Uma janela sobre o mundo bíblico

A relevância da teoria literária para a exegese bíblica: um exercício em 1 Samuel 1.1-28



  • Estudo
  • 5280
  • 25/06/2009
João Leonel

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Diego Werner Cattermol Amaro(2)
Helder Graciano Profeta(3)
Publicado na Revista Teológica, v. 68, n. 65/66, 2008
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Introdução

Todo texto é fruto de um processo seletivo de fatos. Independentemente do gênero literário, ele retrata apenas um segmento, um viés, uma parte da realidade total. Seja narrativa, poesia, dissertação ou legislação, todos os textos são gerados pelo encontro entre realidade e ser humano, sempre a partir da escolha de um ponto de vista. Os processos seletivos presentes em um texto podem variar de acordo com as possibilidades de leitura da realidade. Assim, um texto necessariamente “encarna” em tinta e papel uma espécie de postura crítica diante dos variados pontos de vista da realidade.4

No que diz respeito à Bíblia, é fundamental compreender a própria composição canônica como um processo seletivo ocorrido na realidade do Oriente Próximo. Na perspectiva da organização do cânon hebraico, o Antigo Testamento representa o processo seletivo de textos a partir de enfoques e ênfases obtidos no retorno do exílio babilônico, época de seu encerramento canônico.

Já o Novo Testamento testemunha, do ponto de vista da produção literária, a primeira tentativa de solucionar as várias tensões experimentadas em um cristianismo nascido dentro do judaísmo em busca de identificação e, de certa forma, de libertação da placenta que o acolheu - um processo seletivo no qual os escritores praticavam uma leitura cristocêntrica do texto sagrado, não estando preocupados, em primeira instância, com questões referentes à crítica das fontes, crítica das formas, contexto histórico. Há, no Novo Testamento, uma espécie de “crítica do Cristo”. Através de suas páginas, as escolhas teológicas e pontos de vista dos escritores se colocam em defesa da pessoa de Jesus como o Cristo, o Messias prometido.

Ao assumir uma composição canônica que se viabiliza através de um processo seletivo de fatos e textos, torna-se necessária uma metodologia hermenêutica que se adeque a esse processo. É mister reconhecer no texto as escolhas tomadas e as brechas que foram deixadas. Há um caminhar do texto bíblico dentro do mundo da Antiguidade na qual foi gerado e, posteriormente, uma viagem em direção à realidade atual. Busca-se, portanto, uma metodologia que permita identificar nos textos escriturísticos a relação entre realidade e ser humano, assim como as escolhas deste que se manifestam no texto.

As duas metodologias mais tradicionais da história exegética trilham caminho inverso. Procuram partir da atestação histórica da Antiguidade, chegam ao texto bíblico e vão em direção à realidade atual. Os adeptos do método histórico-gramatical buscam o sentido do texto bíblico na história, pois sem ela julgam impossível sua compreensão. A metodologia histórico-crítica segue o mesmo caminho, no entanto sua leitura da realidade antiga é mais cética e cientificista: não é simplesmente a busca do contexto histórico, mas é a busca pelos fatos e textos historicamente ou criticamente confiáveis que foram produtores do texto bíblico. Julgam que sem a necessária fragmentação do texto bíblico é impossível sua compreensão.

Nessas duas metodologias tradicionais praticamente não há interação entre leitor e texto. No método histórico-gramatical, texto e contexto devem dominar o leitor para que o sentido seja gerado. Já no método histórico-crítico o leitor deve dominar o texto, muitas vezes reconstruído, para a extração do sentido. As relações são sempre unilaterais e nenhuma delas proporciona a contento a interação desejada entre texto e leitor.

Uma terceira metodologia nos parece viabilizar essa interação: o uso de ferramentas de análise literária em textos bíblicos. Esse método de leitura/interpretação de textos é uma tendência relativamente nova, visto que as obras mais antigas datam da década de 1980, tendo sido traduzidas para o português somente bem recentemente. Este artigo procura demonstrar como a utilização de elementos da teoria literária, neste caso específico aplicados a narrativas bíblicas, permite um maior progresso exegético-hermenêutico na análise de textos bíblicos, vislumbrando o texto dentro de um contexto comunicativo, não apenas com seus primeiros leitores, mas com todos aqueles que se achegam a eles. Inicialmente serão estabelecidas algumas definições a respeito de conceitos teórico-literários para, em seguida, aplicá-los ao estudo de caso em 1 Sm 1.1-28.

1 Bíblia e teoria literária

Nos séculos anteriores, biblistas histórico-críticos fizeram incursões no campo da análise literária, tendo como foco principalmente a história das formas bíblicas. A ênfase do método se dirigia para os modos como foram agrupados em um texto final os diversos materiais oriundos de tempos e tradições díspares. Segundo seus propositores, tal compilação tinha caráter exclusivamente prático, visando atender às necessidades da comunidade de fé, sem maiores cuidados estéticos.

Presa às ferramentas exegéticas e às tecnicidades, a abordagem crítica não conseguiu propiciar uma aproximação ao texto que fosse fiel ao seu propósito: comunicar-se com o leitor comum. Por outro lado, a abordagem dogmática, sob influência de padrões mentais ocidentais, tende ao pragmatismo doutrinário em busca da construção de sistemas lógicos, colocando-se, desse modo, sob o risco de desrespeitar as variadas características e gêneros literários presentes nas Escrituras. Em contraste com tais abordagens, a literária é facilmente aplicável e reproduzível pela comunidade de fé.

