados, pode-se assegurar que para Mateus, Maria é a virgem que “contribuiu” para o cumprimento da promessa. Ela deu a luz ao  filho de Deus, o messias da tribo de Davi esperado pelo povo de Israel.

2.4. MARIA NO EVANGELHO DE LUCAS E NOS ATOS DOS APOSTOLOS

LUCAS12 Primeira parte de uma obra que é concluída como os Atos dos Apóstolos. O Evangelho é atribuído ao Médico(Cl 4, 14) Lucas que foi companheiro de Paulo. Seu Evangelho é composto de 24 capítulos e foi escrito em Grego provavelmente no ano 70 d.C. O texto é dirigido a Cristãos recém convertidos. Para Lucas Jesus Cristo é o “caminheiro”. Ele caminha para Jerusalém(Lc 9, 51 – 19, 28) onde será crucificado, ressuscitará e ascendera aos céus.(Lc 22-24). Também é, tido por muitos, como o evangelho da oração. Todas as grandes atitudes de Cristo são precedidas de um momento orante(A escolha dos apóstolos, Lc 6, 12; Confissão de Pedro, Lc 9,18; a transfiguração, 6, 28 o ensinamento da própria oração do pai nosso Lc 11,1; no Getsêmane, paixão Lc 22, 40-46).
            Dentre os três Evangelhos, o de Lucas é o que mais apresenta citações acerca de Maria. Segundo O dicionário de Mariologia, de 150 versículos no NT que tratam de Maria, 90 estão no evangelho de Lucas. O Evangelista, tal como Mateus, 13 apresenta num primeiro grupo um extenso material  relativo ao importante papel de Maria nas narrativas da Infância de Jesus(Lc 1, 26-38, anunciação; 1, 39-40, visitação. MAGNIFICAT, 1, 46-56, Nascimento de Jesus, 2, 1-7; visita dos pastores, 2, 8-20; apresentação de Jesus, 2, 25-37; menino Jesus no templo, 2,39-52 ); num segundo grupo algumas parcas menções a ela na vida pública de Seu filho(8,19-21, família de Jesus; e indiretamente em Lc 11, 27-28; At 1, 14.).
Em Lc 1, 26-38. Trata-se do singelo anúncio do anjo – Gabriel – a uma virgem. Ao mesmo tempo apresenta a vinda discretamente do Salvador. Pode destacar, segundo Carlos Mestre14 , que o sonho de ser a mãe do filho de Deus era uma esperança para muitas jovens da século I. Maria, como tantas outras, talvez acalentava esse sonho. Nesse texto, a Maria são atribuídos vários títulos. Primeiro “virgem”. Ela é uma virgem desposada por José. Ela é também a “cheia de graça”(vv.28),pois está repleta da graça de Deus o senhor está com ela(vv.30). Ela O senhor está ao seu lado, por isso ela é cheia de graça.. Ela é Bendita és tu entre as mulheres(vv.  22). Ela é a abençoada que dará a luz ao messias esperado(vv.33). Este relato do nascimento de Cristo é, conforme Aristides, o sinal de Deus que pousa humilde e silenciosamente no ventre de uma mulher para salvar e redimir seu povo.
A segunda aparição de Maira desponta em Lc 1,39-45(vv.39.41.). Neste ponto o que é apresentado é visita de Maria a Santa Isabel. Trata-se da simbólica visita de Maria a sua prima, na qual Isabel(Elisabeth) reconhece a presença do Senhor junto dela. O espírito Santo manifesto em Maria toca, agora, também, as outras pessoas. Segundo Jerome Kodel 15, a saudação de Isabel pode encontrar um fundo comum na frase de 2Sm 6,9. Na qual a Samuel diz que não é digno da visita da arca da Aliança. Assim, Maria, a nosso ver, na boca de Isabel, pela graça do Espírito Santo, é a Nova Arca da Aliança. Em seguida ela proclama o MAGNIFICAT.
