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Paulo e a Tradição Cristã Primitiva - Breves apontamentos sobre a tradição em Paulo



  • Estudo
  • 7147
  • 15/06/2009
Brian Gordon Lutalo Kibuuka

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Material de apoio ao Curso “Evangelhos Apócrifos e Evangelhos Canônicos - Sociedade Bíblica do Brasil / Faculdade de Teologia Wittenberg


Introdução:
O estudo do Novo Testamento passa, necessariamente, pela compreensão da pluralidade do cristianismo primitivo. A observação dessa exigência é uma das mudanças mais significativas na pesquisa neotestamentária do século XX. Helmut Koester,1 por exemplo, afirmou que a compreensão do judaísmo, do helenismo e do Império Romano é decisiva para a análise da diversidade cristã das origens. De fato, o contexto é um importante fator para se entender as diversas facetas do testemunho cristão, sendo ainda importante ressaltar que as dimensões mais amplas do judaísmo, helenismo e do Império Romano, quando aproximadas, também revelam grande disparidade interior, além de interseções importantes entre si.2

Um segundo ponto de observação são as diferenças entre as tradições do cristianismo primitivo. Estas distinções não são percebidas apenas no detalhamento das assimetrias entre os textos de tradições distintas,3 mas no reconhecimento e intercâmbio explícito entre as mesmas.4 Em terceiro lugar, os autores cristãos não apresentam pensamento monolítico, uniforme e invariante. É possível encontrar grande disparidade no pensamento do mesmo autor, quer seja na mesma obra,5 quer seja entre as obras escritas pelo mesmo autor. O pensamento joanino, por exemplo, apresenta variação significativa, quando comparados o Evangelho de João e a Primeira Epístola. 6 Um novo fator de análise emerge no encontro com as tradições cristãs neotestamentárias: a história da pesquisa, que permite o encontro com diversas facetas e leituras dos diversos testemunhos sobre o cristianismo. O percurso da investigação a respeito das diversas tradições deve passar pelo exame circunspeccioso dos critérios, métodos e conclusões assumidas desde a recepção do texto.

A tradição paulina, em particular, é acentuadamente aquela que detém grande parcela da atenção na história dos estudos da Escritura. As razões são muitas e variadas: o número de escritos (13, entre 27 textos canônicos), a influência no cristianismo, a abrangência dos temas teológicos tratados, o caráter prático dos seus escritos etc. A investigação do pensamento de Paulo também recebe o influxo dos escritos não-paulinos do Novo Testamento, já que ele é aquele que, após Jesus, recebe o maior número de citações de contemporâneos do primeiro século.7

O pensamento paulino também encontrou eco entre os Pais Apostólicos, entre os Pais da Igreja, no período medieval. Mas, principalmente, na Reforma Protestante. A partir de sua compreensão da teologia paulina, Martinho Lutero anunciou a “justificação pela fé somente”, iniciando uma tradição de leitura e interpretação de Paulo. Nos séculos que se seguiram, várias facetas de Paulo emergiram, com suas implicações teológicas particulares.

Diante de tantos “Paulos”, é preciso reaver o contexto em que o apóstolo Paulo surgiu. Para tanto, esta aula se divide em três partes:
1) O Uso do Antigo Testamento no Novo Testamento: o testemunho neotestamentário está profundamente ligado com as expectativas e esperanças do judaísmo. Grande parte dos conceitos do Novo Testamento são ecos ou releituras do ambiente veterotestamentário. A primeira parte da aula procurará demonstrar tal vinculação evidente entre os dois Testamentos, recuperando assim o tema do judaísmo no cristianismo.
2) A Influência de Jesus e da Igreja Primitiva em Paulo: uma vez compreendido o Novo Testamento e sua vinculação com o Antigo, parte-se para a vinculação de Paulo com o chamado “kérigma” (querigma) cristão. As semelhanças e diferenças existem, e precisam ser devidamente investigadas e apontadas.
3) Paulo Sob o Signo do Judaísmo e do Helenismo: a análise mais recente a respeito de Paulo trata da relação entre Paulo, o judaísmo, o helenismo e o Império Romano. Sem o propósito de maiores aprofundamentos, esta aula tem o objetivo de situar o aluno neste tema.

O objetivo desta aula é vislumbrar novos caminhos e oportunidades para a investigação a respeito do pensamento paulino, ao mesmo tempo em que se procura advertir quanto às análises particularizantes e estritas, que submetem a riqueza da tradição paulina às compreensões de uma determinada época e linha de investigação. A aula também tem o objetivo de observar o eixo fundamental que move e desperta o interesse por Paulo: a sua inegável importância desde os primórdios do cristianismo, dado que a história da sua influência não permite negar.8

Bibliografia da aula:

SCHREINER, Josef & DAUTZENBERG, Gerhard (Org.). Forma e exigências do Novo Testamento. Trad. Benôni Lemos. São Paulo: Teológica & Paulus, 2003. p. 15-36.
Sobre o texto:
O artigo de Josef Schreiner indica as relações entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento na formação do pensamento cristão. Trata inicialmente do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento mediante quatro perspectivas (a via de Jesus “segundo as escrituras”, as expressões formais “diz a Escritura”, “isto aconteceu para que se cumprisse a Escritura” e através a citação de textos do Antigo Testamento). Apresenta os temas da pregação do Antigo Testamento calcados na Palavra do Novo Testamento e demonstra a posição crítica de Jesus e da comunidade cristã diante do testemunho veterotestamentário.

CERFAUX, Lucien. O cristão na teologia de Paulo. Trad. José Raimundo Vidigal. São Paulo: Teológica e Paulus. p. 22-32.
Sobre o texto:
Mostra a relação entre Jesus, o pensamento da Igreja Primitiva e o legado recebido por Paulo da tradição. Indica ainda a relação da origem judaica e helenista de Paulo e seu pensamento.