A análise literária, a bem da verdade, não exclui os benefícios trazidos pela pesquisa bíblica anterior, nem despreza a inspiração divina. Ela se aproxima de um texto de maneira simples e apropriada: respeitando-o como texto em si e investigando as suas categorias.

Segundo Ferreira,
[...] no caso específico da Bíblia, e particularmente das narrativas bíblicas, [...] dizer que são “literatura” implica o reconhecimento que elas guardam certa relação de proximidade/distância com a realidade, nunca sendo mera transcrição desta, pelo contrário, representando-a e buscando transformá-la por intermédio das histórias narradas. Isso se dá, no plano formal, mediante a utilização de estratégias literárias que definem o caráter estético e retórico junto aos leitores (FERREIRA, 2008, p. 6).

Atentando para o trabalho pastoral, o uso dos elementos de análise literária retirará dos ombros do pastor o peso de ser o único detentor das ferramentas de interpretação e o ajudará a ensinar o seu rebanho a aproximar-se do texto e a identificar como histórias e poesias, por exemplo, foram organizadas e, assim, aprofundar-se na leitura da Bíblia que tanto ama.

A partir deste ponto, nossa análise se deterá especificamente na aplicação dos elementos de análise teórico-literária em uma narrativa. Como dito anteriormente, as narrativas bíblicas não são reportagens imparciais e despretensiosas. Os escritores bíblicos intentavam convencer seus leitores. No caso das narrativas, eles usavam todas as estratégias disponíveis nesse gênero literário para obter o fim desejado.

Narrador, tempo, cenário, personagens e enredo5 - esses são os elementos principais que compõem a estrutura de uma narrativa. Após um breve enunciado sobre cada elemento será possível visualizar a aplicabilidade da teoria literária em uma narrativa bíblica. O texto escolhido para exemplificar o uso das ferramentas teórico-literárias, 1 Samuel 1.1-28, segue conforme tradução feita a partir da BHS - Bíblia Hebraica Stuttgarttensia.

1.1 Texto bíblico: 1 Samuel 1.1-286

1 Houve um homem de Ramataim Tsophim da montanha de Efraim. Seu nome [era] Elkanah, filho de Ieroham, filho de Elihu, filho de To-hú, filho de Tsuph, efraimita. 2 Para ele [havia] duas esposas: [o] nome da primeira [era] Hannah e [o] nome da segunda [era] Peninnah. De modo que Peninnah [tinha] crianças e justamente Hannah não tinha crianças. 3 Partiu este homem de sua cidade, de ano em ano, para se prostar e para sacrificar à YHWH dos exércitos em Shiloh. Ali [estavam] os dois filhos de Eli, Hophni e Phinehas, sacerdotes para YHWH 4 Era o dia, sacrificou Elkanah e presenteou para Peninnah sua esposa e para todos os seus filhos e suas filhas porções. 5 Para Hannah presenteou porções primárias somente porque [à] Hannah amava e YHWH fechara seu ventre. 6 Irritava-lhe sua rival, igual sofrimento, a fim de lhe afligir porque fechou YHWH sobre seu ventre. 7 Assim fizeram de ano em ano, quantas vezes ela subiu na casa de YHWH, assim lhe fazia irritar, chorava e não comia. 8 Disse para ela Elkanah seu marido: Hannah, por que choras? E por que não comes? E por que estremece teu íntimo? Não [sou] eu bom para ti mais que dez filhos? 9 Levantou Hannah depois que comeu em Shiloh e depois que bebeu. Eli, o sacerdote, estava sentando no trono junto às ombreiras do templo de YHWH. 10 Ela, decepcionada de espírito, suplicava para YHWH e de fato chorava. 11 Jurou uma promessa e disse: YHWH dos exércitos, se olhares certeiramente dentro da aflição de tua serva, te relembrares, não esqueceres da tua serva e dares para tua serva descendentes homens, o darei para YHWH todos os dias de sua vida e navalha não subirá sobre sua cabeça. 12 Aconteceu que fazendo muitas súplicas diante de YHWH, Eli estava observando sua boca. 13 Hannah, ela, estava conversando intensamente com seu coração. Com seus lábios estava tremendo, mas sua voz não se ouvia e imagina-a Eli por embriagada [estar]. 14 Disse para ela Eli: Até quando se fará embriagar? Faça tornar para fora o vinho de sobre ti. 15 Respondeu Hannah e disse: Não senhor! Mulher atribulada de espírito eu [sou]. Vinho e bebida forte não bebi, mas despejei meu espírito diante de YHWH. 16 Não dês tua serva por filha de Belial que pela multidão da minha reclamação e da minha vergonha falei intensamente até agora. 17 Respondeu Eli e disse: Vá para a paz e o Deus de Israel dê teu pedido que buscaste junto dele. 18 Disse: Ache tua serva graça em teus olhos. Foi a mulher para seu caminho, comeu e sua face não mudou nela novamente. 19 Subiram cedo na manhã e se prostaram diante YHWH. Voltaram e entraram para suas casas em Rammah. Conheceu Elkanah a Hannah sua esposa e relembrou dela YHWH. 20 Tendo passado os dias do ano concebeu Hannah e nasceu um filho. Proclamou o nome Samuel, porque de YHWH o pedi. 21 Subiu o homem Elkanah e toda a sua casa sacrificando para YHWH o sacrifício do dia e seu voto. 22 Hannah não subiu, porque disse para seu marido: Até ser desmamado o menino, então o farei apresentar e mostrar-se à face de YHWH e habitará ali perpetuamente. 23 Disse para ela Elkanah seu marido: Faça o bem em teus olhos. Habitará até tu desmamá-lo, somente assim fará subir a YHWH sua palavra. Habitou a mulher e amamentou o filho até desmamá-lo. 24 Fez subir com ela conforme o desmamou e um novilho três [anos], um efa de flor de farinha e um odre de vinho e o fez apresentar [na] casa de YHWH [em] Shiloh. O menino [era] criança. 25 E sacrificaram o novilho e apresentaram o menino para Eli 26 e disse: Oh, meu senhor, como tua alma vive, meu senhor, eu [sou] a mulher, a lutadora contigo nisto suplicando para YHWH 27 para este menino supliquei e deu YHWH para mim meu pedido que pedi dele 28 e também eu o fiz conceder para YHWH todos os dias que ele viver. Para YHWH concedido [foi]. E prostaram ali para YHWH.

