Uma janela sobre o mundo bíblico

“Expulsarão os demônios em meu nome” (Marcos 16, 17-18)



  • Estudo
  • 13751
  • 22/08/2008
Celso Kallarrari

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INTRODUÇÃO

Em nossos dias, evidenciamos a forte presença do fenômeno religioso, ou seja, do seu retorno, ao percebermos a proliferação do misticismo nos novos movimentos pentecostais e neo-pentecostais, cuja oferta significa uma salvação funcional para múltiplos males, provenientes de nossa sociedade secularizada. No âmbito católico, a RCC (Renovação Carismática Católica), cuja espiritualidade é pentecostal, será aqui, para nós, objeto de investigação, uma vez que este movimento, em suas práticas religiosas, busca, a partir da ordem e anúncio de Jesus (Mc 16,17-18), exercer o ministério de cura e libertação. Nossa proposta é, portanto, mostrar que o mesmo poder curador de Jesus, operado pelo Espírito Santo, qual seja de expulsão do mal da pessoa humana em seu estado de crise existencial, continua, nos dias atuais, operando milagres por intermédio de um profissional do sagrado ou de leigos engajados. Analogamente ao ministério de Cristo, estes últimos, por sua vez, ao exercerem a sua missão, vestem-se da ordem de Jesus e pelo poder do Espírito Santo, buscam restaurar no ser humano novo sentido existencial, sanando-os dos mais diversos tipos de enfermidades, consideradas como uma personificação do mal.

1. A presença do Sagrado

Observamos, nas narrações sobre Jesus, a presença do sagrado e do seu poder de salvar vidas humanas já consideradas perdidas, libertando-as das doenças físicas ou psíquico-emocionais, descritas pelos evangelistas. Nele, a preocupação com o ser humano, principalmente, com os marginalizados, juntamente com sua perspectiva da missão salvífica, procurava libertar o homem, em todas as suas dimensões, inclusive das situações anti-humanas. A partir da fé promotora das diversas manifestações do poder sagrado de Jesus, o milagreiro-Jesus exercia seu poder curador de todos os tipos de males que, naquele contexto, poderiam atormentar àqueles considerados como “ovelhas sem pastor”, a partir da fé promotora das diversas manifestações do poder sagrado de Jesus.

Em nossos dias, com o advento da modernidade, podemos também observar as mesmas práticas salvíficas de Jesus, operadas pelos seus ministros, considerados continuadores da sua missão? Ou as experiências das primeiras comunidades e dos grandes místicos da história da Igreja não acontecem mais? O mesmo poder curador e libertador dos diversos males humanos que, muitas vezes, são personificados nas doenças físicas, continua, em nossos tempos, operando milagres de curas naquelas pessoas que movidas pela fé no anúncio evangélico de um milagreiro contemporâneo? Para o Movimento da Renovação Carismática Católica, as doenças são consideradas como oriundas do mal e, em alguns casos, sua própria manifestação ou personificação?

A partir desses questionamentos, procuraremos analisar três narrativas de curas do livro “Há poder de Deus”, de Ironi Spuldaro e Casagrande (2006). O primeiro autor é considerado pela RCC como um dos milagreiros mais conhecido atualmente e a segunda, cuja autoria divide o livro com Ironi, uma das pregadoras do movimento. Os textos foram divididos entre os autores na seqüência do livro e, por isso, os testemunhos, escolhidos e analisados por nós ao final desse artigo, foram narrados pelo próprio pregador-milgreiro (Ironi), cujos milagres descritos permitir-nos-á estabelecer a relação entre doença e mal.

2. A Relação entre Saúde e Salvação

Em seu livro Saúde e Salvação, Terrin (1998) procura mostrar, a partir de alguns questionamentos iniciais, como as religiões históricas - mais especificamente as de tradição cristã - desenvolveram a tarefa terapêutica da religião associada a sua missão de salvação. Para esse intento, faz uso da etimologia quando explica-nos que os termos saúde e salvação nasceram de um mesmo conceito, mantendo, por muito tempo, o mesmo significado (svastha, sânscrito) de bem-estar, plenitude, assumindo adiante a forma do nórdico heill e derivando-se na língua anglo-saxônica em heil, whole, hall, entendidos como integridade e plenitude.

