Uma janela sobre o mundo bíblico

Entrevista com a Biblista Nuria Calduch Benages, participante do XII Sínodo dos Bispos Católicos



  • Estudo
  • 2705
  • 12/11/2008
Ombretta Pisano

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No passado mês de outubro foi realizada no Vaticano a XII Assembléia Geral Ordinária dos bispos católicos. Além dos bispos, participaram 41 especialistas, provenientes de 21 países, e 37 auditores, procedentes de 26 países. Entre os especialistas e auditores haviam 24 mulheres. Abaixo você encontra a entrevista que realizamos com uma das participantes neste Sínodo, Nuria Calduch Benages. Natural de Barcelona, ela fez os estudos bíblicos no Bíblico de Roma e atualmente é professora de Antigo Testamento na Pontifícia Universidade Gregoriana.

ABiblia.org - Que tipo de interesse em relação ao tema da Palavra você percebeu entre os participantes do Sínodo?
Nuria
– Os membros do Sínodo mostraram um interesse vivo pela Palavra de Deus, sobretudo em relação a sua difusão, ao seu ensinamento e à pregação. Na verdade esse Sínodo foi uma resposta ao desejo manifestado em várias oportunidades pelos pastores, por exemplo, o cardeal Carlo Maria Martini, e também por várias instituições tais como a Federação Bíblica Católica.

ABIBLIA.ORG – Um sínodo sobre a Palavra, convocado logo depois da emanação do documento Motu Proprio, que permite a volta ao uso do Missal de 1962, que propõe um número muito menor de leituras bíblicas e somente 1% do Antigo Testamento, em relação à quantidade atual. Como responder a esta aparente contradição?
Nuria
– Um sínodo sobre a Palavra na vida e na missão da Igreja transcende este particular ao qual não daria tanta importância. Aquilo que interessa é que a Escritura seja acessível ao maior número possível de pessoas e que a sua leitura favoreça um encontro pessoal com Cristo, Palavra de Deus. Todos os nossos esforços deveriam concentrar-se neste objetivo.

ABIBLIA.ORG – Você é uma das poucas mulheres convidada a participar a um Sínodo. Que sinal pensa que se possa ver nesta abertura da parte da hierarquia católica?
Nuria
– Éramos 24 mulheres participando do Sínodo, 5 como espertas (3 religiosas e 2 leigas), entre as quais 3 professoras de Bíblia, uma de teologia dogmática e outra de filosofia; outras 19 eram ouvintes (10 religiosas e 9 leigas), entre as quais 10 eram superioras gerais, 3 presidentes de um movimento eclesial, 2 presidentes de uma associação bíblica, 2 professoras universitárias, 1 assistente pastoral e Silvia Sanchini, a presidente da Federação Universitária Católica Italiana (FUCI), que tem 25 anos, a participante mais jovem do Sínodo. Do meu ponto de vista, esse é um fato muito positivo. Significa um passo em direção à participação maior das mulheres nos eventos da Igreja Católica. É um fato que me enche de esperança e mi permite contemplar o futuro com olhos novos. O horizonte é mais amplo daquele que se pensa num primeiro momento.

ABIBLIA.ORG – A ignorância sobre a Palavra não tem a ver somente com o fato de nunca ter lido a Bíblia. Sabemos, ao contrário, como em alguns lugares do mundo a Bíblia é lida, mas é interpretada arbitrariamente e muitas vezes em sentido integralista. O problema, portanto, passa ao seu ensinamento. No Sínodo forma feitas algumas propostas para tornar conhecida a Bíblia: traduções, homilias... E o ensinamento? Quais propostas? A quem oferecê-lo? E quem deve ensinar?
Nuria
– No Sínodo apareceram tantas propostas para a difusão e o ensinamento da Bíblia. A tradução da Bíblia em línguas locais é um problema que pesa sobre os países menos desenvolvidos, sobretudo em algumas nações da América Latina, África, Ásia e Oceania. Por isso foi feito um apelo à solidariedade, em modo tal que as igrejas com mais recursos econômicos ajudem àquelas mais pobres no financiamento seja da formação de bons tradutores, seja nas despesas inerentes à tradução e distribuição da Bíblia. O ideal seria que cada cristão possuísse a própria Bíblia.
Para muitos cristãos a homilia é a única possibilidade de encontro com a Palavra de Deus (54 domingos durante o ano). Todavia nos diversos continentes se constatou a baixa qualidade das homilias, que muitas vezes se torna uma simples paráfrase do texto escutado em precedência, uma reflexão sobre a vida quotidiana às margens do Evangelho, das elucubrações abstratas sem ligação com as leituras e nem com a vida, ou simples conselhos moralizantes que não conseguem interpelar os fiéis. Para pôr remédio a tal situação, foi pedido para revisar os programas acadêmicos nos seminários, uma boa formação Bíblia e homilética para os candidatos ao sacerdócio, assim como uma formação permanente para aqueles que já exercem o ministério.