1.2 Narrador


Sem narrador, não há narrativa. A afirmação parece óbvia, mas aponta para o caráter primordial do narrador na construção e articulação de um texto narrativo. É ele quem determina como a história chegará a nós, leitores. É interessante, neste momento, destacar alguns pontos, como, por exemplo, que narrador não é autor ou escritor. Ele pode se manifestar em terceira pessoa, tendo como característica principal a onisciência (o narrador sabe tudo sobre a história) e a onipresença (o narrador está presente em todos os lugares em que se desenrola a história). O narrador também pode contar a história em primeira pessoa, isto é, como narrador personagem. Nesse caso, ele participa diretamente do enredo como qualquer outro personagem e tem, por isso, seu campo de visão limitado ao tempo e espaço narrativo, deixando de ser onipresente e onisciente. O narrador se comunica com o leitor de variadas formas. Por intermédio de sua fala que introduz personagens e define situações, ou então concedendo a palavra aos personagens em diálogos ou monólogos, ou ainda apenas descrevendo a ação deles.

1 Samuel 1.1-28 encontra-se canonicamente no centro dos Profetas Anteriores, ou a chamada História Deuteronomista. Segundo Brueggemann (1990, p. 10-12), o texto estudado possui uma função mais profunda do que simplesmente narrar o nascimento de Samuel. A história funciona como paradigma da espera do reino e de seu rei – Davi, claramente remontando à temática de Deuteronômio 17.14-20. A narrativa testemunha o poder transformador de YHWH agindo na esterilidade de Hannah, que é o paralelo de certa “esterilidade” moral, social e espiritual do povo israelita naquele período. Nessa pequena narrativa, Samuel é o presente de Deus que Hannah esperava. Em todo o livro Davi é o rei que Israel espera de Deus. A função do narrador nesse momento é a de descrever a aflição de Hannah e colocar-se ao seu lado à espera de Samuel. Ao fazer isso, ele prepara o leitor para colocar-se também ao lado de Israel à espera de Davi.

No início da jornada o narrador se manifesta em terceira pessoa, sempre fazendo uso de sua onisciência e onipresença – sabe o que se passa mesmo na interioridade dos personagens e os acompa-nha em todos os lugares. Ele desenvolve a narrativa de maneira parcial e não intrusa, ou seja, não expressa o seu ponto de vista, nem julga os personagens. Contudo, ele se identifica com Hannah e lhe concede um maior destaque na narrativa. Embora não a defenda explicitamente, introduz comentários que justificam suas ações e geram reflexão e empatia no leitor.

Normalmente o convite do narrador à reflexão é feito pela obscuridade do texto. Isso se denomina “segundo plano” da narrativa. É a oportunidade que o leitor possui de adentrar no texto e preencher o espaço deixado propositadamente em branco. Nota-se isso nos versículos 10 e 11, em que o narrador apresenta o conteúdo do voto de Hannah, mas omite o conteúdo de sua oração. Nessa lacuna o leitor é convidado pelo narrador a interagir com a aflição de Hannah, colocando-se em seu lugar e refletindo sobre o significado de sua espera.

Os versículos 12-14a apresentam o mal-entendido de Eli em relação à oração da mulher de Elkanah. Este é um exemplo claro da parcialidade do narrador, pois apresenta informações ao leitor no versículo 13 que explicam a atitude de Hannah e impedem-no de cometer o mesmo equívoco de Eli. - “Hannah estava conversando intensamente com seu coração, com seus lábios estava tremendo, mas sua voz não se ouvia e imagina-a Eli por embriagada [estar]”. Somente o leitor sabe que Hannah conversa intensamente com seu coração, e por isso sua voz não é ouvida. Neste sentido o leitor é privilegiado e compartilha da onisciência do narrador.

É interessante destacar que o narrador acelera a narrativa nos primeiros versículos fazendo uso de uma genealogia para chegar rapidamente ao momento que pretende enfatizar, quando apresenta as tensões e resoluções da narrativa. Nesse momento ele se utiliza de diálogos, retardando, com eles, o fluxo narrativo.

