Uma janela sobre o mundo bíblico

O martírio de João Batista (Mc 6, 14-29)



  • Estudo
  • 6078
  • 02/11/2008
Celso Kallarrari

Leia mais sobre João Batista | Marcos


João Batista começou a pregar desde a costa ocidental do Mar Morto e Rio Jordão acima, na antiga parte rasa sobre a qual Josué e os filhos de Israel passaram para entrar na terra prometida. Era praticamente na entrada da parte rasa que o povo se juntava a ele, pois essa passagem era o local mais freqüentado por aqueles que queriam atravessar o rio.

Para muitos, ele era um grande pregador, um profeta que vinha do deserto da Judéia consolar com suas palavras muitos judeus sem esperanças, cansados. Sua trajetória foi, durante 9 meses, uma peregrinação do sul do Jordão até o norte anunciando os tempos finais e denunciando as injustiças políticas, sociais e religiosas que permeavam aquela sociedade.

Nos momentos finais de sua vida, João volta para o sul, donde havia começado suas pregações. Aproximadamente um quarto dos seus seguidores, naquelas alturas, já havia se dirigido para a Galiléia à procura de Jesus. O próprio João os entregou para Jesus. “No dia seguinte, João estava ali novamente com dois dos seus discípulos. Quando viu Jesus passando, disse: “Vejam! É o Cordeiro de Deus!”. Ouvindo-o dizer isso, os dois discípulos seguiram Jesus.” (Jo 1, 35-36). João sabia que já havia chegado ao final do seu trabalho; sua missão encerrava-se quando o Jesus aparecesse em público. Talvez, ao chegar ao sul, já se sentisse sozinho e desconsolado.

Foi justamente próximo ao vilarejo de Adão que João acusa Herodes Antipas de ter tomado de forma ilícita a esposa do próprio irmão. Depois do batismo de Jesus, provavelmente João tenha transformado seu discurso em favor daquela gente comum, desprotegida e desamparada, denunciando com voz forte e em alto-tom a corrupção dos governantes, sejam eles dos grupos político ou religioso.

De acordo com o evangelho de hoje, por medo de uma rebelião e das acusações pessoais, Herodes Antipas mandou prender João Batista, dispersando alguns dos seus discípulos enquanto outros se espanharam pela Palestina, encontrando Jesus na Galiléia.

Na prisão, alguns dos seus discípulos que ficaram com ele traziam-lhe noticias acerca de Jesus. Contentava-se apenas em ouvir os relatos sobre Jesus. Nesta altura, podemos formular duas hipóteses sobre o que passava no coração de João Batista a respeito se Jesus. A primeira é que acredita, realmente, o Filho do Homem, uma vez que já o conhecia desde sua infância e soubera pela boca de Isabel tudo sobre Jesus e sua Mãe. A segunda seria a de que o evangelista quisesse mostrar que a missão de João havia chegado ao fim e, na tentativa de fazer seus próprios discípulos entenderem que tinham outro mestre, manda-os até Jesus com o seguinte questionamento: “És tu aquele que haveria de vir ou devemos esperar algum outro?” (MT 11, 3; Lc 7, 19b). Prefiro ficar com a segunda hipótese uma vez que João Batista já o havia reconhecido e presenciado a graça de Deus sobre Jesus no momento do seu batismo.

Provavelmente entendera o recado de Jesus enviado pelos seus próprios discípulos dizendo-lhe: “Voltem e anunciem a João o que vocês estão ouvindo e vendo: os cegos vêem, os mancos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e as boas novas são pregadas aos pobres; e feliz é aquele que não se escandaliza por minha causa” (Mt 11, 4-6; Lc 7, 22-23). Sua missão encerrava-se ali e como profeta de Deus, i.é., amigo do noivo, compreendera que Jesus não fora visitá-lo e, nem muito menos, tentou salvá-lo do cárcere, porque como um profeta justo e santo deveria ter, ao final de sua carreira, depois de um ano e meio de prisão, um fim trágico, de mártir segundo os preceitos de Deus.

