Uma janela sobre o mundo bíblico

O Nome secreto de Deus



  • Estudo
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  • 30/11/2008
Ombretta Pisano

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Uma instrução católica da Congregação do Culto Divino, publicada no fim de junho 2008(1), recomenda evitar nomear Deus com os derivados do 'tetragrama' (YHWH) sagrado nos textos e nos cantos litúrgicos e usar, em seu lugar, as expressoes linguísticas que se referem a Ele como 'Senhor'.

A palavra 'tetragrama' se refere às quatro letras hebraicas que compõem aquele Nome que foi vocalizado “Yahweh,” “Yahwe”, “Jahweh,” Jahwe,” “Jave,” “Yehovah,” etc. A instrução católica tem como objetivo "preservar a fidelidade à tradição da Igreja antiga, que revela que o Tetragrama nunca foi pronunciado no contexto cristão, nem traduzido em nenhuma das línguas nas quais a Bíblia foi traduzida". O documento explica como já na tradução grega do Antigo Testamento (a Setenta) o Nome de Deus, "espressão da infinita grandeza e majestade de Deus, foi cosiderado impronunciável e, por isso, foi substituido na leitura da Sagrada Escritura por um Nome alternativo: ‘Adonai’, que quer dizer ‘Senhor’.

A práxis da Igreja antiga, a qual o documento se refere, tem suas raízes na tradição judaica que convida a não pronunciar o Nome de Deus. A Mishnah e o Talmud, textos sagrados da tradição oral dos judeus, dizem que a pronúncia do Nome esteve permitida até a destruição do Templo por Nabucodonosor, em 589 a. C. (Mishnah Berakhot, 9,5), e, em seguida, foi permitida só aos sacerdotes (Mishnah Sotah 7,6) e somente no local mais sagrado do Templo, o Santo dos Santos, em ocasião do Yom Kippur, o Dia da Expiação (Mishnah Tamid 7,2). Progressivamente, por causa do crescimento da irriverência e da decadência do nível espiritual, o Nome foi pronunciado sempre menos e com voz baixa (Talmud, Yoma 40) até chegar à proibição final, ocorrida depois da destruçao do Templo em 70 d.C.

O porque da proibição

A recomendação para não pronunciar o tetragrama divino é feita, pelo documento catolico, para "encorajar a mostrar reverência ao Nome de Deus na vida quotidiana, pondo ênfase na linguagem como ato de devoção e de culto". A própria Bíblia testemunha o extremo respeito em relação ao Nome de Deus como expressão da inefabilidade divina. No decálogo, em Êxodo 20,7, encontramos o mandamento que diz para “não pronunciar o Nome de Deus em vão”. A palavra que traduzimos por “em vão” pode ter diversos significados:
1. Uso superficial.
2. O ‘nada’, que são os ídolos. Neste caso a proibição tem a ver com o fato de dar o Nome de Deus a realidades que não são Deus e que, por isso, as trasformariam em ídolos.
3. a falsidade típica do juramento falso, o perjúrio. Com a proibição, nesta perspectiva, tenta-se evitar o uso do Nome divino para afirmar falsidades em contexto jurídico e, em forma mais ampla, moral.
4. De forma mais genérica, poderíamos dizer que a proibição prevem o uso instrumental do Nome de Deus para fins que visam o própria vantagem.

A proibição de pronunciar o Nome tem raízes na absoluta trascendência divina. O nome, de fato, na tradição bíblica, contém a identidade da pessoa e dar nome às coisas é típico de quem as conhece e tem poder sobre elas. Na Bíblia, Deus, muitas vezes, muda o nome das pessoas a quem confia uma missão ou uma tarefa particular. Assim, só para dar um exemplo, em Gênesis 17,5, Abrão se torna Abraão, nome que significa ‘pai de muitos povos’.

Conhecer o nome de uma pessoa, biblicamente falando, quer dizer ter poder sobre ela. Um exemplo claro desta idéia encontramos na passagem da luta entre Jacó e Deus, contada em Gênesis 32. Não podemos deixar de observar, nos versículos 28-30, a admirável arquitetura da narração que discorre sobre o dizer o próprio nome. Jacó recebe um nome novo de Deus, “Isreael”, que contém em si a recordação do encontro e o mistério da relação entre ele e Deus, mas quando ele tenta perguntar a Deus como se chama, Deus não lhe diz. O que Deus diz, aquilo que Lhe revela, é uma ação: a bênção; Deus se faz reconhecer como Aquele que abençoa Jacó/Israel.