1.3 Tempo

Com o termo “tempo” faz-se referência ao tempo interno ao texto, ligado diretamente ao enredo e não ao tempo em que a história foi escrita. Ao avaliá-lo, devemos levar em consideração a época em que a história está ambientada, por constituir o pano de fundo para o enredo. Nem sempre a época em que transcorre a história coincide com o tempo real em que ela é contada ou escrita. Também deve-se levar em conta a duração da história – muitas delas se passam em um curto período de tempo, enquanto outras têm um enredo que se estende durante muitos anos.

O tempo pode ser cronológico ou psicológico. O tempo cronológico é aquele que transcorre na ordem natural e linear dos fatos do enredo, isto é, do começo para o fim. Pode ser contado em horas, dias, meses, anos e séculos. Já o tempo psicológico é o tempo que se passa na interioridade dos personagens, ou na fala do próprio narrador.

A primeira menção ao elemento temporal no texto aparece no versículo 3, onde é enfatizada toda a dramaticidade do tempo cronológico do sofrimento de Hannah - não apenas de ano em ano, mas nos parece que seria também nos intervalos entre os anos, isto é, durante o ano todo. O drama de Hannah consistia na expectativa do dia em que seria humilhada por Peninnah e receberia porção dupla de Elkanah. Toda angústia do ano concentrava-se nesse dia. A agonia de Hannah está descrita tanto no tempo cronológico (de ano em ano), como no tempo psicológico, quando o leitor tem a oportunidade de enxergar a angústia daquela mulher a partir de sua interioridade.

Retomando a discussão dos versículos 10-13, o narrador, ao nos privilegiar com a informação da oração de Hannah, também desenvolve um tempo psicológico que tem o seu início no versículo 8, quando omite a resposta de Hannah à pergunta de Elkanah: “Hannah por que choras? E por que não comes? E por que estremece teu íntimo? Não [sou] eu bom para ti mais que dez filhos?” Através desta omissão o leitor é convidado a entrar na narrativa e participar da intimidade de Hannah e, a partir daí, é motivado a orar como ela orou.

Como citado anteriormente, o narrador não explicita a oração de Hannah. Ele descreve somente seu voto. A omissão, além de gerar empatia e reflexão, leva o leitor a pensar acerca de sua própria oração sob circunstâncias de sofrimento e espera. Temos aqui um bom exemplo de como o tempo psicológico funciona como estratégia do narrador para produzir reflexão e interagir com o leitor.

O texto aprofunda-se ao relatar o voto no versículo 11. O sentimento era de consagração no sentido mais amplo e cronológico possível: a vida inteira de Samuel. Nesse sentido, a oração termina com um voto, deixando claro ao leitor que qualquer que seja a sua oração em momentos como esse, ela deve caminhar em direção ao compromisso com Deus.

A abordagem espalhafatosa de Eli revela que o sacerdote só atua no campo do tempo cronológico (“Até quando se fará embriagar?” - v. 14). Já o leitor tem condições de situar-se nos dois tempos, conhecendo a realidade exterior e interior de Hannah. De certa maneira, o leitor é levado a opor-se a Eli e aliar-se a Hannah. Essa escolha prefigura uma opção maior no contexto do livro. O narrador induz o leitor a criticar a postura do representante da religiosidade em seus dias. O embrião da crítica ao status quo desenvolver-se-á nos próximos capítulos com a descrição do comportamento dos filhos de Eli e progressivamente se intensificará até o estabelecimento de Davi – o rei esperado por Israel.

No final da narrativa, a recusa de Hannah em subir a Shiloh tem como função quebrar o padrão temporal “de ano em ano” (v. 3, 7). Isso indica que a situação vivida anualmente não ocorrerá mais. Hannah subirá a Shiloh somente quando o responsável pela quebra do padrão temporal estiver pronto, ou seja, quando Samuel for desmamado e puder ser levado ao templo. Hannah não mais se submeterá à humilhação que ocorria todo ano. Quando subir, haverá um novo tempo, tempo de consagração. Este é infinitamente maior do que o tempo de humilhação – a vida inteira de Samuel. A criança passa a ser um símbolo contra qualquer humilhação que tente se impor dali para a frente a Hannah. Mesmo não tendo outros filhos, como Peninnah, a ida ao templo representa agora a ação sobrenatural de Deus e não mais humilhação.

1.4 Cenário

O cenário situa a narrativa no espaço – lugar aonde ocorrem as ações. Pode haver maior ou menor variedade de cenários, dependendo do desenrolar da narrativa. Nesse sentido, sua função é situar as ações dos personagens, seja influenciando suas atitudes, pensamentos e emoções, seja sofrendo transformações provocadas pelos mesmos. No entanto, o cenário transcende o mero referencial geográfico, desempenhando também um papel na história em relação com os demais elementos. Um exemplo claro dessa capacidade de ir além do mero referencial geográfico/histórico se encontra no texto estudado.

Em um primeiro momento é interessante notar que o texto percorre o caminho do geral para o específico. Seu início situa Elkanah e sua família na cidade de Ramataim Tsophim, locali-zada na região da tribo de Efraim. Mas a narrativa é rapidamente deslocada para Shiloh e posteriormente concentra-se no templo, especificamente em seu interior.