No latim, o termo é salus, indicando salvador, salvação e saúde, enquanto que, na língua hebraica, o termo é shalom, ao passo que, na língua egípcia, é snb, indicando, respectivamente, bem-estar físico, vida/saúde, integridade física e espiritual. Em contrapartida, o mal-estar físico, a doença e tudo aquilo que não promove a integridade humana são encarados como mal e, portanto, como situações anômicas ou conflituais entendidas como processo de demonização.

Para Berger (1985), a “alienação tem poder poder sobre os homens precisamente porque ela os protege dos terrores da anomia” (p. 102). Os fenômenos anômicos devem ser superados e explicados em termos de nomos estabelecidos na sociedade em questão” (BERGER, 1985, p. 65). É, pois, a partir da experiência religiosa e das qualidades particulares do sagrado que a alteridade gera, no homem religioso, projeções humanas, tais como: o temor, o terror e a adoração ao ser numinoso que transcendem o plano natural do ser humano. Esse mistério, envolto de medo e fascinação do outro, é o motivo que conduz ao encontro com o sagrado, uma vez que a religião, por si só, desempenha o papel de construção e manutenção do mundo.

O mal se revela, segundo Boncinelli (2007), na dor e no sofrimento. Em sua concepção, ele é tudo aquilo que incomoda o ser humano e é capaz de provocar-lhe dor física externa (fisiológica) e interna (patológica), ou dor psíquica e emocional (verbi gratia, perda de um ente querido, etc.) que, em alguns casos, poderia nascer de uma dor física, ou vice-versa. Geralmente, o papel da dor é funcionar como um “arauto” dos males humanos, isto é, uma forma de aviso de que alguma coisa não se encontra bem na integridade física do organismo humano. Segundo este autor (2007), a dor física é percebida como mal, uma vez que a sua ausência é que caracterizaria a presença do bem. “Os monstros e os demônios podem desencadear as doenças”, ao ponto de concebê-las como uma forma de personificação do mal e da doença num demônio como “um fato instintivo e imediato” (TERRIN, 1998, p. 159-60).

Segundo Terrin (1998), a religião, desde os seus princípios, é tendenciosa ao conceber saúde e salvação como forças correlatas, ao mesmo tempo que considera e confunde a doença com os espíritos maus, com o pecado e, consequentemente, com a possessão demoníaca, o que, segundo este autor, torna evidente, no mundo cristão, a partir de alguns textos da literatura sagrada. De fato, tanto para os antigos povos quanto para os modernos, “a doença passa a ser a primeira experiência pessoal do anticosmos, do caos e da desordem” (p. 156). Ela passa a ser, segundo Quintana (apud LEMOS, 2002, p. 484) “incompreensível, ininterpretável para o ser humano”.

Há, portanto, uma profunda relação entre as concepções de saúde, doença e religião, desde o momento em que se busca por saúde por intermédio da religião no mundo antigo. Na Mesopotâmia, as doenças sempre foram, obviamente, consideradas como forças ou situações negativas. No antigo Egito, por causa da tradição e do medo do mal, buscou-se sempre a cura através do culto da eterna juventude e cada parte do corpo correspondia ao domínio de um demônio e que para cada doença havia um médico. No Extremo Oriente, donde se cria na ordem cósmica e no poder do universo em harmonia, a doença era tratada como algo ligado a um equilíbrio das energias espirituais e cósmico-universais. Acerca da literatura hinduísta Ayurveda, que traz a meditação como técnica de cura, os curandeiros chineses buscavam na compreensão do tao (yin e yang) um perfeito equilíbrio para que o indivíduo obtenha a saúde (TERRIN, 1998).