O Uso do Antigo Testamento no Novo Testamento

A tarefa fundamental da comunidade cristã apostólica era anunciar a salvação em Jesus. Para tanto, era necessário esclarecer o escândalo da morte de Jesus na cruz, demonstrar a veracidade da ressurreição e gerar acatamento às suas interpretações dos fatos ocorridos com o Nazareno. 9

No intuito de cumprir a sua tarefa, as comunidades primitivas do cristianismo afirmaram ser Jesus o último e decisivo oferecimento da salvação de Deus ao mundo, estabelecendo assim grande tensão escatológica e apelo a decisão. O processo de estabelecimento da proclamação exigiu, essencialmente, três atitudes dos líderes e dos cristãos, minoria diante de um mundo helenizado e/ou judeus e submetido ao Império Romano: o desenvolvimento, o aprofundamento e a fundamentação da boa nova.

A partir das três exigências citadas, é possível perceber ser o antigo Testamento, que era a Escritura para esta comunidade, oferecia a base material para a constituição de uma proclamação que atendesse as exigências do contexto vivencial das comunidades cristãos nesse período.

O Uso do Antigo Testamento na Pregação Neotestamentária

A profissão de fé e pregação cristã começam e se fundam, outrora e hoje, na ressurreição de Jesus. A ressurreição de Jesus foi a oportunidade ideal para os grupos cristãos perceberem que a morte tinha um sentido e significado daquele conhecido até ali. O testemunho do apóstolo Paulo em Gálatas 1.11-23 é exemplo disto: a aparição do Cristo ressurreto o convenceu de que tinha que crer e pregar.10

A Explicação dos Fatos e Eventos Ocorridos com Jesus “segundo as Escrituras”

Para a comunidade primitiva, a ressurreição é a evidência de que o destino de Jesus deve corresponder à Sagrada Escritura. Desde o princípio, os cristãos primitivos entenderam que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos11 – logo, a ressurreição deve ser uma possibilidade e o destino daquele que assumiu o ethos e as exigências do Reino.12 Logo, a pregação apostólica assumiu o princípio de ser expositora da Escritura,13 pois a paixão, morte de ressurreição de Jesus foram explicados a partir dos textos tidos por sagrados.14

Dentro desta idéia, a Igreja exprime o que aconteceu com Jesus com palavras do Antigo Testamento: a divisão de vestes de Jesus,15 seu brado na cruz,16 a sua morte no madeiro ladeado pelos ladrões,17 todo o seu sofrimento18 - os fatos ocorridos na morte foram explicados como preditas nas Escrituras. A ressurreição também é assim compreendida.19 A aplicação das Escrituras do Antigo Testamento para fatos e eventos foi se ampliando, alcançando até aspectos marginais da vida de Jesus,20 como o local onde ele nasceu,21 começou seu ministério,22 e até mesmo a sua pobreza.23

Porém, é preciso entender que a vinculação entre os eventos ocorridos com Jesus e os textos do antigo Testamento não surge apenas no modelo “promessacumprimento”, nem pode se dizer que era fruto do estudo da Escritura, mas provavelmente era lembrada quando se narrava a paixão, oportunidade singular para relacionar os eventos da paixão ao Antigo Testamento.24

Conceitos teológicos extraídos do Antigo Testamento

Muitas expressões da Igreja e conceitos teológicos são provenientes do Antigo Testamento. Deus, salvação, juízo, justiça, graça, crer, escolha, verdade, o convite do Salvador (Mt 11.28-30), os agradecimentos ou ações de graças (Lc 1.46-55; 68-79) – todos são apropriações e ampliações, muitos extraídos do Antigo Testamento.

Podem ser citados como exemplos do uso teológico do Antigo Testamento:
* Marcos e a tradição que o ampara (1.25 e Ml 3.1, Is 40.3 / 2.25 e 1 Sm 21.1-7 / 7.6s e Is 29.13 / 11.17 e Is 56.7, Jr 7.11; 12.1-12 e Sl 118.22s / 6.34 e Nm 27.17, Ez 34.5);
* Situação da comunidade e de cada indivíduo por força da nova realidade salvífica, principalmente em Paulo (Rm 1.17, Gl 3.11 e Hc 2.4 / Rm 3.4-18 e Salmos / Gn 15.6, Rm 4.3, Gl 3.6 e Abraão)
A Igreja não criou uma linguagem teológica nova, mas apropriou-se de grande parte da já conhecida linguagem veterotestamentária e a ampliou.

“Diz a Escritura”

Diante das exigências da pregação, referências às Escrituras ficavam cada vez mais claras. Fórmulas introdutórias emprestadas da linguagem rabínica (”diz a Escritura”, “como está escrito”, “então”) indicam uma citação. O caráter destas é indicar a atualidade de uma palavra dita no passado, reconhecendo sua permanente eficácia.25

“Isto aconteceu para que se cumprisse a Escritura”

O Antigo Testamento não é utilizado de forma uniforme no Novo Testamento. As diferentes tradições e culturas cristãs exigiram usos distintos do testemunho veterotestamentário.

Num primeiro momento, o Antigo Testamento tinha grande importância para a apologética e instrução cristãs. As comunidades cristãs mais antigas eram judaicas, o tornou muito importante a interpretação baseada na palavra do Antigo Testamento.

Já num segundo momento, com a inserção do cristianismo em comunidades gentílicas, outras facetas e desenvolvimentos foram executados.26 Mas não houve ruptura com o Antigo Testamento: é possível perceber em textos dirigidos aos gentios menções do Antigo Testamento, o que evidencia que eles receberam instrução nas escrituras.27

A expectativa escatológica das comunidades cristãs também estava firmada em palavras do Antigo Testamento. O livro apocalíptico por excelência do Novo Testamento, o Apocalipse, contém numerosas citações de textos veterotestamentários, o que demonstra esta nova aplicação do Antigo Testamento no decorrer da história do cristianismo primitivo.