A Terceira aparição de Maria no Evangelho de Lucas está em  Lc 2, 1-7. Estes versículos são, para a fé cristã, um dos mais fabulosos da mariologia. É o trecho do  nascimento de Jesus. É uma narração concisa e sóbria. São apenas sete versículos que descrevem o natalício de Jesus. Jesus, pela parte de José, é da descendência de Davi. Esse é o motivo da ida a Belém. Segundo alguns biblistas, talvez, Maria não tivesse necessidade de ir a Belém, pois ela não era da descendência de Davi– mesmo assim ela foi. Jesus nasce e ela, Maria, envolve-o em um pano. Esse relato sintético e discreto revela o projeto de Deus. Uma mulher comum, num lugar pobre e discreto é a porta para entrada do filho de Deus na humanidade.
Outro dois textos que apontam uma aparição de Maria no Evangelho ocorrem na visitação dos Magos e na apresentação(Lc 2, 8 -20; Lc 2, 21-37). No primeiro texto Ela é mencionada nos versículos(16.19.) No segundo, no versículo: 34(espada em teu coração). No texto da visitação a figura de Maria é apresentada como aquela que guarda tudo em seu coração(vv.19). Ela, na visão de Mateus, maravilha-se da grandeza do que está acontecendo(Salvador que nasce). Esse fato, produz uma única reação guardar no coração. O relato da apresentação no templo apresenta a mesma perplexidade de Maria, agora em Simeão e em Ana. Maria(vv.34) é mencionada uma única vez para falar da dor que lhe consumirá.. Talvez uma menção antecipada do versículo à morte de Cristo.
Para finalizar as narrativas da infância, Maria aparece no texto do menino Jesus perdido no templo. Jesus, aqui, já atingira a maioridade Judaica. Jesus está perdido no templo. Maria ao encontrá-lo(vv.48). Questiona-o sobre o seu sumiço ao que ele responde laconicamente que deveria cuidar das coisas de seu Pai. Maria, mais uma vez, guarda tudo em seu coração(vv.31).Curiosamente  é repetido a mesma idéia do capítulo 1, 19. Ele agora, está inserido num versículo posterior a profecia de Ana. Esse fato, poderia nos facultar afirmar que o coração transpassado de Maria, seria sua vida doada na comunidade para dilatar a Boa Nova do seu filho – visto que ela vai esta junto com os discípulos no Cenáculo.
Na vida pública de Jesus, Maria aparece duas vezes(8,19-21, família de Jesus; e indiretamente em Lc 11, 27-28). Na primeira ela está em pleno acordo com Mt 12, 46-50 e MC3, 31-35. Trata do discipulado de Jesus. Na segunda citação a referência é indireta. Trata-se da mulher que vendo Jesus pregar, expulsar demônio, diz que Bem-aventurado é o seio que lhe havia amamentado.A ela, Jesus, responde colocando mais uma vez com principio o discipulado. Isso, talvez queira dizer que até mesmo Maria, precisa fazer a vontade de Deus para ser tida como sua mãe – parente.
A última citação de Lucas sobre Maria está no complemento do seu Evangelho, ou seja, no texto dos Atos do Apóstolos. AT. 1, 14 . Nesta passagem estão reunidos os discípulos de Jesus e Maria, sua mãe de Jesus(vv. 14). Se com o Espírito Santo inicia a Igreja, Maria, também, pode ser considerada uma das continuadoras da construção do Reino de Deus através da Igreja nascente. Do mesmo modo, pode-se confirmar a idéia de Jesus, sobre a qual seus discípulos são aqueles que, em comunidade, fazem a vontade de Deus (rezam e vivem em comunidade)

