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Israel Carnal: sexo no Talmude



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  • 17/06/2008
Jacir de Freitas

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Resenha do livro Israel Carnal, lendo o sexo na cultura talmúdica, de Daniel Boyarin (Imago, Rio de Janeiro 1994, 286 páginas)

Daniel Boyarin, professor de cultura talmúdica na Universidade da Califórnia, “judeu rabínico” e “feminista”, como ele mesmo se auto define (p.34), discute com maestria em Israel Carnal a tese que o judaísmo rabínico (sécs. II - VI da era Comum), através de seus Midraxes e Talmudes, trabalhou a questão do corpo e da sexualidade de modo bem diferente ao dos judeus helenistas, incluídos nestes boa parte dos cristãos.

Nesse sentido, duas visões se cristalizaram a partir do II século da e. C., a dos judeus rabínicos que definiam o ser humano como um corpo animado por uma alma, e a dos judeus helenistas e cristãos que entendiam o ser humano como uma alma que habitava num corpo (p. 17). A primeira serviu de base para criar relação de gênero integrada, capaz de levar a cabo a sublime ordem do Criador: “Crescei e multiplicai-vos!” (Gn 1,28).

A segunda caminhou para um dualismo e conseqüente desvalorização do corpo, o que permanece ainda em nossos dias. Assim o título do livro em questão, Israel Carnal, já é uma tentativa de demonstrar o âmago do polêmico pensamento de Boyarin. Partindo da acusação que Agostinho, citando Paulo, faz contra os judeus:

“Considerai o Israel segundo a carne” (1Cor 10,18), Boyarin procura aprofundar esse pensamento patrístico que distingue o Israel carnal do espiritual, o qual tem como elemento de distinção entre ambos o discurso do corpo e da sexualidade.

Dividido em 7 capítulos, Israel Carnal é o resultado do esforço por entender as conseqüências dessa diferença na relação de gênero e nos aspectos da vida social do judaísmo rabínico que produziu a literatura talmúdica.

No primeiro capítulo: “Considerai o Israel segundo a Carne”: sobre a Antropologia e a sexualidade nos judaísmos do final da Antigüidade (pp. 43-72), o autor apresenta a visão rabínica do corpo e da sexualidade na formação do ser humano como resistência às práticas discursivas e dominantes de outras culturas judaicas e não-judaicas no final da antigüidade. A antropologia rabínica é monística. Ela aceita a carnalidade na sua forma material como sabedoria de Deus.

O ser humano é o seu corpo. Isso vem exemplificado na bênção que o judeu deve pronunciar depois de urinar ou defecar: “Sê abençoado, ó Senhor do Universo, que fez o ser humano com sabedoria e criou nele orifícios e espaços ocos. É revelado e sabido diante do Teu Trono de Glória que se algum deles fosse aberto ou fechado, seria impossível viver diante de Ti.

Sê abençoado, pois curas todas as carnes e fazes coisas maravilhosas” (p.46). A sexualidade faz parte do estado original da humanidade, e não de uma degeneração sofrida após a queda.

Esse esforço rabínico de atribuir um valor positivo ao desejo sexual e à sexualidade encontraram resistência. É o que trata o segundo capítulo: A Dialética do desejo: “O Instinto do Mal é muito Bom” (pp. 73-88). Os rabinos acreditavam que tudo vinha de Deus e por isso tudo era bom. O desejo está ligado à procriação. Se o corpo do desejo é o mesmo que procria, como esse pode ser mal?

A tese de Boyarin ganha corpo no terceiro capítulo: Diferentes Evas: Mitos sobre as Origens da Mulher e o Discurso do Sexo no casamento (p. 89/118). O modo como os rabinos encaravam e tratavam as mulheres não estava calcado no desprezo cultural do corpo feminino (p. 89).

Para eles, as mulheres eram tidas como facilitadoras da vida do homem, cuidando de suas necessidades sexuais e reprodutoras, o que não significava negar à mulher uma subjetividade independente, nem mesmo o direito ao prazer (p. 118).

Como conseqüência disso, o casamento e a sexualidade eram vistos positivamente. Já na literatura bíblica vemos que o papel da mulher é subordinado, dominado e dependente, o que possibilitou aos judeus helenistas e cristãos terem uma visão negativa da sexualidade e do corpo, principalmente em relação à mulher.

No quarto capítulo: A produção do desejo: Maridos, Esposas e a Relação Sexual (pp. 119-144), Boyarin analisa como o discurso do desejo sexual e da interação dentro do casamento afetam a relação homem-mulher na cultura rabínica, como o discurso do poder, conhecimento e prazer se integram para encontrar mecanismos de controle da classe rabínica sobre a prática sexual dos casais e de homens sobre as mulheres na vida sexual (p. 119).