O santuário em Shiloh é o cenário central da história, mas não somente isso. Ele representa o lugar de sofrimento e humilhação de Hannah. Para lá sobem todo ano Elkanah e sua família - suas duas mulheres, e os filhos de Peninnah. Hannah não os têm e por isso a peregrinação a Shiloh significa humilhação para ela. Era ali que Hannah, a estéril, era humilhada de maneira contundente pela sua rival. Na mais recente viagem à Shiloh, o próprio sacerdote Eli a humilha quando, equivocadamente, pensa estar ela embriagada, sendo que, de fato, Hannah orava.

No final do texto, Hannah recusa-se a subir a Shiloh novamente. Nesse momento, o filho pedido já nasceu, mas ainda não foi desmamado. Isso a impossibilita de viajar, pois a sua situação havia mudado e ela estava resoluta a não voltar para o lugar que simbolizava humilhação sem que pudesse ratificar a transformação ocorrida. A próxima vez em que Hannah volta a Shiloh não é mais para ser humilhada, e sim para entregar a criança a Eli e consumar a consagração do menino. O mesmo lugar, que antes significava sofrimento e humilhação, passa a significar adoração. Com isso, percebe-se como um mesmo espaço geográfico pode exercer não apenas funções variadas para o mesmo personagem, como também ter significados diferentes para vários deles. Certamente Shiloh e seu santuário traziam sensações e sentimentos diferentes para Hannah, Peninnah e Eli.

1.5 Personagens

Sem narrador não há narrativa. Sem personagens não há ação narrativa. Os personagens são configurados pelo narrador com objetivos retóricos. Eles exercem a função de protagonistas (herói e anti-herói) ou antagonistas.

O protagonista é o personagem principal. Ele pode ser o herói - aquele que possui características superiores às de seu grupo. Um exemplo clássico de protagonista herói é Jesus Cristo. O personagem protagonista também pode ser anti-herói, aquele que está ocupando a posição central, mas, no entanto, não tem as características esperadas de um herói. Um exemplo: Jonas. Já o antagonista é aquele que se opõe ao protagonista, configurando a tensão dentro da narrativa. Ele é o vilão da história. Exemplos típicos são Acabe e Jezabel, os fariseus etc.

Os personagens também são classificados quanto à caracterização. Eles podem ser redondos ou planos. O personagem plano é aquele descrito com poucas características, sendo facilmente identificado pelo leitor. Já os personagens chamados redondos são principalmente os protagonistas, embora alguns antagonistas possam ser igualmente inseridos nessa classificação. Tais personagens são bastante desenvolvidos e complexos, podendo receber características físicas, psicológicas, emocionais, morais e espirituais. Exemplos típicos de personagens redondos são Moisés, Davi e Jesus Cristo.

O nosso texto apresenta os seguintes personagens: Elkanah, Hannah, Peninnah, YHWH, Eli e Samuel. Quanto à classificação, Elkanah, Peninnah e Eli são personagens secundários e planos, visto que não temos muitas informações a respeito de suas características e eles exercem função secundária na história. Samuel é um personagem, mesmo que não atue ou fale. Segundo Cássio Murilo Dias da Silva, a mera aparição de um personagem já é suficiente para caracterizá-lo na narrativa (SILVA, 2000, p. 70). Samuel é especial e simboliza a transformação que YHWH efetuou na vida de Hannah. No sentido global do livro, ele antecipa a figura de Davi – o agente da transformação de Deus para a nação.

Hannah é o personagem principal – a protagonista. Agora, ela é heroína ou anti-heroína? Analisando o contexto da sociedade patriarcal da época, apenas o fato de ser mulher já a colocava em um plano inferior aos homens, sendo considerada somente como um bem do esposo (DE VAUX, 2003, p. 62). A principal função da mulher era prover descendentes – aí entra outro fator desqualificante de Hannah, uma vez que era estéril. Hannah é o típico personagem anti-herói, ou uma heroína às avessas, com características inferiores ao grupo que pertence. Apesar de ser a primeira esposa, ela é a que não pode gerar filhos. É possível que Elkanah tenha se casado com Peninnah somente por que Hannah não lhe dera herdeiros (DE VAUX, 2003; KLEIN, 1998). Há uma oposição entre os personagens Elkanah, o homem descrito em suas origens nobres (v. 1), e Hannah, a mulher estéril que não dará continuidade à família.

Quanto à caracterização, Hannah é descrita com uma variedade de características físicas, psicológicas, sociais, morais e espirituais. O modo como o narrador apresenta tais características tem como objetivo produzir interação entre leitor e personagem. Quando a característica é exposta diretamente pelo narrador por meio de comentários, o leitor pode confiar nas informações e não há necessidade de questionamentos7. Uma reflexão mais aprofundada é exigida quando o narrador coloca o personagem em primeiro plano, falando e agindo. Nesse caso o leitor recebe a tarefa de elaborar suas conclusões a partir do contato direto com o personagem.

