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A Influência de Jesus e da Igreja Primitiva em Paulo



  • Estudo
  • 5419
  • 20/06/2008
Brian Gordon Lutalo Kibuuka

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Falar sobre a relação entre Paulo e Jesus, além da relação entre Paulo e a comunidade cristã primitiva de origem judaica, é tratar de uma temática que não apresenta caminhos tão fáceis. Algumas questões precisam ser devidamente respondidas quando se investiga este tema:1

  1. Paulo conheceu Jesus pessoalmente?
  2. O que significa a atividade terrena de Jesus para Paulo, e para sua teologia?
  3. Qual a relação entre a teologia de Paulo e a pregação de Jesus?
  4. Como Paulo utiliza a tradição cristã primitiva, com acentos judaicos, a respeito de Jesus

Paulo e Jesus: Jesus Segundo a Carne, Cristo segundo o Espírito

É impossível afirmar se Paulo conheceu ou não a Jesus pessoalmente, em vida. As fontes para a investigação estão presentes nos textos paulinos e em Atos dos Apóstolos.
Os dados biográficos de Paulo nos Atos não fecham a questão sobre um encontro pessoal de Paulo com Jesus. Eles se limitam a dizer que Paulo era estudante em Jerusalém na época da crucificação.2

Já as epístolas paulinas trazem poucas informações. A mais reveladora está em 2 Co 5.16, em que Paulo afirma: “Assim que, nós, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne; e, se antes conhecemos Cristo segundo a carne, já agora não o conhecemos deste modo.” O texto, de difícil interpretação,3 não possibilita saber ao certo se Paulo conheceu a Jesus antes da ressurreição. Mas é certo que Paulo entende que “o conhecimento puramente humano do simples homem Jesus está eliminado.”4

A Importância da Atividade Terrena de Jesus Para Paulo

Paulo certamente acolheu a Jesus. Segundo Cerfaux, há uma “consonância profunda” entre o pensamento paulino e o pensamento de Jesus.5
Bultmann, ao contrário, afirmou que o Jesus terreno não interessava a Paulo.6 Partindo de 2 Co 5.16, ele afirmava seu ponto de vista em contraposição aos liberais do século XIX, que entendiam ser apenas o Jesus histórico interessante para a pesquisa. Goppelt tece críticas a Bultmann, afirmando que a totalidade de Jesus era importante para Paulo, já que a morte também é um tema importante para Paulo, e esta pertence aos domínios do Jesus terreno.7 É possível acrescentar ainda que a tradição a respeito da Ceia do Senhor, presente em 1 Co 11.23-29, faz parte do escopo do Jesus terreno, ainda que seja um testemunho limitado em comparação ao testemunho evangélico, e que as implicações da Ceia sejam entendidas numa dimensão mística.

A Teologia de Paulo e a Pregação de Jesus

Muitos temas da pregação de Jesus estão ausentes da pregação de Paulo. Não há registros de parábolas, os ditos de Jesus praticamente não aparecem nas epístolas, e não há uma descrição pormenorizada da relação de Jesus com o farisaísmo.8

Por outro lado, alguns temas tratados por Jesus estão presentes em Paulo, mesmo que não sejam citações explícitas da pregação jesuânica.
O primeiro tema que pode ser destacado é a atitude em relação à Lei. Jesus coloca-se acima da Lei, alinhando-se aos profetas. Paulo, de igual modo, afirma ser superior à Lei, estabelecendo uma significativa oposição entre Lei e Graça, além de desenvolver a doutrina da Justificação pela Fé.9

O segundo tema está ligado ao anterior: Jesus e Paulo diminuíram a importância dos sacrifícios. Eles nunca atacaram diretamente o Templo e os piedosos que ali se reuniam, mas acentuaram mais o “espírito” daquele que ali oferecia sacrifícios, do que o sacrifício propriamente dito.10
O terceiro tema está ligado ao combate ao particularismo judaico. Jesus e Paulo rompem particularismos, em nome da autoridade dada por Deus. Jesus elogia a fé do centurião11 e da estrangeira.12 Paulo, por sua vez, rompeu com particularismos afirmando sua missão e apostolado como advindos do próprio Cristo.13

O quarto tema comum é a compreensão de Deus como Pai, tipificada na expressão aramaica “Abba”. Tanto Jesus quanto Paulo entendiam a relação com Deus como uma relação filial.14

Paulo e a Tradição Cristã Primitiva

Na pesquisa liberal a respeito do cristianismo primitivo, desde os estudos de Ferdinand Christian Baur e da Escola de Tübingen, reconhece-se duas expressões fundamentais que coexistem no seio da cristandade antiga: o cristianismo judaico e Paulo. O cristianismo de expressão paulina estaria em oposição irreconciliável com o anterior, sendo a relação entre ambos descrita nas categorias de tese e antítese. O encontro entre as duas expressões do cristianismo primitivo daria origem a uma síntese joanina, cujo legado foi a cristologia elevada, unida à forte vinculação com as temáticas apocalípticas próprias do cristianismo palestinense.

Em 1912, Wilhelm Heitmüller afirmou existir uma terceira expressão, para o cristianismo primitivo, situada entre a comunidade primitiva palestinense e o cristianismo paulino propriamente dito. Heitmüller chamou esta expressão de “cristianismo helenista”.15 O cristianismo helenista, radicado em Antioquia, evidenciaria a transição cultural e teológica que permitiria uma melhor caracterização da transição paulina de fariseu para “apóstolo dos gentios”.