A conclusão do autor é que por mais que o Talmude insista que a relação homem-mulher deva ser de carinho, intimidade, desejo e de prazer da parceira, a mulher ocupa sempre uma posição subordinada diante do homem dominador, ainda que atencioso (p. 144).

Além disso, a Torá não controla o que se passa entre um homem e uma mulher na relação sexual. Alguns rabinos chegam a propor regras, como: realizar sexo só no escuro, durante a noite, sem a presença de ninguém, nem mesmo de uma mosca, etc.

No entanto, se a Torá se abstém de interferir na vida sexual de um casal, ela não deixará fazê-lo no que tange ao campo do desejo pelo saber. Nesse âmbito, ela passa a ser a “outra” na vida do homem. É o que trata o quinto capítulo: O desejo pelo saber: a Torá enquanto a “outra” (p. 145-178). A leitura desse capítulo vai-nos colocar diante de opiniões, até mesmo divergentes, dos rabinos.

Conta-se a história de vários rabinos, dentre elas a do Rabino Rehuna. Esse costumava visitar a sua mulher na véspera da “festa do perdão”. Um dia ficou completamente absorto nos estudos da Torá. A sua esposa estava esperando: “Agora ele vem. Agora ele vem!”, dizia ela. E ele não veio. Ela ficou abalada e uma lágrima caiu de seus olhos. Ele estava sentado no telhado. O telhado desabou e ele morreu.

Como resistência ao discurso masculino, temos o caso de mulheres estudantes, as quais contestam o fato de serem consideradas parceiras sexuais e reprodutoras, por mais honrosa que seja essa condição. Esse é o polêmico assunto do capítulo sexto: As mulheres Estudantes: A Resistência Interna ao discurso masculino (p. 179-208). Berúria é citada como exemplo de mulher que consegue atingir um profundo conhecimento da Torá.

Nm 5,11-31, que trata de um rito para casos de ciúme do marido ou de desvio sexual da mulher, é interpretado de várias formas. Os rabinos palestinos diziam que é importante os pais ensinarem a Torá para as suas filhas, pois quando forem acusadas de adultério, elas saberão se defender diante do marido.

Já os rabinos da Babilônia argumentam o contrário, dizendo que se as mulheres conhecessem a Torá, elas poderiam trair com facilidade os seus maridos, já que saberiam as artimanhas para se defenderem.

Permitir o estudo da Torá às mulheres, seria o mesmo que ensiná-las a infidelidade. Boyarin acredita que “o principal motivo para que as mulheres fossem confinadas ao papel de procriadoras e parceiras sexuais na cultura rabínica era o medo de que, caso isso acontecesse, esse papel fundamental não fosse desempenhado” (p. 207). O que preocupava os rabinos era a perda do controle da mulher da Torá, dois substantivos femininos, altamente estimados, mas que deviam ser mantidos isolados (p. 268).

Um outro tema referente à sexualidade no mundo rabínico era o do corpo masculino. Boyarin dedica todo o último capítulo do seu livro ao que ele chama de: (Re)produzindo os Homens: A Construção do Corpo masculino Rabínico (pp. 209-236).

A temática é aberta com a apresentação de textos do Talmude da Babilônia discutindo o tamanho do pênis dos rabinos. O grotesco estaria ligado essencialmente ao corpo reprodutor e, portanto, à reprodução (p. 209). A obesidade era vista como entrave à atividade sexual e conseqüente procriação.

A descrição que fizemos do caminho percorrido por Boyarin nos leva a concluir que Israel Carnal é um livro de suma importância para o estudo comparado do pensamento rabínico, feito de forma crítica e inusitada. O autor não nega a misoginia na cultura rabínica. Ademais, ele a analisa no interior da cultura judaica e em relação aos valores helênicos e cristãos.

Nisso, Boyarin traz uma contribuição importante para leitura de gênero, tanto na esfera judaica, como na cristã. Melhor conhecendo o judaísmo, mais eficaz será o nosso diálogo inter-religioso. Não menos eficiente será a nossa compreensão do papel da mulher, do homem, da sexualidade e do casamento nas Escrituras.

Outro mérito de Boyarin é o de levar o leitor, mesmo aquele que não tem muita afinidade com a literatura e religiosidade judaico-rabínicas, a mergulhar nesse fascinante mundo, onde as opiniões se misturam sem a pretensão de uma superar a outra. Israel Carnal é livro que vale a pena ser lido e assimilado.

Muito ele tem a contribuir com a exegese atual, no seu esforço de buscar um diálogo inter-religioso, resgatando, na perspectiva da leitura de gênero, valores do corpo e da sexualidade. Vale a pena quebrar a “casca da noz” para entrar nesta obra que, de per se, não é de fácil acesso.

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BOYARIN, Daniel. Israel Carnal, lendo o sexo na cultura talmúdica. Trad. do inglês. Editora Imago, Rio de Janeiro 1994, 286 p.


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