De fato, é no mundo ocidental cristão que a concepção de saúde/doença ao ser relacionada à religião, adquire a concepção dualista (corpo e alma), herdada da filosofia até o Renascimento, de onde “toda a filosofia religiosa e humanista teve de ceder lugar à prepotência dos tecnocratas do corpo humano e, em geral, ao positivismo da pesquisa científica, que logo mostrou sua raiz anti-religiosa, na mesma medida em que se fazia defensor de um saber “objetivo” e “indutivo” (TERRIN, 1998, p. 179-80).

Não se pode esquecer, é claro, da contribuição dos egípcios e dos babilônios, dos quais o cristianismo buscou a crença de que as doenças eram causadas pelos demônios. Na Mesopotâmia, prevaleceu a idéia de que a “era causada por uma série de situações negativas na qual o pecado estava ligado à possessão demoníaca e esta implicava inevitavelmente doença, sofrimento e também morte” (TERRIN, 1998, p. 157). Nesse sentido, a doença é concebida como “fruto dos espíritos malignos, é obra do diabo, é fruto do pecado, vem da possessão, remonta ao grande monstro” (TERRIN, 1998, p. 157-58).

3. O Imaginário Popular: doença simbologia do mal

Acreditava-se, desde o Antigo Testamento, que os demônios e espíritos do mal eram os responsáveis por todos os males físicos (doenças), conseqüentes dos pecados, tidos como males morais. Esses demônios se apresentavam em várias formas de doenças, desde uma cegueira até mesmo como responsáveis pela morte (Tb 6, 7-9). Eles apoderavam-se das pessoas e somente através de uma oração forte e certos rituais que se expulsavam os espíritos malignos. Conforme Schiavo e Silva (2000), “acreditava-se que demônios e espíritos eram responsáveis por todos os males físicos e morais (o pecado). A enfermidade física teria sido a punição pelo pecado, embora se pensasse que fosse satã a levar os seres humanos a pecar” (SCHIAVO; SILVA, 2000, p. 71).

Evidentemente, no tempo de Jesus, a imagem que se tinha, desde o Antigo Testamento, era de que a doença física fosse sinal das forças malignas, ou mais propriamente do mal. Essa concepção não é desmistificada por Jesus, pelo contrário, há, como se pode ver, várias narrativas bíblicas do Novo Testamento (Mc 1, 23-38; Mt 8, 28-34; Lc 9, 37-43, etc.) que comprovam, além dos casos de possessão, os casos de doenças físicas, cujas enfermidades eram consideradas como presença de um espírito do mal.

Em vários relatos bíblicos do Novo Testamento, identificamos questões polêmicas que envolviam a Jesus acerca do problema do mal, isto é, das suas possíveis causas e, consequentemente, da sua origem. Percebemos também, nos relatos dos evangelhos sinóticos, diversas curas milagrosas através da prática do exorcismo, curas físicas e espirituais e os milagres da natureza, a exemplo da tempestade acalmada, da caminhada sobre as águas, da maldição da figueira, etc., percebidos como forças malignas, capazes de provocar o mal. Cria-se, pois que “no tempo de Jesus, o mundo era habitado por uma enorme população sobrenatural: deuses, anjos, demônios, espíritos da morte, etc”.

Os relatos bíblicos de curas nos oferecem, em particular, uma infinidade de curas do ser humano em sua totalidade. A preocupação do curandeiro Jesus era, essencialmente, o restabelecimento do homem integral, de forma holística, compreendendo sua saúde tanto física, mas também espiritual, quanto psíquica, mas, sobretudo, ética e moral. Com efeito, para uma restauração completa do homem era necessário, ao pôr-se a caminho do sagrado, a fé, condição sine qua non para a realização da cura. Naquele contexto, colocava-se, no Sagrado, toda a esperança humana de salvação, cujo descrédito não possibilitava mais enxergar, em quaisquer estruturas do poder institucional, sejam elas religiosas ou políticas, alívio às angústias, uma vez que eram essas mesmas organizações entidades excludentes. (PAG. 95, 2º PARAGRAFO)

Em Jesus, percebia-se um novo poder, um poder além das estruturas hierárquicas e distantes do ser humano, um poder móbil, mas acessível. Havia, naturalmente, uma distinção entre a cura dos doentes no Antigo Testamento e a cura no Novo Testamento. Em Jesus, o homem doente era chamado a estar com, enquanto que no Antigo regime, por se acreditar cegamente na lei da retribuição, considerava-se o doente como alguém punido por Deus e, por essa razão, pecador, pois deveria ser evitado.