Um dos desenvolvimentos mais importantes no campo das relações entre o Novo e o Antigo Testamento é a compreensão da “história da salvação” (em alemão, o termo técnico é “heilgeschichte”). Lucas, por exemplo, vincula os três períodos principais da Igreja em sua obra de dois tomos: o evangelho e os Atos. A sua história começa com a expectativa messiânica, despertada pela leitura e compreensão dos judeus piedosos do advento do Messias, passando pela manifestação de Jesus, a ação da Igreja e a parusia do Cristo.28

Para maior aprofundamento, indicamos:
DODD, C. H. According the Scriptures. The Sub-Structure on New Testament Theology. Londres, 1952. (Em português: Segundo as Escrituras).
Para DODD, passagens do Antigo Testamento circularam na tradição oral, depois na escrita, depois foram relacionados aos fatos do Novo Testamento e entendidos como plano deliberado de Deus. Formaram o substrato da teologia neotestamentária e cristã.

A Influência de Jesus e da Igreja Primitiva em Paulo:

Falar sobre a relação entre Paulo e Jesus, além da relação entre Paulo e a comunidade cristã primitiva de origem judaica, é tratar de uma temática que não apresenta caminhos tão fáceis. Algumas questões precisam ser devidamente respondidas quando se investiga este tema:29
1) Paulo conheceu Jesus pessoalmente?
2) O que significa a atividade terrena de Jesus para Paulo, e para sua teologia?
3) Qual a relação entre a teologia de Paulo e a pregação de Jesus?
4) Como Paulo utiliza a tradição cristã primitiva, com acentos judaicos, a respeito de Jesus?
5) Como Paulo Utiliza o Antigo Testamento?

Esta parte da aula procura responder estas perguntas.

Paulo e Jesus: Jesus Segundo a Carne, Cristo segundo o Espírito

É impossível afirmar se Paulo conheceu ou não a Jesus pessoalmente, em vida. As fontes para a investigação estão presentes nos textos paulinos e em Atos dos Apóstolos.

Os dados biográficos de Paulo nos Atos não fecham a questão sobre um encontro pessoal de Paulo com Jesus. Eles se limitam a dizer que Paulo era estudante em Jerusalém na época da crucificação.30

Já as epístolas paulinas trazem poucas informações. A mais reveladora está em 2 Co 5.16, em que Paulo afirma: “Assim que, nós, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne; e, se antes conhecemos Cristo segundo a carne, já agora não o conhecemos deste modo.” O texto, de difícil interpretação,31 não possibilita saber ao certo se Paulo conheceu a Jesus antes da ressurreição. Mas é certo que Paulo entende que “o conhecimento puramente humano do simples homem Jesus está eliminado.”32

A Importância da Atividade Terrena de Jesus Para Paulo

Paulo certamente acolheu a Jesus. Segundo Cerfaux, há uma “consonância profunda” entre o pensamento paulino e o pensamento de Jesus.33
Bultmann, ao contrário, afirmou que o Jesus terreno não interessava a Paulo.34 Partindo de 2 Co 5.16, ele afirmava seu ponto de vista em contraposição aos liberais do século XIX, que entendiam ser apenas o Jesus histórico interessante para a pesquisa. Goppelt tece críticas a Bultmann, afirmando que a totalidade de Jesus era importante para Paulo, já que a morte também é um tema importante para Paulo, e esta pertence aos domínios do Jesus terreno.35 É possível acrescentar ainda que a tradição a respeito da Ceia do Senhor, presente em 1 Co 11.23-29, faz parte do escopo do Jesus terreno, ainda que seja um testemunho limitado em comparação ao testemunho evangélico, e que as implicações da Ceia sejam entendidas numa dimensão mística.

A Teologia de Paulo e a Pregação de Jesus

Muitos temas da pregação de Jesus estão ausentes da pregação de Paulo. Não há registros de parábolas, os ditos de Jesus praticamente não aparecem nas epístolas, e não há uma descrição pormenorizada da relação de Jesus com o farisaísmo.36 Por outro lado, alguns temas tratados por Jesus estão presentes em Paulo, mesmo que não sejam citações explícitas da pregação jesuânica.

O primeiro tema que pode ser destacado é a atitude em relação à Lei. Jesus coloca-se acima da Lei, alinhando-se aos profetas. Paulo, de igual modo, afirma ser superior à Lei, estabelecendo uma significativa oposição entre Lei e Graça, além de desenvolver a doutrina da Justificação pela Fé.37

O segundo tema está ligado ao anterior: Jesus e Paulo diminuíram a importância dos sacrifícios. Eles nunca atacaram diretamente o Templo e os piedosos que ali se reuniam, mas acentuaram mais o “espírito” daquele que ali oferecia sacrifícios, do que o sacrifício propriamente dito.38

O terceiro tema está ligado ao combate ao particularismo judaico. Jesus e Paulo rompem particularismos, em nome da autoridade dada por Deus. Jesus elogia a fé do centurião39 e da estrangeira.40 Paulo, por sua vez, rompeu com particularismos afirmando sua missão e apostolado como advindos do próprio Cristo.41

O quarto tema comum é a compreensão de Deus como Pai, tipificada na expressão aramaica “Abba”. Tanto Jesus quanto Paulo entendiam a relação com Deus como uma relação filial.42