No caso de Hannah, o narrador nos informa de sua esterilidade (v. 5, 6), o que configura uma característica social – devido ao fato vergonhoso de uma mulher não poder gerar descendentes em uma sociedade patriarcal. Sabemos de sua angústia mediante seu marido: “Hannah por que choras? E por que não comes? E por que estremece teu íntimo?” (v. 8); pela voz do narrador: “Ela decepcionada de espírito suplicava para YHWH e de fato chorava” (v. 10); e por intermédio de sua própria fala: “Mulher atribulada de espírito eu sou” (v. 15). Apesar da situação de angústia vivida no início da narrativa, o final demonstrará que a mudança dos fatos a tornará grata.

Assim também ocorre com as características morais. Hannah é boa ou ruim? Honesta ou desonesta? O narrador não a julga, mas existe uma certa tensão sobre o assunto: Eli a julga embriagada, mas Hannah defende-se afirmando não ser uma “filha de Belial” – não é ímpia. Nesse caso, o narrador expõe o ponto de vista dos personagens, omitindo-se de opinar. Ao final o leitor deverá, diante da história, definir quem está certo.

A principal característica à espera de definição pelo leitor é a espiritual: Hannah é uma pessoa de fé, convicta. Esse é o ponto central do personagem. Na interação do leitor com Hannah, essa característica deve ser assumida e encarnada na sua espera não passiva, mas “lutadora” (v. 26). Assim deveria ser a espera de Israel por seu rei, assim deve ser a espera do leitor pela ação transformadora de YHWH.

Ainda dentro das características espirituais de Hannah, percebemos que a maior tensão se dá em sua relação com YHWH. Como se opõe à protagonista, Deus pode ser entendido inicialmente como o vilão da história8. Afinal, ele é a causa da esterilidade de Hannah, que é o principal motivo de sua humilhação. E não se deve esquecer que tal fato se passa na Casa do Senhor, de ano em ano. No entanto, essa situação não se manterá. Deus se converterá em aliado de Hannah ao final da narrativa, agindo e transformando sua situação.

1.6 Enredo

Toda história tem começo, meio e fim. Para entender a organização do enredo é preciso compreender o seu elemento estruturador: o conflito. Através do conflito o narrador desperta a expectativa do leitor a respeito do desenvolvimento dos fatos.

O conflito determinará a relação entre as partes do enredo:

a) Exposição: introduz os fatos iniciais, os personagens, às vezes o tempo e o espaço. É o momento em que o leitor se situa diante da história que lerá.

b) Tensão: nesse tópico da narrativa inicia o conflito. Como tensão, entendemos que algum elemento da narrativa (personagens, situações, idéias, sentimentos) se opõe a outro, criando uma relação dramática que organiza os fatos da narrativa e prende a atenção do leitor. Pode haver mais de uma tensão em um mesmo texto. Essa parte da narrativa é mais intensa, a mais dinâmica de toda a história.

c) Resolução: traz solução à questão geradora da tensão. Nela a intensidade narrativa diminui e o texto se torna mais lento.

d) Desfecho: proporciona a conclusão da narrativa, afirmando os resultados da resolução e apresentando ou não as conseqüências. Nesse ponto a desaceleração narrativa é evidente.

Todos os demais elementos (narrador, tempo, cenário e personagens) existem em função do enredo. Eles são usados para dar concretude à exposição, tensão, resolução e desfecho. Por isso, retomaremos algumas discussões apresentadas anteriormente, agora em função da construção do
enredo.
Nos versículos 1-4 temos a exposição: a apresentação dos agentes, a indicação dos locais (cenários) e a informação temporal, que aparece na expressão “de ano em ano”. É um tempo genérico que depois se especifica no versículo 4 - “um dia”.

O versículo 5 introduz a tensão. Ela já está em germe no versículo 2 quando o narrador informa que Peninnah tinha filhos e Hannah não. Mas a tensão será construída a partir do bloco de versículos 5-8. Todas as tensões giram em torno da questão filho x não filho. Ainda no versículo 5 o leitor é introduzido à tensão mais profunda – entre Deus e Hannah. Ainda não está claro que Hannah é a personagem principal, mas aponta-se para a tensão entre ela e YHWH – o causador da sua esterilidade.

Outra tensão se configura no versículo 6: Peninnah x Hannah.

Há uma espécie de complô entre Deus e Peninnah contra Hannah. O Senhor se opunha a Hannah, visto que a havia deixado estéril. Agora Peninnah junta-se a YHWH para humilhá-la, assumindo, ambos, a posição de antagonistas. Se em um primeiro momento não está claro que Hannah é a protagonista, nesta segunda tensão começa a delinear-se sua posição central na narrativa.

As tensões descritas até aqui eram agravadas em um determinado dia. Todas às vezes que subiam à Shiloh Peninnah humilhava Hannah ainda mais, e o próprio local (a Casa do Senhor) simbolizava a tensão entre Hannah e YHWH.

Outra oposição que se constrói é entre Elkanah e Hannah (v. 8). Tal oposição não se manifestou anteriormente na relação entre eles. Mas já era pressentida. Elkanah não consegue dar fim à angústia de Hannah, por isso sua pergunta inicialmente não recebe resposta. Indiretamente, sua questão: “Não [sou] eu bom para ti mais que dez filhos?”, traz à tona as tensões já existentes entre Hannah, YHWH e Peninnah. O círculo conspiratório contra Hannah se fecha.