2.5. MARIA NO EVANGELHO DE JOÃO E NO APOCALIPESE
           
Na ordem canônica trata-se do último Evangelho, cronologicamente também. Diz que a obra joanina foi elaborado nos anos 90 a 110 d.C(incluindo o apocalipse). Trata-se, pois do texto evangélico mais tardio sobre o Jesus o que nos ajuda a afirmar que ele, talvez, seja o mais “teológico, ‘mais maduro’” 16. Segundo a Tradição esse evangelho foi escrito em Eféso pelo Evangelista João que já estava bastante idoso17 . O apocalipse, foi escrito, também por “um João”(Ap. 1,1). Esse fato, todavia não contribui para dizer que seja a mesma pessoa – embora a tradição tenha feito essa atribuição. Segundo Alguns estudiosos, trata-se de um texto redigido por um Presbítero cristão do século I,  Todavia concordamos que ele foi seguramente escrito nos círculos Joaninos da Ásia menor 18
O Evangelho foi escrito em Grego, compreende  21 capítulos. Suas características principais  são a ausência de parábolas, e grandes discursos ligados que antecedem milagres19 .. O livro do apocalipse, por sua vez, foi escrito em grego e dirige-se às sete Igrejas da Ásia menor tecendo comentários sobre a situação da Igreja local(1-3). O restante do livro contém uma série de visões/revelações.
No que tange a Maria o Evangelho apresenta duas citações diretas a Maria. A Primeira nas bodas de Cana (Jô 2, 1-12) e a segunda ao pés da Cruz(Jo 19,25-27). Há ainda algumas alusões a mãe de Jesus(Jo 6,42; ). – aqui veremos apenas a duas primeiras.
João 2, 12. Trata-se do Evangelho da festa de Caná. Nessa festa a atuação de Jesus e a presença de Maria ocorrem quando falta vinho nas bodas(vv3). Maria(3-4) pede relata a Jesus o acontecido. A isso, Jesus responde: “mulher, o que há entre mim e ti”. Esta frase é digna de nota. Para alguns biblistas 20 não há tanto em hebraico como em grego outra referência a mãe nesses termos( mulher). Todavia não pode ser interpretada como uma resposta grosseira, ríspida, deselegante. Esse fato porque essa mesma palavra aparecerá na cruz(Jo19,21) bem como é a expressão usada por Cristo à samaritana(Jo 4, 21) e a Madalena (Jo 20,13). Assim, é impossível que esta frase seja uma grosseria, mas seria um forma de apontar o discipulado para todos, inclusive para seus parentes. Essa explicação pode encontra fundamento na resposta de Maria aos Serventes: fazei tudo o que ele disser.. Haja vista que a resposta mais comum seria uma réplica, uma resposta que denotasse grosseria e ou uma reivindicação de sua maternidade. Sua resposta obedece a uma lógica de quem acredita em quem ela está recorrendo.
A outra menção a Maria no texto de João está na cena da Cruz (Jo 19,25-27). Esta cena, para nossa piedade Mariana atual, é a imagem da virgem das dores, da virgem compadecida, da mãe que sofre. Seria a Pietá de Michelangelo! Ao longo da história da exegese bíblica muitas interpretações possíveis já foram atribuídas a este texto21 . O texto diz que Maria recebe o filho(vv. 26b) e o discípulo amado acolhe a mãe(vv.27a). Uma interpretação possível desse texto é a luz a menção aos irmãos de Jesus, feita tanto nos sinóticos (Mc 6, 1-6; Mt 12, 46-50; Lc 8, 19-21) como no evangelho de João(6, 42). Desse modo, quando Maria recebe o “novo” filho pode-se dizer que Jesus está fazendo a última menção ao discipulado(parentesco) dele que já não é mais sanguíneo, mas de fé – fazer a vontade de Deus.
Por fim, a passagem de apocalipse 12. Trata-se do texto em que uma mulher vestida de Sol dá a luz a uma criança numa situação de ameaça eminente. Neste texto uma grande pergunta que sempre desponta é: Seria a mulher vestida de sol, Maria? A esta pergunta permanece uma controvérsia infindável entres os diversos estudiosos das sagradas Escrituras. Para alguns a imagem primeiramente representa a Igreja, Israel, o povo de Deus22 . Mas os símbolos do apocalipse não esgotam-se numa única interpretação. O que pode permite admitir que a mulher vestida de sol, também é Maria. Esse fato, porque ela foi uma parturiente(vv.13b), ela estava cheia de graça(vestida de sol? Vv.1) e porque foi a mãe do Messias(aquele que reina para sempre, vv.5).Enfim, para além das controvérsias, exegéticas quer-se admitir, aqui, que Maria é a “mulher vestida de sol”

3. CONCLUSÃO

Indubitavelmente a epopéia empreendida por entre os Textos Sagrados para entrever a figura de Maria é um processo laborioso. Incompreensões e ideologizações podem ser facilmente cometidas se não tivermos claro que Maria, depois de mãe do filho de Deus foi discípula.
Sob a ótica da cronologia histórica do Novo testamento, pode-se perceber uma evolução. Da citação indireta de Paulo à figura da Igreja, da nova Israel em João muitos passos foram dados em busca do verdadeiro rosto de Maria. A nosso ver esse rosto é de uma mulher. Uma judia que poderia ter  nutrido, como muitas outras mulheres, o sonho de Ser mãe do Salvador. Essa judia que foi mãe,mãe do filho de Deus. Todavia, além do seu decisivo papel na maternidade de Jesus, sua importância para os Evangelhos reside no fato de ter acolhido o projeto de Deus. No fato dela ter sido, como tentamos demonstrar, discípula de seu próprio filho, de ter extrapolado os laços sangüíneos e adentrado num parentesco universal dos filhos de Deus que seguem a Cristo, que fazem a vontade de Deus.
Nesse sentido, a importância capital de Maria foi de ter acreditado na vontade Deus. Ter feito aquilo que ele queria e, mais ainda, de ter aprendido a reconhecer no seu próprio filho: Deus. Com isso, conduzir milhares de pessoas para o coração de seu diletissímo filho: Jesus de Nazaré, o ressuscitado. Único, vivo e verdadeiro.