Paulo e a Tradição Cristã Primitiva

Na pesquisa liberal a respeito do cristianismo primitivo, desde os estudos de Ferdinand Christian Baur e da Escola de Tübingen, reconhece-se duas expressões fundamentais que coexistem no seio da cristandade antiga: o cristianismo judaico e Paulo. O cristianismo de expressão paulina estaria em oposição irreconciliável com o anterior, sendo a relação entre ambos descrita nas categorias de tese e antítese. O encontro entre as duas expressões do cristianismo primitivo daria origem a uma síntese joanina, cujo legado foi a cristologia elevada, unida à forte vinculação com as temáticas apocalípticas próprias do cristianismo palestinense. Em 1912, Wilhelm Heitmüller afirmou existir uma terceira expressão, para o cristianismo primitivo, situada entre a comunidade primitiva palestinense e o cristianismo paulino propriamente dito. Heitmüller chamou esta expressão de “cristianismo helenista”.43 O cristianismo helenista, radicado em Antioquia, evidenciaria a transição cultural e teológica que permitiria uma melhor caracterização da transição paulina de fariseu para “apóstolo dos gentios”. A partir do pensamento de Heitmüller, Wilhelm Bousset44 e Rudolf Bultmann45 procuraram caracterizar, sem sucesso, o cristianismo helenista, diferenciando-o da comunidade primitiva nos seguintes termos:

- Cristologia: Jesus como Filho do Homem Vindouro (palestinense) X Jesus como Kýrios celestial
- Escatologia: Ceia como momento de alegria escatológica (palestinense) X Ceia como evento repleto de mistérios e elevações espirituais

Não obstante as diferenciações, as categorias utilizadas eram artificiais, carecendo de maiores fundamentações nas fontes do cristianismo primitivo. Mesmo assim, é preciso investigar os vínculos que unem Paulo às tradições cristãs mais antigas, de forma a configurar de maneira menos artificial o cristianismo de expressão paulina.

As pesquisas de Sabatier,46 Machen,47 Mundle,48 Dodd,49 Fascher,50 Davies,51 Brunot,52 Schoeps53 e Amiot54 constataram que o pensamento paulino, longe de ser monolítico, apresenta variação significativa, podendo ser dividido em:

1) Etapa das Epístolas aos Tessalonicenses: etapa em que o pensamento paulino estava concentrado nas ênfases da tradição mais antiga, a tradição escatológica.

2) Etapa das Grandes Epístolas: nesta etapa, o encontro com o helenismo exigiu a adaptação por parte de Paulo, que procurou tratar dos temas da libertação da Lei e dos princípios éticos pelas listas e lições morais.

3) Etapa das Epístolas do Cativeiro: nesta etapa, Paulo se concentra no tema da revelação do mistério de Cristo.55

Sobre a influência da Igreja primitiva em Paulo, é possível atestá-la na ausência da menção de João Batista, na consideração de Pedro, Tiago e João como colunas da Igreja,56 na ênfase de Paulo na ressurreição e na insistência na utilização do Antigo Testamento (58 citações), ainda que para comunidades gentílicas.57

Paulo Sob o Signo do Judaísmo e do Helenismo:

Paulo e o Antigo Testamento


A última menção a respeito da utilização do Antigo Testamento por Paulo torna importante esclarecer quais os critérios e características do uso dos testemunhos veterotestamentários na tradição paulina.
Expiação e redenção: O Antigo Testamento em Paulo

A relação dos atos de Jesus aponta, em Paulo, para a redenção e expiação da Igreja. A morte de Jesus é a chave que possibilita entender o resgate da comunidade e sua transformação. As menções à morte ligam-se, portanto, a interpretação do significado e importância dela para a comunidade. As citações são:
- "por nossos pecados" (1 Co 15.3): ecoa Is 53.4-6,11s.
- "por vós (nós)" (Rm 5.8).
abreviação da palavra eucarística paulino-lucana (1 Co 11.24, Lc 22.19);
- "por muitos" (Mc 14.24): ecoa Is 53.
- "redenção de muitos" (Mt 20.28, Hb 9.28): ecoa Is 53.10, 12.
é uma citação em que a idéia do sacrifício da aliança (Ex 24.8) evocado na Ceia do Senhor (Mc 14.24) tornou possível a compreensão de que a morte de Jesus foi um caminho expiatório (Lv 16.12-15) que podia reportar-se a Lv 16.12-15 (Rm 3.25, Hb 2.17) e que comporta a justificação (Rm 3.24, 4.25). É próxima da referência ao sacrifício pascal (1 Co 5.7).

Paulo e a autodefinição da comunidade cristã

A comunidade dos discípulos de Jesus, reunidos e constituídos Igreja após o Pentecostes, denominavam-se:
- "os santos" (Rm 15.26): ecoa Dt 33.3 e Dn 7.27.

- "chamados":
para a salvação;
para o serviço.

- "ekklesía":
designação mais duradoura e freqüente;
termo extraído da LXX, que traduz a palavra hebraica qahal, designativa da comunidade do povo de Deus convocada e reunida para seu serviço. surge em At 20.28 com uma alusão ao Sl 74.4;
é o povo de Deus do fim dos tempos.

- "Israel de Deus":
denominação do povo de Deus da Antiga Aliança;
é aplicada à comunidade cristã, com a idéia inerente de que ela é o verdadeiro Israel (Gl 6.16, Rm 9.6).

- "povo constituído dentre os pagãos":
o povo é constituído dentre os pagãos (At 15.14s), concordando com os profetas (Am 9.11);
as gentes devem ser buscadas (At 15.17);
é evocado o testemunho de Oséias (Os 2.1, 25) para validar a missão entre os pagãos (Rm 9.24ss);
a resposta dos povos (Rm 15.10s) deve ser a alegria (Dt 32.43) e o louvor (Sl 116.1).

- "fórmula da aliança":
os coríntios são qualificados por Paulo (2 Co 6.16) segundo a fórmula da aliança veterotestamentária "Eu serei o seu Deus e eles serão meu povo".