No Sagrado Jesus, via-se, entretanto, a imagem do bem, par excellence, capaz de destruir todas as estruturas de “males” não só físicos, psíquicos e espirituais, mas também políticos e sociais. O sagrado revelava-se, em meio a tantas divergências, com uma dynamis diferente, onde o outro se aproxima do divino e Nele toca e deixa-se ser tocado. É no poder do alto, do pneuma que se faz imbuir de amor pelo outro, capaz de vê-lo, enxergá-lo de forma diferente e até mesmo de trazê-lo para o meio que Jesus desenvolveu seu ministério de curandeiro. Ao contrário, o espírito do mal é denominado akatarton, que quer dizer imundo, do verbo kathário (purificar), cuja origem é proveniente do termo árthos (pão de puro trigo), mas quando se usa o aprivativo na frente, transforma-se no adjetivo impuro (akatarton). Segundo Schiavo,

Trata-se, portanto de um espírito que pertence à esfera divina, mas contrário a Deus. Sua impureza consiste em tornar os homens incapazes de entrar em contato com Deus, incompatíveis com sua natureza. Também pode ser alienante, apoderando-se do homem, despersonalizando-o, e possuindo-o. Afinal, ele representa a ideologia contrária ao ser e ao projeto de Deus” (1985, p. 80).

É, pois, no poder do Espírito Santo, do paráclito, que o ministério salvífico de Jesus pode curar, libertar e dar novas esperanças àqueles que o procuravam. Os milagres acontecem por causa do poder do Espírito em Jesus. Eles são divulgados por todos as regiões da Palestina e, por causa deles, os doentes se aproximam, vêm ao encontro do Sagrado e acreditam piamente que este encontro pode transformar suas situações de angústias, misérias e de exclusão. Tocar O e no Sagrado era garantia de cura e libertação, conforme testemunhavam aqueles que fizeram esta experiência e divulgavam-na. Ao fazer a experiência, muitos se tornaram “novos homens” e “novas mulheres”, alimentados também pela força do alto, pelo poder do Espírito Santo, a ponto de sacralizar também seus próprios corpos e ao ponto de serem chamados de “templos do Espírito” (I Cor 6, 19).

O dom incriado, chamado como graça original (Espírito Santo), conforme a tradição católica e a teologia trinitária, fora perdido, no Gênese, depois do pecado de Adão, “uma vez que o Espírito não pode habitar numa natureza corrompida e nem manter nenhuma relação com o mal” (SANTANA, 2000, p. 19). Segundo este autor, “os homens caíram, então, no ‘deserto do Espírito’ e, em conseqüência, deixam de participar da vida trinitária” (SANTANA, 2000, p. 19). Desse modo, sem a participação não há como haver santidade, pois o Espírito não pode habitar na corrupção.

4. Jesus e seu Ministério Salvífico

Desde o Antigo Testamento, os curandeiros da tradição judaico-cristã eram considerados como profetas e, a fim de legitimar sua missão profética, realizavam curas e milagres no meio do povo. No tempo de Jesus, a cura consistia praticamente na expulsão do demônio, causador da doença, e no perdão dos pecados. A prática de expulsar demônios, adquirida pelos hebreus nos exílios da Babilônia e do Egito, era algo comum no judaísmo, pois se cria que as doenças eram causadas por eles, a exemplo da passagem de Mateus 12, 22-28. No versículo 28, Jesus, ao referir-se a si mesmo, assim se expressa: “Mas, se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então chegou para vós o Reino de Deus” .