Baseados nessas premissas, percebemos bem por que o Nome de Deus é indizível: para que Deus não seja reduzido a um Nome pronunciável (e manipulável) por um ser humano. Não pronunciar o Nome de Deus, portanto, indica um reconhecimento profundo do fato de ser criatura diante do mistério da inefavilidade divina e, ao mesmo tempo, testemunha que Deus é tão trascendente que não se pode jamais entender completamente a sua identidade, nunca se pode dominá-Lo.

O fato que em seguida, em Êxodo 3,14, Deus revela o seu Nome, não diminui o seu mistério e a sua trascendência. No momento em que Deus invia Moisés ao povo hebreu para libertá-lo, no momento em que Ele precisa tornar-se um interlocutor para o seu povo e ser reconhecível, então se revela com um Nome, que é um elemento concreto que possibilita a mediação. A partir deste momento Deus e o povo de Israel começam o caminho que lhe conduz – no Sinai – a reconhecer-se reciprocamente como eu/tu. Neste sentido o Nome é um dom através do qual Deus se torna alguém que o povo pode materialmente escutar; é, em certo sentido – como a sua Palavra – uma Sua ‘encarnação’. Quando, chegando ao Sinai, a Lei é dada de presente ao povo, no decálogo (Êxodo 20) o mandamento nos lembra que a relação com este Nome deve ser regulada, pois, se de um lado a ação da parte de Deus de entregar-se ao povo comunicando o próprio Nome exprime a vontade de relação recíproca, do outro subsite o fato que tal reciprocidade não é a mesma existente entre dois sócios quaisquer. O mistério do Nome que não pode ser pronunciado e que, contudo, deve ser conhecido, contém em si toda a dinâmica da relação entre Deus e seu povo, feita de aproximação e distância, de intimidade e respeito infinito.

É interessante perceber que, mesmo não sendo presente na Bíblia uma passagem literal que proíba pronunciar o Nome, mas sim uma regulamentação de tal pronúncia, ainda no período bíblico (a tradução grega dos Setenta, feita no século II antes de Cristo, tende a substituir o Tetragramma com o termo “Senhor”) e novo-testamentário, a tradição judaica e judaico-cristã evita pronunciar o Tetragrama sagrado como um sinal de respeito. Um respeito que se expressa atualmente entre os judeu também evitando de tocar com as mãos o texto enquanto se acompanha a leitura (função que se faz segurando uma pequena régua de prata que termina com uma mãozinha) e, na escritura, com a substituição do Tetragrama com ‘Adonai’ (Senhor).

A tal propósito é interessante ver de perto a origem do nome 'Yehova', ao qual se refere o documento católico. Em antigos manuscritos hebraicos da Bíblia foram colocadas no Tetragramma (YHWH) as vogais presentes em Adonai e daí surgiu "YeHoWaH". O texto, vocalizado desta maneira, tinha como único objetivo lembrar ao leitor que o Nome devia ser pronunciado, no momento da leitura, “Adonai” e não literalmente. No século XVI um escriba alemão, que traduziu a Bíblia em latim, tomou o texto assim como estava escrito e escreveu o Nome com as consoantes e as vogais. Devagarinho, o uso deste nome assim vocalizado se difundiu, embora fosse uma composição artificial.

A proposta da mística judaica

Para enriquecer ulteriormente a reflexão sobre o Nome e sobre o que significa não poder pronunciá-lo, vale a pena lembrar uma interpretação sugestiva deste costume, presente na tradição da mística judaica, que coloca em íntima relação o mistério do Nome divino e o mistério da criação do ser humano.(2) Para compreender correttamente o método de interpretação seguido por essa corrente mística, é preciso ter presente que para tal tradição nenhum detalhe literal do texto bíblico é sem significado. Cada letra, cada sinal e até mesmo as pausas entre as frases têm um significado, revelam algo sobre Deus ou um detalhe do seu ensinamento que ficou escondido.

O texto em hebraico da narração das origens do ser humano, que se encontra em Gênesis 1,26-27, refere-se a Deus como a um plural: Deus disse: “façamos o homem (literalmente: ‘a criatura de terra’) à nossa imagem”. Em seguida se diz: homem e mulher ele os criou. De acordo com a narração, o mistério da criação do ser humano contém em si algo que reconduz à imagem plural de Deus. A tradição cristã leu esta pluralidade divina também no sentido de imagem trinitária do Deus Criador, mas, em todos os casos, trata-se de uma imagem plural que espelha no homem e na mulher, que são distintos mas, ao mesmo tempo, o único resultado do mesmo ato criador, uma misteriosa união de duas individualidades.