ABIBLIA.ORG – Recentemente houveram casos em que a autoridade eclesiástica católica censurou biblistas que ensinavam aquilo que pode ser considerado o abecedário do estudo bíblico (gêneros literários e tudo o que nasceu de discussões que já são consideradas encerradas, tais como a relação entre ciência e narração bíblica sobre a criação). Como entender esse tipo de atitude? Não pensa que estes acontecimentos podem ser entendidos como um incentivo à “santa ignorância”? E que seja inibido exatamente o conhecimento que justifica o texto e seu conteúdo?
Nuria
– Respondo rendendo minha a carta que os biblistas italianos mandaram ao Sínodo um mês antes dele começar. Eis um pedaço com o qual respondo as perguntas.
“Em primeiro lugar, parece-nos importante chamar a atenção para a relação entre exegese científica e reflexão de quem crê. O termo ‘exegese’ faz alusão a um conjunto de técnicas e teorias, experimentadas e codificadas, utilizadas para uma leitura ‘científica’ das Escrituras, consideradas também como um ‘corpus’ de texto inspirados e com autoridade. Tal leitura se propõe à inteligência de cada pessoa, prescindindo da sua escolha de fé. A verdade e a riqueza dos métodos, progressivamente limados, permitem ter perspectivas sempre novas em relação à leitura dos textos bíblicos. O aprofundamento, que surge como conseqüência, é sedimentado dentro da teologia e da cultura. Alguns resultados representam verdadeiros objetivos dos quais não se pode mais voltar atrás. Todavia, o trabalho exegético, valorizado em modo diverso nas diferentes culturas, acontece dentro de um contexto onde existe também uma interpretação das Escrituras guiada e alimentada pela experiência de fé. A reflexão do fiel acontece dentro da história e obtém força da pluralidade das culturas. A hermenêutica dos fiéis interroga os textos bíblicos para nutrir a existência e a fé. Interpreta-os à base do pressuposto que eles têm um conteúdo doutrinal absoluto e permanente (“para a nossa salvação” – Dei Verbum 11-12) que, porém, precisa ser atualizado no processo da viva tradição da fé e a partir da vida da comunidade cristã e de cada fiel.

ABIBLIA.ORG – O site onde publicamos esta entrevista é especialmente dirigido ao público brasileiro e de língua portuguesa. O Bispo de Belo Horizonte, durante o Sínodo, colocou uma questão muito latente no Brasil: o fenômeno das seitas, que crescem graças a fiéis católicos que se afastaram da igreja católica para encontrar nas outras igrejas uma dimensão de vida mais centralizada na Palavra. Ele propôs como solução o recurso aos leigos competentes para evitar essa hemorragia. Segundo seu ponto de vista, quais podem ser os motivos que levam alguns católicos a abandonar a própria igreja e o que acredita possa ser feito para evitar tal realidade?
Nuria
– As igrejas pentecostais, de origens diversas, de fato, parecem oferecer uma experiência de proximidade de Deus à vida das pessoas e prometem uma felicidade ilusória através da Bíblia, muitas vezes interpretada em modo fundamentalista. A maior parte dos católicos que abandona a igreja católica por uma seita se deixa ofuscar pela capacidade de convocação de seus líderes, que muitas vezes aprendem trechos da Bíblia de cor – o que não deveria ser criticado, mas antes imitado - , pela vivacidade dos cultos, pelas sensações vividas através da música e da dança e também, como alguns participantes do Sínodo observou, pelo fato que tais igrejas abrem o seu templo de noite, exatamente quando as nossas igrejas estão fechadas.
As soluções podem ser diversas: intensificar a atividade pastoral para dar o alimento da Palavra aos fiéis que o desejam, aprender a rica experiência da igreja primitiva que também conheceu fenômenos parecidos, conhecer bem as outras igrejas e suas dinâmicas, dar uma boa formação aos sacerdotes, religiosos e leigos para que estejam preparados a lidar com tais situações