No contexto cultural de Jesus, a crença, para muitos, era de que havia entre Deus e Satanás um grande conflito espiritual. Anjos e demônios travavam batalhas celestes ao passo que justos e maus espíritos e injustos repercutiam a mesma batalha terrena. Segundo Schiavo,

A visão da história é sempre mais maniqueísta: Satanás ou Mastema pode ser adorado como um deus: ‘ele já se tornou o princípio matafísico do mal, chefe de uma espécie de reino, paralelo àquele de Deus, para o qual, Deus mesmo entrega como súditos, as almas dos gigantes, quer dizer dos espíritos malignos’ (SCHIAVO, 1985, p. 76).

Havia, em Jesus, na prática da cura das doenças, uma diferença fundamental. Um poder desigual capaz de atrair, até mesmo, algumas pessoas importantes (Jairo, chefe da sinagoga). Seu poder consistia, pois da ação poderosa do Espírito Santo, cujo poder fora dado aos apóstolos, antes e depois da sua morte, a fim de conferir-lhes poder “sobre os espíritos imundos” (Mc 6, 7b). Os apóstolos ficaram impressionados, pois os demônios eram-lhes sujeitos: expeliam numerosos demônios, ungiam com óleo a muitos enfermos e os curavam” (Mc 6, 13).

O evangelho de Marcos, que mais se refere às curas e milagres e expulsão de demônios feitas por Jesus, também destaca, ao fim da narrativa, a importância da continuidade da missão salvífica de Jesus através dos apóstolos, quando diz:

“ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado. Estes milagres acompanharão os que crerem: expulsarão os demônios em meu nome, falarão novas línguas, manusearão serpentes e, se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal; imporão as mãos aos enfermos e eles ficarão curados” (Cf. Mc 16, 16-18, BÍBLIA SAGRADA, 2000, p. 815).

5. Os Curandeiros e o dom do Espírito Santo

Os relatos de curas e de milagres são continuados nos Atos dos Apóstolos. Percebemos ali, inúmeras curas realizadas pelos apóstolos, continuadores do apostolado de Jesus curandeiro. Atualmente, podemos perceber, em se tratando do Movimento Carismático Católico (MCC), alguns relatos de curas de fiéis que, ao empenhar-se, no mesmo trajeto feito pelos personagens bíblicos do Novo Testamento, vêem, na figura do milagreiro (ministro ordenado ou leigo) a presença do Sagrado, isto é, alguém que declara ter recebido de Deus (ou de Jesus) o ministério da cura. Estes curandeiros, amparados no enxerto bíblico do anúncio e envio apostólico de Mc 16, 16-18 e, às vezes, pela legitimidade da igreja, dizem ser, e são reconhecidos pelos fiéis, (como) um homem escolhido por Deus para o mesmo ministério de Jesus curandeiro.

Esses curandeiros exercem seu ministério, a partir de um chamado pessoal ou de um encontro pessoal com Jesus, quem lhes confere um dom especial, depois do ritual do batismo no Espírito Santo, diferentemente do batismo tradicional da imersão na água. Estes dons permitem-lhes curar enfermidades físicas, consideradas, em alguns casos, como mal, cuja origem, atribui-se ao próprio demônio.

Propomo-nos, daqui em diante, analisar três testemunhos do livro “Há poder de Deus”, do pregador e curandeiro Ironi Spuldaro, membro-leigo da Renovação Carismática Católica, cuja autoria da obra é dividida com Vera Casagrande, missionária também leiga.