Tal união de homem e mulher é exprimida em modo singular também em outros textos e circunstâncias. Em Números 11,12, Moisés é um pai que se ocupa de Israel como se ele mesmo tivesse dado à luz e tivesse sido a mãe; em Ester 2,7, Mardoqueu é para Ester o pai e a mãe que ela não possui; Em Isaías 49,23 os reis de Israel são como alguém que ajudam a criar uma criança. Se continuamos a leitura do texto da criação, nos damos conta que em Gênesis 3,12 Adão, depois de ter comido a fruta, responde a Deus: “a mulher... ele me deu da árvore, e eu comi”; em Gênesis 3,20 a mulher é chamada de Eva “porque ele era a mãe de todos os viventes”. Os exemplos poderiam continuar. Muitas destas frases estranhas podem ser explicadas gramaticalmente. O último exemplo do uso do pronome masculino hu (ele) é explicado com o uso indiferenciado do pronome, adaptável seja a ele que a ela. Os próprios mestres judeus, que vocalizaram o texto bíblico, colocaram sinais ao lado destes ‘erros’, indicando que não devem ser pronunciados como são escritos, mas em outro modo (indicam que nos exemplos que vimos, os pronomes hu-ele na verdade devem ser pronunciados hi-ela). Todavia, a tradição interpretativa mística, que não deixa passar nenhum sinal das Escrituras, se depara igualmente com esses casos e os perscruta conseervando-os, pois contêm um fragmento do mistério de Deus.

Outra particularidade, que revela significados escondidos, é ligada aos nomes das pessoas. Basta lê-los ao contrário. Moisés (msh), que em língua egípcia significa “filho de” (como Ramses significava ‘filho do (deus) Ra’ ou Tutmosis ‘filho do (deus) Tot), lido ao contrário se transforma em ‘o Nome’ (hsm), expressão que na Bíblia lembra o próprio Deus. O que acontece se a mesma lógica é aplicada ao Nome de Deus? O que obtemos lendo o Tetragrama ao contrário? O contrario de YHWH é "HWHY". Em hebraico se trata de dois pronomes, o masculino e o feminio, juntos: “HuHi”, “EleEla”.

A explicação que esta leitura mística dá a respeito da impossibilidade de pronunciar o sagrado Nome de Deus reside exatamente no fato que não se deve lê-lo tal como aparece, mas ao contrário. Aquilo que é revelado por este mistério assim evidente é que o pecado de Adão foi o de estragar o casamento entre a parte masculina e aquela feminina de Deus, realizando um ‘divórcio’ de sua componente feminina. É também revelado que, na época do Messias, o masculino e o feminino se unirão novamente(3); que para a mística judaica o segredo do Nome está na unificação daquilo que cada um de nós tem de masculino e feminino; que Deus é e, ao mesmo tempo, ainda não é, o Uno ‘Ela/Ele’(4); e que cada vez que agimos criando novamente harmonia entre homem e mulher é como unificar Deus mesmo e manifestar ao mundo o Seu verdadeiro Nome, aquilo que Ele verdadeiramente é.

Conclusões

Para concluir com uma perspectiva cristã, a tradição mística judaica nos propõe um método de leitura certamente muito original. Visto, contudo, os resultados, sem dúvida, construtivos, essa leitura oferece um novo ponto de vista e um significado novo para um argumento muitas vezes considerado óbvio. Guardá-lo entre a gama de possíveis interpretações sobre as quais refletir pode unicamente ser positivo.

Ao acostar-se à práxis judaica e antigo-cristã de tratar o Nome divino considerando todo o Seu mistério, a igreja católica convida a refletir sobre a grandeza infinita e a potência de Deus. Para um cristão, tal reflexão faz com que se depare com o mistério de Cristo, o Kyrios/Senhor (cf. Romanos 10,9; 1Coríntios 2,8; 12,3) exaltando por Deus e por ele homenageado com “o Nome que está acima de qualquer outro nome” (Filipenses 2,9). Diante deste mistério Paulo afirma, de maneira explícita e corajosa, que “...näo há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3,28).

Como único mediador entre Deus e a humanidade, para o cristão Jesus Cristo é ele mesmo que torna visível o Pai invisível (cf. João 1,18), rende os dois um único povo e destrói em si todo muro de divisão e toda inimizade. (cf. Efésios 2,14).


1. Committee on divine worship on the use of “the Name of God” em the Sacred Liturgy. Congregation for Divine Worship and the Discipline of the Sacraments, Vatican, June 29, 2008. Texto em inglês disponível em www.sidic.org. Tradução em italiano em www.sidic.org .
2. Esta interpretação é documentada por Mark Someth no artigo: "Who is He? He is She: The Secret Four-Letter Name of God", CCAR Journal 40/III, 22-28.
3. Zohar I, 49b-50a, Soncino vol. I, pp. 158-59 e Gershon Scholem, Origins of the Kabbalah, Philadelphia, 1987, p. 177.
4. Mark Someth, "Who is He?...", 26.

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