Paulo, o Antigo Testamento e a Escatologia

A Escatologia do Novo Testamento tem uma grande quantidade de motivos e temas extraídos da apocalíptica judaica. A apocalíptica judaica iniciou-se no Antigo Testamento e desenvolveu-se no período intertestamentário. Há também no testemunho neotestamentário referências a textos do Antigo Testamento que nada têm a ver com o futuro, mas foram recolhidos devido à compreensão de que toda a Escritura é prenúncio e profecia sobre o Senhor e sua ação escatológica. Ainda há a possibilidade de o próprio Jesus ter utilizado uma linguagem apocalíptica, ligada a trechos da Escritura, base para o desenvolvimento e interpretação da comunidade cristã primitiva.

O Apocalipse, os discursos escatológicos de Jesus nos sinóticos (Mc 13 e paralelos) e passagens de Tessalonicenses (1 Ts 4.13-5.11, 2 Ts 1.5-2.17) são geralmente lembrados como dotados de um cenário apocalíptico. Os textos supracitados são eivados de imagens e palavras do Antigo Testamento. A presença da apocalíptica em Paulo evidencia a sua consonância com a tradição cristã mais antiga.

A Formação dos Escritos Neotestamentários

Antes da redação dos documentos literários neotestamentários, a transmissão do Evangelho era oral, através do testemunho público da fé, do culto e da instrução à comunidade.

A transmissão das tradições fundantes é perceptível no mais antigo testemunho cristão primitivo neotestamentário, as epístolas paulinas, através da observação de:
- menções explícitas à tradição;58
- indicações sobre o conteúdo da fé;59
- estrutura firme, indicando transmissão oral;60
- Rm 4.25; subdivisões por estrofes;61
- estilo participial;62
- menções honoríficas;63
- e expressões que indicam epifanias.64

Além destas menções à tradição – que remotam à uma tradição provavelmente oral de eventos relacionados à Jesus e à fé da comunidade cristã primitiva, temos:
As confissões de fé
As confissões de fé apontam para o testemunho da Igreja em seus primórdios sobre Jesus. Estas confissões de fé são as seguintes:
- aquelas que apontam para Jesus crucificado e ressurreto como Senhor.

Não existe nenhuma pregação feita por algum líder da Igreja Cristã Primitiva que tenha sido conservada, porém esta influenciou os escritos neotestamentários (I Co 16.19-24, Hb 13.22). Os sermões de Atos (At 2.14-39, 3.12-26, 4.9-12, 5.30-32, 10.34- 43, 13.16-41, 14.15-17, 17.22-31) são construções do autor do livro, já que estas mensagens mantém um esquema fixo ao falar que a cruz e a ressurreição são o cumprimento das promessas do Antigo Testamento.

Um resumo da pregação neotestamentária está em I Ts 1.9s. As características desta pregação é que ela, em primeiro lugar, parte da pregação missionária do judaísmo helenista, que convida para a repulsa aos ídolos e a dedicação ao Deus verdadeiro – e acrescenta a afirmação de que os cristãos aguardam o retorno do Filho de Deus.
- aquelas que apontam para a ação de Deus na cruz e na ressurreição de Jesus, e destacam o testemunho daqueles que aceitaram esta mensagem (Rm 10.9, Lc 12.8s, Jo 1.20, Rm 1.16). Esta confissão se faz pelos títulos que Jesus recebe (I Co 12.3; Fl 2.11; I Co 8.5s, Rm 3.30, Gl 3.20, Tg 2.19);
- as fórmulas de fé, que afirmam que Deus agiu em nosso benefício em Jesus (Rm 10.9, I Ts 4.14, Rm 4. 24s, 8.34, 14.9, II Co 13.4, I Co 15.3- 5);
- diversas outras fórmulas apontavam para uma tradição oral cristã primitiva: I Co 9.16ss, Rm 1.3s, Gl 4.4;

Além das confissões de fé, é possível encontrar no escopo mais antigo do Novo Testamento:
- os hinos da cristandade primitiva. Os hinos apontam para a tradição oral da mesma. Estes hinos são:
1) Fl 2.6-11, que é um hino cristológico cristão primitivo que tem duas estrofes: a primeira trata da humilhação do Cristo; e a segunda trata da sua exaltação.
2) Cl 1.15-20, que celebra o senhorio universal de Cristo, contendo uma introdução solene que convida ao louvor (12-14), e duas estrofes que falam da soberania de Cristo (15-20, falando dele como Senhor da criação e da reconciliação).
3) I Tm 3.16, fala da revelação preexistente na carne, para glorificar a Cristo como revelador e redentor.65

A tradição parenética

São admoestações. Estas admoestações também refletem a tradição. Estas apontam para:

1) O catálogo de vícios ou virtudes: (Rm 1.29-31, 13.13, I Co 5.10s, 6.9s, II Co 12.20s, Gl 5.19-21, Ef 4.31, 5.3-5, Cl 3.5,8, I Tm 1.9s, II Tm 3.2- 4, Gl 5.22s, I Pe 3.8, II Pe 1.5-7). Estes catálogos têm o objetivo não de mencionar vícios de determinada comunidade, mas é um catecismo sobre o que deve ser feito e evitado.

2) O catálogo de normas para a vida doméstica: (Cl 3.18-4.1, Ef 5.22-6.9, I Tm 2.8-15, Tt 2.1-10, I Pe 2.13-3.12). Estes catálogos estão baseados na tradição porque têm como ponto de partida as instruções ministradas na sinagoga helenista e na filosofia que a influenciou, os quais se tornaram ponto de partida para a tradição da Igreja.

3) Comportamento no mundo: I Pe 2.13-17, Rm 13.1-7, 12.1-2.
4) Catálogo de deveres: (I Tm 3.1-7, Tt 1.7-9, I Tm 5.17-19, Tt 1.5s, I Tm 3.8-13, I Tm 5.3-16). Da mesma maneira que entre os helenistas arrolava-se as qualidades e tarefas que deveriam ter os que exerciam cargos públicos ou militares, a Igreja adotou seus esquemas para a ordem eclesiástica.