Identificamos, no livro, dez narrativas de curas. O que nos chamou a atenção é que todas as curas envolvem mulheres nas mais diversas idades e são elas que vão a busca do sagrado. Há somente um caso (mulher possessa) que a fé do marido, segundo o autor, é promotora da cura do mal. No seu relato, o autor deixa claro que o seu ministério fora dado por Deus, a partir de um encontro pessoal com ele e não necessariamente pelos meios tradicionais e ministeriais do sacramento da ordem conferido aos presbíteros. Esse encontro pessoal foi marcado pelo batismo do Espírito Santo e, por essa razão, sente, constantemente, vozes interiores (instruções e revelações) que o orienta a quem e de que formar orar para a obtenção da cura.
De acordo com Spuldaro e Casagrande (2006), a manifestação do Espírito Santo acontece quando se percebe a aparição das línguas de fogo, pois

Esta é a missão de Jesus: lançar fogo sobre a terra, trazer o Espírito Santo com a sua força vivificadora, renovadora e purificadora. [...] Gostava de ouvir o padre falar da vida de Jesus, mas sempre pensava: “isso foi há séculos atrás, parecia tão distante, algo impossível nos meus dias”. Mas, depois de viver a poderosa experiência do Batismo no Espírito Santo, o meu encontro e o meu encantamento [...] por aquele Jesus simplesmente histórico: eu agora O sentia e queria ardentemente conhece-lO cada vez mais. [E quanto a sua experiência com o sagrado]. Naquele dia eu vi de muito perto o milagre do Senhor acontecendo e fiquei muito impressionado [...] conheci o Senhor dos Milagres. O milagre nos alegra, mas o Senhor dos milagres nos leva a viver, mesmo nos momentos de cruz, uma felicidade inesgotável (Grifos meus, SPULDARO & CASAGRANDE, 2006, p. 11, 14-15).

Segundo Ironi (SPULDARO; CASAGRANDE, 2006), ao interpretar o excerto bíblico de Marcos capítulo 16, 16-18, diz que fora Jesus quem dá autoridade para curar os enfermos, justamente quando se impõem as mãos sobre eles e eles ficam seguramente curados. Em seu livro, direcionado não só àqueles que participam do movimento, mas também ao público em geral, o autor encoraja outros a fazer como ele fez: assumir as palavras de Jesus, uma vez que ele deu seu “poder de pisar serpentes, escorpiões e todo o poder do inimigo”, a todo aquele que quiser e buscar.

Em outro momento, assegura-nos que “[...] o demônio também costuma agir ‘ostensivamente’ e algumas enfermidades físicas ou psíquicas podem ser obra sua, numa tentativa de nos submeter ao seu jugo, minando a nossa fé e nos impedindo de executar a vontade de Deus” (SPULDARO; CASAGRANDE, 2006, p. 25).

E mais adiante, em diálogo com o leitor,

A era dos milagres não acabou. [...] Ele pode curar você. Ele está vivo e hoje se manifesta em sua vida de uma forma tremenda já fez um raio X de você. Ele sabe onde está a sua dor e a sua enfermidade Ele quer te curar. [...] Temos visto Deus realizar muitos milagres, nos ossos, músculos, nervos ou qualquer outra parte do corpo humano. Tudo isso e muitas outras curas e bênçãos são presentes gratuitos de Deus, realizado em Nome de Jesus Cristo” (SPULDARO; CASAGRANDE, 2006, p. 58-9).

O primeiro testemunho, analisado por nós, diz respeito a “uma determinada pessoa”, cuja descrição nos indica ser uma mulher. Segundo o autor, ele sentiu uma moção interior e resolveu ligar para a “determinada pessoa”, a fim de convidá-la a um encontro de Cura e Libertação, onde ele seria o pregador. Percebe-se, certamente, uma aproximidade entre o pregador e a referida pessoa. Ironi Spuldaro usa assim como em algumas exortações de Cristo, palavras encorajadas ao falar com a senhora: “olha minha irmã o Senhor deseja te curar sinto que Ele quer que você esteja no encontro” (SPULDARO; CASAGRANDE, 2006, p. 60).

