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O Uso do Antigo Testamento no Novo Testamento



  • Estudo
  • 10114
  • 13/07/2008
Brian Gordon Lutalo Kibuuka

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A tarefa fundamental da comunidade cristã apostólica era anunciar a salvação em Jesus. Para tanto, era necessário esclarecer o escândalo da morte de Jesus na cruz, demonstrar a veracidade da ressurreição e gerar acatamento às suas interpretações dos fatos ocorridos com o Nazareno. 1
No intuito de cumprir a sua tarefa, as comunidades primitivas do cristianismo afirmaram ser Jesus o último e decisivo oferecimento da salvação de Deus ao mundo, estabelecendo assim grande tensão escatológica e apelo a decisão. O processo de estabelecimento da proclamação exigiu, essencialmente, três atitudes dos líderes e dos cristãos, minoria diante de um mundo helenizado e/ou judeus e submetido ao Império Romano: o desenvolvimento, o aprofundamento e a fundamentação da boa nova.

A partir das três exigências citadas, é possível perceber ser o antigo Testamento, que era a Escritura para esta comunidade, que oferecia a base material para a constituição de uma proclamação que atendesse as exigências do contexto vivencial das comunidades cristãos nesse período.

O Uso do Antigo Testamento na Pregação Neotestamentária

A profissão de fé e pregação cristã começam e se fundam, outrora e hoje,  na ressurreição de Jesus. A ressurreição de Jesus foi a oportunidade ideal para os grupos cristãos perceberem que a morte tinha um sentido e significado daquele conhecido até ali. O testemunho do apóstolo Paulo em Gálatas 1.11-23 é exemplo disto: a aparição do Cristo ressurreto o convenceu de que tinha que crer e pregar. 2

A Explicação dos Fatos e Eventos Ocorridos com Jesus “segundo as Escrituras”

Para a comunidade primitiva, a ressurreição é a evidência de que o destino de Jesus deve corresponder à Sagrada Escritura. Desde o princípio, os cristãos primitivos entenderam que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos 3  – logo, a ressurreição deve ser uma possibilidade e o destino daquele que assumiu o ethos e as exigências do Reino. 4 Logo, a pregação apostólica assumiu o princípio de ser expositora da Escritura, 5 pois a paixão, morte de ressurreição de Jesus foram explicados a partir dos textos tidos por sagrados. 6

Dentro desta idéia, a Igreja exprime o que aconteceu com Jesus com palavras do Antigo Testamento: a divisão de vestes de Jesus, 7 seu brado na cruz, 8 a sua morte no madeiro ladeado pelos ladrões, 9 todo o seu sofrimento 10 - os fatos ocorridos na morte foram explicados como preditas nas Escrituras. A ressurreição também é assim compreendida. 11 A aplicação das Escrituras do Antigo Testamento para fatos e eventos foi se ampliando, alcançando até aspectos marginais da vida de Jesus, 12 como o local onde ele nasceu, 13 começou seu ministério, 14 e até mesmo a sua pobreza. 15
Porém, é preciso entender que a vinculação entre os eventos ocorridos com Jesus e os textos do antigo Testamento não surge apenas no modelo “promessa-cumprimento”, nem pode se dizer que era fruto do estudo da Escritura, mas provavelmente era lembrada quando se narrava a paixão, oportunidade singular para relacionar os eventos da paixão ao Antigo Testamento. 16

Conceitos teológicos extraídos do Antigo Testamento

Muitas expressões da Igreja e conceitos teológicos são provenientes do Antigo Testamento. Deus, salvação, juízo, justiça, graça, crer, escolha, verdade, o convite do Salvador (Mt 11.28-30), os agradecimentos ou ações de graças (Lc 1.46-55; 68-79) – todos são apropriações e ampliações, muitos extraídos do Antigo Testamento.

Podem ser citados como exemplos do uso teológico do Antigo Testamento:
* Marcos e a tradição que o ampara (1.25 e Ml 3.1, Is 40.3 / 2.25 e 1 Sm 21.1-7 / 7.6s e Is 29.13 / 11.17 e Is 56.7, Jr 7.11; 12.1-12 e Sl 118.22s / 6.34 e Nm 27.17, Ez 34.5);
* Situação da comunidade e de cada indivíduo por força da nova realidade salvífica, principalmente em Paulo (Rm 1.17, Gl 3.11 e Hc 2.4 / Rm 3.4-18 e Salmos / Gn 15.6, Rm 4.3, Gl 3.6 e Abraão)

A Igreja não criou uma linguagem teológica nova, mas apropriou-se de grande parte da já conhecida linguagem veterotestamentária e a ampliou.

