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Eclesiastes: mensagem intrigante e época de surgimento



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  • 05/07/2009
Haroldo Reimer

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O surgimento do livro de Eclesiastes é situado na segunda metade do século III aC, entre os anos de 250 a 190 aC , e muito provavelmente em Jerusalém. Com esta datação, o livro de Eclesiastes é alocado sob o tempo da dominação dos ptolomeus, herdeiros egípcios de uma parte do império grego de Alexandre, o grande. Estes dominadores gregos-egípcios disputavam com os selêucidas, outro grupo herdeiro do império grego, o controle sobre o “corredor de passagem”, isto é a estreita faixa de terra que é a terra de Israel, Canaã ou Palestina.

Este é provavelmente o tempo “debaixo do sol” (Ec 1,3), um tempo que parece enigmático como o andar dos ventos (Ec 1,4-11) e pouco transparente em sua estrutura de poder. É um tempo de muita dinâmica econômico-comercial. Havia um ritmo intenso no trabalho e na economia. Isso fazia fugir e desaparecer o tempo presente. O muito trabalho acaba negando a plenitude de vida. A na ‘ralação’ do trabalho faz desaparecer uma vida que possa ser vivida mais intensamente. Neste contexto já se aplicava bem o provérbios popular que diz: “pobre é com disco de embreagem; quanto mais trabalha, mas liso fica”.

A pergunta programática em Ec 1,3 “que proveito tem o homem de todo o seu trabalho com que se afadiga debaixo do sol?” recebe por várias vezes a resposta temática negativa: “tudo é em vão (hebel) e um correr atrás do vento” (2,11.17). Para Coélet, que realiza uma percepção aguçada da realidade do mundo da economia e do trabalho no tempo da dominação grega sobre a Palestina a partir do Egito, a máxima sapiencial tradicional de que em todo trabalho há proveito (Pv 14,23) fica sem sentido. Se a gente lê um texto como Jó 28,3-4.9-11, que é expressão da mesma crise sapiencial, qualquer empreendedorismo humano refreado e até entendido negativamente. O efetivo resultado da ação humana sob este regime ‘debaixo do sol’, entendido como um mundo duradouro, um determinismo social, é uma eterna fugacidade no viver e no ter; é hebel, porcaria, uma inversão geral. Coélet percebe a intensa inserção dos camponeses e dos clãs judaicos da época na engrenagem do trabalho fatigante para atender os interesses ptolomaicos e da elite local (Ec 4,1). Neste sentido, Eclesiastes, apesar de sua percepção negativa da realidade, é quase como um dos profetas clássicos de Israel. Para a perspectiva de Eclesiastes se poderia muito bem aplicar um provérbio moderno: “pobre é como disco de embreagem; quanto mais trabalha, mais liso fica”. Para Coélet, tal tipo de trabalho é hebel, gera uma ‘lisura’ geral no sujeito!

A pergunta fundamental de Eclesiastes é por aquilo que efetivamente resta para o ser humano no trabalho fatigante ‘debaixo do sol’. Na primeira parte do livro (1,4-3,22), nega-se que o verdadeiro proveito, o bem-estar e o cuidado da vida, estejam na busca da sabedoria, no acúmulo de bens materiais, no trabalho e na dominação. O autor ou a autora do livro se apresenta como sendo Salomão, o patrono da sabedoria no antigo Israel. Isso, porém, é uma ficção para um tom mais polêmico ao texto. Este ‘pseudo-salomão’ é ideologicamente desmontado no avanço das reflexões. O conceito geral hebel se aplica a cada um dos âmbitos assinalados, isto é, o trabalho, as riquezas e a própria sabedoria. Vale lembrar que para a sabedoria clássica do antigo Israel, o sucesso ou o fracasso na vida de uma pessoa estava condicionado pelo seu agir. Se alguém era pobre e sofredor, isso se devia a algum tipo de erro ou pecado em sua vida. Na verdade, esse pressuposto da chamada ‘retribuição mecânica’ ou ‘teologia da retribuição’ já foi questionado no livro de Jó.

Na segunda parte de Eclesiastes (4,1-6,9), a pergunta programática pelo verdadeiro proveito é repassada na análise de outros valores tradicionais: vida de trabalho sem efetivas relações humanas de amizade e companheirismo (4,1-16), dedicação à religião (5,1-7), novamente as riquezas materiais (5,8-6,0). Também tudo isso está sob o signo de hebel. Na terceira parte (6,10-8,17), os valores da sabedoria e sua comparação com a estultice são analisados; também a relação com as autoridades, bem como as desigualdades na vida são passadas em revista. Disso resulta que é melhor levar uma vida em moderação, nem demais nem de menos, pois o futuro é sempre uma incógnita. Na quarta parte (9,1-12,7) predomina um tom mais otimista. Permanece a percepção básica de que a vida tende para a fugacidade, mas já desponta com mais ênfase um convite à alegria e à ação eficaz para o bem-estar na vida.

Originalmente publicado em:
REIMER, Haroldo (org.). Eclesiastes. A sabedoria do viver e conviver. São Leopoldo: Cebi, 2006, p. 20- 21.

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