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Pentecostes: o Espírito Santo gera unidade na diversidade



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  • 15/05/2016
Gilvander Moreira

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"Todos ficaram repletos do Espírito Santo" (At 2,4)

Para entendermos bem o verdadeiro sentido do que foi e é a experiência de Pentecostes ("descida" da Espírito Santo sobre as comunidades) é bom partirmos da nossa realidade e focalizando o mapa do Brasil. Faz bem recordar a diversidade, complexidade e os contrastes, presente no nosso país. Por exemplo, o Brasil tem 8.511.965 Km2; extensão territorial de um continente; 27 estados, quase 5.500 municípios; Diversidade de culturas regionais; um caldeirão de igrejas e religiões "pra todos os gostos"; salário mínimo de Rs 180,00; Salário máximo beirando "as nuvens"; campeão em desigualdade social e distribuição de renda; 1% dos brasileiros possuem 48% da terra do Brasil; Poucos com terra (e riqueza) demais, enquanto a maioria sobrevive sem terra e na miséria; etc, etc. É bom levar no coração e na memória esta realidade brasileira para extrair o sentido em si de Pentecostes e acolher a mensagem que Deus quer nos comunicar através dos primeiros cristãos e cristãs.

Na festa de Pentecostes o Movimento de Jesus, depois da ressurreição, realiza o seu primeiro grande testemunho público em Jerusalém nos anos 30 a 32. Ali nasce a primeira comunidade cristã, sob a inspiração do Espírito Santo. Pentecostes é a primeira memorável aparição da comunidade cristã primitiva. Memorável, não somente porque recebiam a “promessa do Pai” (At 1,4) e o batismo no Espírito, mas era o momento de confrontar com todo o Israel reunido para a grande festa de Pentecostes. Aparecer publicamente empunhando pela primeira vez a bandeira do projeto de Jesus, executado a apenas 50 dias era um desafio enorme.

Pentecostes marca o antes e o depois dessa comunidade. Antes, pessoas tremendo de medo, com esperança por um fio, dispersas e desunidas. Depois, pessoas corajosas, cheias de esperança, re-unidas, organizadas e articuladas. Os discípulos e as discípulas de Jesus caminharam com o mestre, unidos, da Galiléia a Jerusalém; A execução de Jesus foi "uma tragédia" que dispersou e "desuniu" o grupo, mas com a experiência da Ressurreição, pouco-a-pouco, o grupo foi se re-unindo, elaborando aquele trauma um Espírito novo e animador foi gradativamente contagiando o Movimento de Jesus.

Uma primeira questão a ser respondida é: Teve um único Pentecostes nas comunidades cristãs? Ou foram vários? No livro de Atos fala-se de vários Pentecostes: a) O do Movimento de Jesus, em Jerusalém (At 2,1-13); b) Outro Pentecostes em At 4,31; c) Em At 8,17 relata o Pentecostes dos Samaritanos. d) Em At 10,44-45 Lucas relata o Pentecostes dos pagãos. Estes recebem o Espírito ao ouvir a Palavra do apóstolo Pedro, antes de serem batizados; O Espírito sempre vai na frente; permeia toda a realidade, está em tudo, inunda e contagia tudo e todos; e) Na missão de Paulo o Espírito "desce" outras vezes sobre o povo. As pessoas movidas pelo Espírito começam a falar em línguas e a profetizar (19,4-6).

Em diversas ocasiões Lucas relata o Espírito descendo sobre as comunidades para que se cumpra o desejo de Deus (e de Moisés): "Tomara que todo o povo de Javé fosse profeta e recebesse o Espírito de Javé!" (Nm 11,29).
1. Hoje também acontece Pentecostes. Na sua comunidade houve algum Pentecostes? Quando? Como? Por que você o chama de Pentecostes?
2. Vamos ler o texto: At 2,1-41. O texto inicia com a descrição de um fato (At 2,1-13). Em seguida, traz o resumo de um discurso que interpreta a mensagem do fato (At 2,14-36). Ele termina com a descrição de outro fato, no qual aparece o resultado da aceitação da mensagem na vida do povo (At 2,37-41).
3. No texto, onde Deus se manifesta? Como? A quem? Para quê? Qual a novidade nesta manifestação?
4. Qual a mensagem principal do símbolo das línguas de fogo? E do vento? Como esta mensagem pode ajudar-nos hoje a perceber a ação de Deus na vida e na história das nossas comunidades, em particular nas comunidades?

Pentecostes é uma festa onde mulheres e homens re-unidos agradeciam a Deus pelos frutos da terra, onde se lia o livro de Rute para confirmar o amor de Deus aos povos, onde se acolhia gente de todos os lugares. É numa festa destas que acontece a prometida dádiva do Espírito Santo (At 2,1-13). O lugar do Pentecostes é o coração dos primeiros cristãos. Coração entendido como razão e sentimentos integrados.