A partir do versículo 9 Hannah ganha posição de destaque como protagonista. O texto tem seu ponto alto em sua busca por uma resolução. Devemos lembrar que é justamente nesse ponto que o narrador dá a deixa ao leitor para interagir com a protagonista através do tempo psicológico, ao omitir o conteúdo de sua oração. Tal estratégia fará com que o leitor crie a expectativa de experimentar a ação transformadora de YHWH em sua própria vida, assim como o texto apresenta na vida de Hannah.

Ela come e bebe, se levanta e vai orar – ela busca a resolução. Deus é o responsável por seu sofrimento, por isso deve-se concluir que ele tem a responsabilidade de desfazer o mal. Mas Hannah não está disposta a esperar passivamente. Ela assume uma postura ativa e vai em busca de ajuda.

Esta é uma resolução parcial, pois não sabemos o que acontecerá. Também, de certo modo, a tensão se intensifica, visto que agora Hannah interpela YHWH para resolver o conflito. Por isso mesmo, no versículo 26 ela se descreve como “a lutadora”.

Ironicamente, a solução intensifica a tensão. Quando pensaríamos que a partir desse momento os problemas seriam resolvidos, surge outra tensão e uma nova humilhação. O narrador age assim para dramatizar a narrativa. Eli a tem por embriagada, pois na intensidade de sua oração ela move os lábios sem emitir som. A oração silenciosa era algo estranho à época. Nesse momento, nem o leitor, nem qualquer outro personagem tem conhecimento do conteúdo da oração. A tensão com Eli é também a tensão com Deus, pois o sacerdote é o seu representante.

No versículo 17 se dá a resolução do conflito com o Eli. O último a confrontá-la é o primeiro a reatar relacionamento com ela. O sacerdote lhe dá uma palavra de encorajamento, esperançoso de que Deus atenda ao seu pedido. Por causa dessa palavra, o versículo 18 nos diz que o semblante de Hannah já não era triste. No versículo 19 ela já participa da adoração junto com sua família. O verbo se encontra no plural, ao contrário do versículo 3, quando a adoração era um ato apenas de Elkanah. Hannah demonstra crer na palavra do sacerdote e, pela fé, sua tensão com YHWH começa a ser resolvida.

A próxima resolução é com Elkanah e prossegue paralelamente à resolução da tensão com YHWH. O filho gerado é a resposta da pergunta: “Não [sou] eu bom para ti mais que dez filhos?” Não! Melhor é o presente de Deus a Hannah! É interessante notar que Deus apenas se lembra, mas quem concebe é Hannah – a protagonista ainda permanece no foco.

No final, Hannah recusa-se a voltar ao templo antes de poder confirmar a consagração do menino. Sem o menino desmamado, o lugar continuaria a representar humilhação. Nesse sentido, não haveria ainda resolução do conflito entre ela e Deus.

Quando finalmente volta a Shiloh, se dá a resolução final. Hannah realiza todo o processo cultual para consagrar a vida de Samuel a Deus. Portanto, o ponto central da narrativa não é a questão de Hannah ser ou não mãe e as implicações pessoais que isso poderia gerar. A questão era, sim, a falta de um filho, mas não um filho para ela, e sim um filho para Deus – Hannah entrega o filho gerado àquele que permitiu que ela concebesse, em gratidão. Cabe lembrar que na análise das características da protagonista, a esterilidade não exige reflexão do leitor. A reflexão deve acontecer no âmbito das características ideológicas de fé e convicção diante da ação transformadora de YHWH.

Conclui-se, a partir dessa análise, que a mensagem central do texto é o conflito relacional entre Hannah e YHWH, demonstrado na esterilidade dela e solucionado na concepção. Não existe dramaticidade em torno de sua esterilidade. A ausência de filhos na narrativa não enfatiza as questões sociais que se seguiriam, mas sim o problema no relacionamento com Deus que isso implica. Não ter filhos significava ser esquecida por Deus. Por isso Hannah diz que YHWH se lembrou. Esse conflito relacional é resolvido porque Deus deixa de opor-se a ela e torna-se seu aliado. Segundo as próprias palavras de Hannah: “para este menino supliquei e deu YHWH para mim meu pedido que pedi dele”. Note que agora Deus é colocado no centro da ação.

Na conclusão há um momento de adoração quando entregam a vida de Samuel a YHWH, cercado por um sentimento de gratidão. É interessante recordar que existem três momentos de adoração na narrativa, esboçando começo, meio e fim. No versículo 3 a adoração significa humilhação para Hannah, quando só Elkanah adora; no versículo 19 Hannah adora por fé, por causa da palavra do sacerdote; e agora, no versículo 28, ambos adoram com gratidão devido à consagração de Samuel. Nessa adoração Elkanah e Hannah estão em situação de igualdade. Ir ao templo para adorar, o que antes era um peso para Hannah, agora é motivo de gratidão e de identificação com seu esposo.

Digno de nota no texto é que a dinâmica entre tensão e resolução se encontra em uma estrutura quiástica, ou seja, as últimas tensões a aparecerem são as primeiras a serem resolvidas, e o centro é justamente o momento de maior dramaticidade. Essa estrutura está representada a seguir:

EXPOSIÇÃO - versículos 1-4
TENSÕES - versículos 5-8
A – versículo 5: YHWH x Hannah
B – versículo 6a: Peninnah x Hannah
A’ – versículo 6b-7: YHWH x Hannah
C – versículo 8: Elkanah x Hannah
DRAMATICIDADE – versículos 9-11
Início da resolução entre Hannah e YHWH
D – versículos 12-16: Eli x Hannah
RESOLUÇÕES – versículos 17-27
D’ – versículos 17-18: Eli & Hannah
C’ – versículos 19-20: Elkanah & Hannah
B’ – tensão não solucionada: Peninnah x Hannah
A’ – versículos 21-27: YHWH & Hannah
DESFECHO – versículo 28.