Segundo o autor, ele não conhecia em detalhes os problemas da mulher, a não ser que ela tinha um câncer. No encontro, através de uma voz interior, que o pregador atribui à ação do Espírito Santo, e é proclamada para a assembléia, foi direcionada a mulher e esta a última pessoa a ser curada milagrosamente naquele encontro. Depois de algum tempo, após o anúncio de cura, a mulher procura o médico que, inclusive, foi o mesmo que havia feito a cirurgia nela. De acordo com o médico, respaldados em novos exames, os órgãos (o estômago, a vesícula, o baço e parte do pâncreas), retirados em cirurgia, estavam todos novamente em seus devidos lugares. Segundo Ironi, recordando o relato da mulher, assim expressou-se o médico com voz vacilante: “Senhora, simplesmente não sei explicar o que aconteceu... a senhora tem um estômago novinho aqui... todos os órgãos estão aqui direitinho inclusive aqueles que eu mesmo havia retirado. E não há mais câncer algum! ”.

O Segundo testemunho não se refere, em especial, a uma cura física, mas, sobretudo, psíquico-emocional. Segundo o autor, quando pregava um retiro em São Paulo, foi procurado por uma senhora que lhe insistia que fosse orar pelo seu “filhinho” que estava preso e condenado a mais de cem anos de prisão por assassinatos e roubos. Ele era considerado muito perigoso. Sem saber maiores detalhes acerca do filho daquela senhora, ele decide rezar pelo “menino”. Ao chegar à penitenciaria, é alertado pelos carcereiros a não entrar na cela, pois “ele era tão perigoso que vivia numa cela isolada e nem mesmo os guardas tinham coragem de sequer chegar próximo às grades. Havia dias em que nem mesmo sua mãe entrava para falar com ele e sua aparência já era a de um animal, não mais de um homem” (p. 70). Segundo o pregador-curadeiro, ao entrar na cela, percebe, quase que de imediato, o poder de Deus agindo, e transformando aquele homem, ao ponto de, no futuro, embora não ganhando a liberdade, tornar-se um grande pregador da palavra de Deus. A partir dessa experiência, o prisioneiro funda, naquela penitenciária, um grupo de oração, no qual exerce a função de líder espiritual. Na visão de Ironi (SPULDARO; CASAGRANDE, 2006), esse foi, sem dúvidas, um dos grandes milagres operados por Deus a partir de seu ministério.

O terceiro testemunho, diz respeito à cura de uma mulher que sofria de uma possessão demoníaca há mais de dez anos e que, por conta desse fato, encontrava-se, há três anos, numa cadeira de rodas. Sua situação era insuportável ao ponto de ser levada pelo marido ao encontro de cura e libertação realizado no Paraguai, no Congresso Carismático CONESUL, em 2005. Aqui, a manifestação de fé é do marido e, a partir da narração, percebemos que é ele quem, primeiramente, deseja que a esposa seja curada, pois, segundo o autor, “ele acreditou que a glória de Deus seria manifestada em sua esposa pela Palavra anunciada” (SPULDARO; CASAGRANDE, 2006, p. 49). Após a oração, a mulher fora curada, levantou-se da cadeira de rodas e, conforme narração, dançou diante da assembléia, totalmente liberta” (SPUDARO; CASAGRANDE, 2006, p. 49). Segundo o autor, “Jesus não só morreu para salvar os pecadores que somos nós, mas também para curar os doentes, dar liberdade aos cativos e oprimidos pelo demônio” (SPULDARO; CASAGRANDE, 2006, p. 58).

6. Considerações Finais

Pudemos perceber, a partir da descrição das narrativas de curas, que a dynamis de Deus, isto é, o mesmo poder curador de Jesus (Espírito Santo ou pneuma) continua operando, segundo os relatos crentes, curas milagrosas naqueles que se deixam conduzir pela mesma missão salvífica de Cristo e movidos pela fé são capazes de ir ao encontro (à procura) do sagrado e colocar, na pessoa do milagreiro, toda a sua esperança de salvação. Esse movimento de ir à busca do Sagrado, percebido nas três narrativas (a mulher com câncer, a mulher que pede para orar pelo seu “filhinho”, e a mulher possessa de demônios) se dá quando é despertado, no mais íntimo das pessoas, o desejo de ser curado por aquele que pode curar (o milagreiro) e, consequentemente, poder ser libertado do mal que o ameaça.