Notas


1 Helmut Koester é um americano de origem alemã, nascido em 1926, professor desde 1958 de Divindade e História da Igreja na Universidade de Harvard, Estados Unidos. Koester estudou com Rudolf Bultmann na Universidade de Marburgo, Alemanha, sendo depois assistente de Günther Bornkamm na Universidade de Heibelberg. Participa do projeto “Archeological Resources for the Study of the New Testament”. Desde os artigos “Weisheit und Torheit” de 1961 e “Gnomai Diaphoroi: The Origin and Nature of Diversification in the History of Early Christianity” de 1965, Koester tem afirmado a grande diversidade de “cristianismos”, entre os quais o paulino tem grande importância. Os desenvolvimentos mais recentes acessíveis em língua portuguesa estão no segundo volume de sua “Introdução ao Novo Testamento. Ver: KOESTER, Helmut. WEISHEIT und Torheit. Gnomon 33: 590-595; Gnomai Diaphoroi: The Origin and Nature of Diversification in the History of Early Christianity. HTR 58: 279-319. Introdução ao Novo Testamento: história, cultura e religião do período helenístico. Vol. 1. São Paulo: Paulus, 2005. 432 p. Introdução ao Novo Testamento: história e literatura do cristianismo primitivo. Vol. 2. São Paulo: Paulus, 2005. 414 p.
2 Uma introdução acessível em língua portuguesa sobre a relação entre o cristianismo, em suas origens, e o mundo mediterrâneo pode ser encontrada em: STEGEMANN, Ekkehard W. & STEGEMANN, Wolfgang, História social do protocristianismo: os primórdios no judaísmo e as comunidades de Cristo no mundo mediterrâneo. Trad. Nélio Schneider. São Paulo: Paulus. 2004. As semelhanças e diferenças entre o movimento de Jesus e outros movimentos podem ser encontradas em: SCARDELAI, Donizete. Movimentos messiânicos no tempo de Jesus: Jesus e outros messias. São Paulo: Paulus. 1998. O helenismo tem uma descrição pormenorizada, efetuada na obra: LÉVÊQUE, P. O mundo helenístico. Lisboa: Edições 70, 1988. Já o panorama religioso do Império Romano a partir de excertos de fontes primárias traduzidas para a língua portuguesa pode ser encontradas em: COMBY, J. & LEMONOR, P. (eds.). Vida e religiões no Império Romano no tempo das primeiras comunidades cristãs. Trad. Benôni Lemos. São Paulo: Paulinas, 1988. As relações entre o Império Romano e o judaísmo, além das descrições romanas e gregas da Palestina no século I podem ser encontradas em: COMBY, J. & LEMONOR, P. (eds.). Roma em face a Jerusalém: visão de autores gregos e latinos. Trad. Benôni Lemos. São Paulo: Paulinas, 1987. O judaísmo, por sua vez, é descrito em: TASSIN. Claude. O judaísmo: do exílio ao tempo de Jesus. Trad. Isabel F. L. Ferreira. São Paulo: Paulinas, 1988. Sobre a relação entre o cristianismo antigo e o judaísmo: SIMON & BENOIT. Judaísmo e Cristianismo Antigo. São Paulo: Pioneira - Edusp. 1987.
3 Um exemplo claro das diferenças conceituais entre os textos do Novo Testamento pode ser encontrado no uso pela tradição paulina e petrina do termo par, oikoj. Em Ef 2.19, o termo é utilizado negativamente (“Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus”), conotando o estado dos cristãos ao Pai e a sua nova identidade (parte da “família de Deus”). Já em 1 Pe 2.11, o termo tem um sentido positivo (“Amados, exorto-vos, como peregrinos e forasteiros que sois, a vos absterdes das paixões carnais, que fazem guerra contra a alma”), indicando o estado dos cristãos enquanto habitantes do mundo, mas à margem do mesmo.
4 É possível perceber menções críticas explícitas de um autor ou comunidade ao pensamento de uma tradição distinta. Por exemplo: No Evangelho de João, das seis aparições de Pedro no Evangelho junto com o “Discípulo Amado”, em cinco ele é coadjuvante explícito (Jo 13.23-26; 18.15-16; 20.2-10; 21.7; e 21.20-23), e na última é implícito (Jo 19.26-27). Ver: BROWN, R. E. A comunidade do Discípulo Amado. 2ª Ed. Trad. Euclides Carneiro da Silva. São Paulo: Paulinas, 1983. Outro exemplo é a apropriação conceitual explícita por parte de um grupo ou autor cristão do legado traditivo mais antigo, indicado pelo verbo paralamba,nw (verbo receber, 1 Co 11.23; 15.3, Gl 1.12). Também há menções explícitas de Paulo em Pedro (2 Pe 3.15); de Pedro, Tiago e João em Paulo (Gl 2.7-9); dos apóstolos em Lucas (Atos dos Apóstolos) etc.
5 Muito do que era chamado no século XIX e XX de interpolação era, na realidade, a variação no pensamento do mesmo autor, na mesma obra. Um exemplo a se considerar é o discurso paulino sobre os judeus, extremamente duro e acusatório (Rm 2.17-29) e, na mesma carta, conivente e favorável (Rm 11).