ABIBLIA.ORG – Diante da sede de conhecimento, em diversos casos, porém, percebe-se uma má administração dos recursos existentes. Pessoas leigas muito preparadas que não são utilizadas, por diversos motivos: desde a pouca sensibilidade por parte das comunidades, até a desconfiança em relação aos leigos, passando pela falta de recursos econômicos das comunidades que poderiam criar cargos estáveis para pessoas que se dedicam ao serviço da Palavra. Trata-se de um fenômeno paradoxal que traz conseqüências graves, comparada à dispersão de água num país onde ela é rara, ou a uma fruta que apodrece na árvore porque não existe quem a apanhe ou faltam os instrumentos necessários. Foi discutido sobre essa temática?
Nuria
– Sobre este aspecto não houve discussão, pelo menos por aquilo que sei. A respeito dos leigos foi falado em diversas oportunidades. De fato os participantes reconheceram e encorajaram o serviço dos leigos na transmissão da fé, na evangelização, no papel de guias espirituais das pequenas comunidades cristãs como delegados da Palavra, especialmente naquelas áreas onde faltam os sacerdotes. Na proposição número 38, sobre o papel missionário de todos os batizados, lemos: “Os leigos são chamados a redescobrir a responsabilidade de exercitar a sua missão profética, que nasce diretamente do batismo, e testemunhar o evangelho na vida quotidiana: em casa, no trabalho e em qualquer lugar eles se encontram. Este testemunho conduz, muitas vezes, à perseguição dos fiéis por causa do Evangelho.”

ABIBLIA.ORG – Em um dos documentos sobre o Sínodo “Nós somos igreja”, lemos: “Na prática eclesial, existem freqüentemente uma ‘dupla’ Bíblia: a bíblia dos exegetas, que trabalham em modo científico, e a bíblia dos ‘simples’ leitores, muito crentes, mas que a lêem ignorando o trabalho dos exegetas”. Pensa que esta contradição, esta divisão entre a bíblia dos biblistas e aquela dos pastores e ‘simples’ leitores seja justificada e permaneça? Como eliminar esse abismo?
Nuria
– Essa separação não pode ser justificada, mesmo se nas duas frentes se encontram posições contrastantes, que ultimamente têm aumentado. E aqui chamo em causa novamente a carta citada acima, dos biblistas italianos: “A popularidade do ‘Processo exegético e hermenêutica crente” não deve ser entendida como uma contraposição entre duas posições. A exegese das Escrituras, rigorosamente histórica e literária, se realiza, muitas vezes, dentro de um horizonte de fé, que inclui uma compreensão eclesial da Bíblia e dos seus textos, seja no presente, seja na história passada. De modo complementar, a hermenêutica crente se exercita, freqüentemente, utilizando metodologias que são aplicadas com um sistema criterioso e com explícita reflexão crítica”.