Essa valorização dos milagres, por parte de quem os procuram, faz deles, para o nosso tempo, semelhantemente o tempo de Jesus, verdadeiros mestres espirituais ou mistagogos, cujo papel é iniciar e conduzir as pessoas a uma experiência com os mistérios do sagrado, com o poder divino do pneuma, ao ponto de obter a cura para seus males, sejam eles físicos, mentais ou espirituais.

Um dado importante é que as doenças, em alguns casos, são consideradas para o milagreiro pesquisado, manifestação do mal, pois é, a partir da presença do pecado original que sobreveio à natureza humana toda sorte de sofrimento e dor. Isso evidencia que, embora o contexto cultural no qual vivemos seja determinantemente outro, a simbologia do mal, herdada da cultura judaico-cristã, ainda é bastante forte no catolicismo popular. O demônio ainda é visto como um deus caído ou a própria antítese de Deus e, por isso, autor das mais diversas doenças do imaginário popular, tanto que, nelas, pode ser melhor caracterizado.

Outro dado observado é que os milagreiros, a exemplo de Jesus, têm fortes tendências à sensibilidade humana, demonstrando, em seus escritos sentimentos de compaixão e de ternura por aqueles que sofrem, ao ponto de ir ao seu encontro, o que percebemos na segunda narrativa analisada; e, na primeira, quando amparado em uma intuição pessoal, o pregador vai à busca através de uma ligação telefônica da amiga, cuja descrição do mal era de uma doença cancerígena, assemelhando-se a uma “ovelha que sofre” das narrativas bíblicas do Novo Testamento.

Há, com efeito, a aceitação de que algumas doenças procedem do demônio que, de acordo com o autor (SPULDARO; CASAGRANDE, 2006), age “ostensivamente” em enfermidades físicas ou psíquicas que, inclusive, podem ser obras malignas. Por outro lado, nem todas as enfermidades devem ser atribuídas aos demônios, pois, conforme nossa análise, algumas doenças “têm origem psicossomática”; outras consideradas ocasionais. Entretanto, evidenciou-se que, na análise das três narrativas de curas, não é Deus o autor ou quem manda as enfermidades, mas elas se originam do autor do mal, isto é, de satanás.

Segundo Catalan (1999), “quem sofre já não consegue se entender e nem sabe como expressar o que lhe acontece. Por vezes, se desespera, e tem a sensação de estar perdido, em todos os sentidos da palavra” (p. 144). Finalmente, ao encontrar-se com o sagrado, a pessoa acaba reencontrando-se. O mundo de caos e de desordem passa, agora, para uma nova realidade, para um estado de nomia ou de sentido.

Na caminhada rumo ao Sagrado pela busca da cura, surge a fé como potência de salvação e de saúde, demonstrando que a religião exerce sua função terapêutica, não somente em relação à “saúde espiritual, mas também de saúde psíquica e física. E isto é verdadeiro em diversas áreas religiosas como particularmente no cristianismo” (CATALAN, 1999, p. 135-36). À luz desses fatos, não podemos negar à religião seu poder terapêutico que transcende o tempo. As curas tornam-se, atualmente, evidências não tão excepcionais como pensávamos, a princípio. De fato, a doença é certamente um mal capaz de desestruturar a vida do ser humano que é uno, integral. Esse mal, chamado doença, não só pode atingir o humano em sua dimensão corporal (doenças físicas), mas também espiritual (psicológica, moral). As curas milagrosas funcionam como sinais de salvação e da presença do sagrado e, consequentemente, uma ausência do mal, na história do cristianismo. “Esses milagres acompanharão os que crerem: expulsarão os demônios em meu nome...” (Mc 16, 17a). Desse modo, curar o doente significa exercer a função social da cura de Deus por meio da mão humana, leva-lo a uma experiência profunda com o Sagrado, restituindo a dignidade humana da pessoa muitas vezes desacreditada em relação às instituições política, econômica e sociais.

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