6.O Evangelho de João, no Hino ao Logos (Jo 1.1-14), afirma a preexistência do Verbo de Deus, Jesus. Ernst Käsemann chama a tendência do autor do Evangelho de João de se concentrar em seu caráter elevado e espiritual de “docetismo ingênuo”, “não-refletido” (KÄSEMANN, Ernst. The Testament of Jesus. Philadelphia: Fortress, 1968). Ainda que a teoria de Käsemann seja alvo de críticas diversas (anacronismo, desconsideração da ausência da negação a respeito da humanidade de Jesus etc. – Ver: SMALLEY, S. John: Evangelist and Interpreter. Exeter: Paternoster, 1978.) – é certo que a visão do Quarto Evangelho a respeito de Jesus é elevada e espiritual, sem grandes acentos à humanidade jesuânica. A tradição joanina, por outro lado, acentua a humanidade de Jesus na Primeira Epístola de João (1 Jo 1.1-4), estabelecendo outra faceta, ainda que não excludente da primeira, a respeito de Jesus.
7 KÜMMEL, Werner Georg. Síntese teológica do Novo Testamento de acordo com as testemunhas principais: Jesus, Paulo, João. 4 ª Edição revista e atualizada. Trad. Sílvio Schneider e Werner Fuchs. São Paulo: Teológica, 2003. p. 127.
8 Sobre a importância de Paulo, afirma Becker: “Assim sendo, não causa espanto que ele [Paulo] tenha deixado até hoje marcas profundas e longas na história do cristianismo. A história de sua influência dificilmente pode ser superestimada.” In: BECKER, Jürgen. Apóstolo Paulo: vida, obra e teologia. Trad. Irineu J. Rabuske. Santo André: Academia Cristã, 2007. p. 13.
9 Sobre a relação da morte de Jesus e o Antigo Testamento, Schreiner afirma: “A consciência da conformidade da morte do Senhor com a Escritura reclamava ao mesmo tempo uma explicitação e um desenvolvimento, como o atesta a história da paixão.” Ver: SCHREINER, Josef. A mensagem do Novo Testamento e a palavra de Deus do Antigo Testamento. In: SCHREINER, Josef & DATZENBERG, Gerhard. Forma e exigências do Novo Testamento. 2ª Ed. Trad. Benôni Lemos. São Paulo: Teológica, 2004. p. 17.
10 Gl 1.15-23: 15 Quando, porém, ao que me separou antes de eu nascer e me chamou pela sua graça, aprouve 16 revelar seu Filho em mim, para que eu o pregasse entre os gentios, sem detença, não consultei carne e sangue, 17 nem subi a Jerusalém para os que já eram apóstolos antes de mim, mas parti para as regiões da Arábia e voltei, outra vez, para Damasco. 18 Decorridos três anos, então, subi a Jerusalém para avistar-me com Cefas e permaneci com ele quinze dias; 19 e não vi outro dos apóstolos, senão Tiago, o irmão do Senhor. 20 Ora, acerca do que vos escrevo, eis que diante de Deus testifico que não minto. 21 Depois, fui para as regiões da Síria e da Cilícia. 22 E não era conhecido de vista das igrejas da Judéia, que estavam em Cristo. 23 Ouviam somente dizer: Aquele que, antes, nos perseguia, agora, prega a fé que, outrora, procurava destruir.
11 At 2.24,32; 3.15,26; 4.10; 5.30; 10.40; 13.30,33; Rm 10.9; 1 Co 6.14; 2 Co 1.9; 4.14; Gl 1.1; Cl 2.12; 1 Pe 1.21.
12 1 Co 6.14; 2 Co 4.14; Ef 2.6.
13 Afirma Josef Schreiner: “Remontam a uma época primitiva as manifestações estereotipadas da tomada de consciência de que o caminho de Jesus, marcado pela morte e ressurreição, era conforme a Escritura.” Ver: SCHREINER, Josef. A mensagem do Novo Testamento e a palavra de Deus do Antigo Testamento. In: SCHREINER, Josef & DATZENBERG, Gerhard. Forma e exigências do Novo Testamento. 2ª Ed. Trad. Benôni Lemos. São Paulo: Teológica, 2004. p. 17. 14 Mt 21.42; 22.29; 26.54,56; Mc 12.24; 14.49; Lc 24.27,32,45; Jo 5.39; At 17.2,11; 18.24,28; Rm 1.2; 15.4; 16.26; 1 Co 15.3; 2 Pe 3.16. Ver também: Conferir: DIBELIUS, M. Formgeschichte, 184-189. SUHL, A. Die Funktion der alttestamentlichen Zitate und Anspielungen im Markusevangelium, 1963, p. 45-66.
15 Jo 10.24 (citação de Sl 22.18).
16 Mt 27.46 (citação de Sl 22.1).
17 Mc 15.28-29 (citação, no verso 29, de Is 53.12).
18 Lc 24.44 (citação genérica de “Moisés, Profetas e Salmos”, ou seja, da Tanak judaica).
19 Em Lc 24.46, o próprio Ressuscitado explica, através das Escrituras, a morte, e também a necessidade de ressurreição do messias. Na mesma tradição lucana (At 13.33), o Sl 2.7 é entendido como uma menção à ressurreição. Paulo afirma genericamente que Cristo “ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1 Co 15.4). Fenômeno semelhante ocorre em todo testemunho neotestamentário, demonstrando a universalidade do fenômeno de se explicar os eventos ocorridos com Jesus pela via das Escrituras.
20 Afirma Josef Schreiner: “O conteúdo de toda a missão de Cristo é caracterizado no episódio de Nazaré - com um “hoje cumpriu-se esta Escritura”, tirado do Trito-Isaías (4.17-21).” In: SCHREINER, Josef & DATZENBERG, Gerhard. Forma e exigências do Novo Testamento. 2ª Ed. Trad. Benôni Lemos. São Paulo: Teológica, 2004. p. 22.
21 Mt 2.6 e Jo 7.42 (citando Mq 5.2, o primeiro diretamente e o segundo indiretamente).