ABIBLIA.ORG – Como você vê a relação entre Antigo e Novo Testamento? E, particularmente, como pensa que se deveria entender a leitura cristológica do Antigo Testamento em relação à verdade das Escrituras de Israel? Como esse problema foi discutido no Sínodo?
Nuria
– A relação entre o Antigo e Novo Testamento apareceu mais de uma vez nas discussões sinodais, começando pela palestra do Cardeal Albert Vanhoye, que fez uma apresentação comentada do documento da Pontifícia Comissão Bíblia: “O povo judeu e suas Sagradas Escrituras na Bíblia Cristã” (2001). Conforme este documento, a relação entre Antigo e Novo Testamento precisa ser entendida em termos de descontinuidade, de continuidade e de progressão. No Sínodo se insistiu muito, talvez até demais, sobre a leitura cristológica do Antigo: Ler o Antigo Testamento à luz da fé em Jesus Senhor. Basta considerar as proposições 10 e 29.
Coloco um desafio: talvez seria melhor usar o modelo dialógico, recorrendo à categoria do Rosto, que supera a idéia do Outro em mim e exige uma situação de face-a-face, como propôs ultimamente o exegeta Massimo Grilli.

ABIBLIA.ORG – Foi dito que a leitura do Antigo Testamento dificulta a evangelização de algumas populações. O que você pensa a respeito deste problema que lembra a antiga heresia de Marcião?
Nuria
– Curiosamente isto acontece em algumas regiões do mundo, enquanto que em outras, como na África, as páginas do Antigo Testamento são as preferidas. Na verdade, muitas vezes, aparecem dificuldades em relação à leitura do AT, por causa de passagens que contêm elementos de violência (em relação a Deus e aos homens), de injustiça, de falta de moral e de pouco exemplo também por parte de figuras bíblicas emblemáticas. Por isso é necessário uma preparação adequada dos fieis para a leitura destas páginas e uma formação que leia os textos em seus contextos histórico e literário.

ABIBLIA.ORG – Conhecimento e familiaridade com a Bíblia conduzem inevitavelmente o cristão a encontrar o povo hebraico. Como fazer com que a Bíblia seja uma verdadeira ‘escola’ de diálogo com os nossos ‘irmãos maiores’?
Nuria
– A pergunta não é fácil e a resposta será necessariamente breve: concentrando-se sobre aquilo que nos une e não sobre o que nos divide, ou seja, aproveitando ao máximo toda a riqueza do Antigo Testamento, parte fundamental das Escrituras cristãs, sobre o qual se fundamenta o Novo Testamento. “Ninguém pode alcançar a própria identidade – afirma Grilli na conclusão do seu último livro – se rejeita ou se afasta-se das suas raízes e os cristãos estão plantados sobre a santa raiz da promessa confiada a Israel”.

ABIBLIA.ORG – Pode-nos dizer, como conclusão desta sua experiência, quais luzes emergem e quais sombras permanecem?
Nuria
– Em nível eclesial, o Sínodo foi uma experiência de igreja universal muito enriquecedor. Foi constatado, em todos os continentes, um desejo forte e vivido de promover a Bíblia e a sua leitura. Como disse o papa na homilia da celebração eucarística que concluiu o Sínodo, dia 26 de outubro: “Nós todos, que participamos dos trabalhos sinodais, levaremos conosco a renovada certeza que a tarefa prioritária da Igreja, no início deste novo milênio, é, antes de tudo, nutrir-se da Palavra de Deus, para tornar eficaz o empenho da nova evangelização, do anúncio nos nossos tempos”. Uma questão que levantou grande interesse na igreja católica e fora dela é a possibilidade que o ministério do leitorado possa ser estendido às mulheres. Em nível teólogico, a contribuição do Sínodo foi modesta, como se poderia esperar de um Sínodo, cuja finalidade era prevalentemente pastoral e missionária. Talvez as duas únicas novidades teológicas foram, como observou o teólogo Salvador Pié i Ninot, a analogia da expressão Palavra de Deus, nunca usada antes pelo magistério nem pelos teólogos modernos e a insistência sobre a dimensão sacramental da Palavra de Deus.
Em nível pastoral, reproduzimos a conclusão da proposição número 2: “Esta assembléia sinodal deseja que todos os fiéis cresçam na certeza do mistério de Cristo, único salvador e mediador entre Deus e os homens (cf. 1Timóteo 2,5; Hebreus 9,15), e a Igreja renovada pela escuta religiosa da Palavra de Deus possa inaugurar uma nova etapa missionária, anunciando a Boa Notícia a todas as pessoas.”

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