REFERÊNCIAS

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  2. Bíblia de Jerusalém.São Paulo: Paulus.2004.
  3. BIBLIA SAGRADA. Rio de Janeiro: Impressa Bíblica Brasileira 1956. (João Ferreira de Almeida.)
  4. BINGEMER, Maria Clara . Maria - a estrela do mês de maio.Teologia Revista Anais de Nossa Senhora do Sagrado Coração- maio/2004
  5. BROWN, R. E. (Et al). Maria no Novo Testamento. São Paulo.Edições Paulinas. 1985.
  6. CAPOBIANCO, Humberto. Simplesmente Maria: Maria no vaticano II: uma leitura Ecumênica.; s/d
  7. CELSO, Pedro. Entrevista sobre o Ano Paulino. Jun/2008. n. 06. Revista Anais de Nossa Senhora do Sagrado Corção São Paulo.
  8. DEI VERBUM. COMPEDÊNDIO VATICANO II. 8 ed.1969
  9. KODEL, Jerome. Evangelho de Lucas: BERGANT, Diane e KARRIS, Robert J.(ORG) Comentário Bíblico.v.III. São Paulo: Loyola.1999
  10. LUMEM GENTIUM. COMPEDÊNDIO VATICANO II. 8 ed. 1969
  11. MACKENZE, John L Dicionário Bíblico. 6 ed. Paulus. São Paulo.
  12. MESTERS, Carlos. Maria, mãe de Jesus. São Paulo,: vozes.
  13. SERRA, Aristide. Dicionário de Mariologia. São Paulo: paulus. 1998.
  14. SUMPTIBUS PONTIFICI INSTITUTI BIBLICI. Novum testamenum. Gregai et latine. 4 ed. Roma: s/e .1942
  15. WASHITA, Pedro. Maria e Iemanja.: analise de um sicretismo. São Paulo: edições paulinas.1991
  16. ROSA, luiz. Os irmãos de Jeus. Disponível em www.abiblia.org. Acessado em 25 de maio de 2008

1 LUMEN GENTIUM. Compedêndio  Vaticano II. 8 ed 1969 nº 67..

2 SERRA, Aristide. Dicionário de Mariologia. São Paulo: paulus. 1998. p.2001

3 Op. Cit. P2001

4 CELSO, Pedro. Entrevista sobre o Ano Paulino. REVISTA ANAIS Jun/2008. n. 06. São Paulo.(levemente modificado)

5 Cf.ASSSOCIAÇÃO LAICAL DE CULTURA BIBLICA. Vademecum para o Estudo da Bíblia. Paulinas.2005 p.129

6 Cf.BROWN,  R. E. (Et al). Maria no Novo Testamento. São Paulo.Edições Paulinas. p.61. 1985

7 SERRA, Aristide. Dicionário de Mariologia. São Paulo: paulus. 1998. p.240

8 cf.ROSA, luiz. Os irmãos de Jeus. Disponível em www.abiblia.org. acessado em 25 de maio de 2008

9 ASSSOCIAÇÃO LAICAL DE CULTURA BIBLICA. Vademecum para o Estudo da Bíblia. Paulinas.2005. P128

10 cf.BROWN,  R. E. (Et al). Maria no Novo Testamento. São Paulo.Edições Paulinas.  1985.p.85; ERRA, Dicionário de mariologia. p.2005; CAPOBIANCO, Humberto. Simplesmente MariA: Maria no vaticano II: uma leitura ecumênica.s.ed.; s/d .p.74

11 Cf: BROWN,  R. E. (Et al). Maria no Novo Testamento. São Paulo.Edições Paulinas.  1985.p.92 :Tamar(Gn 38, 24) fez passar-se por prostituta; Raab(js 2, 1) era prostituta;Rute(Rt 3, 1-18), pode-se pensar que ela seuduziu Booz e Bertaabeia(2Sm 11), mulher de urias que adulterou com Davi

12 ASSSOCIAÇÃO LAICAL DE CULTURA BIBLICA. Vademecum para o Estudo da Bíblia. Paulinas.2005. P?130

13 cf.IWASHITA, Pedro.  Maria e Iemanjá.: analise de um sincretismo. São Paulo: edições  paulinas.1991.p132

14 Cf.MESTERS, Carlos. Maria, mãe de Jseus. São Paulo,: vozes. P. 45

15Cf.KODEL, Jerome. Evangelho de Lucas: BERGANT, Diane  e KARRIS, Robert J.(ORG) Comentário Bíblico.v.III. São Paulo: Loyola.1999

16 SERRA, Aristide. Dicionário de Mariologia. São Paulo: paulus. 1998. p.232

17 ASSSOCIAÇÃO LAICAL DE CULTURA BIBLICA. Vademecum para o Estudo da Bíblia. Paulinas.2005.p.130-1

18 Ibid.id.p.141

19 Ibid. id.p.130-1

20 Cf: BROWN,  R. E. (Et al). Maria no Novo Testamento. São Paulo.Edições Paulinas.  1985.p.202

21 SERRA, Aristide. Dicionário de Mariologia. São Paulo: paulus. 1998. p.240

22 Cf: BROWN,  R. E. (Et al). Maria no Novo Testamento. São Paulo.Edições Paulinas.  1985.p.248

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