“Diz a Escritura”

Diante das exigências da pregação, referências às Escrituras ficavam cada vez mais claras. Fórmulas introdutórias emprestadas da linguagem rabínica (”diz a Escritura”, “como está escrito”, “então”) indicam uma citação. O caráter destas é indicar a atualidade de uma palavra dita no passado, reconhecendo sua permanente eficácia. 17

“Isto aconteceu para que se cumprisse a Escritura”

O Antigo Testamento não é utilizado de forma uniforme no Novo Testamento. As diferentes tradições e culturas cristãs exigiram usos distintos do testemunho veterotestamentário.

Num primeiro momento, o Antigo Testamento tinha grande importância para a apologética e instrução cristãs. As comunidades cristãs mais antigas eram judaicas, o tornou muito importante a interpretação baseada na palavra do Antigo Testamento.

Já num segundo momento, com a inserção do cristianismo em comunidades gentílicas, outras facetas e desenvolvimentos foram executados.18  Mas não houve ruptura com o Antigo Testamento: é possível perceber em textos dirigidos aos gentios menções do Antigo Testamento, o que evidencia que eles receberam instrução nas escrituras. 19

A expectativa escatológica das comunidades cristãs também estava firmada em palavras do Antigo Testamento. O livro apocalíptico por excelência do Novo Testamento, o Apocalipse, contém numerosas citações de textos veterotestamentários, o que demonstra esta nova aplicação do Antigo Testamento no decorrer da história do cristianismo primitivo.

Um dos desenvolvimentos mais importantes no campo das relações entre o Novo e o Antigo Testamento é a compreensão da “história da salvação” (em alemão, o termo técnico é “heilgeschichte”). Lucas, por exemplo, vincula os três períodos principais da Igreja em sua obra de dois tomos: o evangelho e os Atos. A sua história começa com a expectativa messiânica, despertada pela leitura e compreensão dos judeus piedosos do advento do Messias, passando pela manifestação de Jesus, a ação da Igreja e a parusia do Cristo. 20 


1 Sobre a relação da morte de Jesus e o Antigo Testamento, Schreiner afirma: “A consciência da conformidade da morte do Senhor com a Escritura reclamava ao mesmo tempo uma explicitação e um desenvolvimento, como o atesta a história da paixão.” Ver: SCHREINER, Josef. A mensagem do Novo Testamento e a palavra de Deus do Antigo Testamento. In: SCHREINER, Josef & DATZENBERG, Gerhard. Forma e exigências do Novo Testamento. 2ª Ed. Trad. Benôni Lemos. São Paulo: Teológica, 2004. p. 17.

2 Gl 1.15-23: 15 Quando, porém, ao que me separou antes de eu nascer e me chamou pela sua graça, aprouve 16  revelar seu Filho em mim, para que eu o pregasse entre os gentios, sem detença, não consultei carne e sangue,  17 nem subi a Jerusalém para os que já eram apóstolos antes de mim, mas parti para as regiões da Arábia e voltei, outra vez, para Damasco.  18 Decorridos três anos, então, subi a Jerusalém para avistar-me com Cefas e permaneci com ele quinze dias;  19 e não vi outro dos apóstolos, senão Tiago, o irmão do Senhor.  20 Ora, acerca do que vos escrevo, eis que diante de Deus testifico que não minto.  21 Depois, fui para as regiões da Síria e da Cilícia.  22 E não era conhecido de vista das igrejas da Judéia, que estavam em Cristo.  23 Ouviam somente dizer: Aquele que, antes, nos perseguia, agora, prega a fé que, outrora, procurava destruir.

3 At 2.24,32; 3.15,26; 4.10; 5.30; 10.40; 13.30,33; Rm 10.9; 1 Co 6.14; 2 Co 1.9; 4.14; Gl 1.1; Cl 2.12; 1 Pe 1.21.

4 1 Co 6.14; 2 Co 4.14; Ef 2.6.