Outra questão que merecer ser bem respondida é: Quem estava re-unido? Por dezenas de séculos foi colocado na cabeça do povo que o Espírito tinha descido sobre os 12 e Maria, a mãe de Jesus. Infelizmente esta foi uma interpretação reducionista que visava enfatizar a presença do Espírito Santo "quase" que só nos bispos, os "sucessores dos Apóstolos". Mas vamos tirar toda e qualquer mordaça da Bíblia e deixar que ela nos fale. Rastreando o primeiro capítulo de Atos concluímos que estavam re-unidos: “Os 11 e os demais: Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago, e as outras que estavam com elas” (Lc 24,10); Cléofas e sua esposa(1) (“os discípulos” de Emaús – Lc 24,13); “algumas mulheres, Maria, a mãe de Jesus, e seus irmãos” (Lc At 1,14); “Galileus” (At 1,11). É esse grupo, citado acima, especificado como "cerca de 120” (cf. At 1,15-26), que participa da Ascensão, do Pentecostes e que escolhe Matias, o substituto de Judas Iscariotes.
 

Pentecostes: um novo coração

Terminara os cinqüenta dias entre a Páscoa e Pentecostes. Jerusalém estava repleta de peregrinos. Todos teriam trazido as primeiras colheitas para serem ofertadas no Templo. A peregrinação até Jerusalém teria sido linda. Imagine grupos de pessoas caminhando juntos com cestos de uva, trigo, azeitonas, trigo, mel, etc. Sendo acolhidos em Jerusalém ao som de harpa, flauta e recitação de Salmos. Todos carregavam dentro de si o desejo de agradecer a Deus pelas primeiras colheitas e comemorar o “dom da Torá”, da Lei dada ao povo no monte Sinai tantos séculos atrás. Comemorar o recebimento da Torá era o mesmo que afirmar: no dia de sua revelação eu também estava lá. O ontem se torna hoje.

Lucas descreve o acontecido em Pentecostes tendo na memória a narrativa do Sinai. Era preciso demonstrar que um novo Sinai estava acontecendo para legitimar a ação da comunidade de Jerusalém. Jesus teria dito para voltar a Jerusalém e lá eles receberiam o Espírito Santo. Pentecostes passa a ser o batismo da comunidade cristã, o qual lhe confirma na missão de ir para o mundo e evangelizar. No texto como temos em nossas Bíblias encontramos dois relatos unidos: um mais antigo (At 2,1-4.12-13) e um mais desenvolvido redacionalmente (At 2,5-11). O objetivo do primeiro relato é chamar a atenção para o fato carismático e apocalíptico de Pentecostes. At 1,1-4.12-13 coloca Pentecostes como um "falar em outras línguas", o que pode se referir Glossolalia ("falar em línguas") ou a Xenolalia (= falar em línguas estrangeiras). Já o segundo relato (At 1,5-11) é mais profético e missionário; aqui a beleza de Pentecostes está em que "cada um fala a sua própria língua" (por três vezes se repete esta expressão; cf. At 2,6.8.11) e todos entendiam. Quer dizer, a pedra de toque de Pentecostes é a comunicação que se cria entre pessoas e grupos diferentes, aonde cada um mantém sua própria "língua-cultura". O diferente é acolhido para enriquecimento; o outro não é visto como uma ameaça. A unidade se faz na pluralidade, na diversidade.

Em Pentecostes Pedro fez um discurso para três mil pessoas que se aglomeram ao redor da casa onde estavam os "120" discípulos e discípulas. Não podemos afirmar que seja uma cifra exata. A comunidade de Atos quer com isso afirmar que a comunidade dos convertidos era tamanha que se podia chamá-la de massa. A multidão reunida provinha de 12 povos e 3 regiões. Basicamente estavam em Jerusalém três grupos: 1) Nativos do oriente (partos, medos e elamitas); 2) Habitantes do leste (Mesopotâmia), norte (Ásia), sul (Líbia) e os da Judéia, Capadócia, Ponto, Frígia, Panfília e Egito; 3) Estrangeiros (romanos judeus e prosélitos, cretenses – povo marítimo – e árabes – povos do deserto). Eloqüente é o fato que Lucas não menciona o território das Igrejas paulinas (Síria, Macedônia e Grécia). Curiosamente Roma é a última; realmente Roma, o coração do Império Romano, era "os confins do mundo" para os cristãos.

Os fariseus, saduceus, essênios e ... contavam o dia de Pentecostes de modo diferente. Debate que durou séculos. Segundo os Rolos do Templo, da gruta 11, os judeus de Qumrã celebravam 3 pentecostes: Festa das Semanas do Novo Trigo (50 dias após a Páscoa); do Novo Vinho (50 dias após a festa do Novo Trigo) e do Novo Óleo (50 dias após a Festa do Novo Vinho). Isto é, depois da Páscoa, de 50 em 50 dias tinha uma festa de Pentecostes por três vezes. Sendo uma das Festas a do Novo Vinho, podemos entender melhor a zombaria de At 2,13: “Eles estão bêbados” (cf. At 2,15). Lucas pode ter conhecido múltiplos Pentecostes entre os contemporâneos Judeus e fez alusão ao Pentecostes do Novo Vinho, quando fala mais propriamente do Pentecostes do Novo Trigo.

Lucas é o único a narrar sobre pentecostes no NT. Paulo era ciente do dom do Espírito Santo (cf. Gal 3,2), mas ele não fala de Pentecostes. O quarto evangelho fala do recebimento do Espírito Santo no dia do túmulo vazio (cf. Jo 20,22), mas não fala de Pentecostes.


Publicado no JORNAL PELEJANDO, jun/2001, sessão: Bíblia e vida, p. 6.

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