Conclusão

A narrativa do nascimento de Samuel serviu às necessidades da comunidade israelita ao criar uma tensão com sua própria “esterilidade” e ao gerar a expectativa da ação transformadora de YHWH que culminaria em Davi. A organização retórica do texto e os objetivos que o narrador desenvolve na trama comunicaram essa expectativa aos primeiros leitores e ainda são úteis aos leitores contemporâneos, colocando em relevo suas próprias esterilidades e a necessidade de nutrir expectativas quanto à ação divina.

Por isso, devemos nos perguntar se nossa leitura bíblica também não está “estéril”; se ela não deixou de produzir vida e não se reproduz no seio daqueles que a ouvem e lêem hoje. A análise literária não é o presente de Deus ao povo, a Bíblia o é; a análise literária apenas nos permite estar atentos à maneira como a Bíblia fala ao seu público, no passado e no presente.

De maneira alguma propomos a teoria literária como a “última e mágica” ferramenta interpretativa e muito menos anulamos os métodos tradicionais. Talvez o que de mais importante a análise literária proporcione é, por um lado, a negação de uma leitura de “distanciamento científico” e, de outro, a afirmação da necessidade de uma apropriação por parte do leitor de uma leitura dialógica que permita a ele aproximar-se do texto bíblico, unindo os campos do conhecimento, da arte e, por que não, da imaginação.

Referências
BROWN, , Francis; DRIVER, S. R.; BRIGGS, Charles A. A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament. Peabody: Hendrickson Publishers, 2004.
Bíblia Hebraica Stuttgartensia. BibleWorks for Windows, versão 7.0 .
BRUEGGEMANN, Walter. First and Second Samuel. Louisville : John Knox Press, 1990.
CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. São Paulo: Pubifolha, 2000 (Grandes nomes do pensamento brasileiro).
FERREIRA, João Cesário Leonel. A Bíblia como literatura. Lendo as narrativas bíblicas. Correlatio. Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo, v. 13, 2008. Disponível em:< http://www.metodista.br/ppc/correlatio/correlatio13/a-biblia-como-literatura-lendo-as-narrativas-biblicas/>. Acesso em: 06 de nov. de 2008.
______. Estudos literários aplicados à Bíblia: dificuldades e contribuições para a construção de uma relação. Theós - Revista de reflexão teológica da Faculdade Teológica Batista de Campinas, Campinas, SP, 3a. ed., p. 1-13, 2006. Disponível em:. Acesso em: 15 de nov. de 2008.
GANCHO, Cândida Vilares. Como analisar narrativas. 6. ed. São Paulo: Ática, 1999 (Série Princípios, n. 207).
KLEIN, Ralph W. 1 Samuel. v. 10. In: Logos Library Sistem (Word Biblical Commentary).
SILVA, Cássio Murilo Dias da. Metodologia da exegese bíblica. São Paulos: Paulinas, 2000.
VAUX, R. de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Tradução de Daniel de Oliveira. São Paulo: Teológica, 2003.

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Notas:

1 Ministro presbiteriano. Bacharel em Teologia, mestre em Ciências da Religião com concentração em Bíblia pela UMESP (Universidade Metodista de São Paulo), doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), e pós-doutorando em História da Leitura na Universidade Nova de Lisboa, Portugal. Professor no Seminário Presbiteriano do Sul, Campinas, SP, e no Centro de Pós-Graduação Andrew Jumper, Instituto Presbiteriano Mackenzie, SP.
2. Formando em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul, Campinas, SP.
3. Formando em Teologia
4. Para melhores explicações e aprofundamento no processo social de composição textual cf. CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. São Paulo: Pubifolha, 2000, p. 17-35. (Grandes nomes do pensamento brasileiro).
5. Para uma apresentação desses elementos, em nível introdutório, cf. GANCHO, Cândida Vilares. Como analisar narrativas. 6. ed. São Paulo: Ática, 1999 (Série Princípios, n. 207).
6. Tradução de Helder Graciano Profeta. Optou-se por uma tradução literal para que aspectos peculiares ao hebraico bíblico fossem realçados. Referem-se a ela todas as citações de 1 Samuel 1.1-28 feitas neste artigo.
7. No caso do narrador confiável. A grande maioria dos narradores bíblicos se enquadra nessa categoria. A categoria que se opõe a essa, o narrador não-confiável, aparece na literatura, por exemplo, de Agatha Christie. O objetivo de tal narrador é despistar o leitor, evitando que antecipe a resolução dos crimes apresentados que se dá no final da trama.
8. Tal afirmação pode assustar o leitor não acostumado com tais categorias, mas o que se pretende é compreender o papel do personagem Deus dentro de sua atuação no desenvolvimento do enredo dessa história particular. Obviamente tal classificação não é ontológica, não diz respeito ao ser de Deus, mas ao modo como ele é percebido pelos personagens.

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