Sua experiência na prisão fora, de fato, uma grande prova de amor e fidelidade a Deus. Durante a prisão, alguns de seus discípulos vieram a ele informando-lhe sobre as atividades de Jesus. Em outra ocasião, havia dito que não era digno nem de desatar as sandalhas dos pés de Jesus, reconhecendo no Filho de Deus seu Senhorio. “Vem depois de mim um homem que é superior a mim, porque já existia antes de mim” (Jo 1, 30b). A humildade de João fora sem dúvida a mola mestra para seu ministério. Ser humilde é, pois, biblicamente, sinal de sabedoria. Só quem aponta o Caminho e entrega seus discípulos para Aquele que é maior, entendeu verdadeiramente seu chamado. Em contrapartida, pôde ser reconhecido pelo próprio Noivo: “Afinal, o que foram ver? Um profeta? Sim, eu lhes digo, e mais que profeta. [...] Eu lhes digo que entre os que nasceram de mulher não há ninguém maior do que João (...)” (Lc 7, 26-28).

Para os primeiros cristãos, o termo “santo” (do grego, hagioi), que antes era atribuído uns aos irmãos que seguiam o cristianismo, fora mais tarde, reservado apenas para uma testemunha, i.é, um mártir (do grego, martys), que morreu pela fé em Cristo. João, interiormente, sabia desse seu chamado. Colocar a vida nas mãos de Deus. Em outras palavras, atender ao chamado de Deus implicava, necessariamente, morrer por ele. Os santos relevantes do Novo Testamento morreram por causa de Cristo, de sua mensagem. O martírio era, na verdade, uma grande graça, o selo da total conformidade do santo com Cristo. João, entretanto, é um divisor de águas. Ao mesmo tempo que divide o anúncio do salvador do Messias, sendo o último dos profetas, torna-se o primeiro e único profeta do Novo Testamento. Além disso, o primeiro mártir no Novo Testamento, martirizado não somente porque seu discurso era comprometedor, mas, também, porque, indiretamente, anunciava o libertador de Israel.

O reconhecimento da santidade de Pedro e de Paulo não fora, contudo, mérito por terem eles sido os primeiros líderes das Igrejas Primitivas, mas foram reconhecidos por terem entregado suas vidas ao martírio. Desde os primeiros séculos da era cristã, quando se mostravam em evidências as perseguições cristãs, o mártir era, pois, chamado de santo por ter morrido como mártir.

No mundo em que vivemos, constantemente somos surpreendidos por inúmeras notícias de injustiças sociais, violências, terrorismo, etc. Os sinais dos tempos indicam-nos que Jesus está próximo. Sua vinda é eminente. Precisamos nos fazer os santos do derradeiro momento. Justamente, no momento em que a Igreja vai passar por seus momentos de provação, i.é, de perseguição, faz-se urgente nossa entrega total a Deus e uma renúncia a tudo o que o mundo vier a nos oferecer e que poderá nos separar do amor de Deus. No momento em que as trevas insinuarão cobrir a Igreja de Deus, precisamos andar na Luz, buscar a Luz. “Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo o pecado” (Jo 1, 7).

João apontou para Jesus, dizendo àqueles que vinham a ele para arrependerem-se sinceramente, a fim de que Deus pudesse fazer neles morada. Buscamos, pois, o Senhor na oração e roguemos a ele para que sejamos, a exemplo de João Batista, corajosos na fé. Entretanto, nossa oração precisa ser um diálogo íntimo com o Senhor capaz de testemunhar com nossa vida, se for preciso com o martírio do nosso corpo, diante das perseguições que os cristãos passarão nos tempos em que vivemos. Quando um mártir testemunha através do sofrimento e morte dos membros de seu corpo, Cristo morre e sofre novamente.

No atual contexto em que vivemos, somos capazes de sofrer e morrer por Cristo? De acordo com Tertuliano, “O sangue dos mártires é a semente da igreja”. Estamos prontos para sermos “sementes derradeiras” da Igreja ou precisamos ainda por meio da oração deixar o Espírito Santo fazer de nós verdadeiros soldados da fé que, na luta contra as forças malignas que buscam dominar o mundo, personificadas nos governos e atos iníquos, dão sua própria vida para que o Reino de Deus estabeleça-se, de fato, no mundo?

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