22 Mt 4.15 (citação de Is 9.1).
23 Mt 8.20 e outros textos relacionados com o Servo do Senhor (‘ebed YHWH) de Is 53.
24 Tese de SCHILLE, G. Das Leiden des Hern. Die evangelische Passiontradition und ihr ‘Sitz im Leben’, In ZThK 52 (1955). p. 161-205.
25 Conferir: KITTEL, G. Leg, w, D. “Wort” und “Reden” im NT. In: TWNT, 100-140; 110-112.
26 Por exemplo: o sofrimento dos cristãos é explicado pelo recurso às Escrituras. Marcos: 4.11s - citando Is 6.9s - para que, olhando... / indicação de que os discípulos passariam por sofrimentos (8.31).
27 Um exemplo é o Evangelho de Marcos, cuja mensagem contém menções ao Antigo Testamento, mas reflete uma mentalidade helenista.
28 Por exemplo, Simeão e Ana esperavam o Messias. Quando o encontraram, anunciaram que já era vinda a salvação de Jerusalém (Lc 1.38). O texto de Lucas afirma que outros esperavam redenção, indicando com isto o pertencimento de pessoas no Reino de Deus antes mesmo do advento de Jesus. Este tempo se completa com a ação e ministério de Jesus, e a ação da Igreja, com a menção explícita do retorno de Jesus (At 1.11). Já em Mateus, as fórmulas de cumprimento são utilizadas para provar que não só a paixão de Cristo, mas sua origem, vida e obras estão no Antigo Testamento (Início e fim do ministério de Jesus: 4.14ss; 21.4s / curas e parábolas: 8.17; 13.35 / paixão como cumprimento: 26.54,56)
29 Perguntas levantadas por: GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento. 3ª Ed. Trad. Martin Dreher e Ilson Kayser. São Paulo: Teológica – Paulus, 2003. p. 290-313.
30 At 22.2-4; 26.4.
31 Josef Blank publicou um artigo onde reúne argumentos diversos e as discussões exegéticas sobre o texto. Ver: BLANK, Josef. Paulus und Jesus: Eine theologische Grundlegung, 1968.
32 GOPPELT, Leonhard. Idem, p. 295.
33 CERFAUX, Lucien. O cristão na teologia de Paulo. Trad. José Raimundo Vidigal. São Paulo: Teológica, 2003. p. 23.
34 BULTMANN, Rudolf. Theologie das Neuen Testament. §22,3.
35 GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento. 3ª Ed. Trad. Martin Dreher e Ilson Kayser. São Paulo: Teológica – Paulus, 2003. p. 295.
36 Esta temática tem certa relevância, dado o fato de que Paulo se chama de “fariseu” (Fl 3.5). Jesus, em muitas seções dos Evangelhos, está em oposição aos fariseus, dado totalmente ausente nas epístolas paulinas.
37 CERFAUX, Lucien. Idem, p. 24.
38 Lc 18.14; Jo 4.23-24; Rm 12.1-2.
39 Lc 7.9
40 Mt 15.28.
41 1 Co 9.1-5.
42 Mc 14.36; Rm 8.15; Gl 4.6.
43 HEITMÜLLER, Wilhelm. Zum Problem Paulus und Jesus. In: ZNW 13 (1912). P. 320-337.
44 BOUSSET, Wilhelm. Kyrios, p. 75-104.
45 BULTMANN, Rudolf. Theologie das Neuen Testament. §9-15.
46 SABATIER, A. L’apôtre Paul. Esquisse d’une histoire de as penseé. 4 ª Ed. Paris : 1912.
47 MACHEN, J. G. The Origin of Paul Religion. Londres: 1921.
48 MUNDLE, W. Das religiöse Leben des Apostels Paulus. Leipzig: 1923.
49 DODD, C. H. The Mind of Paul: (1) Psychological Approach; (2) Change and Development. In: Bulletin of the John Rayland Library, 17 (1933). p. 91-105; 18 (1934). p. 69-110.
50 FASCHER, E. Paulus. In: Pauly-Wissowa Supll., 8 (1956). p. 431-466.
51 DAVIES, A. P. The First Christian: A Study of St. Paul and Christians Origins. New York: 1957.
52 BRUNOT, A. Saint Paul et son message. Paris: 1958.
53 SCHOEPS, H. –J. Paulus. Die Theologie des Apostels im Lichte der Jüdischen Religionsgeschichtliche. Tübingen: 1959.
54 AMIOT, F. Les idées maîtresses de saint Paul. Paris : Lectio Divina, 24, 1959.
55 As três etapas podem ser encontradas em: CERFAUX, Lucien. O cristão na teologia de Paulo. Trad. José Raimundo Vidigal. São Paulo: Teológica, 2003. p. 20-22.
56 Gl 2.9.
57 Kümmel afirma que a explicação para Paulo não citar todo o querigma cristão primitivo estava no fato de que ele “não necessitava dizer aos seus ouvintes tudo o que deveria ser dito em certo contexto.” Ou seja: além dos seus ouvintes já conhecerem grande parte do querigma, qualquer explanação a respeito do mesmo não deveria ser utilizada sem o devido cuidado em presevar o testemunho da fé. O mesmo fenômeno acontece com os outros textos do Novo Testamento que tem natureza epistolar. Ver: KÜMMEL, Werner Georg. Síntese teológica do Novo Testamento de acordo com as testemunhas principais: Jesus, Paulo, João. 4 ª Edição revista e atualizada. Trad. Sílvio Schneider e Werner Fuchs. São Paulo: Teológica, 2003. p. 180.
58 I Co 11.23, 15.3.
59 Rm 10.9s.
60 I Co 15.3-5.
61 Fl 2.6-11; Cl 1.15-20.
62 Rm 1.3s.
63 Rm 1.3s; II Tm 2.8.
64 I Co 15.5; I Tm 3.16.
65 Ver também: Ef 1.3-14, 5.14, I Pe 2.22-24 (25) e Hb 5.7-10. Estes e outros hinos eram a “Christo quase deo” (Plínio, o Moço, Ep. X 96,7).

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