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Crítica textual: João 6,47



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  • 05/10/2008
Luiz da Rosa

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Como prometemos há algum tempo, pretendemos colocar aqui no site alguns exemplos que mostram o trabalho feito pelos especialistas em estudo da Bíblia para apresentar o texto original da Bíblia, visto que hoje não possuímos mais o manuscrito original, mas somente cópias que são transcrições feitas muito tempo depois da redação do texto pelo autor. Antes de ler esse exemplo de crítica textual, convido a ler quanto já escrito, à guisa de introdução, sobre a crítica textual.

O texto que vamos tratar se encontra em João 6,47. Cito duas leituras presentes em nossas traduções em português:
Bíblia de Jerusalém: Em verdade, em verdade, vos digo: aquele que crê tem a vida eterna.
Almeida: Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim tem a vida eterna.

Cito essas duas versões porque bastam para que verifiquemos o problema, considerando a parte do texto sublinhada. Segundo a Bíblia de Jerusalém, aquele que crê tem a vida eterna. Invés a tradução do Almeida acrescenta em mim, frizando que é necessário não só crer, mas crer em Jesus, para ter a vida eterna, visto que é Ele que está falando, na sinagoga de Cafarnaum. Nasce, daí, espontaneamente a pergunta: qual frase foi originariamante escrita pelo autor do evangelho, aquela conforme a tradução da Bíblia de Jerusalém ou aquela do Almeida?

Determinar o original tem uma importância teológica. De fato o texto, conforme testemunhado pela tradução do Almeida, dá ênfase ao papel de jesus e à sua divindade e ao fato que a vida eterna não se obtem genericamente ‘crendo’, mas ‘crendo em Jesus’.

Nenhuma das duas traduções portuguesas inventou o texto. As duas versões existem nos manuscritos que chegaram até nós. E como vimos no artigo introdutório à crítica textual, citado acima, esses manuscritos são fundamentais para estabelecer qual o texto saiu da pena do autor. O texto breve, sem o mim, está presente nos papiros P66 e P75, no Codex Vaticanus, Codex sinaiticus, Docex Koridethianus e mais alguns documentos. Invés, o texto mais cumprido, com o “mim” é presente na maior parte dos manuscritos. Contudo, na crítica textual, o número de manuscritos não tem peso fundamental, mas conta muito mais o valor/autoridade que cada manuscrito tem. Se uma frase é presente em certa maneira em 100 mansucritos considerados recentes e em outra maneira em dois ou 3 manuscritos muito antigos, vale aquilo que diz os manuscritos antigos, tidos como muito mais importantes para a crítica textual, pois mais próximos, cronologicamente, do original. É o caso dessa passagem. Os manuscritos mais importantes, aqueles mais antigos, trazem o texto sem o “mim”, como traduzido pela Bíblia de Jerusalém. E os exegetas hoje julgam como original o texto sem o “mim”, que é considerado um acréscimo posterior.

Por que foi acrescentado esse pronome? Buscando o texto original, a crítica textual encontra resposta também para esta questão ou, ao menos, lança hipóteses. Olhando outros textos de João que usam “crer” (pisteuo), normalmente o verbo é seguido por um objeto. Ora, os copistas diante desta constatação pensaram que seria bom também neste caso inserir um objeto, o “mim”. Pode ser também que tenha sido intenção dos copistas deixar claro que Jesus estava falando de si mesmo e por isso acrescentaram esse “mim”. Certo é que o texto com o “mim”, conforme traduz o Almeida, ganha um significado teológico muito mais expressivo do que o texto mais curto. E também essa é um argumento sobre o qual apoiar a teoria segundo a qual o texto mais breve é o original, pois uma das regras da crítica textual ensina que quanto mais simples teologicamente um texto se apresenta, em relação a uma eventual variante, mais chance tem de ser original.

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