A partir do pensamento de Heitmüller, Wilhelm Bousset16 e Rudolf Bultmann17 procuraram caracterizar, sem sucesso, o cristianismo helenista, diferenciando-o da comunidade primitiva nos seguintes termos:
- Cristologia: Jesus como Filho do Homem Vindouro (palestinense) X Jesus como Kýrios celestial
- Escatologia: Ceia como momento de alegria escatológica (palestinense) X Ceia como evento repleto de mistérios e elevações espirituais
Não obstante as diferenciações, as categorias utilizadas eram artificiais, carecendo de maiores fundamentações nas fontes do cristianismo primitivo. Mesmo assim, é preciso investigar os vínculos que unem Paulo às tradições cristãs mais antigas, de forma a configurar de maneira menos artificial o cristianismo de expressão paulina.
As pesquisas de Sabatier,18 Machen,19 Mundle,20 Dodd,21 Fascher,22 Davies,23 Brunot,24 Schoeps25 e Amiot26 constataram que o pensamento paulino, longe de ser monolítico, apresenta variação significativa, podendo ser dividido em:

  1. Etapa das Epístolas aos Tessalonicenses: etapa em que o pensamento paulino estava concentrado nas ênfases da tradição mais antiga, a tradição escatológica.
  2. Etapa das Grandes Epístolas: nesta etapa, o encontro com o helenismo exigiu a adaptação por parte de Paulo, que procurou tratar dos temas da libertação da Lei e dos princípios éticos pelas listas e lições morais.
  3. Etapa das Epístolas do Cativeiro: nesta etapa, Paulo se concentra no tema da revelação do mistério de Cristo.27

Sobre a influência da Igreja primitiva em Paulo, é possível atestá-la na ausência da menção de João Batista, na consideração de Pedro, Tiago e João como colunas da Igreja,28 na ênfase de Paulo na ressurreição e na insistência na utilização do Antigo Testamento (58 citações), ainda que as comunidades gentílicas sejam destinatários correntes de seus escritos.29


1 Perguntas levantadas por: GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento. 3ª Ed. Trad. Martin Dreher e Ilson Kayser. São Paulo: Teológica – Paulus, 2003. p. 290-313.

2 At 22.2-4; 26.4.

3 Josef Blank publicou um artigo onde reúne argumentos diversos e as discussões exegéticas sobre o texto. Ver: BLANK, Josef. Paulus und Jesus: Eine theologische Grundlegung, 1968.

4 GOPPELT, Leonhard. Idem, p. 295.

5 CERFAUX, Lucien. O cristão na teologia de Paulo. Trad. José Raimundo Vidigal. São Paulo: Teológica, 2003. p. 23.

6 BULTMANN, Rudolf. Theologie das Neuen Testament. §22,3.

7 GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento. 3ª Ed. Trad. Martin Dreher e Ilson Kayser. São Paulo: Teológica – Paulus, 2003. p. 295.

8 Esta temática tem certa relevância, dado o fato de que Paulo se chama de “fariseu” (Fl 3.5). Jesus, em muitas seções dos Evangelhos, está em oposição aos fariseus, dado totalmente ausente nas epístolas paulinas.

9 CERFAUX, Lucien. Idem, p. 24.

Lc 18.14; Jo 4.23-24; Rm 12.1-2.

11 Lc 7.9

Mt 15.28.

13 1 Co 9.1-5.

14 Mc 14.36; Rm 8.15; Gl 4.6.

15 HEITMÜLLER, Wilhelm. Zum Problem Paulus und Jesus.In: ZNW 13 (1912). P. 320-337.

16 BOUSSET, Wilhelm. Kyrios, p. 75-104.

17 BULTMANN, Rudolf. Theologie das Neuen Testament. §9-15.

18 SABATIER, A. L’apôtre Paul. Esquisse d’une histoire de as penseé. 4 ª Ed. Paris : 1912.

19 MACHEN, J. G. The Origin of Paul Religion. Londres: 1921.

20 MUNDLE, W. Das religiöse Leben des Apostels Paulus. Leipzig: 1923.

21 DODD, C. H. The Mind of Paul: (1) Psychological Approach; (2) Change and Development. In: Bulletin of the John Rayland Library, 17 (1933). p. 91-105; 18 (1934). p. 69-110.

22 FASCHER, E. Paulus. In: Pauly-Wissowa Supll., 8 (1956). p. 431-466.

23 DAVIES, A. P. The First Christian: A Study of St. Paul and Christians Origins. New York: 1957.

24 BRUNOT, A. Saint Paul et son message. Paris: 1958.

25 SCHOEPS, H. –J. Paulus. Die Theologie des Apostels im Lichte der Jüdischen Religionsgeschichtliche. Tübingen: 1959.

26 AMIOT, F. Les idées maîtresses de saint Paul. Paris : Lectio Divina, 24, 1959.

27 As três etapas podem ser encontradas em: CERFAUX, Lucien. O cristão na teologia de Paulo. Trad. José Raimundo Vidigal. São Paulo: Teológica, 2003. p. 20-22.

28 Gl 2.9.

29 Kümmel afirma que a explicação para Paulo não citar todo o querigma cristão primitivo estava no fato de que ele “não necessitava dizer aos seus ouvintes tudo o que deveria ser dito em certo contexto.” Ou seja: além dos seus ouvintes já conhecerem grande parte do querigma, qualquer explanação a respeito do mesmo não deveria ser utilizada sem o devido cuidado em presevar o testemunho da fé. O mesmo fenômeno acontece com os outros textos do Novo Testamento que tem natureza epistolar. Ver: KÜMMEL, Werner Georg. Síntese teológica do Novo Testamento de acordo com as testemunhas principais: Jesus, Paulo, João. 4 ª Edição revista e atualizada. Trad. Sílvio Schneider e Werner Fuchs. São Paulo: Teológica, 2003. p. 180.

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