5 Afirma Josef Schreiner: “Remontam a uma época primitiva as manifestações estereotipadas da tomada de consciência de que o caminho de Jesus, marcado pela morte e ressurreição, era conforme a Escritura.” Ver: SCHREINER, Josef. A mensagem do Novo Testamento e a palavra de Deus do Antigo Testamento. In: SCHREINER, Josef & DATZENBERG, Gerhard. Forma e exigências do Novo Testamento. 2ª Ed. Trad. Benôni Lemos. São Paulo: Teológica, 2004. p. 17.

6 Mt 21.42; 22.29; 26.54,56; Mc 12.24; 14.49; Lc 24.27,32,45; Jo 5.39; At 17.2,11; 18.24,28; Rm 1.2; 15.4; 16.26; 1 Co 15.3; 2 Pe 3.16. Ver também: Conferir: DIBELIUS, M. Formgeschichte, 184-189. SUHL, A. Die Funktion der alttestamentlichen Zitate und Anspielungen im Markusevangelium, 1963, p. 45-66.

7 Jo 10.24 (citação de Sl 22.18).

8 Mt 27.46 (citação de Sl 22.1).

9 Mc 15.28-29 (citação, no verso 29, de Is 53.12).

10 Lc 24.44 (citação genérica de “Moisés, Profetas e Salmos”, ou seja, da Tanak judaica).

11 Em Lc 24.46, o próprio Ressuscitado explica, através das Escrituras, a morte, e também a necessidade de ressurreição do messias. Na mesma tradição lucana (At 13.33), o Sl 2.7 é entendido como uma menção à ressurreição. Paulo afirma genericamente que Cristo “ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1 Co 15.4). Fenômeno semelhante ocorre em todo testemunho neotestamentário, demonstrando a universalidade do fenômeno de se explicar os eventos ocorridos com Jesus pela via das Escrituras.

12 Afirma Josef Schreiner: “O conteúdo de toda a missão de Cristo é caracterizado no episódio de Nazaré - com um “hoje cumpriu-se esta Escritura”, tirado do Trito-Isaías (4.17-21).” In: SCHREINER, Josef & DATZENBERG, Gerhard. Forma e exigências do Novo Testamento. 2ª Ed. Trad. Benôni Lemos. São Paulo: Teológica, 2004. p. 22.

13 Mt 2.6 e Jo 7.42 (citando Mq 5.2, o primeiro diretamente e o segundo indiretamente).

14 Mt 4.15 (citação de Is 9.1).

15 Mt 8.20 e outros textos relacionados com o Servo do Senhor (‘ebed YHWH) de Is 53.

16 Tese de SCHILLE, G. Das Leiden des Hern. Die evangelische Passiontradition und ihr ‘Sitz im Leben’, In ZThK 52 (1955). p. 161-205.

17 Conferir: KITTEL, G. Le,gw, D. “Wort” und “Reden” im NT. In: TWNT, 100-140; 110-112.

18 Por exemplo: o sofrimento dos cristãos é explicado pelo recurso às Escrituras. Marcos: 4.11s - citando Is 6.9s - para que, olhando... / indicação de que os discípulos passariam por sofrimentos (8.31).

19 Um exemplo é o Evangelho de Marcos, cuja mensagem contém menções ao Antigo Testamento, mas reflete uma mentalidade helenista.

20 Por exemplo, Simeão e Ana esperavam o Messias. Quando o encontraram, anunciaram que já era vinda a salvação de Jerusalém (Lc 1.38). O texto de Lucas afirma que outros esperavam redenção, indicando com isto o pertencimento de pessoas no Reino de Deus antes mesmo do advento de Jesus. Este tempo se completa com a ação e ministério de Jesus, e a ação da Igreja, com a menção explícita do retorno de Jesus (At 1.11). Já em Mateus, as fórmulas de cumprimento são utilizadas para provar que não só a paixão de Cristo, mas sua origem, vida e obras estão no Antigo Testamento (Início e fim do ministério de Jesus: 4.14ss; 21.4s / curas e parábolas: 8.17; 13.35 / paixão como cumprimento: 26.54,56)

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